Sinapsis
18 Dias (quase) Perfeitos
Era divertido ver a reação das pessoas ao nosso redor.
Eu, a garota invisível de sempre, andando ao lado do David. As meninas do último ano me fuzilavam com o olhar. Algumas nem disfarçavam a cara de inveja. Eu fingia que não via, mas por dentro estava me segurando para não rir. Era a primeira vez na vida que alguém me invejava por alguma coisa. E era bom pra caramba.
Durante os intervalos, a gente se sentava sempre no mesmo canto do pátio. Ele me contava histórias idiotas da época em que treinava sozinho. Eu contava como era ser a garota que ninguém notava. E, pela primeira vez, eu não me sentia invisível. Eu me sentia… vista.
e os dias do resto daquela semana foram todos assim
À noite, quando fechava os olhos, ele já estava me esperando na minha porta.
A gente quase sempre ficava dentro do meu mundo. Eu criava tudo: um pedaço enorme de grama infinita com céu estrelado, balanços que subiam até as estrelas, colinas suaves e vento perfeito. David só chegava, sentava ao meu lado e sorria. Às vezes ele invocava o Aegis só para me fazer rir. Corríamos, voávamos, lutávamos de mentirinha. Era leve. Era nosso.
No final daquela mesma semana, voltamos a treinar em Sinapsis de verdade.
Dessa vez voltamos ao corredor, mas com os pais do David supervisionando. Eles me ensinaram a criar Domos de batalha de tamanho controlado. Foi aí, treinando juntos, que descobrimos algo importante: num “mano a mano”, quando eu expandia apenas em um pequeno domo, uma pequena parte da cidade, meu gasto de REM era substanciamente baixo. Eu mantinha um controle muito maior e conseguia lutar por vários minutos seguidos sem sentir que meu cérebro ia explodir. Enquanto conseguisse manter o domo, eu era praticamente imbatível.
Foi justamente num desses treinos que aconteceu. Nossa primeira briga.
Arthur havia criado um pequeno domo de simulação no corredor, disparando feixes de energia inofensivos, mas rápidos, para testar nossos reflexos. Eu vi uma abertura e me adiantei, pronta para bloquear o feixe com uma barreira de luz e testar minha velocidade. Mas David atravessou na minha frente de forma brusca, conjurando um escudo pesado de pedra e me empurrando para trás pelo ombro. O impacto do feixe quebrou o escudo dele e o jogou de joelhos no chão.
— O que você tá fazendo?! — ele gritou, levantando-se visivelmente irritado, a respiração ofegante. — Você não pode se expor assim, Lorie! Era um ataque direto!
— Eu tinha tudo sob controle! — rebati, sentindo o sangue ferver e a frustração tomar conta. — Eu ia bloquear! Eu não sou feita de vidro, David. Você não precisa pular na frente de tudo pra me salvar!
— Eu não tô tentando te salvar pra bancar o herói, tô tentando fazer com que não se machuque, você é a minha responsabilidade — Ele passou as mãos no cabelo, a postura defensiva e dura de presidente do conselho voltando com tudo. — Se você acha que lutar no corredor é igual a brincar no seu mundo de faz de conta...
— Meu mundo faz de conta?? — Me irritei de verdade com aquele comentario e rebati. — e aquele seu gramadinho com um laguinho merreca no meio? e outra! Eu sei muito bem o que é a Unidade! — eu cortei, a voz subindo de tom, o peito apertado pela indignação.
— Mas se nós vamos lutar juntos, se eu sou a sua âncora e você é a minha, você tem que confiar no meu poder. Você não pode me tratar como um fardo!
A discussão escalou rápido, alimentada pela teimosia dele e pelo meu orgulho recém-descoberto. Arthur e Helena apenas observaram, quietos e sábios demais para se intrometerem na explosão de dois adolescentes teimosos. Fomos embora de Sinapsis exaustos e frustrados, sem sequer nos despedirmos direito.
No dia seguinte, a escola foi um inferno particular.
O silêncio entre nós foi torturante. Não andamos juntos pelos corredores. Na hora do intervalo, não fomos para o nosso canto no pátio. Eu fiquei sentada sozinha na biblioteca, encarando as páginas de um livro de história sem ler uma única palavra, sentindo um peso esquisito e oco no estômago.
A gravidade do mundo real parecia duas vezes mais pesada simplesmente porque ele não estava por perto. Eu estava com raiva, sim, mas a falta dele doía muito mais do que o orgulho.
Quando o último sinal tocou, eu guardei minhas coisas no armário e caminhei para fora da escola. Fui em direção à praça onde costumavamos ficar juntos por puro instinto, arrastando os pés.
E ele estava lá.
Sentado no nosso banco, encarando o chão irregular de paralelepípedos, com a mochila largada do lado. Parei a uns dois passos de distância. Ele percebeu a minha sombra e levantou os olhos. A postura de garoto perfeito tinha sumido; ele parecia apenas cansado.
— Isso é uma droga — ele disse, a voz baixa.
— Totalmente — eu concordei, dando os últimos passos e me sentando na outra ponta do banco.
Ficamos em silêncio. Mas diferente do silêncio frio da manhã, esse era cheio de palavras presas na garganta.
— Eu só... eu tenho muito medo de te perder — ele sussurrou, quebrando o silêncio e olhando para as próprias mãos. — A minha vida inteira eu fui treinado para proteger Sinapsis. Mas você... você é a coisa mais real que já me aconteceu. E lá dentro, no corredor, tudo pode sumir em uma fração de segundo. Eu não pensei, eu só agi pelo pânico de ver você se machucar.
Eu soltei um suspiro longo, sentindo a raiva evaporar completamente. Diminuí a distância no banco, encostando meu ombro no dele.
— Eu entendo o seu medo, David. Eu também tenho pavor de que algo aconteça com você — falei, buscando a mão dele e entrelaçando meus dedos nos dele. — Mas você mesmo me ensinou a não ter medo do que eu sou. Me deixa usar o meu poder para proteger você também. Nós somos parceiros nisso.
Ele virou o rosto para mim. O olhar verde estava suavizado, carregando aquele mesmo brilho de quando dividimos os fones de ouvido pela primeira vez.
— Eu não consegui prestar atenção em uma única aula hoje — ele confessou, apertando a minha mão com força.
— Eu também não — sorri, encostando a cabeça no ombro dele. — Acho que a gente meio que depende um do outro agora...
Ele deu aquela risada curta e genuína que eu adorava.
— Então sem mais brigas? — ele perguntou.
— Só depois de você pedir desculpa pra minha cidade maravilhosa — eu provoquei.
Ficamos ali até o sol começar a baixar, grudados um no outro, com a certeza absoluta de que enfrentar a Unidade era aterrorizante, mas ficar longe um do outro era simplesmente impossível.
Aprendi muito naquelas duas semanas.
Meu controle sobre meu poder nos corredores da Sinapsis era praticamente perfeito, era quase como se eu ja o conhecesse a muito tempo, e so precisasse desperta-lo.
enquanto isso, minha amizade com o David ia ficando cada vez mais forte, a gente passava praticamente todo tempo livre juntos, minha mãe ja estava até disposta de liberar um espaço pra ele no guarda roupa, visto que ele passava bastante tempo lá em casa
desde o ataque a minha porta e a derrota humilhante para mim, a Unidade havia desaparecido completamente, quase como se estivessem lambendo as feridas depois da batalha, eles sumiram por quase um mês, mas em nenhum momento abaixamos a guarda.
Numa sexta-feira, depois da última aula, David me esperou no portão da escola.
— Vamos ver o pôr do sol? eu vim de Scooter hoje, podemos ir num mirante na saida da cidade que eu descobri a pouco tempo, o que acha de ir la comigo? — perguntou, com aquele sorrisinho tímido que eu já adorava.
Eu assenti, sem conseguir esconder o sorriso.
Ele me levou até um morro nos arredores da cidade, um lugar simples que quase ninguém frequentava. Sentamos na grama, lado a lado, enquanto o céu começava a ficar laranja, depois rosa, depois roxo. O vento era suave e quente.
Ficamos em silêncio por um tempo, só observando as cores mudarem. David virou o rosto para mim. Seus olhos estavam diferentes — mais intensos, mais certos.
— Lorie… — murmurou.
Eu virei para ele também. Meu coração já estava disparado.
Ele ergueu a mão devagar e tocou meu rosto, o polegar roçando minha bochecha com uma delicadeza que me deixou sem ar. Seus olhos desceram para minha boca e voltaram para os meus. O sol poente pintava tudo de dourado, inclusive o rosto dele.
Nós nos aproximamos ao mesmo tempo.
O beijo começou suave, quase hesitante. Seus lábios eram quentes, macios, com gosto leve de menta. Quando eu segurei a frente da camisa dele, o beijo ficou mais profundo. Senti a respiração dele misturando com a minha, o coração dele batendo forte contra minha mão, o calor do sol ainda morno na nossa pele.
Foi como se o mundo inteiro tivesse parado.
Só existia o vento leve balançando a grama, o céu queimando em tons de laranja e rosa ao nosso redor e a boca dele na minha, aquele cenário, naquele momento, era a coisa mais linda que eu ja havia vivido, mesmo quando comparada com a minha cidade colossal e mágica em Sinapsis
Quando nos afastamos, nossas testas ficaram encostadas. Eu estava sorrindo tanto que doía o rosto.
David encostou o nariz no meu e sussurrou, a voz rouca:
— Finalmente. eu ja achei que você nunca ia fazer isso — Eu ri baixinho, ainda sem fôlego.
— É… finalmente.
Ficamos ali, respirando um ao outro, enquanto o sol terminava de se pôr atrás das montanhas.
E, naquele momento, eu só queria que aquele beijo — e aquele dia — durasse para sempre.
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