Simplest Mistake
1 Coelha Subjugada
Notas iniciais
Ela só queria deixar aquela vida…
Desejava passear como uma pessoa normal, sem receber uma mensagem de seu chefe a convocando para uma missão e explodir o parque por onde ela antes caminhava. Só ambicionava ser uma cidadã e não uma espiã.
Esqueceu-se… Seu chefe nunca iria permitir tal coisa. Ele de modo algum a deixaria partir, jamais iria desaprender-se dela por um único segundo.
Parecia que seu coração bombeava fortemente embatendo contra sua cabeça. Uma dor agoniante que se alastrara por cada membro de seu corpo. Gemeu ligeiramente de dor, abrindo os olhos vagarosamente, temendo o que pudesse encontrar à sua frente. Pelas faixas que rodeavam sua cintura, sabia que suas feridas já estavam a ser devidamente cuidadas. Era frustrante ter que voltar para aquele lugar.
Uma fuga mal sucedida… Tudo por culpa daquela pantera azul.
Grimmjow Jaegerjaquez. Famoso pelos seus cabelos azuis peculiares, e suas esferas azuladas cintilantes, penetrantes como as de um felino prestes a atacar sua presa. O segundo maior assassino da organização, perdendo somente pelo chefe. Ele tinha prazer em matar, era um passatempo. Não… Talvez fosse mais uma necessidade. Ele precisava de ver suas vítimas esvaírem-se em sangue para alcançar a paz mental.
– Rukia. Como se sente?
Para alívio da morena, ao seu lado encontrava-se o membro mais gentil de todo aquele submundo. Nelliel Tu Odelschwanck. Sua personalidade era um contraste com o que fazia. Apesar de seu olhar materno, face dócil, ela era uma arma bem-sucedida em todas as suas missões. Nunca falhara, nem uma sequer. Nell, como todos lhe apelidaram, sofria uma dupla personalidade. Gentilidade com seus companheiros, era capaz de se sacrificar por cada membro apesar de ninguém daquele subúrbio merecer estar vivo. No entanto, era capaz de ser impiedosa e inclemente, matando uma criança inocente se fosse ordenado. Mesmo que esta estivesse banhada em lágrimas a implorar por um direito seu, a vida.
Rukia encarava o teto sobre si, escutando a esverdeada remexer em água para lavar as marcas de sangue ainda visíveis em seu corpo.
– Só há uma maneira de sair da organização.
– Nell? O que quer isso dizer? Que há uma hipótese de eu conseguir fugir?
– Morrendo.
– O quê…?
– Sim, Rukia. Só a morte te livrará deste lugar. Uma vez dentro, não se sai.
– Eu vou conseguir.
– O chefe nunca o permitirá… E você sabe o motivo.
A morena fechou os olhos, não respondendo às palavras gentis. Sim, ela sabia. Perfeitamente. Só que por um milésimo de segundo, esqueceu esse detalhe. Tão embriagada com o ar da liberdade, com a possibilidade de uma nova vida que nem recordou um pormenor importantíssimo como esse.
Deslocou os braços que estavam acorrentados sob sua cabeça, ouvindo o estridente som, irritante, a seus ouvidos. Tentou remexer suas pernas mas estas encontravam-se sem força pelos golpes do azulado quando este a capturou.
Ela não tentou lutar quando seus calcanhares foram libertos, obedecendo de imediato quando uma voz austera ordenou que ela o seguisse. Seu cérebro não se deu ao trabalho de tentar reconhecer a voz, mecanicamente se ergueu após Nelliel a soltar das correntes. E caminhou com os olhos presos no chão imundo. Não precisava de olhar a pessoa, nem por onde caminhava, ela sabia para que lugar a orientavam, mecanicamente se deslocava para lá. Ela já conhecia aquele trajecto melhor que a palma de sua mão.
No fundo de sua mente, ela sempre soube que ela iria voltar àquele local. Seja pela força ou por sua própria vontade.
O edifício da organização em que viviam era uma enorme mansão que se realizam as reuniões e em simultâneo deu aos seus membros um lar, um sítio para ficar e para voltar quando finalizavam seu trabalho. Para vagabundos esquecidos da sociedade como eles, só isso importava. Rukia não era excepção. Tinha permanecido ali algumas vezes, até mesmo partilhar o quarto com seu líder.
Rukia estaria se enganando se dissesse que não se importava com ele profundamente. Também estaria mentindo se ela negasse o facto de que o líder a enxergava como alguém especial; ela era a sombra dele nos dias tórridos de Verão. O repouso de sua mente sanguínea.
Apesar de tudo, ele era uma boa pessoa. Pelo menos, para ela sempre o foi.
A morena caminhava pelos corredores dos edifícios com uma expressão vazia. Duas pessoas estavam na sua frente enquanto Neliel seguiu atrás dela. Rukia era terrivelmente baixa comparada ao restante grupo, na realidade já se acostumara com suas peculiaridades físicas. A baixa estatura, suas íris violáceas, até a pequena madeixa negra que encontrava-se entre seus olhos. Nunca se interessou particularmente por essas características, contudo não podia declarar o mesmo dos olhares masculinos que a observavam. Se não fosse o chefe sedutor, ela seria uma presa rodeada de lobos famintos.
Distraída com seus pensamentos, não reparou que os três membros que a acompanhavam travaram. Ela parando de escutar seus passos redirecciona seu olhar pelo ombro os vendo sossegados a encararem algo à sua frente. Seguiu o olhar destes e um rosnado se formou na garganta da presa, demonstrando que esta também sabia encarnar o predador.
Três homens elegantes surgiram entre as sombras, de um canto escuro, como fantasmas que vinham assombrar durante a noite fechada. Um deles alargou seu sorriso com o cenário proporcionado.
– Quanta surpresa… É esta a traidora fugitiva de que tanto falam?
O albino provocativo zombou, assistindo com alegria todos os membros em torno de Rukia, encararem-no mortalmente.
– Não fale sobre ela como se fosse um lixo, Ichimaru.
Abarai Renji manifestou sua presença latindo em protecção de uma aliada, com uma mão bronzeada levantada reivindicando. Apesar da fuga fracassada, Kuchiki Rukia sempre fora acarinhada pela maioria de seus colegas. Eles conheciam seu passado e compreendiam que ela não pertencia àquele lugar… No entanto não podiam permitir que ela partisse enquanto seu chefe não o permitisse. Por isso tentavam ser o mais acolhedor com ela possível.
– É desrespeitoso para nós falarmos tão insultuosamente sobre ela, Gin. Só há um acordo que nos une a eles, o que possibilita o término da violência entre nós.
A Kuchiki lembrava-se perfeitamente dele, e de toda a sua tripulação, rever sua expressão fastidiosa trouxe à tona o seu velho ódio por eles. Eles pertenciam a uma quadrilha rival que ameaçava a sua, muitas pessoas já morreram por causa da batalha disputada pelos dois líderes. Na primeira vez que ela conheceu essas pessoas, tinha acompanhado seu chefe e assistiu como eles tanto falavam rapidamente de negócios como permaneciam em silêncio com a mão posta nas armas ocultas ao sensor da visão. Sousuke Aizen era o cabecilha, conhecido como o Rei. Porém seu braço direito era pior, Gin Ichimaru era procurado no Japão e América por inúmeros ataques e tiroteios. Um assassino em série pelo coração e um louco por natureza.
O terceiro homem que permanecia em silêncio era Kaname Tousen, um homem com um senso de justiça muito próprio, com uma alma gélida. Ele era muito mais calmo comparado a seu colega albino, mas igualmente perigoso. O ódio de Rukia por eles nunca desapareceu, ela sempre repudiou aqueles seres na sua frente, que nem se atrevia a designá-los humanos. Eram o desastre do ambiente, uma criação mal sucedida pelos elementos naturais. Os três homens elegantes se focaram na entidade da fugitiva, troçando os ideais desta que já não eram secretos.
– Rukia Kuchiki, parece que o seu plano para ficar escondida de seu líder falhou. Isso é uma vergonha.
– Vamos retomar ao nosso caminho.
Após o pronunciamento final de Aizen, este desistiu de prosseguir com as investidas contra o grupo, sua missão naquele lugar já tinha sido cumprida com o chefe. Os outros dois, como mascotes pertencentes à realeza, seguiram-no cegamente sem contestar. A morena vislumbrou os passos destes ao se afastarem, até esse gesto parecia uma provocação. Tudo neles a soava como uma irritação. Posteriormente subiu seu olhar pelo cabelo longo esverdeado, encontrando uma Neliel com o mesmo olhar frio que ela.
– Por que se preocupa com o que aconteceu desde que você saiu, Aizen? Você nos deixou, mas isso não nos impede de continuar o nosso trabalho. Agora “The Hollows” e “The Mask" só trabalham em conjunto. Supere isso.
Neliel, assumindo a liderança, caminhou na mesma direcção que os três homens tinham aparecido. Obviamente estes a escutaram, mas não responderam à provocação, limitando-se a seguir seu caminho.
Cerrando as pálpebras, Kuchiki agachou a cabeça quando sentiu seus ombros serem pressionados, indicando que ela deveria continuar sua rota. Todos estavam diante de uma grande entrada adornada por detalhes obscuros. Renji foi quem tomou a iniciativa, anunciando a presença deles. O soar da voz potente fez com que a porta se entreabrisse por conta própria. Através da brecha, foi revelado uma grandiosa sala coberta de tinta preta, com estranhas estátuas góticas, decorando humildemente as paredes. Num recanto da divisão, com vinte e cinco anos de idade, um homem alto e atraente, repousava em uma avantajada poltrona de couro, ele abriu os olhos revelando sua cor avelã embriagante, porém os cerrou rapidamente como uma criança teimosa que não se habituara à luz do dia depois de despertar. Ele manteve o rosto impassível quando Rukia foi empurrada para dentro do compartimento, e obrigada a permanecer a poucos metros de distância dele.
Ela não o temia, sabia disso. Seu nervosismo consistia no laço que por instantes ela ia quebrando.
Erguendo-se preguiçosamente de onde estava sentado, o seu rosto curvou-se num pequeno, mas deslumbrante, sorriso para enfim a risada suave encher o ar do local. Cada um dos presente ficou ligeiramente tenso com o barulho repentino, não era a reacção previsível do homem com o exótico cabelo laranja. Ichigo Kurosaki. Seu sorriso não desmoronou quando enfrentou o olhar aquecido de Rukia no entanto estreitou seu olhar com a visão. Ele levou algum tempo para descobrir para onde ela fugiu e agora ela estava de volta onde ela de facto pertencia. Nesta casa, com o sua família, e ao seu lado.
Acenou aos seus subordinados, estes respeitadamente abandonaram a divisão sem questionar. Só Rukia permaneceu imóvel no seu posto, estremecendo ao escutar os passos do ruivo aproximando-se de si. Com o olhar violáceo agachado, ela assistia aos movimentos de seu superior pelo jogo de sombras mínimo sob seus pés. Trémula, sentia antecipadamente. A sombra de Ichigo era claramente maior que a sua, vendo esta curvar-se em direcção de sua orelha.
Não suportando a ânsia da delonga, ela ergueu suas íris deparando-se mortalmente com as acastanhadas perante seu corpo miúdo.
– Já faz bastante tempo, Coelhinha.
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