Sinais

14 Músicas e Conversas Trêmulas


Notas iniciais
Obrigada fran_silva, heywtl, Isah Doll e Peter pelos comentários maravilhosos ♥ Obrigada Nana e Okaasan por favoritarem ♥ Obrigada também a Maria Zennit pela linda recomendação ♥

Ícaro

O resto do dia foi... Foi estranho. Eu estava tentando manter a calma, mas era difícil. A situação do suco pode parecer idiota, mas foi bem pesada para mim e era difícil racionalizar bem tudo que eu tava sentindo.

Era só tão irritante quando alguém ficava na dúvida ou achava que eu não conseguia fazer algo. "Ah, você é surdo? Então não deve conseguir fazer isso, né?" Na maioria das vezes, elas escondem o pensamento com preocupação, com bondade, boas-intenções. Mas, ainda tá ali a ideia de que uma deficiência é uma sentença de incapacidade e anormalidade. Tá ali. E elas podem tentar esconder o quanto quiserem, dá para ver.

Eu queria não ter visto.

Quando eu disse que iria comprar, Mathias me olhou daquele jeito... Era o mesmo jeito que o Eric tinha olhado enquanto me puxava pelo mercado, e o mesmo jeito que tio Flávio olhava antes de mencionar aparelhos auditivos. Era um olhar que parecia dizer "você precisa entender que você é incapaz." De primeira, tentei me convencer de que tinha só imaginado. Que estava na defensiva por estar entre ouvintes e acabei imaginando coisas... Mas, aí, de repente, eu estava esperando o pedido ficar pronto e ele estava do meu lado.

E eu percebi que não tinha imaginado.

E perceber isso doeu.

Pelo menos não dava para surtar e ir embora de um lugar quando eu não sabia como voltar pra casa. Então, eu não surtei, bom... Pelo menos, não muito, acho. Não sei se minha reação foi boa, mas eu tentei ser o mais controlado possível, esperava ter conseguido.

Peguei o número da Samantha antes de voltar pra casa. Ela era divertida e via algumas séries que eu também assistia, acabamos conversando por horas sobre teorias para as próximas temporadas. Ela tinha aquele mesmo olhar hesitante, mas era legal. É estranho como até pessoas com aquele tipo de olhar podiam ser legais.

Mathias pareceu hesitar antes de descer do carro. Antes tínhamos combinado de que ele dormiria na minha casa, já que a mãe dele estava trabalhando e passar o final do aniversário sozinho não parecia nada legal. Mas, bom, com tudo que aconteceu hoje, acho que não estávamos mais tão animados para isso.

O clima entre a gente estava estranho.

Me joguei na cama depois do banho, pegando meu celular para jogar.

Foi um dia bom, exceto pelo grande elefante branco na sala.

Foi um dia bom.

Mas, eu seguia irritado. Não importava quantas horas boas tivessem passado depois, eu seguia irritado. E eu precisava tirar aquele sentimento de algum jeito.

Acho que era para evitar esse tipo de sentimento ruim que tantos surdos não gostam de namorar ouvintes. Todo relacionamento dá muito trabalho, mas relacionamentos entre pessoas de realidades diferentes... Dá trabalho de um jeito diferente.

Suspirei ajeitando meu camisetão do Pato Donald.

Alexia e eu abrimos mãos das roupas combinando antes dos dez anos, mas nunca abrimos mãos dos pijamas combinando. Eram nossa parte favorita. Ela estava com um camisetão do Pateta hoje e eu com o do Pato Donald. Eu tinha comprado o meu alguns números maior porque achava mais confortável. As mangas escorregavam um pouco pelo meu ombro e eu tinha que ficar sempre arrumando, o que era meio irritante, mas eu gostava mesmo assim.

O blusão ficava bem comprido então cobria o short de pijama velho e curto que eu tinha resolvido colocar simplesmente porque ficar sem short quando seu namorado vai dormir na sua casa... Não parecia a coisa mais confortável do mundo. Desejável sim, claro, mas não confortável.

Meu Deus, por que eu sou assim?

Ouvintes não fazem por mal, pensei lembrando do olhar de cão arrependido do Mathias logo depois do Eric e da Samantha terem saído da mesa. Não era por mal, eu sabia. Mas, isso não invalidava meu direito a estar com raiva.

"Você não pode controlar seus sentimentos, só pode controlar o que faz com eles." Lembro que o Davi me disse isso logo depois de eu ter voltado a sair de casa no ano passado.

Ergui os olhos reparando na porta do quarto abrindo.

Mathias entrou, o cabelo molhado caindo na testa e usando um pijama de marinheiro. Cerrei os lábios para não rir enquanto me levantava. Ele tava fofo. Gotas d'água escorriam pelo seu pescoço e algumas mechas escuras grudavam levemente no ombro. Ele ainda estava usando suas pulseiras de âmbar.

Abri uma das portas do guarda-roupa e tirei o presente que estava guardado lá atrás.

Ele seguia parado no meio do meu quarto parecendo desconfortável.

Quer saber? Estou começando a achar que o clima estranho tá vindo muito mais da parte dele do que da minha, nesse caso não tem nada que eu possa fazer. Que triste!

Ok, talvez fosse culpa minha também.

O que eu posso dizer? Odeio quem diz que eu devia usar aparelhos auditivos e quem, quando descobre que sou surdo, acha que não sei escrever. Odeio quem acha que sou melhor que outros surdos porque sei escrever português e quem fala que eu nem pareço surdo como se isso fosse algum tipo de elogio. Principalmente, odeio quem acha que eu ser surdo vai me impedir algum dia de fazer algo. Ah, e odiava mais ainda quando disfarçavam isso com boas-intenções ou com preocupação.

Tinha coisa pior do que disfarçar preconceitos com sentimentos de boas intenções e com um falso zelo?

Mas, eu também sabia que era difícil desconstruir essa visão de que quem tem alguma deficiência é incapaz, eu mesmo já pensei assim de deficiências diferentes da minha:

O Davi tem uma irmãzinha, Vanessa. Vanessa tem dez anos e catarata congênita além de ter perdido a audição devido uma bactéria no ouvido. Lembro de ter ficado com pena quando ele me contou sobre ela, de ter pensado como devia ser triste não poder ver e pensado várias frases sobre a cegueira dela que não eram nada diferentes das que já haviam me dito sobre ser surdo... E me senti mal quando percebi que estava fazendo exatamente o que ouvintes faziam comigo.

E sabe o que descobri quando a conheci? Descobri que Vanessa era umas crianças mais brincalhonas, livres e faladeiras que eu já conheci. A dupla deficiência não a impedia. Comecei a chamá-la de Hellen, por causa da Hellen Kellen.

Mas, chega a ser engraçado, não é? Como é tão natural na sociedade pensar que deficiências são empecilhos que até mesmo eu tenha pensado assim, tragicamente engraçado, no caso. A ironia era ridícula. Então, eu não podia julgar tão severamente quando agiam assim. Queria, mas não podia.

Cento e dezenove dias, repeti mentalmente algumas vezes, como se fosse um mantra.

Cento e dezenove dias.

Suspirei.

“Senta aqui.”

Mathias pareceu hesitar antes de vir se sentar perto de mim.

“Você ainda tá bravo comigo?” — perguntou, fazendo bico, parecendo tímido.

Revirei os olhos e tamborilei os dedos na perna um instante antes de falar.

“Meu tio vem aqui de vez em quando.” — Mathias uniu as sobrancelhas, acho que estava na dúvida de estar entendendo certo, antes que ele levantasse a mão para falar, eu continuei. – “Ele é o único da família do meu pai que aprendeu Libras. Ele é o único da família do meu pai que vem no meu aniversário e que me dá presentes de natal. Meus avós não queriam que meu pai aprendesse Libras, eles acreditavam quando os médicos falavam que isso atrasava o aprendizado.”

“Isso é triste.”

“Meu tio se esforça. Mas, ele muitas vezes tenta me convencer a usar aparelhos auditivos, ele acha que pra gente seria melhor. Às vezes ele também fala coisas...” — respirei fundo antes de continuar. – “E é normal mães ouvintes de crianças surdas tentarem ter contato com a comunidade surda e depois mudarem de ideia. É um choque de cultura pra elas, é um choque pra todo mundo ver que a maioria de nós não quer se adaptar ao mundo do ouvinte.”

“Onde você quer chegar?”

“Eu sei que tem coisas que vão te chocar. E sim, me irrita e eu tenho o direito de ficar bravo quando você age assim, mas...” — respirei fundo, buscando a melhor forma de explicar. – “Ok, isso vai parecer uma aula de sociologia agora. Mas, basicamente a sociedade tem coisas boas e coisas ruins e todo mundo que cresce nessa sociedade é socializado para ter os mesmos pensamentos bons e ruins. Então, quando a sociedade é C-A-P-A-C-I-T-I-S-T-A... Todo mundo é. Alguns são mais, outros menos, alguns se desconstroem de muitos preconceitos ao longo dos anos e mesmo assim seguem tendo alguns pensamentos preconceituosos de vez em quando porque isso é naturalizado. Não percebem os preconceitos que tem e passam adiante porque é naturalizado. É um processo longo pra se desfazer de todos esses pensamentos. Deu para entender?"

Mathias mordeu os lábios, cerrando os olhos.

"Tipo, quando todo mundo concorda que o Brasil é racista, mas quase ninguém se reconhece como racista?"

"Ou quando alguém fica em dúvida se eu consigo comprar algo sozinho sendo surdo." — completei e ele encolheu os ombros, ficando vermelho. Foi uma alfinetada necessária. — "Todo mundo tem alguns pensamentos racistas ou C-A-P-A-C-I-T-I-S-T-A-S porque isso foi naturalizado nas pessoas enquanto cresciam, foi naturalizado na sociedade por séculos, até as pessoas não perceberem o problema nesse pensamento... Elas têm que perceber e mudar, mudar é difícil, mas é jornada pessoal que as pessoas decentes vão buscar. E eu sei que você percebe o erro desses pensamentos na maioria das vezes... E que às vezes você não percebe e age de um jeito errado e demora a ver o problema. E eu fico bravo, mas eu sei que é sem querer. Eu desculpo porque sei disso e, porque sei que você vai se esforçar pra que não aconteça de novo. Entende?”

Mathias assentiu, parecendo uma criança que tinha acabado de ouvir um longo sermão sobre um tema muito complexo. Talvez eu estivesse dando um sermão complexo. Mas, era preciso, julgando por como ele era nervoso, se eu não deixasse isso claro, ele iria ficar voltando nesse assunto para sempre com medo de que eu resolvesse terminar ou sei lá.

"Você não costuma perdoar isso tão fácil." — ele observou, sabiamente.

Respirei fundo.

Não costumava mesmo. Mas, era mais fácil perdoar quando eu entendia de onde tinha vindo. E não tinha sido só de um processo chato de socialização e blábláblá. Eu demorei um pouco para raciocinar, mas percebi que não era tão diferente de quando meu pai decidiu se mudar para São Paulo e tio Flávio fez questão de vir morar com ele porque não sabia se ele ia conseguir se virar sozinho.

"Até onde eu contei, você me perguntou oito vezes se eu tava bem. Isso só o que eu contei! Você perguntou mais vezes depois! Você tava super protetor hoje e eu entendo o porquê. Sei que estava com medo da situação do shopping se repetir." - suspirei, observando-o ficar ainda mais vermelho e concordar com a cabeça. Parei de falar um instante para poder apertar sua mão rapidinho. — "Super proteção leva a isso, entende? Faz a nossa cabeça criar barreiras e achar que quem a gente protege não consegue fazer as coisas sozinho. Eu sei que foi só a super proteção e medo falando quando você foi lá. Além do mais, bom... Eu vi as perguntas que sua mãe fez quando eu conheci ela, eu vejo como seus amigos agem perto de mim... Eu entendo que você não tá cercado de pessoas com deficiências e que só começou a pensar mais sobre isso depois de me conhecer, então não é estranho você pensar assim" — suspirei e em seguida fiz careta. — "Não que isso justifique, claro. Apenas, me ajuda a saber porque você agiu assim e a desculpar."

Mathias mordeu os lábios, passando as mãos pelos cabelos e respirou fundo.

"Eu devia ter confiado mais que você consegue."

"Devia. E eu tenho o direito de ficar bravo, mesmo depois de já ter te desculpado. Eu te desculpei, eu continuo bravo porque me machucou, mas daqui pra frente eu lido sozinho com esse sentimento, porque você já me pediu desculpas e a única coisa que você pode fazer daqui pra frente é mudar de atitude e eu sei que você vai fazer isso. Sempre que eu te corrijo em algo, você presta atenção e se empenha pra não acontecer de novo. Eu só preciso de um tempo pra organizar minhas emoções. Mas, a gente tá bem, ok?”

“Mesmo?”

Fiz que sim com a cabeça e então sorri. – “Agora, seu presente!”

Mathias segurou minha mão antes que eu lhe entregasse o embrulho.

“Obrigado. E realmente me desculpe, não vai acontecer de novo.”

“O que importa é isso.” — sorri. – “Até porque se repetir, eu vou garantir que você se arrependa muito.” — com essa feliz declaração, lhe entreguei o presente.

Ele fez careta para minha fala antes de dar um meio sorriso e abrir.

Cerrei os lábios observando sua expressão. As bochechas ficando vermelhas e o sorriso confuso e surpreso crescendo aos poucos no rosto.

O presente era um porta-retratos azul bem clarinho, que servia cinco fotos. Na parte inferior, pequenas mãos prateadas formavam “eu te amo” no alfabeto manual.

“Sem fotos?”

Apontei para o envelope branco na caixa.

Eu me sentiria muito narcisista se entregasse o porta-retratos já cheio de fotos nossas, então preferi revelar tanto fotos que tirei com ele, quanto fotos que tinha em seu Instagram, dele com a mãe, ou com o Eric, ou então com a Samantha. Pareceu mais justo deixar ele escolher quais fotos iria colocar.

Mathias sorriu olhando as fotografias uma a uma, os olhos brilhando antes de colocá-las de volta no envelope e, colocando o presente de lado, veio me abraçar, dando beijinhos de agradecimento nos meus ombros. Dei um meio sorriso afastando-o um pouco e tentando não rir.

"Feliz aniversário!" — sorri.

“Obrigado pelo presente e, desculpa mesmo pelo que aconteceu.”

Suspirei.

“Mathias, assunto encerrado.”

“É que eu me sinto muito mal.” — ele fez careta. – “A gente já namora há tempo o bastante para eu saber que não devia pensar assim. Eu já devia saber disso.”

Mordi os lábios e então dei de ombros.

“Você tá arrependido e não vai querer que aconteça de novo. Pra mim isso já basta. Você não precisa pedir desculpas mil vezes, não quero isso. Quero que não aconteça de novo. Mudança de atitude vale mais, entendeu?”

“Mas...”

Segurei suas mãos um instante, o olhando seriamente e soltei para poder falar:

“Se você voltar pra esse assunto mais uma vez, eu vou te beliscar.”

“Ok.”

“Quer comer alguma coisa? Minha mãe fez bolo pra você.” — na real, o bolo era para ser uma surpresa, mas me pareceu uma boa mudança de assunto.

Eu gostava que minha mãe gostasse tanto do Mathias ao ponto de fazer um bolo só por ser aniversário dele. Era fofo da parte dela.

Ele me observou um momento antes de dar de ombros, deitando a cabeça no meu colo. Arqueei a sobrancelha sentindo sua mão fazendo carinho na minha coxa, afastando um pouco o short do meu pijama. Olhei sobre o ombro, começando a me sentir nervoso.

Porta fechada.

Frio na barriga.

E meu namorado com um olhar meio sedento demais.

Virei o rosto.

Seria bacana se um raio caísse na minha cabeça, pensei tentando disfarçar a vergonha que começava a tomar conta de mim. Muito bacana.

Cerrei os lábios e fechei as mãos, me assustando quando recebi uma mordida na parte interna da coxa. Mathias ergueu os olhos para mim, com um sorriso malicioso, mordendo os lábios.

“Você tem que parar de morder minha perna.” — fiz careta, meu coração acelerado e o nervosismo crescendo no meu estômago, meu rosto parecia arder de tão quente.

“Mas, eu gosto de morder sua perna.” — ele fez bico, ainda me olhando daquele jeito malicioso e falsamente manhoso. – “Você tem pernas bonitas.”

“Eu percebi que você gosta...” — antes que eu pudesse terminar de falar, Mathias abaixou o rosto, me dando mais uma mordida.

Apertei mais o lençol, cerrando os lábios com mais força enquanto ele seguia deixando beijos e mordidas na minha pele, os lábios subindo pela minha coxa. Respirei fundo e olhei sobre o ombro para confirmar novamente que a porta estava fechada antes de me permitir relaxar um pouco, minha respiração ficando pesada enquanto ele me mordia com mais força, suas mãos apertando minha cintura.

Minha pele se arrepiou. Respirei fundo tentando afastar a vergonha.

Passei as mãos pelas mechas molhadas do cabelo do Mathias, enrolando e puxando, ele se encolheu por um instante, mas logo relaxou. Ele sempre se encolhia quando eu começava a mexer em seu cabelo, cheguei a perguntar uma vez se ele não gostava e preferia que eu não fizesse isso, mas ele dizia gostar quando eu puxava, então, puxei com força.

Mathias ergueu os olhos para mim, arfando enquanto se sentava, pura malícia parecia exalar dele enquanto me puxava para seu colo, seus lábios se colando aos meus num beijo concupiscente. Senti a vergonha passar de vez enquanto voltava a enrolar os dedos nas mechas longas do seu cabelo, puxando outra vez enquanto descia os beijos para seu pescoço...

E de repente eu estava de novo sentado na cama. Uni as sobrancelhas, confuso enquanto o Mathias se afastava um pouco

"Passos." — declarou simplesmente e voltou a pegar o quadro que eu tinha lhe dado.

Grunhi irritado, olhando sobre o ombro e não me surpreendi quando a luz do meu quarto acendeu e apagou enquanto minha mãe entrava no quarto.

“Tudo bem?”

Concordei com a cabeça, sem graça voltando o olhar para o Mathias que parecia fingir estar relaxado. Ou pelo menos tentar.

“Tudo bem sim.” — ele respondeu sorrindo de lado. – “Ícaro estava me mostrando o presente que comprou pra mim.”

Minha mãe veio para perto da gente e apertou meu ombro num beliscão carinhoso antes de voltar a falar com Mathias. Respirei fundo tentando parecer calmo e cruzei os braços, forçando um sorriso. Incrível, eu não posso nem relaxar em ficar sozinho no quarto com meu namorado dois minutos que alguém entra.

Ser adolescente é mesmo um inferno.

“Que bom que gostou." — minha mãe sorriu docemente para o Mathias. - "Que tal vir comigo pra cozinha pra ver o que tenho de presente pra você?”

Ele sorriu e falou algo oralmente, me fazendo unir as sobrancelhas. Por mais que meus pais soubessem leitura labial e ele de fato pudesse falar em português com eles, eu não conseguia deixar de ficar incomodado quando ele fazia isso já que eu não entendia.

“Claro que eu tenho um presente pra você.” — minha mãe sorriu. – “Não é grande coisa. Vem.”

O sorriso de Mathias ficou ainda maior enquanto ele se levantava para acompanhar minha mãe. Fiz bico me sentindo mal por já ter dito que ele ganharia bolo, com certeza não seria mais uma surpresa tão grande para ele e a culpa foi minha.

Que coisa!

***

Grunhi ao acordar, sentindo empurrarem meu ombro. Demorei dois instantes para reconhecer o toque do Mathias.

“Me deixa dormir.” — pedi, mexendo as mãos preguiçosamente e sem me dar ao trabalho de abrir os olhos.

Ele continuou empurrando meu ombro, segurando meu braço com mais força. Bufei, cobrindo a cabeça com o travesseiro, disposto a ignorar e voltar a dormir. Senti ele puxar minha mão e a fechei imediatamente para que não conseguisse soletrar na minha palma.

Apesar disso, Mathias continuou apertando meu ombro e me balançando. Meu Deus, para o bem dele era bom que a casa estivesse pegando fogo porque essa era a única razão que eu consideraria razoável para me acordarem antes do alarme! Bocejei me sentando e esfregando os olhos.

Peguei o celular embaixo do travesseiro e liguei a lanterna para poder enxergar e falar. Deixei o aparelho em cima do meu travesseiro, não iluminava muito, mas era o bastante. Esfreguei os olhos outra vez e suspirei.

“O que foi? Se meus pais te verem aqui, nós dois vamos ver muita bronca.” — falei, cansado.

Mathias se ajeitou, sentando na beirada da cama e agarrando minha mão.

Ele estava tremendo.

Uni as sobrancelhas.

“Tá tudo bem?”

Ele negou com a cabeça e respirou fundo tentando falar com as mãos tremendo, o que tornava um pouco difícil de entender o que ele estava falando. O fato de eu estar com sono tornava ainda difícil, mas consegui pegar o geral:

“Não me sinto bem.”

“O que tá sentindo?”

Mathias encolheu os ombros e, ainda tremendo, encostou o rosto no meu ombro. Suspirei, abraçando-o com força e puxando-o para que sentasse melhor na cama. Respirei fundo segurando suas mãos por um instante antes de me levantar. Ele tentou me segurar, mas me afastei mesmo assim.

Ainda cambaleando, acendi a luz do quarto e ajeitei o meu teclado antes de começar a tocar uma música que me acalmava quando estressado. As notas graves eram suaves, os médios marcados e as agudas pontuais, a melodia subia e descia da mesma forma que uma respiração, calma e intercalada, tão lenta e naturalmente que era apenas gentil. Não tenho certeza se o som que passava era tão calmante quanto as vibrações que formava, mas esperava que sim.

Ergui os olhos para Mathias, ele estava sentado na cama, ainda tremendo, mas já começava a parecer mais calmo. Voltei a me focar nas teclas tão conhecidas e nas vibrações tão confortáveis enquanto o final da música se aproximava. Sobe, desce, inspira e expira.

Suspirei, meus dedos finalmente deixando o teclado, apaguei a luz e voltei para o lado dele.

“Isso foi bonito.”

Sorri e ajeitei a lanterna para garantir que estava iluminando bem o espaço entre a gente e permitindo que enxergássemos bem. – “Tá melhor?”

Mathias assentiu com a cabeça.

“O que aconteceu?” — perguntei.

“Não sei.” — ele encolheu os ombros. – “Acordei de repente tremendo.”

“Teve um pesadelo?”

Mathias deu de ombros, virando o rosto, puxei seu queixo para que ele me olhasse e esperei. Ele deu um suspiro.

“Foi ridículo. Um garoto de dezessete anos tendo pesadelo com a escola. Ridículo.” — ele pressionou as mãos contra o rosto e respirou fundo antes de voltar a me olhar, os olhos irritados. — "Por que eu sou tão ridículo?"

Hesitei.

"Sabia que minha vizinha tem um D-O-B-E-R-M-A-N-N? Eu venho correndo para casa, morrendo de medo sempre que vejo ele, mesmo quando ele tá preso." — respirei fundo, estava nervoso em admitir isso. — "Eu faço isso porque o cachorro que me atacou era da mesma raça. Isso é ridículo?"

Mathias me olhava confuso enquanto balançava a cabeça, negando.

"Não é ridículo. Você tem um trauma e..."

"Exatamente." - interrompi, respirando fundo novamente. — "Então, se você não acha ridículo eu ainda ter pesadelos com uma coisa que aconteceu há quase quatro anos, por que acha ridículo você ter pesadelos com algo que te acontece todo o dia?"

Observei ele abrir e fechar a boca, parecendo pego de surpresa. Mathias abaixou o rosto enquanto começava a falar, dessa vez não puxei seu queixo para que me olhasse. Não precisava ver seu rosto para entender.

"Eu não sei. Mas, eu sinto que é. Eu só... Sinto." — ele encolheu os ombros. Suspirei puxando sua mão e dando um beijo.

"Você se julga muito mais severamente do que julga os outros, amor." — suspirei. — "E não precisa. Não precisa se julgar tanto. Também não precisa ter medo de eu te julgar por isso, ok? Eu não vou."

Observei ele cobrir o rosto com as mãos e seu corpo começar a tremer enquanto caía no choro. Respirei fundo colocando minhas mãos em seus ombros, sem saber bem o que dizer ou o que fazer enquanto o abraçava.

Suspirei pegando meu celular para alterar a hora do meu alarme e adiantar um pouco, feito isso, me voltei para o Mathias. Ajeitei a pulseira que vibrava no meu pulso.

Quando desse o horário do alarme, a pulseira emitiria vibrações e choques baixos que me acordariam. A tecnologia não é perfeita?

Esperei pacientemente ele abaixar as mãos. Mathias fungou limpando as lágrimas. Forcei um sorriso fazendo carinho em seu rosto antes de lhe dar um beijo rápido.

“Vem cá. Deita comigo.” — chamei, já voltando para baixo da coberta.

“A gente vai ver bronca dos seus pais.” — ele fez careta.

“Vamos acordar antes deles e você volta pra sala.” — dei de ombros. – “Já mudei o alarme. Vem.”

Mathias mordeu os lábios antes de concordar e se ajeitar do meu lado na cama. Apaguei a lanterna enquanto tentava encontrar uma posição confortável para dormir com ele na minha minúscula cama de solteiro.