Sinais Discretos
1 Capítulo 1
***
Olhos azuis olhavam se a água já havia fervido. As unhas negras abriam o pão para espalhar a manteiga – o visual no mínimo diferente já era sua característica. Carlos preparava o café da irmã, pão com manteiga e um café com leite, tudo muito simples é claro.
Deslizou até o quarto com a caneca de café e o pão dentro de um pratinho. Colocou ao lado da cama dando um beijo na testa da irmã, que assistia alguma banalidade infantil. Sorriu e foi embora. A casa estava branca com aquela claridade matinal que penetrava pelas janelas, bem capaz de cegar, somente isso dava um ar requintado aos cômodos e a vida simples que levavam.
As vezes Carlos pensava um pouco alto. O garoto não gostava daquela casinha na qual vivia com Helena, Ulisses e o seu padrasto. Sua mãe ainda era uma figura muito presente naquele local. Era como se conseguisse observar seus olhos em cada um dos anjos de porcelana da sala, lembrava o quanto ela os limpava, quando ainda nem desconfiava estar com câncer. Lembrava também que seu olhar falava mais alto do que todo aquele silêncio no qual viviam. Eram bons tempos...
Só uma coisa, ou melhor, duas, agradavam-lhe, tirando o som da televisão vindo do quarto de Helena, tudo era extremamente calmo por lá. De manhã a luz penetrava na casa e iluminava tudo, o que na noite só era iluminado pela luz forte vinda do letreiro de neon da lan house perto da casa. Os rostos e olhares das pessoas lá dentro tomavam uma dimensão especial.
Três “estrondos” vindos da porta:
– Abre! Por favor! – Nestas horas que Carlos sabia que Ulisses não tinha consciência da sua força.
– Calma lá, que sou só um! – Gritou rispidamente.
– ... Argh! – Um grunhido pavoroso veio da porta, entregando o desconforto de Ulisses. Carlos riu deliciosamente e continuou com sua habitual leitura, interrompida pelo café da “manhã” – dez horas – da irmã.
Se não fossem as batidas animalescas, insistentes grunhidos e as reclamações mais idiotas que já teve o desprazer de escutar, Carlos não teria aberto a porta de forma alguma. Obviamente, queria ver a agonia do seu irmão de consideração. Achava engraçada a idéia de que o grandalhão fizesse as coisas daquela forma. Foi até a porta e abriu.
– Tava com vontade de mijar! Andrógeno maldito! – “Belas palavras.”, pensou Carlos consigo mesmo, enquanto olhava-o correndo para o banheiro.
– O que estava fazendo? – olhou com raiva para Carlos – Responde seu magrelo idiota!
Cinicamente Carlos riu, jogou-se sobre o sofá e pegou seu livro. Ulisses ainda admirava com raiva o rosto do garoto de óculos, mas como já tinha comido na rua sentou no outro sofá e pôs-se a contemplar a rua. Podia ser vista da varanda modesta.
“Quer que eu saia daqui?”, foi frase que Ulisses usou para desviar a atenção de Carlos da leitura. Raro feito. “Não. Ter você por perto é legal. Gosto de ver seu rosto irritado.”
Ulisses ficou desconcertado, porém continuava encarando o outro menino, este já havia largado o livro. Por algum motivo gostava de esbarrar seu olhar claro e azul no olhar tímido e negro de Ulisses. “Você está mentindo para mim?”, perguntou Ulisses.
– Só se você gostar. Isso entre nós é uma grande brincadeira, você sabe disso. – deu uma parada e olhou para o lado. – Até por que... nunca fizemos nada. – disse enfaticamente, querendo fechar o assunto.
Carlos podia mentir a vontade para Ulisses, tinha o poder de dissimular, já o grandalhão sempre se entregava, suas sobrancelhas o entregavam. O “desenho” que elas faziam sobre os olhos escuros de Ulisses mudava quando ele começava a contar uma inverdade.
– É. Talvez você esteja certo não é mesmo? Você mudou muito depois da morte da madrinha.
Carlos nunca havia entendido por que Ulisses nunca aceitou sua mãe como legítima. Tudo bem que na prática ela era somente sua madrinha, foi criado como filho desde os três anos quando sua mãe o “entregou”, sendo ele um ano mais velho que Carlos. Quem sabe ele a amasse como um filho, agora, a simples palavra “Mãe” nunca foi pronunciada por ele. Uma coisa bem inusitada era que, Ulisses havia chorado muito mais que o próprio filho legítimo com a morte da madrinha.
“Você está pensando em que?” Com um risinho Carlos respondeu-lhe que não saia de sua cabeça o dia anterior. Ulisses viu um rato no quarto, estava com Helena, ao invés de proteger a garota saiu correndo de cueca – algo habitual dentro de casa. Escondeu-se justamente debaixo das “asas” de um garoto bem menos robusto que ele. Naquele momento seus braços envolveram o garoto franzino, e pareciam que dele nunca mais se afastariam, estavam tão juntos que após uma cômica dancinha de “Me solta!” pararam juntos agarrados, não com os rostos colados tendo em vista a diferença de tamanho, Ulisses curvou sua cabeça lentamente colocando a mão direita atrás da nuca de Carlos, aproximou seus lábios do rockeirinho totalmente entregue...
O momento era terno, mas ao desviarem o olhar um do outro viram a pequena Helena, parada junto à porta do quarto, rosto indiferente, para avisar: “O rato saiu do quarto, pode voltar Ulisses!” O clima desmanchou. Na verdade Carlos gostava da idéia, de que aquele moreno grandalhão, sempre o procurasse quando sentia medo, mas considerou aquilo uma histeria momentânea... Nisso ele gostaria de crer.
– Então você está rindo disto? Bem... Não tinha rato no quarto – longa pausa – Tanto que a Helena não gritou. Na verdade, era só para te abraçar. – Depois da indireta ele sentou ao seu lado...
Era por isso que o clima estava um pouco mais debochado. Horas antes, ainda no dia já passado e do próprio episódio do rato, ocorrido a noite, algo havia assustado o garoto magro de olhos claros. Com Ulisses ao seu lado, ele contou o que havia descoberto.
***
É um hábito arrumar tudo antes do alcoólatra do seu padrasto chegar. Era fim da tarde, o sol se pondo deu a cidade um clima inimaginável, o laranja tomou conta de tudo, asfalto e casas, davam para serem observados casais de mãos dadas na rua, em meio a um cenário belo. Quem diria que a cidade renderia espetáculos assim. A viela na qual a casa se situava também estava tomada pelo laranja, bem bonito por sinal. E por conseqüência aquela coloração entrou na casa.
Helena assistia a um filminho, a garota não saia muito. Não era uma infância tão emocionante quanto gostaria ela ou mesmo seus irmãos, imagino. E Carlos arrumava a casa, primeiro a bagunça da cozinha, seus livros estavam sobre a mesa na qual sempre estudava. Logo em seguida olhou para seu quarto, estava bem arrumado, somente colocou, com o pé, uma camisa que estava no chão embaixo da cama.
Ele gostaria de ter saído da casa nesse dia. Contudo, nunca deixaria Helena sozinha perto da noite e também não tinha com quem ir para desfrutar de tais coisas. Contentava-se em olhar o por do sol e imaginar coisas a mais...
Foi saindo da varanda, na qual perdeu seu olhar, que “entrou” novamente em casa. Verificou como Helena estava e em seguida voltou aos afazeres. Entrou no quartinho de Ulisses, como não havia espaço na casa, o garotão de própria vontade decidiu ficar no quartinho passando a cozinha. A porta estava aberta e como objeto para impedir que o vento deslocasse a mesma, um peso para braço. Tudo estava como um ninho de rato gigante, roupas e muitas embalagens de porcarias sobre a cama. O rapaz ficou com tanto ódio do seu irmão postiço que quase ateou fogo ao quarto.
Enfim... Acabou arrumando tudo de maneira lenta, devido ao nojo. E foi pegando uma velha meia que retrucou consigo: “Agora acabou!”. Assim que deu um passo para trás pisou em caderno de capa escura. A CURIOSIDADE O DOMINOU. Enquanto a luz laranja, amarela, seja como for, ia sumindo para dar lugar a tonalidade mais sombria da noite... E foi sentado na cama, de costas para a janela que ele leu o conteúdo do caderno de capa mole, quase solta.
Seus olhos estavam presos naquilo, simplesmente folhas amassadas, pareciam lacrimejar, mas era o mero efeito da adrenalina de folhear papeis que não eram seus. Tratava-se de várias anotações, garranchos para ser mais exato. Passava bem longe de um diário ou uma agenda, assim como passava bem longe de ser um “caderno de besteiras”. O que estava escrito: algumas coisas tinham data em outras não, alguns desenhos, descrições, pensamentos e um papel de bala grudado em uma das folhas. O encanto exercido por tal manuscrito era fascinante, claramente se não houvesse se interessado por tal coisa o deixaria onde o achou. No chão.
Foi por ter percebido tratarem-se dos reais sentimentos de Ulisses, que o rapaz sentia o dever de lê-lo, mesmo que isso representasse uma posterior desgraça. Cegamente foi passando as folhas até que caiu em uma folha que parecia exemplificar um devaneio, imaginou ele.
“HOJE PERCEBI... ESTOU APAIXONADO. De alguma forma é assim que me sinto. Sei lá... é tão irreal, é tão idiota e desnecessário esse sentimento. Sinto uma puta falta da madrinha, ela me entenderia. Sempre estou buscando uma desculpa para tocá-lo, hoje me senti um otário por isso. Tomara que essa coisa morra dentro de mim.”
“Tocá-lo” e não “tocá-la” isso impactou a mente de Carlos. Pensou em abandonar o caderno no chão e ir ver TV com a irmã. Acabou não fazendo isso, estava muito curioso, a situação era mais que oportuna e mais que instigante, nunca pensava em ler algo assim vindo daquele troglodita, por que para ele Ulisses era um garoto problemático. Gênero: de poucas palavras. Gosta de escutar músicas desconhecidas, cultua personagens de quadrinhos e faz suas atividades naquele cubículo. Precisou ler mais. Saber um pouco mais a respeito daquele desconhecido que para todos os fins era seu irmão mais velho.
“Quando estou escutando música penso em seu rosto e tenho vontade acariciá-lo, tocá-lo, sentir com meus dedos sua delicadeza, tirar dele até a última gota de paixão que possui. Quero tê-lo não só aqui comigo, acho que quero ser um só, o desejo de uma maneira carnal . É demais achar que se interesse por mim. Sei como sou. E estou me dando conta do que sou, MAS QUEM SABE OLHE PARA TRÁS E ME PERCEBE, não sei o que faria nessa situação.”
Achou graça ao ler:
“Que grande viado eu sou... (palavras sem sentido) comprar um caderninho para desabafar. Que coisa imbecil da minha parte! Idiota... mil vezes idiota.”
Outra delas:
“Foi algum dia que percebi essas coisas estranhas vindo pela minha mente. Sempre ao meu lado, sempre ao meu lado, rindo de mim. Estava presente em todos os momentos, dizia quem eu devia espancar na escola quando eu contava que me chamavam de “grande idiota”, na escola também, apontava com quem eu devia apenas conversar em tom intimidador. Foi com ele que aprendi que talvez os punhos não tenham tanta coisa boa quanto o diálogo. Também me fez conhecer essa palavra. Dava a mão e dizia com leve sorrisinho: “Pronto. Tudo bem agora.” Chamava de panaca e otário quem eu detestava. Mordia os lábios quando eu contava uma piada sem graça. Achava graça quando eu perguntava coisas absurdas. E chegou a me arrancar risos quando me denominou de ‘seu troglo... Enfim, sei que é estranho, mas como dizem por aí, tenho medo de me magoar. Não com ele, só com a própria situação mesmo. Acho até que a Helena ficaria feliz em saber disso. Foi a única para quem eu contei além das paredes do meu quarto e esse caderninho ridículo, e sei que ela guardou esse segredo minuciosamente em um canto especial do sorriso que abriu quando lhe contei. É... ESTOU APAIXONADO PELO CARLOS.
Isso era tudo que o rapaz queria ter lido...
Notas finais
Revisei duas vezes, mesmo assim podem haver alguns erros. É minha primeira fic aqui, a quem leu muito obrigado e comente por favor. Pretendo dar continuidade a história com mais um ou dois capítulos.
Desculpe qualquer erro. Até a próxima.
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