Sina Dos Amantes
1 Sina dos Amantes
Notas iniciais
Faz muitos meses que não escrevo então tá uma droga... entrei mais porque as meninas se empolgaram muito. (sim, é tudo culpa de vocês)
Enfim, espero que se divirtam.
Não era o dia mais bonito e luminoso, pelo contrário; durante todo o trajeto de cinco horas respingos de chuva mancharam as janelas do carro e Sakura se entregou a uma total melancolia que combinava com a paisagem repleta de bordos e carvalhos, coloridos e desgastados pelo Velho Outono.
Lá no fundo ela tinha a expectativa de que passar duas semanas na casa onde viveu os primeiros anos de vida fosse relaxante e nostálgica, mas agora não tinha tanta certeza. A cerca branca onde pendurava coroas de flores estava quebrada em dois pontos, a árvore do quintal já não tinha mais vida alguma e o gramado estava lotado de folhas secas ou podres, com os degraus da entrada rangendo sob seus pés e a pintura toda num geral descascando, rala e com marcas de chuvas, fezes de animais e sinais tão estranhos quanto.
Acostumada com o ritmo alucinado da cidade grande, ela se dava conta de que teria de passar os próximos dias acompanhando os pais enquanto esses visitavam velhos amigos ou tentava socializar com seus coleguinhas de infância, um bando de jovens meio caipiras e provavelmente afetados pelos ventos gelados e neblina espessa que eram comuns na cidade.
Obstinada a ignorar o cheiro de mofo, as nuvens de pó e sinais de insetos em massa como teias nas vigas, buracos de cupins nos batentes e puídos de traças no papel de parede, ela subiu até o local onde anos atrás ela passava boa parte do tempo.
Seu quarto era o que podia se esperar de uma garotinha: rosa, com móveis de pontas arredondadas e aspecto de fantasia, como o lar de uma boneca ou princesa. Na cama havia um colchão sem lençol e nas prateleiras um ou outro bichinho fora deixado para trás – ela se lembrava da mudança como se tivesse acontecido uma semana antes e cada vez mais as memórias vinham à tona: seus pais prometeram que eles voltariam nos finais de semana e essa era a primeira vez em quase dez anos que ela tornava a pisar ali.
Depois de escancarar a janela e observar o que imaginava serem os primeiros raios de Sol que tocavam aquele quarto infestado de ácaros em todos aqueles anos ela se afastou e tornou a descer. Pelo menos algo para comer sua mãe já tinha que ter providenciado.
–Mãe? – perguntou ela, mas não houve resposta – Oi? Mãe? Pai?
A casa era o retrato do silêncio.
Bufando de irritação, ela se esgueirou pelos cômodos somente para encontra-los vazios – pelo menos de pessoas, pois as recordações pulavam na sua mente de forma vívida, porém meio incompletas, fatos isolados onde ela não conseguia puxar o que veio antes, depois, quantos anos tinha com exatidão. Era legal e ao mesmo tempo triste.
Acabou por encontra-los na garagem, que sem dúvidas era o lugar mais degradado da casa – durante anos ratos a usaram como banheiro público a julgar pelo cheiro e ela checava as caixas velhas com no mínimo receio, pois se lembrava dos escorpiões e baratas que às vezes surgiam no caminho de desavisados.
–Mãe? – chamou ela sem fazer muito esforço para apagar o ar desanimado da voz; eles folheavam uma série de álbuns grandes e velhos, que continham clássicos desde “primeiro encontro dos dois” até “primeiro banho da Sakura”. Ela definitivamente não queria ser jogada numa torrente de recordações constrangedoras, muitas das quais anteriores ao seu nascimento.
–Sim querida? – por sorte seus pais estavam ocupados demais para prestar atenção nela, quanto mais convence-la a participar do momento.
–Comida.
–Tem dinheiro na minha bolsa, pode tirar o dia pra você, chamamos ajuda pra limpar tudo aqui.
Basicamente eles mandaram ela se virar e arranjar o que fazer; não que ela reclamasse, mas teve de aguentar cinco horas de uma tagarelice interminável de como aquela viagem em família seria proveitosa e eles a mandavam pra escanteio na primeira meia hora ali.
Sem muita hesitação, ela pegou notas de valor... considerável. Colocou elas no bolso do short e saiu, torrando a pouca bateria que restava em seu celular ouvindo músicas dançantes, a mesma playlist que a motivava a correr na esteira todos os dias.
Era uma rua com seus atrativos, ela não negava; parecida com subúrbios ingleses, fileiras de casas similares, com jardins, cercas e fachada meiga seguiam de ambos os lados da rua e nos demais quarteirões da região; as decorações de Halloween eram o grande diferencial, algumas singelas, outras geniais, algumas um show de criatividade e outras que a faziam pensar “Quanto esses caras torraram pra pagar isso?”.
Mesmo o vento tinha suas vantagens, pois fazia as folhas avermelhadas tingirem as calçadas e cair suavemente sobre os transeuntes. Ela não tinha a mínima noção de onde encontraria algo decente pra comer depois de cinco horas a base de bolachinhas, então se limitou a andar a esmo pelas ruas.
Quando a bateria de seu celular apitou avisando que iria acabar, ela se deu conta que saíra da casa há quase uma hora e meia e seu estômago estava cada vez mais vazio. A névoa estava mais forte do que na hora em que eles chegaram e era impossível estabelecer algum horário pelo céu. Desanimada, tornou a andar sem destino, tentando se lembrar de como faria para chegar ao centro – com o tamanho da cidade o risco real de se perder seria mínimo, mas mesmo assim ela não queria ficar zanzando até altas horas sem nada para sustentar sua fome.
Sem dúvidas ela iria se encrencar quando voltasse, pois provavelmente em algum momento seus pais iriam dar com sua falta; alguns telefonemas bastariam pra descobrir que ela não encontrara nenhum conhecido.
Remoendo esse panorama, ela notou um movimento pelo canto do olho e viu um esquilo em uma árvore. Era castanho avermelhado e todo espetado, cavoucando algo freneticamente no tronco de um bordo. Ela se aproximou cautelosa e observou o bichinho; a árvore dava início a um enorme barranco onde era possível ver outros animais como pássaros e guaxinins e Sakura simplesmente não se recordava de qual fora a última ocasião em que vira animais livres tão próximos de si.
Provavelmente lá mesmo, antes de se mudar.
Mais ouviu do que viu uma moto maltratando a pista e vindo rápida – bem rápida – em sua direção. Por puro instinto se colocou para o lado antes de notar a besteira que estava fazendo e despencar mata adentro.
Ela rolou sobre folhas secas que a pinicavam, galhos que a cortavam, pedras que a esfolavam e o solo de terra batida que a deixava imunda e, quando já tinha perdido a noção se rolava barranco abaixo há alguns segundos ou minutos, ela finalmente parou e se deixou permanecer estatelada entre árvores enormes.
Aos poucos cada parte machucada de seu corpo se fez presente. Primeiro o formigamento nas partes raladas, depois a dor dos hematomas e torções, a sensação do sangue escorrendo nos cortes mais sérios e por fim as lágrimas que brotaram nos olhos de modo involuntário.
Num primeiro momento ela se contentou a observar o farfalhar suave das árvores, o raro sinal de vento que não alcançava aquele lugar com a mesma intensidade das ruas, a dança hipnótica que cada folha fazia ao se soltar de um galho rumo ao solo, uma ou outra ave que passava rápida como uma flecha, as formigas no conjunto de rochas mais próximo – mas em algum momento sua mente começou a protestar de tal forma que ela foi obrigada a fazer força para se erguer e ao menos sentar.
Apenas para dar de cara com um completo desconhecido a observando.
Ele era alto, porém provavelmente tão jovem quanto ela. Usava roupas pretas assim como seu cabelo e seus olhos, estes últimos tão fechados em sua escuridão densa que os tornava inegavelmente intimidadores; sua pele fazia um contraste impressionante pois era branca como porcelana e ele estava tenso, de braços cruzados e a encarando fixamente.
Num surto de memória, ela lembrou daquelas feições: os Uchiha, uma das mais peculiares e endinheiradas famílias da região. Quando era pequena costumava achar todos eles estranhos, como uma criança imagina um bruxo ou vampiro – anos depois aparentemente eles continuavam perturbadoramente bonitos, embora não causassem o mesmo impacto.
–Pode me ajudar? – perguntou ela, se surpreendendo com o quanto sua voz soava rouca e cansada.
Sem nenhuma resposta, ele apenas se adiantou em sua direção e agachou, para observar o estado de seus machucados de perto.
O moletom sem dúvidas salvara seus braços e costas, que estavam apenas esfolados e com uma coleção de hematomas em tons e tamanhos diversos(e não, ela não precisava olhar pra ter certeza de que eles estavam lá)... mas seu short definitivamente não era o melhor item do vestuário para lugares como aquele, de modo que filetes de sangue escorriam das pernas severamente raladas e cheias de pedacinhos de sujeira e pedras. Sakura o viu fitando suas mãos, coisa que ela definitivamente não se sentia inspirada a fazer; ela sentia suas mãos bem o suficiente pra saber o quão detonadas deviam estar.
Afastando a mente de pensamentos deprimentes como seus machucados após cair estupidamente, ela resolveu observar o estranho: era bonito de um jeito incômodo, quieto de um jeito agoniante e tinha uma aura misteriosa de um jeito... atraente. Estava acostumada a caras com esses ares onde morava e no geral só significava duas coisas: ou ele era um punk que usava drogas ou era o último tipo de cara com o qual uma garota devia se meter por razões diversas.
Sakura ainda estava tentando decidir em qual das duas categorias ele se encaixava; talvez no interior caras esquisitos e bonitos como ele fossem mais comuns, o que não deixava de ser uma enorme injustiça... a lógica dizia que eles deveriam se mudar pra capital e deixar os brutamontes e babacas em cidades pequenas como aquela.
–Consegue levantar Sakura? – perguntou ele inesperadamente; sua voz encaixava de um modo incrível com seu aspecto, intimidadora e ao mesmo tempo magnética.
Por essa simples razão ela apenas acenou a cabeça de modo negativo antes de perceber um detalhe crucial:
–Como sabe meu nome? – ele ergueu as sobrancelhas e não disse uma única palavra.
A verdade a atingiu em instantes de forma vergonhosa: é claro que ele sabia seu nome, era Uchiha Sasuke, costumava estudar com ela. Na verdade era uma história engraçada pois ambos tinham o mesmo melhor amigo, um loiro hiperativo chamado Naruto – sem dúvidas Sakura era sua melhor amiga e Sasuke seu melhor amigo, mas de alguma forma não verbalizada ambos desenvolveram uma distância tensa entre um e outro, algo que só as crianças conseguem fazer sem soarem rudes.
E ali estava ele, anos depois a ajudando depois de sua queda patética.
–Er... Sasuke certo? – perguntou mais para encerrar aquele silêncio carregado de constrangimento do que para confirmar sua pergunta; ele se limitou a acenar a cabeça mais uma vez e estender a mão em sua direção.
Não era preciso muito cálculo para ela ter certeza de que jamais conseguiria ir andando com ele pra lugar algum, então se limitou a lançar um olhar lastimoso em direção as pernas.
Minutos depois ela era carregada nas costas dele como uma criança.
Seu cérebro argumentava de modo perfeitamente racional que as coisas teriam sido piores se ele resolvesse leva-la nos braços como uma princesa, mas aquilo não anulava o fato de que ela estava disposta a se mesclar a jaqueta de couro do garoto e apenas sumir do mundo se soubesse uma forma de faze-lo.
O lado bom de Sasuke era que ele era incrivelmente quieto. Sua respiração era calma, ele não dizia palavra alguma, se movia com graciosidade e seus pés mal faziam barulho ao andar sob aquela superfície cheia de folhas secas e galhos que sem dúvidas teriam soado como uma sinfonia silvestre se ela estivesse andando por conta própria.
O lado estressante de Sasuke era que... bem, ele era demasiadamente quieto. Mais parecia um robô andando que uma pessoa normal, a ausência de sons característicos fazia com que cada esquilinho ou passarinho soasse de forma assustadora, ela não sabia se ele era estava quieto por ser assim ou por estar concentrado em suportar seu peso, o que acabou fazendo-a postergar perguntas importantes como “minha bateria morreu, você tem um celular?”, “como me achou aqui embaixo?”, “estou faminta há horas, tem algo pra comer?”, “está me levando pra onde, porque não acho que seja algo sério a ponto de precisar de um hospital...” – o resultado foi que, quando ela tomou coragem para perguntar o silêncio já tinha se instalado de tal forma que a vontade morreu logo em seguida.
Suas costas eram firmes e fortes e pelo andar sem pausas ele sem dúvidas devia ter a mesma musculatura definida no resto do corpo ou dificilmente alcançaria tamanha resistência; eles estavam naquela há um considerável tempo, sem um único ensaio de diálogo. As coisas poderiam ter continuado na mesma, mas ela se irritou num nível em que simplesmente soltou sem soltar:
–Porque está me ajudando? – no mesmo instante ela se deu conta de como soava ingrata, prepotente, orgulhosa... apenas torcia para que o garoto não fosse do tipo sensível.
–Era o mínimo, já que quase te atropelei. – respondeu ele sem emoção alguma na voz.
–Entendi... pera, o quê??! – berrou ela.
–Que foi? – dessa vez ele soou ríspido.
–O babaca na moto era você? – rosnou ela.
–Não tinha notado até agora? – ele não se exaltou, mas era inevitável ver a mensagem clara por trás de suas palavras: ele a chamava, no mínimo, de lerda.
Ela fez então o que boa parte das garotas faria naquela situação: iniciou uma tempestade de socos no garoto enquanto gritava impropérios e reclamações. Seria até uma cena cômica se eles não estivessem andando num terreno íngreme e cercado por folhas apodrecendo e lama – o resultado, fácil de prever, é que em pouco tempo ela estava despencando novamente, mas dessa vez levando Uchiha Sasuke consigo.
Dessa vez quando enfim conseguiram parar estavam no que seria o fim definitivo daquela descida infernal, pois a vegetação continuava a se apresentar alta e imponente até perder de vista, mas agora num plano horizontal.
Assim que assimilou o contexto, começou a sentir culpa e receio. Tinha sido inegavelmente idiota ataca-lo, pois ele realmente tentava ajuda-la com muito esforço o que de certa forma significava que ele não era um babaca completo ou algo parecido. No fim das contas ela tinha basicamente anulado as chances de conseguir sair de lá até o fim do dia, pois era impossível sair no mesmo ritmo que antes machucada como estava, não fazia ideia de onde se encontrava e não podia censura-lo se ele apenas desse as costas e saísse andando.
Porém ele felizmente contrariou suas expectativas deprimentes e mais uma vez lhe estendeu a mão – se sentindo um pouco mais confiante, ela deslocou o peso do corpo para os ombros do rapaz e lentamente caminhou ao seu lado.
Naquele pedaço era possível ver o céu e constatar que o dia já se encontrava num estado avançado do crepúsculo; as folhas eram mais numerosas no chão, mas os animais mais raros. Era um cenário bonito de um jeito meio triste, como se estivesse esquecido ali há nãos, preservado dos avanços e ao mesmo tempo um mero eco do provavelmente já foi antes da construção das primeiras casas na região.
Ela se lembrava de como seu pai e tios costumavam contar histórias horríveis de como caçavam gambás, guaxinins e outros bichinhos indefesos; eles provavelmente eram uma população enorme e feliz num lugar como aquele antes de jovens idiotas surgirem aos montes e considerarem uma ótima ideia sair matando-os. Olhando para o lado, ela examinou mais uma vez o garoto bonito e silencioso que a ajudava – alguma coisa lhe dizia que ele jamais iria fazer uma maldade dessas e considerar divertido.
Quando o estômago de ambos roncava sonoramente, o suor manchava suas faces, os passos estavam cada vez mais cambaleantes e as estrelas ironicamente brilhavam com todo o esplendor no céu, resolveram parar. Se antes ele tinha aparente certeza de qual decisão seguir, isso se foi com a queda, pois agora estavam ambos perdidos, cansados e abatidos.
Encontraram uma árvore de proporções majestosas, mesmo cercada de outras igualmente antigas e grandiosas. Seria necessário pelo menos umas vinte pessoas para circundar seu tronco e seus galhos surgiam a partir do terceiro ou quarto metro de altura, galhos numerosos, grossos e tortos que misteriosamente ainda possuíam uma quantidade inacreditável de folhas verdes, mesmo em pleno outono.
Caso colocassem a mais cética das pessoas ali, para contemplar as dezenas de metros e metros daquela árvore, ele ou ela sem dúvidas admitiria que a árvore era... especial. Não havia nenhum ninho visível, muito menos algum buraco no tronco. As folhas não entregavam nada para a Sakura a respeito de qual seria a espécie: grandes a ponto de serem maiores que uma palma e de um verde bem profundo, tinham feitio de coração.
Sentados ao pé daquele monumento vivo, contemplavam as estrelas, pela primeira vez desfrutando do silêncio em conjunto, sem tensão ou constrangimentos. Se fosse verão ela tinha certeza de que vagalumes e cigarras estariam por ali aos montes; naquele friozinho apenas foram agraciados com o pio cortando e arrepiante de uma ou outra coruja.
Enquanto procurava algum sinal das aves ou qualquer bichinho na árvore enorme, não pode deixar de perceber um fato estranho: aqui e ali nos galhos mais “baixos” era possível ver marcas, como se a superfície tivesse sofrido atrito com algo... em pouco tempo ela encontrou a razão para os sinais e eles eram resultados de cordas amarradas.
Amarradas como laço de forca.
Quanto mais espreitava os olhos, mais via com clareza os nós formados que pendiam, alguns com a forca em si ainda lá, embora ela não tivesse visto nada que indicasse um corpo, para o seu mais sincero alívio. Era um lugar afastado, certas coisas se mantinham preservada por décadas... e ela sabia que aquela cidade tinha pelo menos dois séculos, portanto não era incomum casos de pessoas que sofriam com as repressões e regras rígidas da sociedade antigamente. Em cada galho era possível notar duas marcas, o que sugeria que talvez prisioneiros fossem executados ali – ela nunca fora muito adepta de histórias de fantasmas, então resolveu baixar os olhos e focar no chão, sem dar chances para sua imaginação voar no assunto. A última coisa que precisava era entrar em pânico com o sobrenatural.
Entretida brincando com as folhas a sua volta e criando montinhos com os pés, Sakura não notou que dessa vez era ele quem a observava de modo atento e curioso.
–O que faz aqui, não deveria estar nas aulas? – ela foi pega de surpresa pela pergunta, mas sobretudo pelo olhar fixo dele, que a deixava desconcertada ao extremo; era quase como se ele a despisse com os olhos.
–Uns garotos da sala aprontaram durante uma excursão e todos pegamos suspensão coletiva de duas semanas por conta disso.
–Aprontaram? – ela sabia o que o tom dele queria dizer; duas semanas era pesado demais e jamais seria aplicada uma suspensão com essa duração sem um motivo forte o suficiente.
–Foi... meio sério. – ela deu a entender que não queria se aprofundar no assunto e ele aparentemente pescou a indireta.
–E porque a sala toda?
–Os professores não sabiam ao certo quem eram os culpados e não dedamos nossos colegas.
–Uma atitude nobre... e idiota.
–Nem me fale. – eles entrariam no colegial no ano que vem e ela já imaginava o que essas duas semanas sem conteúdo fariam ao seu rendimento nos vestibulinhos.
–Acho que vamos estudar na mesma escola ano que vem. – soltou ele
–Sério??! Você vai se mudar? – ele acenou em confirmação; fazia sentido sua mãe querer coloca-lo na mesma escola para a qual ela provavelmente iria... era a mais forte e tradicional da região, além do simples fato de pessoas do interior serem mais desconfiadas e preferirem referenciais como aquele na hora de se estabelecer na cidade grande.
Imediatamente ela o imaginou com seus colegas: Suigetsu e Deidara sem dúvidas iriam adorar ter um cara com uma aura daquelas para atrair mais garotas, já que eles regulavam de idade e ele já parecia um colegial... Karin iria cair de amores por ele e provavelmente não seria a única. Seria a maior frustração sua atitude silenciosa num karaokê e ele não parecia o tipo que curtia doces.
Sem controlar ela riu e imediatamente se sentiu mais leve; a ideia de começar o temido e desejado colegial com um cara daqueles ao lado era reconfortante... Sasuke era no mínimo protetor e confiável. Claro que ela apenas cogitava uma amizade, mas ainda assim era uma notícia boa.
Quando voltou seu olhar para ele o encontrou a encarando de modo interrogativo; sem dúvidas estava tentando interpretar a risada e ela sorriu de modo afável para afastar qualquer dúvida que ele tivesse, pois a última coisa que queria era que o garoto pensasse que ela fazia troça dele. E assim, eles se fitaram profunda e longamente sob o luar.
Não houve olhar questionador, nenhum sinal prévio ou planejamento; seus corpos apenas se aproximaram, suas respirações se mesclaram, os olhos se fecharam e a conexão que o encontro de olhares formava deu lugar ao toque suave e ansioso de seus lábios.
Sakura nunca tinha beijado ninguém antes. Diversas vezes e com diversos caras montou cenas completas em sua mente, todas dignas do mais enfeitado filme de comédia romântica. Ela estava cansada, machucada, com fome, frio e tinha perdido sangue, mas nada daquilo fazia diferença.
Não existia vento, corujas, dor, fome, não existia nada além da presença de ambos, de seu coração acelerado, do friozinho novo e delicioso no fundo do estômago, do calor de seus corpos reconfortando-se mutuamente, da sensação da língua dele em sua boca, dos dedos que desajeitadamente se entrelaçavam em meio às folhas que forravam o chão.
Tão desajeitado e ao mesmo tempo tão sublime.
Quando se separam, ambos retomaram o fôlego ao mesmo tempo; ela sabia que estava com o rosto vermelho até a raiz dos cabelos, tanto pelo calor que sentia quanto pela vergonha. Hesitantes, se encararam, sorriram e riram; em momento algum as mãos se separaram.
O silêncio reconfortante voltou, dessa vez acentuado pelo calor que os corpos aproximados forneciam. Ela encostou a cabeça em seu ombro e juntos, fitaram as estrelas no céu, que agora estavam em seu auge de brilho e vivacidade, algo impossível de se vivenciar na cidade grande.
Pouco tempo depois foram encontrados. Alguém avistou a moto dele largada perto da árvore onde antes ela observava um esquilo e, com a imbatível rede de contatos formada por pessoas que viveram a vida toda no mesmo lugar, amigos que eram pais de amigos, filhos de amigos e netos de amigos, gerações inteiras que se conheciam... foi fácil montar um grupo de busca e a comemoração foi geral quando ambos foram avistados.
Focalizados por diversas lanternas ao mesmo tempo eles eram puxados, abraçados e recebiam tapinhas nas costas; Sakura podia ouvir a mãe chorando ao seu lado, mas no momento tentava encontrar Sasuke na multidão, sem muito sucesso.
Suas coisas já estavam prontas e ela se sentia otimista. As duas semanas haviam passado rápido, mas ela tinha convencido os pais de que seria ótimo retornarem lá para as festividades do Ano-Novo e eles aceitaram de bom grado. Se num primeiro instante ninguém percebeu, ficou claro em poucos dias qual era a dinâmica entre os dois jovens, fato que as famílias, amigas de longa data, aprovavam abertamente – ele realmente estudaria com ela no ano seguinte, portanto seria apenas mais um semestre separados. Tempo no qual ambos iam se dedicar aos estudos de forma quase religiosa, pois não tinham escolhido um colégio fácil.
Longe dos olhares curiosos dos vizinhos, Sasuke lhe entregou uma corrente dourada, com um pingente circular e cheio de detalhes florais; maravilhada, ela abriu e observou os ponteiros e números do relógio de bolso com aspecto refinado. Era no mínimo um artigo da família.
–Não tem problema me dar? – perguntou receosa.
–Não, além do mais você precisa de algo pra ver como o tempo vai passar depressa ou vai acabar me ligando sem parar. – ela deu um soco carinhoso no braço dele; o garoto já tinha enumerado suas características “irritantes”, mas segundo ele elas só a tornavam uma namorada mais incrível.
Contente, ela colocou a corrente em torno do pescoço como um colar e olhou para ele de modo indagativo, para logo receber um aceno de aprovação em resposta.
–Descobri uma coisa interessante sobre aquela árvore. – comentou ele.
–O quê? – mesmo involuntariamente, em alguns momentos ela se pegava pensando nas forcas.
–Ela é conhecida como Sina dos Amantes, porque nos tempos em que os casamentos ainda eram de conveniência, os casais enamorados partiam desse mundo juntos para escapar de seu destino.
Num princípio, ela não soube o que responder para aquela revelação – explicava o porquê, entre outras coisas, havia duas marcas em cada galho... ela o beijara pela primeira vez sob A Sina dos Amantes e aquilo era de alguma forma estranha muito legal. Alguns metros adiante, seu pai tocou a buzina avisando que estava na hora de partirem. Resignada, ela ficou na ponta dos pés para lhe depositar um rápido beijo nos lábios – no fim das contas o beijo acabou por ser tudo menos rápido e seu pai teve de buzinar mais três vezes antes que eles se separassem.
Ruborizada, ela o encarou mais uma vez e ele sorriu. Não era um sorriso grandioso e com todos os dentes aparecendo, era uma coisa discreta e muito mais íntima – era possível encontrar muito mais significado e sentimento naqueles dois cantinhos erguidos em seus lábios do que em livros inteiros da mais apurada poesia.
E assim, eles se separaram provisoriamente.
Não era o dia mais bonito e luminoso, pelo contrário; durante todo o trajeto de cinco horas respingos de chuva mancharam as janelas do carro e a paisagem repleta de bordos e carvalhos, coloridos e desgastados pelo Velho Outono sugeria no mínimo uma vista melancólica.
Mas ainda assim Sakura estava feliz; com a ponta dos dedos tocava o novo presente e tinha a sensação de que, assim como as forcas foram para os pobres e desafortunados apaixonados do passado, aquela presença em seu pescoço era a coisa mais romântica e reconfortante do mundo.
Notas finais
Beeeijos! (*--*)//
Fale com o autor