Sinapsis

14 Pôr do Sol e Fantasmas


Fiquei em silêncio por um tempo que pareceu eterno. O vento leve bagunçava meu cabelo e o sorvete derretia devagar na minha mão. David não pressionou. Só esperou, olhando para o horizonte onde o céu já começava a pintar tons de laranja e rosa.

— Meu pai… — comecei, a voz mais baixa do que eu pretendia. — É estranho ouvir alguém perguntar sobre ele. Minha mãe quase nunca fala. Quando eu era pequena, eu perguntava e ela mudava de assunto rapidinho. — uma brisa mais forte, bateu sobre nós quase como um interludio a minha fala.

— Mas um dia...eu acordei de madrugada e encontrei a minha mãe chorando bem baixinho na cozinha, ela tava segurando uma garrafa de bebida e uma foto borrada de um homem que não conseguia reconhecer, foi nesse dia que ela me contou sobre ele, e... esse dia foi bem difícil pra ela.

— depois desse dia, eu parei de perguntar sobre ele.

David virou o rosto para mim, atento.

— E o que ela te contou?

Respirei fundo.

— Não muito. Sei que o nome dele é Victor, minha mãe nunca me contou o sobrenome de solteiro dele, acho que ela temia que eu o procurasse, a verdade é que nunca sequer vi uma foto dele. ela queimou todas. Eles eram amigos no colegial, era charmoso, engraçado… o tipo de pessoa que todo mundo gostava. Eles Se casaram bem jovens porque minha mãe engravidou de mim. No começo tudo era bom, pelo menos é o que ela diz. Mas depois que eu nasci… ele mudou. Ficou estranho, distante. Passava horas calado, olhando pro nada. Até que um dia simplesmente sumiu. Sem explicação, sem bilhete, sem nada. Deixou eu e minha mãe a propria sorte.

Fiz uma pausa. O sol descia devagar, pintando tudo de dourado.

— O mais estranho é que, depois de uns meses, começou a aparecer dinheiro na conta da minha mãe. Nunca era muito, mas sempre na hora certa, quando a gente mais precisava. Ela acha que é dele. Mas ele nunca ligou, nunca mandou mensagem, nunca quis saber se eu estava viva. É como se tivesse desaparecido de propósito.

David ficou em silêncio por um instante, só observando o sol que descia no horizonte. Depois falou, bem baixo:

— Meu pai sempre esteve presente. Mesmo com toda a loucura de ser Sinapster, ele nunca faltou. Me ensinou a andar de bicicleta, me ajudou nas provas, me deu bronca quando eu errava feio em algum duelo… Eu sei que nem todo mundo tem isso.

Ele olhou para mim, o olhar calmo e sincero.

— Deve ser bem difícil crescer sem um pai por perto. Eu não sei como é, mas consigo imaginar que não é fácil.

Eu dei um sorrisinho triste.

— Mas fico feliz que eu sempre tive minha mãe. Ela é incrível, mesmo quando me enche de vergonha com as piadinhas dela. Mas… sim, deve ser bom ter um pai presente.

Ele assentiu devagar, sem tentar consertar nada. Só apertou meus dedos de leve, como se quisesse dizer que entendia.

Ficamos assim um bom tempo, ombro encostado no ombro, mão na mão, vendo o céu mudar de cor. O silêncio era confortável. Não precisava de mais nada.

Quando o sol finalmente sumiu atrás dos prédios, David soltou um suspiro longo.

— Tá ficando tarde… — murmurou ele, claramente envergonhado, as orelhas ficando vermelhas. — Eu vou te levar pra casa antes que sua mãe pense alguma besteira.

Eu ri baixinho e nós nos levantamos. Voltamos caminhando devagar até a scooter. No caminho de volta, eu segurei na cintura dele de novo, mas dessa vez me senti mais segura, mais… em casa.

Ele parou a scooter bem em frente à minha casa. Desligou o motor. O bairro estava quieto, só o som distante de um cachorro latindo e o vento nas árvores.

Eu desci, mas não soltei a mão dele de imediato. David também não soltou.

Ficamos ali, parados na calçada, olhando um pro outro. O ar parecia mais pesado de repente.

Ele deu um passo mais perto. Seus olhos desceram lentamente para a minha boca por um segundo e voltaram para os meus olhos. Meu coração disparou. Por um instante nenhum de nós se mexeu. O mundo inteiro pareceu parar.

David engoliu em seco. A mão dele subiu devagar, quase hesitante, e roçou de leve na minha bochecha, tirando uma mecha de cabelo do meu rosto. O toque foi tão leve que eu mal senti.

Ele se inclinou um centímetro. Só um.

E então parou.

Ficamos assim, nariz quase encostando no outro, respirando o mesmo ar. Nenhum dos dois disse nada. Nenhum dos dois se moveu para fechar a distância.

Depois de um segundo que pareceu durar uma eternidade, David soltou o ar devagar e deu um passo atrás, sorrindo daquele jeito nervoso que eu já estava aprendendo a adorar.


— O dia hoje foi incrivel Lorie, e eu me diverti demais…— disse ele com aquele sorriso adorável — eu sabia que tava certo sobre você. — completou.


ele Subiu em sua Scooter e virando-se mais uma vez pra mim disse:

— Boa noite, Lorie.

— Boa noite, David.

Ele esperou eu entrar em casa. Só quando a porta fechou atrás de mim é que ouvi o barulho da scooter se afastando.

Fiquei encostada na porta, coração ainda acelerado, um sorriso bobo no rosto.

Meu pai, o pôr do sol, aquele quase-beijo que não aconteceu… tudo parecia grande demais para um único dia.

Mas pela primeira vez, eu não queria que o dia acabasse.

Eu queria ver o que viria amanhã.