Sinais Apaixonados
3 Silêncio solitario
Anna's POV
Oaken me sorri como todos os dias. Tenho a impressão que ele fica me esperando de longe, mas não tenho certeza. Me cumprimenta, cumprimento de volta. Como todos os dias, passo o trajeto de casa à faculdade lendo. Comunicação Social. Tantos cursos para um surdo, fui escolher logo o mais difícil. Comunicação sempre foi algo importante para mim. Vivo num mundo diferente da maioria das pessoas, mas não aceito essa exclusão. Quero entender e ser entendida, quero que meus amigos surdos também sejam incluídos e compreendidos. Quero deixar de ser um estorvo. Para ir atrás do meu sonho tive que aprender a pensar como um ouvinte, mesmo me comunicando como uma surda. Espero um dia fazer o implante coclear, mas para isso preciso ser avançada em leitura labial (meu Deus como odeio isso!) preciso saber falar e pensar como um ouvinte e isso é muito difícil quando se fala e se pensa como um surdo. Por toda minha vida, a comunicação funciona dessa forma: crie um quadro, depois vá ao assunto. Não existe flexão verbal, não existem firulas. Formamos o quadro, vamos ao assunto. Ouvintes não entendem bem como formular frases sem as devidas flexões, mas funciona mais ou menos assim: “Vamos ao parque hoje? Podemos comer um lanche antes.” vira “VOCÊ JUNTO EU PARQUE HOJE? ANTES LANCHE COMER PODE?”
Na quinta série decidi que não queria mais estudar em escolas especiais. Queria me virar como uma pessoa normal para deixar de ser um fardo, então tomei aulas com minha irmã de como pensar como ouvinte. Com papel e caneta, consigo me comunicar bem com qualquer ouvinte. Nas aulas, tenho uma intérprete ( graças a Deus pelas leis de inclusão) De qualquer forma, estou progredindo. Melhores notas, melhores trabalhos, um artigo publicado. Queria que as relações pessoais e não só a faculdade estivesse nesse pé, mas meu fracasso em ter amigos, namorados e até colegas é palpável. Minhas tentativas de iniciar conversas fracassam e são risíveis. Ninguém me entende – ironicamente, são alunos de comunicação que não sabem se comunicar, mas a culpa é minha, ninguém é obrigado a entender uma língua desconhecida. De 30 alunos, apenas 2 ou 3 tem um parco contato positivo comigo (eles se esforçam demais, sei que é muito trabalho para uma pessoa incômoda como eu) mas em compensação Aurora e sua turma (dez ou doze alunos) realmente me ignoram. Queria que apenas me ignorassem e não tentassem fazer da minha vida um inferno, como é o habitual. Que bom que sou praticamente invisível. Esse mês estou estudando horas extras todos os dias. Estou preparando um artigo especial sobre a importância da comunicação na inclusão de deficientes como um todo. Muita, muita pesquisa e entrevistas. Pego o ônibus meio vazio e uma pessoa se senta ao meu lado. Quanto tempo isso não acontece! Ele está falando comigo quando mostro o aparelho auditivo, praticamente um enfeite, não ajuda em nada. Ele se levanta e sai, sem explicação. Olho seus lábios “pena... nem tão bonita... não vale a pena... surda”. Tem mais coisa, mas meus olhos aguaram e não pude ler mais. Como sempre, desprezo. Minha culpa. Não devia ter nascido surda. A tristeza e a raiva me enchem como vapores enchem um quarto e, assim como vapores, se condensam num lugar com quina e formam uma gota que escorre num buraco pequeno. Uso um lenço para secar a lágrima que sai do meu olho esquerdo.
Sinto que sou um fardo. Sempre fui e sempre serei, para todos menos Elsa. Elsa me ama e eu a amo, com toda a força, com toda a pureza. Somos iguais. Ela me trata como ouvinte, eu a trato como surda. Ela é minha força, minha companhia, minha melhor e única amiga. Elsa não me permite desistir então, no dia seguinte Continuo com as pesquisas e, ao entrar no ônibus, Oaken me sorri como todos os dias. Me aponta um rapaz loiro com um livro de Linguagem de sinais. Faço um “ok”. Porquê Oaken me mostrou ele? Porquê alguém aprenderia Linguagem de Sinais sem ter obrigação com algum membro da família? Será que Oaken queria dizer que ele teria um amigo ou irmão que seria minha companhia no futuro? Não entendo. Muitas perguntas. Passei o dia encafifada com isso e quando chego em casa, Elsa manda eu parar com essa negatividade, que ninguém me vê como um peso além de mim mesma, que eu tenho que estar aberta a novos amigos. Prometo que vou tentar quando entro no banheiro, tranco a porta e me preparo para o longo banho que mereço.
Na verdade, o rapaz pode não ter significado nenhum e eu estou apenas inventando demais. Ele pode estar fazendo um trabalho. Não está em comunicação, porém seu prédio é o mais afastado — Biológicas — então ele pode... Não importa. Não nos conhecemos e provavelmente nunca nos conheceremos. Não vou me aproximar dele, pra que incomodar mais uma pessoa com meu problema? E ele é bonito, não deve querer nada com ninguém como.. eu...
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