Simply Complicated
40 Simple Complicated
Notas iniciais
Cheguei na clínica depois de quinze minutos. Eu tremia e suava frio. Eu tava morrendo de medo, quer dizer, não é todo dia que você vai visitar sua irmã louca no hospício que está com gravidez psicológica do seu namorado.
Entrei no lugar e uma enfermeira simpática veio me levar até o quarto onde minha irmã estava. Ela estava horrenda. Suas roupas eram brancas, leves e limpas, seu cabelo continuava perfeito, sua pele ainda bem cuidada, mas ela estava diferente, bem diferente. Tinha algo no seu olhar. Era... Doentio e assustador.
– Annie? Annabeth, é você? Você está bem?
Seus olhos brilharam e meu coração foi totalmente destroçado. Eu me lembrei da minha irmã pequena, de quando a nossa mãe saía para trabalhar e ficávamos brincando. De quando nossos pais brigavam e eu, ela e o Ian nos escondíamos e eu contava histórias para eles.
– Sou eu, irmã, eu estou bem sim. E você?
Uma sensação diferente percorreu meu corpo quando eu falei a palavra irmã. Era uma boa sensação. Eu a amava afinal e naquele momento eu tive certeza que ela me amava também. Éramos uma família, a única que ela tinha. Brigávamos tanto por causa do amor dela pelo Percy, só naquele momento eu percebi isso e o quanto o amor é estranho. Doí e é trágico, mas ainda sim é o maior e melhor sentimento de todos. O sentimento perfeito onde todos os defeitos se tornam aprendizados. O sentimento que todos almejam. O sentimento pelo qual eu estou cercada.
– Eu estou ótima e o meu bebê também. Ontem ele chutou ou ela. Eu ainda não sei, mas eu ainda quero que seja um menino, um lindo menininho. Você vai ser uma ótima tia, sabia? Eu sei que sim.
– Eu vou me esforçar sim.
– Você e o Percy estão juntos, não estão? A Drew me contou. Tudo bem por mim, sério, na verdade eu sempre soube que vocês iam acabar juntos, só era duro admitir, mas ele vai ser um ótimo pai mesmo assim. Tenho certeza que ele vai amar nosso menininho. Ele veio me visitar com você?
Eu ainda estava estática.
– Não, ele não veio.
Nessa hora a enfermeira entrou no quarto.
– Vamos pra consulta, Sage querida?
A Sage sorriu pra mim e saiu do quarto acompanhada da enfermeira simpática.
Não voltei pra casa depois.
Fiquei rondando pela cidade. Eu não estava vazia e tinha um rumo. Eu não estava triste ou deprimida, pelo contrário, estava estranhamente bem e calma. Naquele momento eu percebi que a minha vida não é uma história triste. Eu tinha amigos incríveis, o melhor namorado que alguém poderia querer e irmãos que se preocupavam comigo. Eu me formaria e iria para uma universidade, daria orgulho a quem quisesse orgulhar. Eu estava feliz. Eu estava em paz.
Meu celular começou a tocar.
– Annie? Amor? Tudo bem com você? Onde você está?
Ri um pouco com a preocupação.
– Eu to bem sim, Percy, eu to só... Andando
– Andando? Annabeth, loucura não é contagiosa, é?
E foi aí que eu comecei a rir no meio da quinta avenida que nem uma desesperada. O engraçado é que ele estava falando sério, só pra constar.
– Não, Percy, não é,se fosse eu estaria perdida.
Ele riu.
– Pois é, vem pra cá, a festa já tá rolando faz décadas. Você está terrivelmente atrasada.
– Hum... Divas nunca chegam na hora.
Ele riu.
– Mas Annabeths sim, você quer que eu vá te buscar?
– Não, eu vou andando.
Eu ouvi ele resmungar alguma coisa, balbuciar um tchau e desligar.
Fui rindo e ouvindo música até a casa da Clarisse. Meu dia estava ótimo e eu estava de boa com o fato da minha vida não ser um filme triste.
Depois de umas meia hora de andar lento e ligações do Percy cheguei à casa da Clarisse
– Olha quem decidiu nos dar a honra de sua presença.
Ele beijou minha mão.
– Oi, Valdez.
– Oi, gatinha.
Ele me puxou e me abraçou pra depois me virar e continuar me abraçando, só que dessa vez pela cintura.
– Sabe, eu fiquei realmente chateado.
– Chateado?
– É, eu vim aqui pra Clarisse querendo te dar uns pegas pelas costas do Perseu e descubro que você não vai fazer isso porque, hum hum, " ela disse que é minha até o fim, otários". Poxa, Annie, isso não é nada legal, todos os meninos ficaram extremamente desapontados com a sua falta de senso comum.
– Falta de senso comum? Por que, Valdez?- Perguntei sem conseguir segurar meu riso.
– Porque o senso comum diz que faz bem te dar uns pegas.
Eu já estava chorando de tanto rir quando uma voz rouca falou.
– Hum... É realmente uma pena, vai pegar a Clarisse que essa aqui é minha.
– A Clarisse é outra traíra. Ela tá namorando também.
– ELA TÁ O QUÊ?!- Gritei desnorteada.
A Clarisse não começaria um romance e não me avisaria, começaria?
– É, sabe aquele tal de Chris? Conseguiu domar aquela fera. Ele e o Perseu tão pegando nossas minas.
Ele fez biquinho e Percy riu, mas eu ainda estava contrariada que ninguém tinha me falado.
– Mas hey, falando sério agora, ninguém pode saber deles ainda. Ela ia contar pra você primeiro e.... Que merda cara, eu estraguei tudo. Eu devo tá muito bêbado.
– É, Valdez, seu bobão, você estragou tudo- Clarisse apareceu atrás dele- Desculpa Annie, tinha todo aquele drama com a sua irmã e tudo, não quis atrapalhar o seu momento filme de romance nem nada assim. Você está muito brava?
– To sim, to furiosa.- Fingi um biquinho- Mas parabéns.
Ri e abracei Clarisse, que soltou um suspiro aliviado, enquanto Percy fazia um daqueles comprimentos de homens com o Chris que também tava ali.
– Aí, falou, to de vela, vou pegar alguma menininha que fica com qualquer veterano pra depois ir correndo pras suas amiguinhas.- Leo falou e saiu.
Todos rimos. Os dois casais ficaram conversando até umas duas da manhã. Sim, já estava tarde quando cheguei. Eu passei horas andando pela cidade na verdade.
– Argh! Isso tá muito chato. Vamos dançaaar, por favor. Amanhã a gente vai pra universidade e....
– Ah Annie, eu tenho outra surpresa- Clarisse falou.
– Sério? Qual?
Ela saiu e voltou rapidamente com um papel.
– Era pra eu ter te contado faz um tempão, mas você sabe, de novo o drama com a irmã e tals... Quer saber? Não importa. Abre.
Eu abri.
Era uma carta de aceitação pra universidade no nome da Clarisse, mas não era qualquer universidade.... Era a minha universidade! A universidade para qual eu iria amanhã, agora não só eu, Clarisse também. Não consegui me conter. Eu comecei a chorar e passei a carta para o Percy.
– Clarisse... Você....
– Sim, nós vamos.
Ela estava chorando também.
Eu e Clarisse éramos melhores amigas desde do dia que nos conhecemos. Crescemos juntas, vivemos juntas, nos tornamos vadias juntas, líderes de torcida. Tudo. Ela era sem dúvida alguma a pessoa que eu mais amava no mundo, nós passamos noites em claro chorando porque íamos nos separar e agora... Agora mais nada, e naquele momento mais do que qualquer outro na minha vida eu me senti feliz. Eu só estava mal por ter mentido para o Percy na verdade, aquele era o momento mais perfeito da minha vida.
Ficamos os quatro abraçados enquanto eu e Clarisse fazíamos os planos para a universidade nova, o dormitório novo, a vida nova.
E assim a noite foi passando, no final ficamos só eu e Clarisse sentadas no canto mais distante da casa. Ficamos vendo as pessoas indo embora e a música continuando. E ficamos ali, como sempre ficávamos em todas as festas, juntas e risonhas, como se nada tivesse mudado, mas a verdade é que tudo havia mudado. Tudo e todos estavam diferentes.
Mas naquele momento, sentada no canto da casa da Clarisse, com a minha melhor amiga, uma garrafa de vodca e uma tigela de brigadeiro comprado e depois esmagados, eu me sentia tão bem e tudo estava tão perfeito que pela primeira vez eu discordei das palavras de Percy. Aquilo não iria acabar algum dia, eu podia sentir que aquele momento ficaria em algum momento no tempo. Pra sempre.
E eu e Clarisse ficamos assim até o sol nascer, juntas, abraçadas e felizes, enquanto a música Always do Bon Jovi começava a tocar no aparelho de som.
E, naquele momento, eu me senti pronta para o futuro, mesmo sabendo que isso é impossível eu sabia, podia sentir, que as surpresas que me aguardavam nunca seriam páreos para aquele momento.
Eu estava em paz com o inconstante.
É, talvez eu tivesse crescido naquele último ano.
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