Sinapsis
4 David
As batidas do meu coração pareciam ecoar nas paredes da sala, competindo com o burburinho que crescia ao meu redor. Eu sentia os olhares perfurando a minha pele — alguns curiosos, a maioria puramente fofoqueiros. Para a garota que sempre foi invisível, virar o centro das atenções ao lado de David era o equivalente a ter um holofote apontado para a cara. E ele continuava parado ali, esperando.
— Eu... — tentei falar, mas a voz travou na garganta.
Ele percebeu o meu desespero e o circo que estava se armando na turma. Com uma agilidade social que eu jamais teria, ele girou os calcanhares e assumiu a postura impecável de presidente de conselho.
— Desculpem por interromper, gente. É que a Lorie ficou responsável pela lista da gincana de integração e o sistema da secretaria deu um erro bizarro — ele mentiu, com uma fluidez assustadora e um sorriso contido. — Preciso que ela me ajude a conferir uns nomes rapidinho na sala do conselho antes que o professor chegue. Tudo bem, Lorie?
Apenas assenti, internamente grata pela desculpa esfarrapada. Agarrei minha mochila com as mãos trêmulas e o segui. Assim que cruzamos a porta e dobramos o corredor, o som das vozes sumiu, mas o nó no meu peito continuava ali.
Caminhamos em um silêncio pesado até os fundos do laboratório de biologia, um canto esquecido da escola onde ninguém costumava pisar no primeiro horário. O ar frio da manhã ainda estava preso nos tijolos da parede.
— Meu nome é David, a propósito — ele disse, quebrando o silêncio e finalmente me encarando. — Mas acho que você já sabe.
— Lorie — respondi, por puro reflexo.
— Eu sei. — A expressão dele perdeu qualquer resquício do garoto popular. O peso no olhar dele não combinava em nada com o uniforme do colégio. — Eu precisava te encontrar. Ontem à noite, naquele sonho do prefeito… não consegui sentir sua âncora. Como você chegou lá? Quem é o seu mestre? Quem te ensinou a abrir as portas?
Eu o encarei, dividida entre a confusão absoluta e a defensiva.
— Âncora? Mestre? — franzi a testa, cruzando os braços e recuando um passo. — Eu não tenho mestre nenhum. Eu nem sei do que você está falando. Eu só... tenho sonhos lúcidos, desde pequena. Fui aprendendo a controlar as coisas sozinha no meu espaço. Eu estava lá, vi uma porta estranha no meio da rua, abri e acabei naquele corredor de portas infinito. Depois entrei num portal e caí onde aquelas pessoas estavam.
David ficou atônito. O brilho de autoridade nos olhos dele evaporou, substituído por um choque silencioso e genuíno. Ele deu um passo atrás, passando a mão pelo cabelo de forma nervosa.
— Você está me dizendo que encontrou o corredor sozinha? E ainda por cima entrou num portal de sonho sem ser completamente esmagada? — ele perguntou, a voz baixando para um sussurro incrédulo. — Você é... uma Desperta Natural. Igual a—
Ele parou no meio da frase.
— Igual a quem? — eu disse. — David, dá para parar de falar em códigos?
Ele sacudiu levemente a cabeça, como se estivesse arquivando aquilo para depois.
— Não é importante agora. O que importa é que você está em perigo e eu preciso que você entenda o básico antes que a situação piore. — Ele encostou na parede de tijolos e respirou fundo, organizando os pensamentos. — O mundo que você chama de sonho, aquele lugar onde você tem controle absoluto, é o seu espaço pessoal. Uma bolha da sua própria mente. Mas existe uma camada abaixo disso. Uma dimensão que conecta todas as mentes humanas no fundo, sem que ninguém perceba. Nós chamamos de Sinapsis.
Eu franzi a testa.
— Conecta como?
— Pensa assim — ele disse, apontando para a parede. — Cada pessoa é um quarto fechado. Você mora no seu quarto, eu moro no meu, todo mundo mora no seu. A maioria das pessoas nem sabe que existe um corredor lá fora. — Ele apontou para a porta do laboratório. — Sinapsis é esse corredor. Ele sempre esteve lá, ligando todos os quartos, mas a humanidade esqueceu que ele existe. As pessoas comuns, que nós chamamos de Tolos, vivem a vida inteira dentro dos próprios quartos sem nunca chegar perto da porta.
— E eu abri a porta — eu disse devagar.
— Você não só abriu. Você controlava o seu espaço sozinha, sem nenhuma instrução, sem âncora, sem mestre. — Ele me olhou com aquela expressão de choque contido que eu já estava aprendendo a reconhecer. — Isso não deveria ser possível, Lorie.
Eu deixei aquilo assentar por um segundo.
— E os homens de terno? — perguntei. — Eles também sabem que o corredor existe.
A expressão dele escureceu imediatamente.
— Eles se chamam de Unidade. — A voz baixou, ficando mais séria, mais cuidadosa. — Acreditam que a individualidade foi o maior erro da humanidade. Que cada pessoa trancada no próprio quarto é uma tragédia. Querem forçar todas as mentes a se fundirem de volta numa consciência coletiva, sem identidades, sem memórias individuais, sem ninguém sendo ninguém.
Eu senti um frio subir pela espinha que não tinha nada a ver com o ar preso nos tijolos da parede.
— E para fazer isso precisam destruir as portas — eu disse.
— Precisam destruir os Selos — ele corrigiu. — Cada porta que você viu no corredor é o Selo de uma pessoa. A barreira que mantém a mente dela individual e protegida. Quando a Unidade destrói um Selo...
Ele não terminou a frase. Não precisou.
— O prefeito — eu sussurrei.
— Sim… — ele confirmou, a mandíbula tensa. — Ele era corrupto. Desviou verbas, destruiu vidas. Mas quem expôs tudo isso foi a própria Unidade, eles vazaram os documentos. Não por justiça. Para gerar caos. — Ele pausou, os olhos fixos no chão. — Por que fazem isso, ainda não sabemos ao certo. Mas esse é o padrão deles. Sempre uma figura pública, sempre um escândalo plantado, sempre o caos que vem depois.
O silêncio que caiu entre nós pesou de um jeito físico. Eu apertei os braços ao redor do próprio corpo, sentindo a ficha descer devagar e dolorosamente.
— Eles me viram — eu disse, a voz saindo mais pequena do que eu pretendia. — Sabem que eu existo. Mas por que eu? Eu não sou ninguém. Não sou Sinapster, não sou nada. Por que a Unidade estaria interessada em mim?
David ficou em silêncio por um momento. E esse silêncio foi mais assustador do que qualquer resposta.
— Não sei ao certo — ele admitiu. — Mas você apareceu no corredor sem âncora, sem mestre, sem nenhuma explicação racional. Sua energia estava transbordando de um jeito que não deveria ser possível. Para a Unidade, isso é uma anomalia. — Ele me olhou direto, sem tentar suavizar. — E anomalias, na experiência deles, ou são uma ameaça a ser eliminada ou uma ferramenta a ser estudada. Você viu o que fizeram com o prefeito. E ele não havia feito absolutamente nada que justificasse aquilo aos olhos deles.
— Faz duas noites que eu fecho os olhos e é só escuridão — eu disse, trocando de assunto antes que o pânico me engolisse de vez. — Nada. Nem o meu espaço, nem nada. Isso tem a ver com tudo isso?
David desviou o olhar para o chão.
Eu estreitei os olhos.
— foi você! — eu disse indignada.
Ele levantou as mãos numa rendição relutante.
— Foi para te proteger! — ele se defendeu rapidamente. — Você estava brilhando feito um farol no meio da noite. Sua energia estava transbordando. Quando te mandei de volta pela fenda, fiz uma dissipação forçada do seu REM e interrompi o fluxo que te permitia acessar Sinapsis. Sem ele, você não sonha e, mais importante, some completamente do radar deles.
Um misto de alívio por não estar louca e indignação por ter sido manipulada borbulhou no meu estômago.
— Então me deixa assim — eu disse, com uma praticidade que surpreendeu até mim. — Tudo bem. Melhor ficar no escuro e ser invisível do que ser caçada por psicopatas de terno.
David fez uma careta.
— Não posso, Lorie. Todo mundo precisa sonhar. É como uma válvula de escape para a mente. Se eu não liberar o seu fluxo de REM, a pressão reprimida vai começar a causar alucinações, falha cognitiva e, em pouco tempo... — Ele hesitou, como se estivesse pesando se deveria terminar a frase.
— Você morre.
O chão de concreto do corredor pareceu se desfazer embaixo dos meus pés. A minha bolha de segurança havia estourado de vez.
— Então conserta isso — exigi, o pânico rachando minha postura contida.
— Vou, eu prometo — ele assegurou, o tom firme tentando me ancorar. — Mas preciso liberar o seu fluxo e estar lá para erguer um escudo em volta da sua porta antes que a Unidade chegue até você primeiro. E para fazer isso preciso te encontrar em Sinapsis.
— Mas eu não consigo acessar meus sonhos. Como vou te encontrar lá?
Ele começou a brincar com a alça da própria mochila, perdendo toda aquela postura de antes. O garoto experiente de repente parecia apenas um adolescente terrivelmente desconfortável.
— É... um pouco complicado. Existem bilhões de portas em Sinapsis. Tentar encontrar a sua específica seria pior do que procurar uma agulha num palheiro. — Ele evitava meus olhos a todo custo. — Mas a localização das portas no corredor é influenciada pela proximidade física dos corpos no mundo real. Para que a minha porta apareça exatamente do lado da sua...
Ele fez uma pausa angustiada, como se a frase inteira custasse a sair da garganta.
— Eu vou precisar... dormir com você.
O silêncio que caiu sobre nós foi absoluto, quebrado apenas pelo som distante do sinal tocando para o início da primeira aula.
Eu o encarei, os olhos arregalados, recuando instintivamente.
— É o quê?! Que papo esquisito é esse? — disparei, completamente desconcertada, cruzando os braços com força.
— Fisicamente! No mesmo ambiente! — ele se apressou em consertar, falando rápido e atropelando as palavras para acabar logo com a explicação. — No mesmo quarto.
Encostei a cabeça na parede de tijolos e fechei os olhos, soltando um suspiro longo e exausto.
Há dois dias, a minha maior preocupação era continuar sendo o cenário de fundo da minha própria vida escolar. Agora eu estava na mira de um culto interdimensional assassino, minha sanidade mental dependia de voltar a um lugar absurdamente perigoso, e o garoto mais popular da escola acabava de me informar que teríamos que fazer uma festa do pijama forçada para eu não morrer dormindo.
A minha vida pacata e invisível realmente havia acabado.
Fale com o autor