Sinapsis
11 O despertar
O segundo impacto atingiu a porta com a força de um trem descarrilado. O estrondo reverberou pelo ar, fazendo o chão tremer violentamente.
— Estão tentando usar a arma que destruiu a porta do prefeito — Arthur disse, a voz cortando o pânico que ameaçava me paralisar. A postura de instrutor compreensivo desapareceu em um milissegundo, substituída por uma frieza letal e militar. Ele deu um passo à frente, colocando-se instintivamente entre mim e a porta.
— Mas não vai funcionar aqui, vai? — perguntei, sentindo meu coração socar as costelas. — Você mesmo disse David. A minha porta está protegida com a sua Âncora.
— E não vai — Arthur respondeu, o maxilar tenso, os olhos fixos na madeira que tremia. — Uma porta selada pela Âncora de um Sinapster não cede a armas de REM. A barreira vai segurar. Eles estão apenas desperdiçando energia.
Como se o universo estivesse apenas esperando a confirmação do nosso otimismo para esmagá-lo, o zumbido do lado de fora cessou. O silêncio que se seguiu foi quase tão apavorante quanto o barulho.
E então, uma voz ecoou.
uma vibração calma e maquiavélica, que eu ja ouvira antes a poucas noites atrás. Era a voz do Líder. O homem que havia executado o prefeito a sangue frio.
— Eu sei que você está aí, garotinha, Desperta Natural. Você é essencial para os planos da Unidade. Entregue-se agora mesmo, ou...—Ele fez uma pausa quase como se estivesse se deliciando com aquele momento
— Bem, nós conhecemos como funciona Sinapsis. A sua mãe que te ama tanto... dormindo tranquilamente agora... em alguma dessas portas ao lado da sua. Seria uma pena se alguem violasse a porta dela agora...e a matasse não acha? posso te garantir que a morte não ia ser nada rapida conhecendo meus homens.
— Minha mãe... — o sussurro escapou dos meus lábios antes que eu pudesse contê-lo. O ar dos meus pulmões desapareceu. me ajoelhei em completo pânico, A imagem do prefeito ajoelhado e se desintegrando sobrepôs-se à imagem da minha mãe, Linry, dormindo tranquilamente a poucos metros do meu quarto, completamente indefesa.
— Desgraçados covardes — Gritou Arthur, a jaqueta de couro parecendo escurecer enquanto uma aura de energia densa e avermelhada começava a emanar dos seus ombros, seu corpo foi coberto por uma armadura samurai, feita de Aura pura
— Nós não temos escolha — David disse, os olhos escuros fixos nos meus, carregando um peso que ninguém da nossa idade deveria suportar. — Se eles destruírem as portas vizinhas, muita gente vai morrer. Nós temos que sair e interceptá-los no corredor.
rapidamente entrei na frente de David e dos seus pais
— David, ele é um dos Líderes! Vocês disseram que era perigoso encara-los de frente! — segurei o braço dele, o desespero quebrando a minha voz. A ideia de que a família inteira dele seria massacrada no corredor escuro por minha causa era insuportável. — Deixa eu ir. é a mim que ele quer.
— É o nosso dever Lorie. — Disse Helena uma aura gelada se formava em volta dela, criando estalactites de gelo que formavam uma especie de proteção rotativa em volta de seu corpo.
Antes que eu pudesse protestar novamente, os três se viraram para a porta de madeira. Arthur girou a maçaneta, e a pressão esmagadora de Sinapsis invadiu o meu cenário por uma fração de segundo. Assim que eles cruzaram a soleira, a porta bateu.
Fiquei sozinha no meio do silêncio, mas ele durou muito pouco.
Quase imediatamente, o estrondo abafado de explosões, rugidos de bestas espectrais e o som de gelo se estilhaçando começaram a ecoar através da porta. Era um caos ensurdecedor. Um Duelo REM de proporções que eu não conseguia sequer imaginar estava acontecendo do outro lado.
Eu andava de um lado para o outro, apertando as mãos contra a cabeça. Eu era a responsavel. Eu era a garota com o poder absurdo e incalculável. Mas, no fim das contas, eu continuava presa no meu papel de sempre: a espectadora. A garota omissa, escondida e com medo, enquanto outras pessoas faziam as coisas acontecerem.
Um baque terrível atingiu a minha porta pelo lado de fora. Alguém havia sido arremessado contra ela, pude ouvir um grunido de dor feminino, era Helena
— NÃO!! — A raiva repentina superou o medo. A rejeição absoluta à minha própria mediocridade acendeu como um fósforo na gasolina. Eu não ia deixar que a familia do garoto que me salvara a dias atrás fosse destroçada enquanto eu brincava de me esconder no meu mundo.
Corri até a maçaneta, girei o metal frio e empurrei a porta com toda a força.
A transição me esmagou instantaneamente. A atmosfera densa, o frio cortante e o zumbido opressivo de Sinapsis tentaram me dobrar os joelhos, mas eu me forcei a ficar de pé.
O cenário dentro do domo de batalha era devastador.
Helena estava de joelhos a alguns metros de distância, Helena tentava desesperadamente conjurar uma barreira de gelo contra uma rajada de tiros de energia escura de quatro agentes. Arthur lutava como um titã; seu corpo irradiava uma luz vermelha ofuscante, movendo-se com uma velocidade quase impossível enquanto estilhaçava as estruturas oníricas de quem se aproximava, mas ele estava cercado por pelo menos 10 agentes.
E, sendo arremessado em minha direção caindo aos meus pés estava david, o Líder caminhava em direção a nós vagarosamente. David, ofegante e visivelmente exausto. não tinha invocações o protegendo. Olhei para o pulso esquerdo de David em pânico absoluto. O marcador brilhante no relógio estava no número onze. Faltava uma única hora para meia-noite quando ele seria ejetado. nunca parei pra pensar nisso mas, mesmo que não seja fatal, significa sempre lutar contra o acaso de ser a ultima remanescente.
O Líder ergueu a mão, uma lança de energia pura e corrompida se condensando entre seus dedos. Ele ia finalizar David e naquele momento, o puro pânico me dominou
— DEIXE-O EM PAZ!! — o grito rasgou a minha garganta, tão alto que o próprio tecido do corredor pareceu vibrar, meu corpo emanava energia descontroladamente
O Líder virou o rosto para mim, os olhos escuros brilhando com um triunfo distorcido.
— Aí está você — ele sorriu, baixando a lança por um instante. — A anomalia decidiu sair do esconderijo.
Arthur e Helena gritaram o meu nome, mas eu não prestei atenção. As palavras de Arthur ecoavam na minha cabeça como um mantra furioso: Você não tem nenhum molde. Você não tem uma ferramenta primária.
Se eu não tinha um molde, se meu poder estava preso nas limitações do meu mundo, decidi ali naquele momento, que eu iria quebrar essa limitação.
Fechei os olhos e mergulhei na nascente mais profunda da minha vontade, ignorando a pressão opressiva da dimensão. Eu não imaginei um feixe de luz ou um animal espectral. Eu ordenei a existência da minha cidade inteira.
EXPANDA!!!!!!!!.
Quando abri os olhos, a onda de choque violeta e ciano espalhou-se pelo domo como uma onda, por onde passava, a onda transformava o ambiente.
O chão sob os meus pés foi instantaneamente pulverizado e substituído pelo piso sólido e luminoso do meu cenário. A escuridão vertiginosa do corredor foi rasgada ao meio quando estruturas colossais de vidro espelhado irromperam do chão, erguendo-se para o alto como pilares titânicos. O vazio foi pintado a pinceladas rápidas de um azul radiante, dentro daquele domo, minha cidade foi manifestada. minhas roupas, que antes eram o simples uniforme escolar no mundo de Sinapsis, se transformou na minha majestosa roupa de cor purpura do meu mundo, Meu poder havia engolido o campo de batalha.
O Líder recuou, os olhos arregalados, a arrogância evaporando de seu rosto pela primeira vez. Até mesmo os pais de David estavam paralisados, atônitos diante da magnitude do que eu havia feito.
— O que é isso? — o Líder rosnou, recuperando-se do choque e atirando a lança de estática negra diretamente contra o meu peito.
Eu não desviei. Eu não precisei. Levantei a mão,e lança de poder corrompido simplesmente parou no ar, despedaçando-se antes mesmo que chegasse perto — Manipulação.
Sem abaixar o braço, dei um passo à frente. O piso rígido pareceu impulsionar o meu corpo. Minha força física e minha agilidade multiplicaram-se por mil. Em um salto imperceptível de tão rápido, atravessei o espaço entre nós e acertei um chute lateral que sequer um dia imaginei fazer. O chute lançou o Líder violentamente contra a fachada de uma das estruturas — Especialização.
Enquanto ele caía, estalei os dedos. A enorme vidraça do prédio se despedaçou e, obedecendo ao meu comando, dezenas de estilhaços afiados se metamorfosearam em águias de cristal translúcido que mergulharam contra os agentes restantes, rasgando as estruturas corrompidas deles em uma fração de segundo até que não sobrasse nenhum— Materialização.
— Impossível... — Arthur sussurrou, apoiando-se nos joelhos enquanto assistia à destruição dos agentes. — Ela não tem um molde. Ela é o próprio molde. Ela está usando os três aspectos ao mesmo tempo.
Eu flutuei alguns centímetros acima do chão, sentindo um poder inebriante e absoluto fluir por todo meu corpo. Ali dentro, com a minha própria cidade sobrepondo-se ao corredor, as regras não eram da Sinapsis, eram minhas.
Mas a euforia durou exatamente 10 segundos
Uma pontada de dor brutal, como se uma lâmina incandescente estivesse rasgando o centro da minha testa, me fez vacilar. Eu ofeguei, quase caindo de joelhos no piso.
Olhei para os prédios de vidro que eu havia erguido. Nas bordas, onde o meu cenário encontrava as paredes invisíveis do Domo de Isolamento, a arquitetura estava entrando em colapso.
Senti a minha reserva de REM sendo consumida em uma velocidade apavorante. Manter um domínio pessoal inteiro materializado e sobreposto às regras esmagadoras de Sinapsis não era apenas dobrar a física onírica; era tentar segurar um oceano com as mãos. A cada segundo que a cidade existia do lado de fora da minha porta, meu REM remanescente evaporava. Se a expansão queimasse toda a minha energia de uma vez, eu não sofreria apenas uma ejeção ou um limite zerado. sinto que as consequências seriam fatais.
Eu não tinha muito tempo. Eu precisava dizimar a liderança da Unidade e desfazer a expansão antes que o meu próprio poder engolisse a minha mente.
O lider estava caído em meio aos escombros. Sua estrutura onírica piscava erraticamente, falhando em tons de cinza e estática negra, indicando que seu REM estava praticamente zerado após o impacto do meu golpe. Usando os braços trêmulos, ele se apoiou no chão rígido e ergueu o tronco.
E então, ele começou a rir.
Foi uma risada áspera, rasgada, que ecoou de forma bizarra pelas paredes de espelho do meu domínio.
— Fascinante... Absolutamente fascinante! — ele bradou, cravando os olhos escuros em mim. O rosto dele estava distorcido por um misto de dor excruciante e um fascínio maníaco. — Você não faz a menor ideia, não é, garotinha? Você não faz a mínima ideia de quem você realmente é!
Ele tossiu, expelindo uma fumaça escura que se dissipou no ar, mas o sorriso sádico não vacilou por um segundo sequer.
— Eu admito... eu não tenho a menor chance contra você. Não contra isso — ele abriu os braços, apontando para a vastidão da minha cidade materializada, aceitando a derrota no duelo. — Mas acredite, anomalia... isso ainda não acabou. Logo, você estará diante de todos nós. E quando esse dia chegar, nenhum de vocês, Sinapsters arrogantes, poderá fazer absolutamente nada. A Unidade será restabelecida!
Antes que eu pudesse fechar a mão e disparar o golpe final, Ele forçou a própria desconexão. A estrutura corrompida do Líder implodiu subitamente em um redemoinho de estática negra e desapareceu no ar. e minha cidade e o domo desapareceram completamente, depois disso só lembro de cair no campo de batalha…e acordar na minha cama, no mundo real.
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