Sinceridade

3 Capítulo 2: Favores Suspeitos


–O que?! – Fred finalmente exclamou, porém a dor aguda de seus dentes o atingiu na boca como uma facada.

Frustrado, ele continuou ali, sendo fulminado pelo olhar divertido do irmão e seu sorriso debochado. Fred não sabia que seu rosto podia ser tão irritante e prometeu a si mesmo que iria começar a parar de lançar olhares cínicos para os outros. Bem, talvez só um pouco. Jorge acomodou o saco sobre a cabeça do irmão, imergindo o rosto de Fred sob aquele amontoado de tecido e neve.

–Você não existe, só isso. – Jorge jogou-se sobre a própria cama chutando suas roupas para o chão enquanto se acomodava.

Fred lutou contra o peso do gelo e tentou descansar o lado direito do rosto, onde a dor era mais aguda, na sacola. Seu coração martelava contra o peito: a forma com que Hermione o tocara, seus dedos gentis em seu rosto deixavam a lembrança de um carinho que ele antes nunca havia conhecido. Nem mesmo quando namorava Angelina ela o havia tratado daquele jeito, geralmente a garota não levava suas doenças e machucados a sério, achando sempre que havia uma piada por detrás daquilo. Esse era o problema: quando se tratavam dele e seu irmão, as vezes as palhaçadas não permitiam que os outros vissem as urgências pelas quais eles passavam.

Fred recordou do momento e seu estomago deu uma cambalhota em sua barriga. A possibilidade de continuar machucado para receber aquele tipo de atenção novamente era muito tentadora se ele não ficasse proibido de falar ou mover a cabeça.

–Hum! – ele estalou os dedos para chamar a atenção do irmão que fingia dormir – Falar...Hermione...Pedir...Poção! – e foi tudo que ele pode resmungar enquanto Jorge mantinha o sorriso de deboche.

–O.k., mas quando eu voltar e você resolver isso daí, vai me dizer o que fez com ela. – Jorge ignorou o grunhido que seu irmão soltou e o cutucou na altura das costelas enquanto ria – O que? Quando encontrei com ela, estava tão vermelha que jurei que ela havia comido uma de nossas balas apimentadas. Acha mesmo que sou burro ao ponto de não achar que você fez alguma coisa? – riu ele antes de deixar o quarto.

Enquanto se dirigia para o cômodo das garotas, Jorge remoeu a idéia: O que faria Hermione Granger, a imbatível, ficar envergonhada daquele jeito? Ele tinha certeza de que Fred fizera algo, porém considerava o irmão insano o suficiente ao ponto de tirar toda a roupa e dançar para a garota. Não. Se fizesse aquilo Hermione estaria aos berros pela casa toda. Sua cabeça estava tão focada no assunto que quando a encontrou na cama com o livro que a pouco pegara em seu quarto, as palavras saíram de sua boca antes que pensasse:

–O que Fred fez?

Gina, que estava concentrada demais em polir a varinha, ergueu a cabeça de um salto exatamente ao mesmo tempo que Hermione.

–Perdão...? – a garota disse fechando o livro.

–Nada, esqueça. Fred falou de uma poção....

–Ah, sim. – ela saltou da cama graciosamente e alcançou a mala onde suas coisas estavam em uma organização admirável.

Jorge tinha que admitir: Aquilo era um quarto! Arrumado, limpo e com um delicioso perfume no ar. Ele não avistou sequer uma única peça de roupa largada em canto nenhum se não no cesto que sua mãe pusera em todos os quartos para roupa suja. Ficou surpreso quando a garota estendia um frasco com um líquido branco de aparência leitosa dentro.

–Uma colher de chá a cada doze horas. – instruiu ela quando Jorge pegou o recipiente e analisou o conteúdo – Ele deve ficar bom amanhã pela noite, já que se tratam apenas de rachaduras.

–Você é uma santa, Mione. – Jorge abriu um largo sorriso para a garota. – O que seríamos de nós sem você?

Ela preferiu revirar os olhos a responder.

–E nada de comida consistente para Fred até ficar completamente bom. Água, sorvete e sopa sem pedacinhos de nada. Passe no coador antes de dar para ele. Amanhã dou uma olhada e vejo como ele está.

–É o que? Coador? – Gina riu da expressão confusa do irmão sem ter a decência de disfarçar.

A verdade era que Jorge estava apavorado: se sua mãe soubesse, bom, provavelmente mandaria Fred para uma visita rápida até St. Mungus porque duvidava que ela fosse capaz de magia curativa para ossos e dentes e ele não queria vê-la sendo obrigada a internar um filho quando o próprio marido já estava lá. Além do que, se soubesse o que acontecera, Rony seria morto antes que os gêmeos pudessem se vingar. Hermione o avaliou por um momento e conseguiu imaginar o que se passava pela cabeça de Jorge. Com um suspiro cansado, disse:

–Olha, façamos o seguinte: apenas se certifique de dar a poção nas horas certas. Infelizmente não tenho nada para dor, então mantenha ele sempre com gelo para evitar inchaço. – sentindo que iria se arrepender, completou – Eu cuido das refeições do Fred. Quando tirei os sisos, meus pais preparavam esse tipo de coisa, sei o que fazer.

Até mesmo Gina ficou surpresa quando Jorge abraçou Hermione com força, o que foi engraçado pois o rapaz era incrivelmente alto perto da garota, então a levantou poucos centímetros do chão antes de soltá-la.

–Estou lhe devendo uma vida, Hermione. – disse ele segurando ambas as mãos da garota – Se qualquer dia precisar de alguma coisa, nem que seja um companheiro de estudos, eu juro...

–Jorge, vá cuidar do seu irmão. – interrompeu ela com a voz seca.

O rapaz disparou pelo corredor fazendo um barulho desnecessário. Hermione resmungou qualquer coisa sobre o estardalhaço e quando voltou sua atenção para o interior do quarto deparou-se com mais um par de olhos castanhos a fuzilando com um olhar maldoso. Gina a fitava da mesma maneira com que olharia para um aluno que elogiava os casaquinhos de Umbridge.

–O que? – ela perguntou tentando se livrar dos Weasleys para terminar aquele maldito livro.

–Não, não, nada. – cantarolando qualquer coisa, Gina fingiu voltar sua atenção para a varinha já brilhando.

–Gina, por favor. Quanto mais cedo você falar, mais cedo vamos concluir essa conversa e mais cedo vou terminar isso aqui. – Já frustrada, Hermione sentou-se de modo que pudesse ficar cara a cara para a mais nova dos Weasleys.

De uma maneira muito lenta, deliciando-se com a tortura, Gina deu um último retoque na varinha, a guardou sobre as vestes e sentou-se de frente para Hermione.

–“Vejo como ele está.”?, “Eu cuido das refeições de Fred.”? Por favor, Hermione. Nem quando Harry perdeu os ossos do braço há três anos você deu tanta atenção a ele. – Gina piscou de maneira marota para a amiga. – O que está havendo? Quando você chegou aqui parecia havia sido assediada por toda escola: vermelha, ofegante, dispersa... Você só fica assim quando a Mcgonagall elogia seu dever de casa e o chama de “perfeito”.

Oh, Hermione conseguia se lembrar de todas as vezes que sua professora fizera aquilo: fora mágico. Mas ainda tinha que lidar com Gina naquele momento antes de devanear.

–O que há de errado? Ele pediu por ajuda e eu estou sendo gentil.

–Ai é que está. Eu estou com os gêmeos há catorze anos e eles nunca fizeram tanta questão da ajuda de ninguém. Geralmente eles davam um jeito para cuidar um do outro, acredita que até hoje Jorge tem a ponta de um lápis enfiada na mão? Os dois nunca deixaram alguém se embrenhar tão fundo no mundo deles e agora Jorge pede “Por favor, estou implorando” para você cuidar do irmão dele? – Gina riu da situação. – Isso nunca aconteceu.

–Pode ser que dessa vez eles realmente não saibam o que fazer. Jorge está muito preocupado. Ou eles podem estar querendo se aproximar de mim e do Harry já que estamos sempre todos juntos.

–É, mas Fred não foi até o quarto onde ele e Rony estão dormindo e roubou o material escolar de Harry, foi? – sem falar que certa vez, durante um experimento, as vestes de Fred pegaram fogo e ele ficou com boa parte do braço queimado. Os dois conseguiram esconder o acidente da sua mãe e deram um jeito para curar as cicatrizes.

–N-Não, mas ele só queria implicar...

–Hermione, você ficou mais algum tempo com os dois lá e o Jorge entrou aqui perguntando “O que Fred fez?”... Preciso refazer a pergunta?

A garota estremeceu ao se lembrar do ocorrido. Olhou para os dedos e não ficou surpresa como ainda podia sentir os lábios de Fred ali, a maneira como ele sorriso, seus olhos brilhando...

–E-Eu estava de saída. Quando ia me levantar ele segurou minha mão e a beijou. – sussurrou ela tendo certeza de que estava voltando a corar violentamente.

Hermione achou que naquele momento Gina iria saltar e gritar absurdos sobre um romance secreto, flerte, como o seu irmão e sua amiga podiam estar juntos, porém Gina sempre seria Gina, então a jovem Weasley apenas mordeu o lábio inferior de maneira pensativa, levantou-se, pegou o caderno de Transfiguração e começou a fazer seu dever de casa. Hermione aguardou por algum tempo achando que se tratava de alguma armadilha, que logo a paz pela qual ela tanto lutara seria interrompida, porém Gina parecia realmente compenetrada na própria escrita. Ainda receosa, Hermione voltou a deitar-se e abriu o livro. Ficou completamente chocada quando alcançou a última frase do capítulo final e nenhuma palavra havia sido dita.

O bater na porta foi tão repentino que ela deu um pequeno grito de surpresa. Não querendo atrapalhar a concentração da amiga, Hermione abriu a porta e deparou-se com Harry.

–Oi. – saudou ela com um sorriso. – Veio falar comigo ou com Gina?

–Hum...Não tinha exatamente planejado falar com qualquer uma das duas. – respondeu ele. – Só que Rony acabou de voltar da cozinha e se largou na cama fedendo a melado e suor e está roncando como um porco.

–O.k.. Vamos para a sala de jantar e conversamos um pouco. Gina está estudando. – fechando a porta atrás de si, Hermione guiou Harry até o primeiro andar tentando evitar olhar para o quarto dos gêmeos quando passaram pela porta do cômodo.

A casa ainda estava silenciosa, o que era muito estranho, geralmente os adultos estavam sempre correndo para cima e para baixa nas escadas limpando, organizando, dando ordens ou preparando coisas da própria Ordem. Agora não haviam passos apressados, os gêmeos estavam impossibilitados de aprontar qualquer coisa até o dia de amanhã, então o ser mais barulhento na casa era Monstro, surgindo ocasionalmente pelos cantos e resmungando qualquer coisa sobre intrusos na preciosa casa de seus patrões e sangues-ruins vivendo naquelas paredes.

–Não podemos nem ao menos sair e fazer um boneco de neve. – Harry finalmente suspirou qualquer coisa querendo puxar um assunto.

–Ou bolas de neve. – riu Hermione lembrando-se de casa.

Os dois eram os únicos que tiveram a infância construída no mundo trouxa, então sobre certos assuntos só podiam partilhar da companhia um do outro.

–Quando passava o Natal com os Dursleys, era apenas receber os ataques de Duda e sua gangue. – Harry sacudiu os ombros de maneira infeliz – sete contra um. Com ou sem neve.

Natal junto ao povo não mágico rendeu uma conversa agradável e suave, envolvendo a ambos para longe de seus próprios problemas. Hermione se preocupava muito com o fato de Harry estar tendo sonhos de natureza tão maléfica e de como sua mente podia estar aberta para Aquele-que-não-deve-ser-nomeado. As vezes ela via uma sombra terrível perpassar pelos olhos verdes do amigo e notava quando ele esfregava a cicatriz de maneira distraída, mas preferia não tocar no assunto: Harry já deveria estar com a cabeça cheia demais para ouvir ainda mais sermões.

Como a reunião terminou tarde, o jantar levou muito tempo para ficar pronto e o aspecto não era um dos melhores já que aqueles que cuidavam da comida na casa estavam exaustos demais para dar a devida atenção a refeição. A Sra. Weasley parecia realmente aliviado ao ver que a cozinha estava brilhando sem quaisquer resquício de melado, o que a fez preparar um pouco de suco de abóbora para os meninos. Enquanto ela e Tonks esquentavam a comida, os outros guiavam o restante dos membros da Ordem até a saída de tal forma que novamente nenhuma das crianças conseguiu abordar um professor sequer.

A refeição fora silenciosa, volta e meia alguém cochilava e Tonks quase enfiou o rosto dentro do prato nas duas vezes em que pegara no sono. Quando Jorge desceu e sua mãe perguntou sobre seu irmão, ele simplesmente respondeu que Fred fora acometido por uma terrível do de estômago – afinal daquele jeito ninguém iria verificar como ele estava . Discretamente Hermione cutucou o braço de Tonks quando boa parte dos convidados havia se retirado e ficou surpresa que a mulher roncava com um nariz de porco pendurado em seu rosto.

–Ninfadora...! – a mulher despertou de um salto e seus cabelos ficaram brancos com o susto.

–Perdão, acho que estou com sono. – ela bocejou com gosto e voltou a aparência normal – Diga, Hermione.

–Preciso de um favor. – sussurrou ela as pressas. – Está com o dia livre amanhã?

–Oh, diga que não vai pedir para que eu acorde cedo. – com aquela expressão, Hermione não tinha nem ao menos coragem de estipular um horário.

–Não, não. Só quero que me acompanhe até o mercado. Preciso comprar algumas coisas.

–Claro, claro, tudo que quiser... – a mulher bocejou tão alto enquanto concordava e fechava os olhos que Hermione teve suas dúvidas se de fato a mulher havia lhe dado ouvidos.

Não podendo acordar a metamorfomaga de seu sono, Hermione levantou-se então com prato e copo e foi para a cozinha lavar suas coisas: Claro que a Sra. Weasley sempre fazia questão de deixar a louça com ela, pois usava magia e era um processo muito mais rápido do que o manual. Contudo Hermione e Harry tinham anos de prática com aquele tipo de tarefa que se tornava algo quase que automático, logo não foi uma surpresa quando ela se deparou com Harry lavando o próprio prato na cozinha quando ela chegou.

–Oi. – disse sem muito animo.

–Oi. Já estou terminando. – disse ele terminando de enxaguar o copo – Quer que eu lave sua louça?

–Não precisa, estou bem...

–Vamos, Mione, já estou com a mão na massa. – ele tomou o prato gentilmente de suas mãos e pôs-se a ensaboá-los. – Eles pareciam bem cansados hoje...

–É. – a garota abriu a geladeira preguiçosamente e avaliou o conteúdo. – Sabe onde foi parar a sopa de quarta feira?

–Hum... – Harry pôs o último garfo na gaveta de talheres e foi ajudar a amiga. – Acho que Rony deu cabo del... Não, está aqui. – ele pegou um pote de tampo verde e o abriu enquanto observava a amiga – Vai jantar de novo?

–Não é pra mim. Fred não pôde jantar porque rachou os dentes. – ela ignorou a careta do amigo pegando a sopa das mãos dele – Então vou ter que coar isso aqui e levar para ele comer. Acha que a casa tem algum coador?

–Eu creio que não. – Harry escolheu ficar e ver até onde aquilo iria dar. – Por que está tão preocupada com Fred?

A mão de Hermione vacilou antes de abrir a porta de um dos armários onde eles guardavam as panelas, Harry pôde notar antes que a amiga enfiasse a cabeça lá dentro.

–Hermione – ela retornou do interior do armário com um coador na mão e uma expressão de triunfo nos olhos. – Por que?

–Por Merlin, você e Gina fazem a mesma cara quando estão desconfiados! – urrou ela dando as costas para Harry antes que a visse corar.

A verdade era que Hermione começava a sentir-se infeliz: Harry tinha Cho na escola em quem podia pensar na freqüência que desejasse, Gina estava saindo com alguém também, Rony vivia com a cabeça enfiada no mundo onde ele e Fleur eram as únicas pessoas do planeta... Até o momento, quando o assunto se voltava para relacionamento, ela sentia-se sozinha demais ouvindo sobre a vida amorosa dos amigos enquanto a única pessoa por quem se apaixonara estava presa uma relacionamento meloso.

E quando Fred beijou sua mão, oh, nem mesmo Krum havia despertado aquele tipo de sentimentos onde seu estômago parecia cheio de borboletas. Estava confusa, não sabia se agora prestava mais atenção em Fred porque ele era irmão de Rony ou porque ele parecia ser o único que não tinha nenhum comentário a tecer sobre qualquer namorada. Naquele caso, então, o que o diferenciava de Jorge? Por que ela não ficou nervosa quando foi ele que a segurou no corredor e pediu sua ajuda?

–Eu vou subir e ver como Rony está. – Harry quebrou seus pensamentos com a mesma intensidade que uma pedra atingiria uma janela. – Precisa de alguma coisa?

–Não, obrigada. Boa noite, Harry. – murmurou ela ouvindo a porta da cozinha abrir e se fechar.

Seus momentos ali dentro enquanto providenciava uma refeição adequada para Fred foram silenciosos. Ela tentou não pensar nos gêmeos e tentou não julgar-se demais por estar fazendo aquilo tudo com tanto cuidado e carinho.Honestamente não suportaria ver qualquer um deles cair doente ou com dor, mas precisava admitir que quando Rony derrubou o irmão da cadeira e o som alto do impacto do maxilar de Fred contra a pia a fizeram fraquejar.

E enquanto subia as escadas com a bandeja onde um prato fundo com sopa e um copo d’água todos os seus argumentos começavam a ruir: em menos de vinte e quatro horas começava a se importar com Fred na mesma intensidade com que cuidava de Gina, Harry e Rony. Queria vê-lo bem logo, queria ouvir os gêmeos correndo pela casa e pregando peças nos outros, quebrando o clima de tensão. Mal notou quando finalmente alcançou o quarto dos dois e chutou de leve a porta pois suas mãos estava ocupadas com a bandeja.

Jorge abriu a porta o suficiente para ver quem era. Não esperava por Hermione, havia duvidado que ela iria ser tão prestativa. Abrindo passagem, deixou a garota entrar:

–Serviço de quarto, Fred! – gritou ele para o irmão adormecido.

Hermione conteve um grito de horror quando o viu: seu rosto estava horrivelmente inchado nas bochechas e boa parte do queixo estava tomado por um terrível hematoma escuro. Ele parecia mais pálido do que nunca, os olhos fundos, a boca seca e inchada. Apavorada com a visão do rapaz sofrendo, ela tentou controlar o tremor de suas mãos enquanto sentava na cama ao lado de Fred, que se ajeitava até estar em posição que o possibilitasse comer.

Ele gemeu quando recostou as costas na parede atrás de sua cama e a espiou com o olhos cansados: há pouco finalmente conseguira dormir, sua cabeça latejava e parecia que a qualquer momento seus dentes iriam explodir. A poção que Jorge lhe dera mais cedo não havia ajudado muito, apenas contribuíra para deixar sua boca com um gosto amargo e língua áspera.

–Pode abrir a boca um pouco, Fred? – ela perguntou gentilmente tentando ignorar a agitação de Jorge.

Prendendo a respiração, Fred separou mais os lábios até onde sua dor permitia. Hermione olhou para a gengiva inchada e os dentes com cuidado. Levou uma mão até a testa de Fred e conferiu se havia qualquer sinal de febre pois, se fosse o caso, talvez houvesse infecção, porém ficou aliviada que ele permanecia com a temperatura normal.

–Amanhã vou com Ninfadora até o mercado e trago sorvete e tento preparar alguma poção para dor, está bem? – tentando animá-lo, ela sorriu da maneira mais reconfortante que pôde quando ele fez um aceno positivo com a cabeça.

–Ele vai precisar ficar deitado o dia todo? – Jorge perguntou sentando-se do outro lado da cama. Ficou feito uma coruja empoleirado na cama tentando encontrar qualquer maneira que agilizasse a cura do irmão, porém tinha medo de fazer besteira (o que era um sentimento novo para o rapaz).

–Eu acho melhor. – Hermione pôs o copo no criado mudo ao lado da cama. – Se não ele pode agitar-se demais e sangrar pela boca. Mas tem que mantê-lo com gelo. – ralhou ela notando que Fred não tinha nenhum por perto.

–Acabei de esvaziar a saca, estava encharcando Fred. – ele indicou uma grande mancha úmida nas roupas do irmão. – Ainda tem alguém acordado? Posso pedir para preparar um pouco.

–Se correr deve encontrar alguém na sala de estar ou na cozinha lavando a louça. – Jorge saltou de imediato e saiu pela porta tomando cuidado de fechá-la ao deixar o quarto.

–Ele está realmente preocupado com você. – comentou ela de maneira distraída. Então pegou a tigela com sopa e mergulhou a colher no líquido aquoso. – Eu tirei qualquer pedacinho de comida que pudesse ficar preso nos seus dentes, então não vai ser muito consistente, mas já alguma coisa.

Aquilo fez Hermione se lembrar de como sua mãe fora gentil ao ajudá-la a comer quando suas gengivas estavam inchadas e com ponto por conta dos sisos retirados. Ela virava a colher próxima aos lábios Fred e estava pronta para limpar seu rosto toda vez que a sopa escorria pelo queixo do rapaz. Não se incomodava nem um pouco, era como tratar de um enfermo, ele não podia mover os lábios normalmente, logo não controlava a comida dentro da boca. Porém Fred não conseguia aceitar que Hermione levasse aquele tipo de trabalho tão bem: deveria ser nojento cuidar de alguém naquelas condições, varrendo a sujeira que ele deixava, tomando cuidado com uma situação frágil. E ele tinha certeza do quão horrível estava pelo olhar de preocupado que seu irmão lançara ao seu rosto inchado a tarde inteira.

Fred segurou a mão de Hermione cuja colher já tocava a sopa, e a fez abaixar o prato. Pegando o pedaço de pergaminho ao lado da cama onde podia se comunicar com os outros, ele escreveu com a mão trêmula “estou satisfeito” e ficou surpreso com a facilidade de mentir por meio da escrita. Hermione não pareceu tomar muita fé nas palavras, ele mal havia comido o dia inteiro.

–Tem certeza? – perguntou, recebendo uma resposta positiva. – Bom, quer água então? E eu vou pegar um pouco de sal pra você bochechar e lavar bem sua boca, está certo?

Fred deixou que Hermione lhe entregasse a água, porém bebeu por si só. O que estava acontecendo? Por que não queria que ela o ajudasse, mas também fazia questão que ela permanecesse? Naquele instante queria poder abraçá-la e dizer o quanto estava grato, porém sabia que se o fizesse, soaria como um bobo, então apenas bebeu água lentamente sendo observado por aqueles doces olhos castanhos. Jorge surgiu sem aviso com duas sacas cheia de gelo mágico que não mais derreteria.

–Prontinho. Vai dormir como um boneco de neve. – ele largou os sacos de cada lado do irmão e pôs as mãos nos ombros de Hermione – Você é a pessoa mais adorável que já conheci. Depois de meu charmoso irmão.

Rindo, Hermione esquivou-se dos braços do rapaz e recompôs-se.

–Tenho boas notícias! – continuou Jorge com um sorriso no rosto. – Mamãe acabou de me contar enquanto preparava o gelo: Papai volta amanhã. Vai vir ficar conosco aqui!

–Oh, por Merlin, Jorge! – exclamou Hermione abrindo um largo sorriso e o abraçando – Fico tão feliz por vocês!

Então ela se voltou para abraçar Fred e o viu tocando o próprio rosto com uma expressão sofrida: aparentemente havia sorrido com espontaneidade e machucado a si mesmo. Agora ficou infeliz olhando para o nada enquanto os outros celebravam. E havia um fogo em seus olhos quando Hermione abraçou Jorge que apenas seu irmão havia notado e interpretado corretamente. A garota sentiu a tensão no ar e preferiu sair dali.

–Bom, vou avisar a Gina e os outros. Jorge, pode pegar um copo com água e sal para seu irmão lavar a boca? E deixe a sopa coberta, caso ele resolva comer mais depois. Qualquer problema, me chamem no quarto de cima. – porém antes de sair ela cuidadosamente se inclinou por sobre Fred e beijou sua testa com cuidado – Parabéns pela notícia e melhoras.

Bastou que os passos dela sumissem enquanto Hermione percorria o corredor para que Jorge tornasse a sorrir de maneira marota para Fred. O rapaz sacudiu os ombros como quem pergunta “O que?”, porém Jorge já havia preparado o discurso enquanto estava retornando para o quarto.

–Você gosta dela. Ah, isso vai ser tão fácil – riu ele quando notou que, por mais que fizesse caras e bocas, Fred não podia se defender ou desmenti-lo a altura – Esperei para falar agora porque até então você poderia me interromper. Acha que eu sou burro, Fredie? Bom, pelo menos, não mais do que você é! Sou seu irmão gêmeo, seu idiota, consigo prever até mesmo quando você está apertado para ir ao banheiro, então não pense que não sei nada sobre seus sentimentos. Agora vejamos, quando começou... Eu acredito que foi no ano passado durante o Baile de Inverno quando ela apareceu feito uma Afrodite pelo hall de entrada.

Jorge avaliou o rosto pensativo do irmão, provavelmente se recordando de como Hermione estava fantástica naquela noite.

–Estou certo, não estou? – continuou ele – Bom, agora você disfarçou bem em na escola, mal dava para notar essa sua carinha linda secando nossa inocente Mione enquanto ela andava com nosso irmão de inteligência questionável. Por Deus, você roubou o livro dela e chegou aqui olhando para ele como se fosse o Mapa do Maroto ou pedacinhos da Umbridge! Até folheou o livro e inspirou fundo quando sentiu o perfume da garota, cara, você está completamente e terrivelmente... – Jorge fingiu desmaiar enquanto levava a mão a testa – apaixonado.

Rindo o necessário para irritar Fred, Jorge saltou sobre a cama do irmão e passou os braços por sobre os ombros do gêmeo com um sorriso bobo.

–Deve estar adorando receber toda essa atenção dela, não é? Eu iria gostar também, ela é simplesmente adorável. Não me olhe assim! – protestou quando seu irmão o fulminou com o olhar – Ela não faz meu tipo. Então, quer que eu investigue? Posso pedir para Gina fazer algumas perguntas, nossa irmã adora esse tipo de coisa. Ou posso dar vomitilhas para ela assim vocês partilham dessa crise de enfermidades juntos!

Quando Fred gemeu qualquer coisa, Jorge chegou a conclusão de que já havia brincado o bastante. Geralmente ele não conhecia aquele limite, porém agora se tratava dos sentimentos de seu irmão gêmeo, a pessoa mais importante em sua vida, e não queria vê-lo magoado em hipótese nenhuma.

–Falando sério, Fred, eu não imaginava isso. – ele largou o irmão e o ajudou a deitar-se e a posicionar o gelo em seu rosto de maneira confortável – espero realmente que dê certo. Olha, eu não me lembro de vê-la dar tanta atenção nem mesmo para Harry quando ele se enfiava na Enfermaria quando se machucava durante o Quadribol. Pense positivo, cara, e eu vou tentar mantê-la aqui dentro o máximo de tempo possível...

Naquele instante Fred se sobressaltou e imediatamente pegou o pedaço de pergaminho e a pena que mantinha no criado mudo, começando a escrever de um jeito nervoso. Quando entregou o papel a Jorge, ele pôde ler:

“Não quero prendê-la com obrigações. Estou forçando Mione e tirando o tempo livre dela”

–Não seja burro! – ele devolveu o papel ao irmão com olhar zangado – Nós conhecemos Hermione, sabemos que se ela não quer fazer algo, bom, agiliza o trabalho. Não me pareceu que ela estava enfiando a água dentro da sua garganta para andar mais rápido. Agora vá dormir, eu estou cansado e você precisa descansar para voltar a ficar lindo e irresistível. Como eu.

Jorge quase escapou do chute desferido por Fred. Ele apagou a luz do quarto e com facilidade pegou no sono, porém Fred permaneceu acordado, um pouco por causa da dor, porém muito porque seus pensamentos estavam fixos em Hermione: ele há algum tempo havia começado a pensar na garota com uma certa freqüência, porém tinha tanta certeza que ela e Rony tinham uma atração mútua que ficou surpreso ao ver Rony as voltas com outra garota. E agora ela parecia infeliz quando estava junto a ele, e se isolava com freqüência pela casa. Não, não queria vê-la triste, aquilo cortava seu coração como uma lâmina fria, e o fato de não poder se mexer ou falar... Maldição, era tão frustrante! Queria tê-la junto ao peito, queria abraçá-la e sussurrar que tudo estaria bem, queria poder sorrir de volta para aquele rosto angelical, porém sua sinceridade estava comprometida por seus ferimentos, e a impaciência estava junto de sua espera.