Sinais Discretos

3 Capítulo Final - Os Nossos Sinais


Notas iniciais
Trago o desfecho da história entre Ulisses e Carlos. Fiz com muito esmero para que conseguissem praticamente enxergar o sentimento de ambos, vejam até o final. Boa leitura.

O andrógeno reparou melhor, realmente acabou ferindo os sentimentos de quem outrora beijava, descompôs seu rosto com olhar de reprovação da irmã e ainda mais quando notou uma, duas e tantas outras lágrimas escorrendo pelo seu rosto. A garotinha que ele jurava de pés juntos estar à parte da situação toda também vinha palpitar.

A sequência dos seus temores, misturadas ao desejo e a culpa pelo momento passado formavam um gatilho contra seu peito. Helena já tomou o rumo de seu quarto, nitidamente decepcionada com seu irmão. Nada do que foi antes voltaria a repetir-se no futuro, isto era claro, ninguém poderia agir naturalmente como se nada tivesse ocorrido, as brincadeiras e inclusive os passos dados na modesta casa seriam diferentes se nenhuma atitude fosse tomada por Carlos.

Com a “bomba” nas mãos ele tinha de tomar alguma atitude. Poderia perder o afago, mesmo que brincalhão, de Ulisses. Definitivamente ele gostaria de provar mais uma vez daquilo...

***

SOM DE RANGER DE PORTA.

Carlos tomou a iniciativa, andou até o quarto do irmão de consideração e abriu a porta, esperava ser mais cauteloso, porém a porta não colaborou com sua intenção.

– Seria bom se você colocasse um óleo aqui nas dobradiças não é mesmo? – seguido de risos um tanto forçados, tentou quebrar o clima que pesava sobre suas cabeças.

Com um olhar furtivo, Ulisses retratou o desprezo pelo bom humor do outro e o silêncio deu todas as respostas que ele almejava junto à porta. Ele estava deitado, olhando fixamente para o teto, seus olhos estavam levemente marejados, de raiva ou de algum sentimento não muito nobre. Suas mãos, pousadas sobre o abdômen e seus dedos entrelaçados não revelavam muitas coisas, certamente ao não responder apenas esperava fugir de outro embate.

Percebendo tudo isso Carlos entrou, mesmo sem ser convidado diretamente, trancou o quarto já que a chave sempre esteve na porta. Sentou-se na “ponta” da cama de maneira lenta mirando o chão. O quarto tinha um cheiro bem particular, o mesmo cheiro do dono, algo como colônia Lavanda misturada com outro aroma indefinível e amargo. Fez essa observação inoportuna para puxar um assunto, novamente sem sucesso. Para por fim a essa luta para glorificar aquele que ficasse mais tempo de mal do outro, Ulisses disparou:

– Veio despejar a sua auto-piedade em mim?

Rebateu após um breve momento:

– Não se trata disso... As coisas nunca foram assim tão complicadas para nós dois. Na sala cara? – tom de voz incisivo – Olha não sei bem o que esperavas, percebi pelas coisas que você tinha anotado que estavas sufocado há muito tempo e eu acho que te devo desculpas.

Ulisses armou em seu rosto uma expressão de espanto. Continuou a escutá-lo.

– Desculpa mesmo por sempre ter batido na mesma tecla em relação a você, não consegui ser de outra maneira... – foi interrompido.

– Espera. Primeiro: em que tecla você vinha batendo? Segundo: que maneiras? Não consigo compreender onde queres chegar.

– Ora, viver te chamando de ogro, grandalhão, nosso convívio não saia disso que é o puramente convencional. É estranho falar assim depois daquilo, só que gostaria mesmo de te olhar somente dessa maneira: O irmão postiço, anti-social que parece um ex-presidiário. – Ótima maneira de voltarem a se falar.

– Tudo bem... Vamos acabar com isso aqui. É adorável da sua parte Carlos – Ulisses deu uma pequena pausa para engolir um possível choro – Vir aqui e ter esse cuidado comigo depois do meu surto, e... Nunca mais vai acontecer nada parecido “tá” bom... Eu sonhava com bem menos que isso e estou feliz pelo que ocorreu, não posso pensar em algo a mais, eu to vendo que é impossível. Não se preocupa por que não deixamos de ter essa nossa relação legal, muito menos de sermos amigos e... – continuaria na frequência de uma metralhadora.

– Para de me atropelar cara! Vim aqui pra te falar que do mesmo jeito que eu amo a Helena, mesmo recebendo tão pouco em troca – uma criança deveras não é muito boa em expressar sentimentos complexos – Sou capaz de te amar até mais do que você espera, as atitudes diárias e até as suas ironias não soavam como ‘Eu te amo’, só que eu vejo que essa foi a maneira de você se expressar... Sendo assim eu também poderia dizer um simples ‘te amo’ mas prefiro dizer que aceito você e esse seu jeitão.

Era impossível dizer um não.

O grandão ficou descomposto, suas sobrancelhas subiram em sinal de espanto, persistiam em entregá-lo. Não restou muito tempo para os demais sinais de surpresa, motivos não faltavam, pegando um dos pés descalços do irmão Carlos quis demonstrar praticamente o que havia dito anteriormente na sua última frase.

Encostou seus lábios nos pés dele e com uma agilidade sutil foi subindo os beijos pela perna, os músculos de Ulisses contraiam-se involuntariamente tamanha era sua excitação, saindo da diagonal da cama e apoiando-se sobre os joelhos e mãos foi beijando o corpo de Ulisses que Carlos achou o modo de retribuir. Até terem-se um de frente para o outro...

– Eu sabia que se fosse desse modo você iria ficar estático. Eu vou continuar assim até você falar que não quer. – com um risinho no canto do lábio.

E foi isso que aconteceu.

Com o corpo sobreposto e as barrigas grudadas, em uma posição bastante privilegiada, foi explorando suavemente cada ponto do pescoço do amado, mordiscando sua orelha esquerda, depois a direta e voltando para o pescoço intercalando com beijos no queixo em um ritmo bem ameno. Tinha de aproveitar o lapso de vulnerabilidade do grandão.

As mãos dele estavam acariciando os cabelos curtos de Ulisses, logo depois deslocou uma delas para a face do rapaz e botou dois de seus dedos na boca dele, umedecendo-os e passando em seus lábios, com aquelas unhas pintadas de preto.

Lambia o lóbulo de sua orelha quando sussurrou:

– Olha... Como eu gostaria de filmar seu rosto.

Falava da cara que Ulisses fazia, com os olhos parcialmente abertos, como quando o sono não chega, mordia a parte mais macia de seu punho fechado. Um observador diria se tratar de uma dor suave. “No sofá era pura lascívia. E agora?” Dizia Carlos envolto em risos sem som.

O grandão envolveu Carlos com um dos braços e pôs fim ao rodízio beijando-o fortemente em uma espécie de ato de reação, isso quase que priva o outro de qualquer resquício de ar, “Calma você vai me matar.” Não foi ouvido, Ulisses persistiu. O tempo que passavam na cama foi progredindo, entre carícias e beijos, até que pelo andar das coisas tudo acabou ocorrendo bem.

***

As colchas da cama ficaram reviradas e aquele cheiro, o anterior, parecia estar ainda mais forte. Algo muito especial ocorrera, nenhum dos dois falava nada, lânguidos do jeito que ficaram não tinham de constatar o óbvio. Realmente amavam-se.

– Que tal eu perguntar se foi bom pra você? Já vi isso em um filme. – modo irônico ligado.

– Faz isso que eu juro que te castro. – Carlos disparou em um tom jocoso.

Carlos ia se levantando devagar, porém foi impedido pelo abraço do maior: “Preciso ver como a Helena está.”

– Ela está muito bem.

Esqueceram até mesmo da existência de Helena. Bem, de certo ela estava no quarto brincando com o ursão cor de rosa que Ulisses havia ganhado para ela em uma barraca de tiro ao alvo, isso quando ainda saiam, ambos conformaram-se em supor isto. Agora até mesmo pensavam unidos.

– Desculpa eu ter lido teu diário. – deu um selinho nele, repousavam lado a lado.

– Ei! Espera lá... Não era um diário, era apenas uma agenda “tá” legal.

– Ah sim. Claro, uma agendinha para a moça não é? Faça-me o favor Ulisses.

–...

– Não fica vermelho não, eu adorei as coisas que você guardou lá, mas assim... Aquele papel de bala que você grudou nele pegou com alguma pinça especial? Tipo você estava sendo meu stalker? Nunca tive um.

– ...

– ...

– Ainda leu a parte que escrevi que, em um dia, me masturbei doze vezes pensando em você? – falou com um olhar sexy e maquiavélico.

– COMO ASSIM? Foi naquele dia que você ficou o dia inteiro trancado aqui? Meu Deus além de staker você é um pervertido! Dá licença. – puxando as cobertas para junto de si e levantando-se da cama. – Olha, agora será apenas uma vez por semana senão enjoa... Me larga e não puxa o cobertor seu...

– Não! Espera lá amor. – vestindo a cueca – É mentira, foram menos de oito vezes... Eu juro!

E continuaram brigando dentro do quarto. Ulisses não deixaria Carlos vestir-se em um tempo hábil definitivamente. O padrasto iria regressar, de onde quer que ele estivesse esses dias, para deparar-se com aquela discussão dantesca.

– Não! Espera... Vamos repetir só um pouquinho?

– Por que você não repete usando sua “agenda”?

Helena escutava tudo atrás da porta, com um sorriso de orelha a orelha, e agarrada ao seu urso. Realmente certas coisas nunca vão mudar. Ela adorava esses dois de qualquer maneira.



Notas finais
Esse foi apenas o começo de uma relação, espero que tenham gostado de acompanhar. Revisei umas cinco vezes e quero comentários (nossa que mal). Agora somente um pequeno (GRANDE) extra sobre eles. Sim! Ainda tenho história sobrando para os dois. Até minha próxima fic desde já um grande abraço.