Sinais
36 Brigas e Vídeos
Notas iniciais
Ícaro
O primeiro dia de aula foi assustador. Não tinha um motivo exato para ser assustador, mas foi. Não teve um instante em que eu não tivesse querido voltar para casa. Mas, a pior parte foi ficar no fogo cruzado entre Fernando e Marcelo. Existem poucas coisas piores do que ficar entre a briga do seu ex-namorado com o atual dele.
Tinha tomado o remédio para a ansiedade hoje porque meu pai me convenceu a pelo menos esperar passar os dias do corpo se acostumando a química antes de decidir que o remédio não me fazia bem. E aquele remédio realmente me deixava avoado.
Escondi o rosto nas mãos enquanto a luz que anunciava o intervalo acendia e apagava, irritando minha vista. Senti um toque no braço e me afastei imediatamente, reconhecendo.
Respirei fundo antes de erguer os olhos.
“Tá tudo bem?” – Marcelo perguntou me olhando de forma preocupada.
Antes a proximidade dele não incomodava muito, mas depois de ter começado a terapia, conversando com o Tales, começou a incomodar. Mesmo quando ele só estava me perguntando se eu estava bem, percebi que a sensação que me passava era como se, de alguma forma, ele ainda estivesse exercendo algum controle sobre mim de algum jeito. "Tudo bem querer manter uma boa relação com ex-namorados, mas, se afastar dos que te fizeram mal não é imaturidade." Foi o que o Tales disse, mas, tinha aquela partezinha de mim que não queria admitir que o Marcelo tinha me feito mal.
Mas, claro, Tales tinha razão. E eu comecei a prestar mais atenção no jeito que o Marcelo falava e agia e... Realmente era bizarro manter ele por perto e eu nem entendia porque fazia isso sendo que eu, nem o queria por perto!
Então, não gostei de como ele me olhou preocupado e como ficou na sala esperando para ver se eu estava bem quando meus amigos não tinham ficado (a pedido meu). Não gostei especialmente de ele ter colocado a mão no meu braço. Eu reconhecia bem o toque do Marcelo e esse toque parecia trazer a meu corpo, memórias fortes o bastante para que meus braços doessem como se eu estivesse sendo arrastado pelo chão da garagem novamente.
Não era nada bom.
“Eu tô bem. Não vou descer.” – respondi e busquei algo em volta para poder me focar e evitar olhar pra ele.
“Tem certeza que tá bem? O que tá acontecendo?”
“Não é da sua conta.” – bufei ainda tentando manter meus olhos ao redor, na lousa, nas mesas em círculos, no armário de metal no fundo da sala, na tinta branca descascando das paredes... Em qualquer lugar que não fosse o Marcelo.
“Ícaro, eu sei que não temos a melhor relação de todas, mas se não tiver se sentindo bem, pode me contar, eu posso ajudar.”
Dei risada, me levantando.
“Eu sei bem qual sua noção de ajuda, Marcelo. Não quero. Pode ir. Conhece o ditado? Melhor só do que mal acompanhado.”
Marcelo abriu e fechou as mãos, parecendo não saber o que falar.
Decidi que, por mais que a ideia de ficar entre várias pessoas com o remédio me fazendo sentir tanto calor fosse nauseante... Era melhor que ficar na sala com aguentando aquela conversa estranha. Passei para a fileira da frente, mas antes que pudesse sair da sala, Marcelo me puxou pelo cotovelo.
Me afastei assustado, o empurrando. A sensação era como se tivesse levado um choque no braço. Como quando um elástico arrebenta. Era como se algo tivesse arrebentado dentro de mim.
“Qual seu problema?” – gesticulei irritado. – “Não sei porque essa súbita vontade de me ajudar, Marcelo. Mas, se você não ajudou quando devia, não tem motivo algum pra vir fazer isso agora. Sai daqui.”
“Você me acusa muito. Sabe que tentei ajudar.”
“Acho que temos noções bem diferentes do que é ajudar.”
“Você falava coisas que machucavam, Ícaro. Não podia esperar que eu ficasse ali com você dessa forma. Não tinha razão pra isso.”
Respirei fundo.
Mentalmente repassei todas as conversas mais sérias que já tinha tido com o Mathias. Todas. Desde quando sai no meio de um encontro por ele ter segurado minha mão quando tentei falar até as mais recentes sobre nossas ansiedades, sobre o medo de contar estar tomando remédio... Todas as conversas.
Era assim que devia parecer, pensei. Prático, acolhedor, caloroso, mais focado em soluções e sentimentos. Era isso que amor e namoro deviam parecer. Não um jogo de quem tem mais culpa como o Marcelo fazia. Não um jogo de manipular os sentimentos e percepções um do outro até fazê-lo achar que estava louco. Algo mais sincero. Não que fosse sempre fácil com o Mathias, não era. Tinham momentos que eram realmente difíceis, exigentes, cansativos, que dava vontade de chorar, mas... Mas, ainda assim, a gente respeitava os limites e mesmo quando por algum motivo escorregávamos e desrespeitávamos logo voltávamos atrás. A gente priorizava ajudar um ao outro a ficar bem e a se conhecer cada vez mais.
Podia ter ficado irritado nesse instante, refletindo sobre isso, mas fiquei aliviado. Era bom ver tão mais facilmente essas diferenças e não pensar se estaria exagerando.
O mundo sempre parecia mais leve quando Marcelo deixava o cômodo.
E o mundo sempre parecia mais leve quando Mathias estava por perto.
Era simples quando parava para ver desse jeito. Não tinha o que questionar ou duvidar.
“Se você não tinha razão naquela época, não tem razão agora, Marcelo. Agradeço a preocupação, mas não é você que tem que se preocupar comigo.”
“Eu sinto sua falta.”
Cerrei os dentes e ergui o queixo, minhas mãos fecharam automaticamente.
Isso não. Isso não era do direito dele dizer, pensei. Respirei fundo, minha garganta fechando.
“Não é um problema meu.” – dei de ombros e olhei para porta da sala, agora realmente ansioso para dar o fora. Senti meus ombros relaxarem. – “Oi, Fernando.”
Marcelo recuou imediatamente enquanto Fernando entrava na sala.
Resolvi guardar para mim o quanto estranhamente bonito Fernando ficava sob as luzes da sala. Sua pele estava bronzeada e os olhos escuros pareciam obsidianas, brilhando de raiva. A calça jeans clara e o cropped moletom roxo destacavam bem os músculos torneados pela rotina de dançarino.
“O que tá acontecendo aqui?” – perguntou, parando ao meu lado e arqueando a sobrancelha. – “Não vi o Marcelo lá embaixo e vim procurar aqui.”
“Fernando, eu só...”
“Você não. Eu não acredito num só sinal que saía das suas mãos” – ele fuzilou Marcelo com o olhar um instante antes de voltar a atenção para mim. – “Ícaro, o que tá acontecendo?”
Lancei um olhar para a porta da sala, pensando em passar por cima do Fernando e sair daqui correndo porque aquela definitivamente não era uma situação que eu queria estar. Poxa, eu só queria ficar um pouco sozinho tentando ignorar os efeitos do remédio e acabei aqui...
“Eu não to me sentindo muito bem e Marcelo resolveu ficar aqui pra tentar ajudar. Na verdade, ele tá mais perturbando, eu disse para ele descer, mas...” – dei de ombros sem saber como concluir.
Fernando mirou Marcelo, estalando os dedos das mãos, a boca se retorcendo em variadas caretas de nojo e raiva.
“Fernando, por favor...” – Marcelo fez bico, os olhos brilhando como os de um cachorrinho tentando ganhar um petisco. Ele sempre tinha um olhar de filhotinho quando lhe era útil.
Não adiantou.
Ele levou um tapa na cara.
Arregalei os olhos, confuso. Marcelo parecia atordoado enquanto Fernando começava a falar. E por falar, quero dizer xingar. Xingar muito.
Marcelo se recuperou do choque e começou a argumentar e aí virou uma briga realmente feia. E eu não podia sair porque Fernando estava na frente de uma das saídas da fileira e o Marcelo estava no caminho da outra então eu fiquei no meio do fogo cruzado. Então fiquei encostado pensando no quanto queria sumir para qualquer outro lugar.
Tinha muita coisa que não dava para entender e que eu nem devia entender mesmo, mas mesmo assim consegui entender algumas coisas. Entendi que Fernando era muito ciumento, especialmente quando se tratava de mim, que se incomodava com o fato de Marcelo estudar na mesma sala que eu e que o começo do namoro deles ter sido sem Marcelo terminar comigo, o deixava extremamente desconfortável e confuso. E entendi que, ao mesmo tempo em que Marcelo tentava fazer esse desconforto passar, também usava isso da mesma forma que usava meus momentos de ansiedade no passado.
Qualquer coisa além disso, eu não consegui compreender, mas acho que já foi mais do que eu devia saber. Fernando desistiu de continuar a discussão e saiu da sala, furioso. Ele pisava com tanta força que o chão parecia vibrar um pouco. Marcelo foi atrás dele correndo, parecendo quase desesperado.
Voltei para minha cadeira e olhei no celular a hora. Ainda tinha uns cinco minutos de intervalo. Dava tempo de comer algumas bolachas, pensei.
Me levantei pegando meu material e analisei bem as cadeiras ao meu redor antes de ir para o outro lado da sala onde ficava a cadeira da Sabrina. Coloquei minhas coisas ali e levei as dela para onde eu costumava ficar. Sabia que ela não se importaria com a troca de lugar já que sentaria mais perto da Luana.
Sentar longe do Marcelo parecia uma boa atitude para cortar um pouco aquele desconforto que sua proximidade causava.
***
“Solta o cabelo. Quero ver.” – pedi assim que encontrei com o Mathias na estação de trem.
Ele suspirou, mexendo os pés, constrangido, antes de desmanchar o coque. Franzi os lábios analisando bem. Não era nada tão gritante. Uma pequena mecha perto da sua orelha direita, cortaram talvez um ou dois dedos só, mas nada que fosse ser impossível consertar, pensei enrolando os dedos nas mechas por um instante.
Suspirei antes de dar-lhe um beijinho rápido, sentindo o chão vibrar enquanto o trem chegava. As vibrações do trem pareciam as de um terremoto.
“Vem, o trem tá chegando.”
Mathias concordou, prendendo o cabelo, os olhos cabisbaixos. Tive vontade de poder pegá-lo no colo e protegê-lo do mundo todo, escondê-lo em algum lugar onde nada de ruim o atingisse nunca mais... Suspirei desviando o olhar, cansado. Peguei meu celular no bolso tentando manter minha atenção desperta
[Ícaro]
Oi, a gnt chega em uns dez minuto
[Davi]
Blzzzz
To esperando
Vou ajeitar as coisas aq pra gravar
Vanessa ta morrendo de saudade
[Ícaro]
Okay
Cobri a boca, bocejando e guardei o celular enquanto o trem parava na estação.
Dei a mão para o Mathias enquanto entrávamos.
O vagão estava cheio então me encostei na porta e passei os braços em volta do seu pescoço, puxando-o para que se encostasse em mim. Senti seu suspiro na minha pele enquanto encostava a testa no meu ombro.
No fundo, senti certo receio disso. Mesmo num dia bom, ficava receoso em demonstrar afeto tão em público, mas, sabia que naquele momento, carinho era o que meu namorado mais estava precisando. Todo o carinho do mundo, todo o carinho que eu lhe pudesse oferecer.
***
Davi prendeu o Caramelo antes de vir abrir o portão.
Caramelo era o cachorro da Vanessa, que tem esse nome porque era um vira-lata caramelo. Davi e Vanessa eram ótimos com nomes como podemos perceber.
Vanessa estava brincando na sala com uma casa de bonecas, mas colocou elas de lados quando me viu. Ela tinha algum grau de baixa visão que eu nunca lembro qual é além de, se não estou engando, um alto grau de astigmatismo. De qualquer forma, ela ainda enxergava um pouco, apesar de ter usado a baixa visão como desculpa para convencer os pais a adotarem um cachorro.
Surpresa, algumas crianças com deficiência gostam de se aproveitar disso para conseguirem coisas, com dois pais surdos eu nunca pude fazer nada do tipo, mas sei que algumas faziam isso sim. Davi contava que quando a mãe ia dar bronca nele quando criança, ele fazia manha e dizia que estava com zumbido forte no ouvido para ela parar.
Crianças.
De qualquer forma, Vanessa me adorava e eu adorava Vanessa. Ela tinha o mesmo nariz do irmão e os cabelos tão cacheados quanto os dele, a pele branca cheia de sardas e, ao contrário do irmão que tinha olhos azuis, Vanessa tinha os olhos castanhos escuros e era bem grande para dez anos... Eu acho. Não sei avaliar tamanho de criança, a última criança da minha família fui eu.
Sorri indo abraçá-la enquanto o Mathias e o Davi conversavam atrás de mim. Vanessa deixou um beijinho na minha bochecha e segurou minha mão. Me agachei para ficar na mesma altura que ela.
“Oi, meu amor.” – sinalizei com sua mão sobre a minha e ela deu risada.
Vanessa se dava bem com Libras-Tátil. Davi explicou que ela tinha muita dificuldade de discernir quais sinais estavam sendo feitos só com a visão então, o tátil funcionava melhor com ela.
Além da perda visual, ela tinha surdez severa, então, os pais tiveram uma pequena dificuldade para achar formas de se comunicar com ela. Libras-Tátil foi uma das primeiras soluções, depois, a leitura labial pelo método de Tadoma. Foi também por meio desse método que ela aprendeu a oralizar.
“Oi, Ícaro. Senti saudade!” – ela disse voltando a segurar minhas mãos em seguida.
“Também senti saudades. Como você tá?”
“Eu tô bem. Mamãe contratou um intérprete pra traduzir melhor o que professor diz nas aulas.”
“Que legal!”
“Quem veio com você?” – perguntou, olhando sobre meu ombro com a testa franzida.
“Meu namorado.” – sorri e puxei as mãos devagar me virando para o Mathias. – “Vem cá.”
Ele pareceu hesitar antes de se sentar no chão perto de mim, peguei a mão de Vanessa de novo.
“Ele sabe Libras, mas é ouvinte também. Então você pode falar como preferir.”
Vanessa abriu um sorriso concordando com a cabeça e mexeu a boca, imagino que dizendo “oi”. Mathias me olhou hesitante, mas eu só dei de ombros enquanto Vanessa colocava o polegar sobre os lábios dele, os demais dedos encostando em sua bochecha, mandíbula e garganta.
“Responde, amor! Seja educado!” – mandei, revirando os olhos. – “Ela lê lábios assim, pode falar português. Relaxa.”
Mathias riu baixo antes de responder e começar a conversar com a Vanessa.
Me levantei me virando para o Davi.
“Vamos organizar a sala pro vídeo?”
“Vamos!” – concordei e deixei o Mathias conversando com a Vanessa. Ele parecia um pouco confuso em como conversar com ela, mas acho que era só questão de se habituar.
Ajeitei o sofá e guardei as bonecas da Vanessa enquanto Davi trazia a câmera e o suporte para sala. Fios se espalhavam pelo chão. Franzi os lábios enquanto ajeitava a iluminação tentando ter certeza de estar boa, mas ciente que o sol que entrava pela janela da sala ia acabar alterando tudo depois de alguns minutos.
“Sua mãe não tá em casa hoje?” – perguntei curioso antes de confirmar o enquadramento.
“Reunião no trabalho.” – deu de ombros. – “Tá só eu e a peste hoje.”
Dei risada porque achava engraçado como eles eram muito mais briguentos do que eu e a Alexia. Acho que nem todo mundo pode se dar 90% bem com seus irmãos.
Davi sorriu para mim e foi para perto da irmã, interrompendo a conversa dela e do Mathias e segurou as mãos de Vanessa pra falar. Era um pouco difícil ter certeza do que ele estava falando com as mãozinhas dela por cima, mas foi algo do tipo:
“Vamos começar a gravar agora, ok? Vai pro quarto brincar com o Caramelo.”
“Posso gravar um vídeo com você depois?” – Vanessa inclinou a cabeça enquanto perguntava.
“Pode sim. Amanhã, prometo.”
Vanessa mexeu a boca, passando para língua oral e o Davi fez careta respondendo do mesmo jeito. Eles fluíam fácil de uma língua para outra e eu achava isso legal. Não acho que eles sequer percebiam quando passavam de Libras para português, era automático para eles, como se ambas fossem uma coisa só. Eu achava isso legal. Alexia fazia a mesma coisa por ter tanto Libras quanto português como primeira língua, acho que por isso ela e o Davi sempre foram tão amigos. Eles podiam conversar fluindo entre suas primeiras línguas sem ficar confuso.
“Eu nunca gravei vídeo nenhum.” – Mathias fez careta para mim enquanto Vanessa ia para o quarto.
“Não se preocupa, as perguntas são bem simples. Você se apresenta mostrando seu sinal, eu pergunto e você e o Ícaro respondem como acharem melhor, ok? Não vai gastar muito tempo.” — Davi respondeu indo ligar a câmera.
“Ok.” – Mathias continuou fazendo careta, parecendo desconfortável.
Suspirei puxando-o para se sentar ao meu lado no sofá e colocando uma perna sobre a sua.
“Tá tudo bem, ok?”
“Ok.”
“Vem cá.” – puxei seu queixo com o indicador e dei um beijo rápido em seus lábios. Eu estava finalmente começando a me acostumar com o gosto de batom que sua boca sempre tinha agora. De certa forma, era até bom.
Me afastei devagar fazendo carinho em seu queixo.
“Eu vou ligar aqui, ok?” – Davi falou, nos olhando com a testa franzida, mas um sorriso no canto dos lábios.
“Ok.” – respondi.
***
Apesar de a ideia ser um vídeo curto, o bruto ficou com quase trinta minutos. Erros de gravação, momentos de devaneio e tal... Difícil. Mas foi divertido também. Minutos depois de termos acabado, a mãe do Davi chegou e eu, como uma boa pessoa sem muita vergonha na cara, pedi que ela arrumasse o corte no cabelo do Mathias, o que ela fez de bom grado.
Enquanto meu namorado ganhava um corte de cabelo eu fiquei brincando com a Vanessa.
“Se o Davi não me deixar gravar com ele amanhã, você briga com ele?”
“Brigo sim.” – prometi movendo uma peça vermelha do tabuleiro de damas.
O tabuleiro da Vanessa era vermelho e roxo, com cores bem fortes e quadrados contornados com linhas de barbante, porque Vanessa tinha mais facilidade em discernir cores vivas, mas Davi preferia garantir que ela pudesse sentir as coisas só por garantia. Até onde eu sei, ela não teve muita paciência com Braille, então o material escolar dela era adaptado com letras maiúsculas e em negrito.
Vanessa cerrou os lábios para o tabuleiro antes de mover sua peça roxa e montar uma dama. Fiz careta enquanto estendia a mão em sua direção, ela deu um sorrisinho colocando a mão sobre a minha.
“Você trapaceou.” – falei.
“Não é minha culpa se você é burro.”
Franzi a testa.
“Vanessa, você tá muito mal-educada! Não gosto disso!”
Ela apenas deu risada, balançando os ombros como se dissesse que não se importava. Suspirei, mexendo outra peça e tirando uma das roxas do tabuleiro.
“As crianças da escola são burras.” – Vanessa declarou de repente.
“Por quê?”
“Elas não falam com as mãos.”
“Nem todo mundo sabe falar com as mãos.” – expliquei me lembrando da minha época de criança em que eu achava que quem não sabia falar com as mãos era burro ou incapaz de conversar direito.
“Elas dizem que a intérprete me passa cola.”
“Isso é babaquice da parte delas.” – bufei. – “O intérprete só faz o trabalho dele.”
“Eu sei. Mas, elas não acreditam. A professora também não.” – Vanessa fechou a cara enquanto falava
“Professora idiota.”
“Foi o que eu disse. Bem alto! A professora me mandou pra diretoria!”
“Você chamou a professora de idiota?” – franzi a testa.
Vanessa coçou o nariz, o rosto ficando vermelho.
“Mamãe brigou comigo. Disse que tem outros jeitos de resolver. Mas, a professora é quem manda na sala, ela devia saber e também, se ela não dá o exemplo, os outros alunos vão implicar. Então, ela é idiota. O que você acha?”
“Eu acho que você não mentiu.” – decidi após pensar por um instante, tentando ser o mais adulto possível na minha resposta, embora aquilo fosse provavelmente o tipo de coisa que eu falaria pras minhas professoras quando criança. – “Mas, você não devia chamar a professora de idiota, mesmo ela sendo idiota. Da próxima vez, fala com sua mãe ou com seu pai para eles resolverem com a professora, tá bom?”
“Tá bom.” – Vanessa fez bico, não parecendo muito contente com minha resposta, mas concordou.
“Mas a professora é mesmo uma idiota.” – acrescentei.
Ela deu risada antes de, com uma só peça, tirar metade das minhas do jogo de uma só vez. Suspirei.
Será possível que eu só ganho do Mathias?
Analisei bem o tabuleiro antes de mover a peça seguinte. Vanessa trabalhava forte no ataque, mas não tinha estratégia para proteger as próprias peças, então, consegui tirar cinco peças dela facilmente.
Ganhei da Vanessa uma vez, e ela me venceu duas. Mas, o importante é que eu ganhei uma.
Quando Mathias e eu fomos embora, ele parecia melhor, o cabelo ainda estava comprido o bastante para trançar, então ele tinha feito uma tiara de trança enquanto estávamos lá, aparentava estar um pouco mais relaxado e isso fez com que eu também me sentisse mais relaxado.
Andamos um pouco afastados no caminho até a estação de trem, mas uma vez lá dentro, demos as mãos, dedos entrelaçados. Me encostei nele enquanto andava, sua mão estava gelada.
Sentamos num banco enquanto esperávamos pelo trem.
Mathias colocou os fones de ouvido e, embora normalmente isso fosse um sinal de que ele não queria conversar, belisquei sua mão. Ele me olhou surpreso tirando os fones de ouvido.
“Que foi?”
“Nada. Só queria dizer que gosto de como a gente briga.”
Ele franziu a testa e deu risada, parecendo confuso. – “Como assim?”
“Não sei explicar. Só me ocorreu que eu gosto de como a gente se cuida mesmo quando discute. A gente quase nunca passa do limite e quando passa logo pede desculpas e se resolve. Eu gosto disso.”
Mathias deu risada, revirando os olhos. – “Você tem uns pensamentos muito aleatórios às vezes, amor. Mas, eu também gosto disso.”
Sorri e deixei-o voltar a ouvir sua música, quando ele tornou a pôr os fones, me encostei em seu ombro, esperando pelo trem. Deixei minha mão encostar na sua no sinal de “te amo” e sorri quando Mathias me deu um beijo na testa, dobrando os dedos no mesmo sinal.
***
O dia de Alexia contar aos meus pais sobre ter contraído HIV chegou.
Tia Viviane preparou uma salada de maionese enquanto meu pai fazia uma torta de espinafre. Para o almoço teríamos frango a parmegiana, com arroz e batatas fritas, feitos pela minha mãe. Me deixaram encarregado de fazer o suco de laranja, nada difícil porque de acordo meus pais, eu conseguiria estragar até o miojo.
Enquanto Lexi ficou brincando com a Baunilha, tio Flávio foi fumar na calçada.
Minha irmã estava ansiosa desde a noite anterior. Ela tinha começado a fazer uso dos remédios a poucas semanas e me disse que ainda não tinha se acostumado direito, a faziam ter pesadelos e tontura, além disso ela estava ficando irritada com muita facilidade, acho que é porque o remédio atingia o sistema nervoso ou coisa assim. Mas, me incumbi da tarefa de lembrá-la todo o dia de tomar o remédio antes de dormir.
Enquanto todos comíamos e conversávamos, Alexia mexia desanimada no prato, parecendo com alguém que tinha uma corda amarrada no pescoço. Encostei no seu pé por de baixo da mesa tentando demonstrar algum apoio, ela deu um sorriso rápido antes de voltar o olhar melancólico para a comida.
“Alexia, tá tudo bem?” – meu pai questionou de repente, lançando um olhar preocupado para ela.
Minha irmã engoliu em seco antes de afastar o prato, os olhos vagando pela cozinha com ansiedade.
“Tenho uma coisa pra contar.” – ela disse, o pé encostando no meu.
“Você tá namorando?” – mamãe adivinhou, arqueando a sobrancelha.
“Tá usando drogas?” – tio Flávio tentou, cerrando os olhos.
“Deixem a garota falar.” – tia Viviane bufou antes de dar um gole no suco e fazer careta em seguida. Pronto, eu não consigo fazer nem um suco direito!
Alexia respirou fundo, tamborilando os dedos de ambas as mãos sobre a mesa, ansiosa.
“Mês passado eu fiz um exame...” – ela respirou fundo de novo e fechou os olhos. – “Eu... Tenho H-I-V.”
Silêncio.
Tio Flávio cobriu os olhos com uma das mãos, fazendo uma expressão que indicava que tinha acabado de soltar um palavrão em voz alta.
Minha mãe balançou a cabeça e ergueu as mãos como se fosse dar um sermão, mas os olhos dela se viraram para o meu pai. Engoli em seco olhando para ele. Eu conhecia aquela expressão no rosto do meu pai. Só a tinha visto uma vez, quando eu tinha treze anos, mas nunca esqueceria.
Os lábios crispados, a veia na testa soltando, os olhos escuros, sobrancelhas franzidas e dentes cerrados.
Foi a mesma cara que ele fez quando chegou do trabalho e descobriu que o vizinho da frente tinha soltado dois cachorros em cima de mim. Uma expressão que foi se fechando mais e mais conforme eu explicava o que tinha acontecido, chorando e ele encarava o machucado no meu braço sem dar atenção ao que eu falava, porque naquele momento só o que importava para ele era que alguém tinha me machucado. Lembro de ter ficado assustado quando ele se levantou, confuso quando saiu de casa e completamente incrédulo quando o vi ir tocar a campainha do vizinho e dar-lhe um soco assim que o velho abriu o portão.
Meu pai estava nesse momento com a mesma expressão furiosa que antecedeu o soco e eu fiquei realmente assustado com a possibilidade de ele estar furioso com minha irmã.
“Alexia, o que exatamente aconteceu?” – tia Viviane perguntou, lançando olhares nervosos para o meu pai. Acho que naquele momento estávamos todos com medo de como ele reagiria.
“A camisinha estourou.” – minha irmã deu de ombros, afastando um pouco a cadeira, parecendo querer fugir.
“Você sabia?” – papai perguntou, arqueando a sobrancelha para mim.
Engoli em seco e concordei timidamente.
“Ícaro...”
“Ela tá fazendo o tratamento, eu não vi porque contar, mãe!” – me defendi rapidamente. – “Se ela parasse ou não fizesse, eu contaria. Mas, ela não tava em risco, então...”
“Isso não foi certo, Ícaro. – meu pai se levantou enquanto falava, ele e minha mãe trocaram um longo olhar como se decidissem o que iriam falar.
“Vocês dois foram muito irresponsáveis, estamos decepcionados.”
"Não esperávamos isso de você, Alexia." — papai bufou, cerrando os olhos.
Fiz careta e mordi a língua para não falar nada, mas sério! Eles estavam falando como se ela tivesse cometido um crime e não como se tivesse sido só um acidente! Que injusto!
"Não esperávamos isso de nenhum de vocês dois. Achamos que tínhamos criado vocês melhor, mas pelo visto vocês são os dois muito irresponsáveis." — mamãe suspirou.
"Mas..."
"Vamos acompanhar você na próxima consulta ao médico." — meu pai continuou olhando para a Alexia que parecia cabisbaixa ao meu lado. — "E a única razão para você não ficar de castigo é porque já vai ter que tomar um remédio para o resto da vida, então acho que já é castigo o bastante. E você..."
"Eu?" — franzi a testa.
"Entendo que você tentou ajudar sua irmã, Ícaro, mas não fez certo em esconder isso da gente." — minha mãe fez careta. — "Me traz sua câmera. Vai ficar sem ela até o final do mês."
"Como é? Isso não é justo!"
"Mais um sinal e vão ser dois meses."
Me afundei na cadeira tentando não fazer careta.
***
Sentei no chão da sala e fiquei brincando com a Baunilha depois da sobremesa, enquanto meus pais ficavam conversando com a Alexia. Tia Viviane ligou a TV e sentou-se no sofá enquanto tio Flávio sentava do meu lado.
"Você fez certo." — ele falou de repente.
"O quê?"
"Em não contar pros seus pais e deixar a decisão pra sua irmã. Era escolha dela, a vida dela. Você fez certo."
Sorri. — "Se ela não tomasse o remédio, eu juro que contaria."
"Eu sei."
"Ou se tivesse acontecido de um jeito mais sério, se ela tivesse contraído H-I-V porque alguém fez algo com ela, eu contaria também."
"Eu sei, você é um bom irmão, Ícaro." — tio Flávio riu e afagou meu cabelo depois de dizer isso, de um jeito que me fez sentir uma criança de novo. — "Vou falar com seu pai, você não merecia ficar de castigo..."
Tia Viviane deu um tapa na cabeça dele. — "Não se mete, Flávio."
"Mas..."
"Foi injusto eu concordo, mas você não pode se meter em como seu irmão cria os filhos. Tira autoridade dele. Não se meta." — ela revirou os olhos. — "Além do mais, ele não vai morrer por ficar um mês sem pegar na câmera."
"Eu discordo." — fiz careta. — "Não acredito que você tá jogando contra mim, tia." — fiz bico.
Tia Viviane piscou para mim, dando um sorriso. — "Relaxa. Eu tenho três sobrinhas que vão fazer festa de quinze esse mês e precisam de um fotografo, tenho certeza que seus pais não vão se opor a te tirar do castigo desde que você ganhe por essas fotos."
"Como assim três sobrinhas?" — fiz careta. — "Alexia e eu não somos seus únicos sobrinhos?"
"Ícaro, eu tenho oito irmãos, querido."
"Isso explica muita coisa." — suspirei tentando não fazer mais bico. — "Como eu te divido com três outras sobrinhas por anos e não sabia?"
"Na verdade, eu tenho outros nove sobrinhos. Mas, eu sou uma tia muito boa então você nunca percebeu."
"Mas dar presente pra todo mundo é difícil." — tio Flávio comentou do meu lado fazendo careta.
Imagino, pensei enquanto tia Vivi se levantava e ligava o antigo aparelho de DVD, sorri vendo-a tirar um disco da bolsa, sabendo bem o que se tratava.
"Não é meu aniversário."
"Mas, o clima tá pesado. A gente merece umas cenas fofas de você e da Alexia bebês."
"Você anda com isso na sua bolsa sempre?" — questionei quando ela se deitou de novo.
"Bom... Eu tenho sobrinhos favoritos." — ela deu risada, um pouco corada enquanto coçava a mancha branca no queixo. Tia Viviane tinha alguns fios brancos nos cabelos, mas eu nunca soube se isso era por conta do vitiligo ou se ela era... Bom, velha.
Voltei minha atenção para a TV. Os vídeos caseiros que a tia fazia de mim e da Alexia começando. No primeiro, eu, com um pouco mais de um ano, saía andando daquele jeito estranho que crianças dessa idade andam, olhando de um lado para o outro parecendo assustado.
Minha mãe entrou na frente da câmera e sentou-se no chão. Eu-bebê, só de fralda e com o cabelo um tanto grande demais e bagunçado demais fui para o lado dela.
"O que foi?" — mamãe questionou no vídeo, colocando as mãos na minha cintura para me ajudar a ficar de pé.
Eu-bebê passou o polegar pela bochecha várias vezes, ainda olhando em volta, com cara de choro.
"Alexia?" — ela adivinhou e eu-bebê concordou, levantando as mãos como se perguntasse "cadê?" — "O papai levou ela pra passear."
Continuei fazendo o sinal da Alexia e perguntando cadê enquanto mamãe tentava explicar.
"Você estava dormindo, seu pai não quis te acordar. Sua irmã estava acordada, então ele levou só ela pro passeio."
"Alexia... Cadê?"
"Rua. Com seu pai."
"Pai?"
"Isso."
"Mas... Alexia? Onde?"
"Rua."
O eu-bebê começou a chorar ainda perguntando onde estava a irmã. Meu Deus, eu era muito desesperado para ficar perto dela quando criança, socorro.
No presente, meus pais e Alexia vieram para sala, todos com cara de cansaço indicando que a conversa sobre a soropositividade dela tinha sido realmente difícil.
"Vídeos caseiros!" — Alexia riu e bateu palmas de ouvinte enquanto se sentava ao meu lado no chão. Ela pegou Baunilha no colo e sorriu deitando o rosto no meu ombro.
Minha irmã e eu amávamos esses vídeos e veríamos o dia inteiro se deixassem. Não me pergunte porque gostávamos tanto, é só que... Sei lá, era uma versão mais fofa e inocente da gente, era legal de ver.
"Tudo bem?" — perguntei após apertar seu joelho, tentando não olhar para os meus pais se ajeitando no sofá.
"Tudo sim. Eles reagiram melhor do que eu esperava." — ela sorriu, embora ainda parecesse nervosa e os olhos estivessem inchados. — "Eu vou ficar bem. Obrigada por ter me ajudado nesse tempo."
"Não foi nada." — sorri e minha irmã riu, deixando um beijo na minha bochecha em seguida.
Na tela, o vídeo mudou para um mais antigo, de quando Lexi e eu tínhamos tipo... Não sei, oito meses, talvez? Estávamos naquelas cadeirinhas de refeição e cada um tinha uma tigelinha de cereal a nossa frente. Alexia estava chorando porque o cereal dela já tinha acabado e meu pai não queria colocar mais para ela, enquanto isso eu dormia, completamente confortável na minha cadeira e alheio ao choro dela, como uma boa criança surda.
Alexia-bebê entre o choro reparou que eu estava dormindo e que minha tigela de cereal ainda estava cheia e, parou de chorar enquanto puxava a tigelinha para perto sem tirar os olhos de mim, provavelmente temendo que eu acordasse. Ela colocou a mão dentro da minha tigela e começou a comer os meus cereais ainda me olhando dormir.
"Como demoraram três anos pra descobrir que você é surdo?" — Alexia-adolescente questionou do meu lado, parecendo surpresa.
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