Sinapsis

13 Um Dia Normal (que definitivamente não foi normal)


Eu iria ter um encontro com o David.

Hoje à tarde.

Passei mais alguns segundos olhando o teto, processando a frase como se ela estivesse em outra língua. Então a ficha caiu de vez.

EU NUNCA FIZ ISSO NA VIDA.

Nunca tinha saído com ninguém. Nunca tinha precisado pensar em roupa, maquiagem, perfume, nada. E agora o menino mais popular da escola queria passar a tarde inteira comigo e eu estava oficialmente em pânico.

Minha mãe já tinha tirado a mesa do café da manhã, afinal já era quase meio-dia.

Saí do quarto ainda de pijama, cabelo bagunçado e cara de quem tinha levado um choque existencial. Peguei uma banana na fruteira e fui comendo enquanto andava.

Minha mãe estava na cozinha, cantarolando enquanto guardava a louça. Assim que me viu, ela ergueu uma sobrancelha.

— Bom dia, filha. Não dormiu direito? Você parece exausta.

Eu me joguei na cadeira da cozinha, mortificada, ainda mastigando a banana.

— Olha mãe, não surta, não é nada demais…

minha mãe veio rapidinho e ficou bem perto de mim, como se tivesse fazendo de tudo pra me dar bastante atenção.

— eu preciso da sua ajuda porque eu vou sair com o David hoje à tarde e não faço a menor ideia do que vestir, do que fazer, se passo maquiagem, se perfume é exagero… Eu nunca fiz isso na vida!

Minha mãe deu um pequeno salto. O sorriso que se abriu no rosto dela foi tão grande e satisfeito que eu quase me arrependi de ter aberto a boca.

— Finalmente! — Ela secou as mãos no avental e veio me puxar pelo braço. — Vem cá, deixa eu te olhar. Ai, meu Deus, você tá acabada, filha. mas sua mãe é especialista em disfarçar o cansaço com maquiagem e purpurina. Senta aqui que a gente resolve isso.

Em menos de dez minutos ela já tinha aberto meu armário como se fosse uma operação de guerra. Tirou uma blusa branca soltinha que eu nem lembrava que existia, uma calça jeans clara e um cardigã leve.

— Você tem que parecer você mesma, mas uma versão que tomou banho e se esforçou um pouquinho — explicou enquanto me fazia experimentar a blusa. — Nada de maquiagem pesada. Só um corretor nesse nariz e um gloss. Confia na sua mãe.

Enquanto ela passava o gloss em mim (eu sentada, imóvel, como uma boneca), ela só ria baixinho, claramente se divertindo com o meu desespero.

— Pronto! Perfeita.

me olhei no espelho, e mal pude acreditar no que vi, não que eu me considerasse feia, eu arriscava uma maquiagem basica e um penteado pra ir pra escola, mas eu nunca tinha me arrumado pra sair...ou deixado minha mãe fazer isso por mim, eu tava quase tão linda quanto a Lorie do mundo dos sonhos.

Quando eu já estava na porta de casa, pronta para sair, ela me segurou pelo braço por um segundo. O tom dela ficou mais suave, quase carinhoso, mas com aquele brilho malicioso de mãe.

— Sabe… você me lembra um pouco seu pai às vezes. — Ela deu um sorrisinho leve, sem peso.

— Sério? mas…você nunca fala dele…

por alguns segundos minha mãe ficou com o olhar distante, como se estivesse se lembrando de algo muito importante…

— Relaxa filha, foi um elogio, você está linda e charmosa como ele era…vai lá e não fica analisando demais. — Ela piscou. — E olha… se for rolar alguma coisa, usem proteção, hein? — disse ela piscando pra mim e eliminando qualquer clima estranho

— Mãe! — protestei de maneira envergonhada.

Ela riu, apertando meu braço de leve.

— Brincadeira filha, Divirta-se!

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Às 14h em ponto eu estava na porta de casa, mãos suando, coração na boca.

David apareceu dobrando a esquina numa scooter elétrica preta, cabelo bagunçado pelo vento, sorriso enorme. Ele parou bem na frente da minha casa, desligou o motor e olhou pra mim como se estivesse vendo uma paisagem

— Uau… você tá… linda.— ele disse com um tom tão automatico, que so depois ele percebeu que falou em voz alta.

Eu só consegui sorrir, nervosa.

Ele deu um tapinha no banco atrás dele, com um sorrisinho meio tímido. ele estava completamente diferente dos dias anteriores, seu olhar que transmitia uma certa urgencia o tempo todo, naquele momento estava completamente relaxado, um relaxamento quase contagiante

— Vem, sobe. A sorveteria fica um pouco longe. Segura na minha cintura pra não cair, tá?

Eu hesitei por meio segundo, sentindo o rosto queimar, mas subi na scooter. Minhas mãos tremiam um pouco quando segurei firme na cintura dele. O tecido da camisa era quente do sol. Ele ligou o motor de novo e o vento bateu no meu rosto enquanto a gente saía pela rua.

— Eu… minha mãe me vestiu — confessei, já morrendo de vergonha.

David riu, a voz vibrando contra minhas mãos.

— Então agradeça ela por mim. Agora segura direito que eu não quero te perder no caminho.

O dia foi uma sequência deliciosa de trapalhadas minhas.

Na sorveteria, pedi um sorvete de manga enorme e, na primeira colherada, acabei melando a ponta do nariz inteiro. David olhou pra mim, tentou segurar o riso… e perdeu feio.

— Espera — disse ele, ainda rindo. Sem pensar duas vezes, esticou a mão e limpou o sorvete do meu nariz com o polegar, devagar e com cuidado. — Pronto. Agora você tá apresentável de novo.

Eu fiquei vermelha até a raiz do cabelo. Ele só sorriu, sem tirar a mão do meu rosto por um segundo a mais do que o necessário.

— Você é sempre assim fofa ou só quando tá comigo?

— Cala a boca — murmurei, morrendo de vergonha, mas rindo junto.

O resto da tarde foi leve, cheio de conversa boba e caminhada pelo bairro. Sentamos num banco de praça, tomando o resto do sorvete, e o clima ficou gostoso e tranquilo.

De repente ele ficou sério.

— Ah, antes que eu esqueça… as portas de vocês já estão seguras. Foram movidas pra um setor bem distante do corredor. Ninguém vai achar vocês tão cedo.

Eu suspirei aliviada.

— Graças a Deus.

David hesitou um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Agora que está tudo resolvido… você acha que tem mais alguém que a gente precisa proteger? Tipo… seu pai? Ou… sei lá, um namorado?

Eu pisquei, surpresa, e caí na risada.

— Namorado? — Eu ri, balançando a cabeça. — Se você queria saber se eu tava namorando era só perguntar, David. Como se alguém como eu pudesse ter namorado…

Ele ficou vermelho na hora.

David riu junto, mas o olhar dele ficou mais suave. Ele esperou eu terminar de rir e perguntou, agora com tom mais sério:

— E… sobre o seu pai?

O riso morreu na minha garganta.

Meu pai...

Engraçado ele ter sido mencionado duas vezes no mesmo dia.

Justo ele, que minha mãe sempre tratava como “persona non-grata” um nome que não deveria ser pronunciado em voz alta.

Eu não fazia a menor ideia do que responder.