Simplesmente "Maria"

5 Enfrentando o Gigante Desconhecido.


Ela era uma mulher de vinte e dois anos, que mantinha intacta a ingenuidade de uma criança, mas que também já tinha sofrido o bastante para perceber, que o que não á matava á tornava mais forte.

Não havia outra alternativa além de enfrentar.

Se ela tivesse outra escolha, qualquer que fosse, a casa de alguém para ficar, ela não teria passado por tudo isso, mas como ela sempre dizia, Deus sabe o que faz e quem sabe lá não estaria a sua sorte.

Chegando à praça da Republica, como era ainda muito cedo, a maioria dos comércios não estavam abertos, somente as padarias e barzinhos que serviam café estavam começando a abrir.

Bicicletas passavam com pães frescos na cesta, as pessoas que acordavam cedo para o trabalho se misturavam com as pessoas que trabalhavam na noite e estavam indo para casa.

Maria se assentou na calçada e ficou esperando algum comércio abrir de fato, para pedir informação e pedir também se seria possível alguém ficar com suas malas, somente enquanto ela passava o dia procurando um emprego.

Sentada com a solidão e o medo, um jovem homossexual passa em sua frente, andando rebolando, muito animado e simpático e a chama de MARAVILHOOOOOSAAAA...e vai andando.

Maria mais que depressa, grita moço, espera ai um momento por favor !!!

E vai até ele, ele a olha com um olhar amigável, como só as pessoas que sabem o que é sofrer tem.

E então ela conta rapidamente sua história resumindo, diz que sofreu um acidente, foi abandonada, não tinha onde ficar, e veio para São Paulo sem conhecer ninguém em busca de emprego, mas que se naquele dia não conseguisse nada, ela queria saber se poderia dormir na casa dele.

Ele á olha com piedade, e responde que infelizmente não, pois mora com o marido, a casa é pequena, só tem um quarto e o marido não aceitaria, mas...ele á orienta e diz:

Não se preocupe, pois se você não conseguir nada, vá até a praça Roosevelt e pergunte sobre o um hotelzinho que hospeda gratuitamente e que você poderá passar a noite lá, e eles servem também uma sopa.

Ela perguntou, mas não tenho dinheiro, e ele disse, pode ir, para mulher bonita, como eu disse, é de graça mesmo.

Maria não acreditou, era muito bom para ser verdade, ela pensou como cidade grande é diferente, tem de tudo mesmo.

Ele á explicou o caminho, que dava para ir a pé, de tão perto. Eles se despediram e Maria agradeceu a Deus pela vida dele.

Mais algumas horas e todos os comércios abertos, ela vai á uma lanchonete pede por favor para deixar suas malas, por sorte, a pessoa confia e aceita. E assim ela sai em busca de trabalho.

Observando vê que realmente era verdade tudo o que via na televisão, tem tantos homens com placa de emprego que ela poderia escolher, ela vai escolhendo por salário e os que estão na praça da republica, pois se ficasse longe, ela não teria como ir.

Mas por sorte, a maioria dos empregos que ela lia eram em prédios da praça da Republica, os cartazes prometiam salários de 1.500,00 a 2000,00 cruzeiros iniciais, e ela pensou, é isso mesmo, com esse salário eu consigo viver aqui.

E começa a labuta.

O primeiro emprego, ela entra em um escritório chic, com várias salas, faz um teste psicológico como os outros candidatos, nesse teste são perguntas simples, como que animal você gostaria de ser, qual seu maior medo, qual sua maior qualidade, qual seu maior defeito, etc...depois de tantos livros de psicologia ,filosofia etc...ela tinha PhD nisso.

Tirou dez com louvor e foi chamada para outra sala, onde assistiu um vídeo enorme, com cidades do mundo todo, escritórios muito ricos, empresas e funcionários todos sorrindo e bem vestidos, mas eles ainda não informavam qual era o emprego e nem a empresa.

Depois de bastante mistério, ela foi chamada a uma sala, para finalmente falar com o responsável pela contratação.

Ele um senhor meia idade, de terno, sentado em sua mesa. Ela uma jovem senhora com "micropole"(um tipo de band-aids ) tampando metade do rosto ,mas com muita vontade de trabalhar e um brilho forte no olhar, além de uma excelente dicção.

Pois nessas situações extremas, ela já havia aprendido a falar palavras que não a fizessem gaguejar, e a necessidade ajudava falar bem.

Começam a conversar e ele diz que ela passou nos testes e o trabalho é vender livros, da enciclopédia Barsa.

Diz que ela terá de ir de casa em casa vendendo.

Ela pergunta sobre salário, ele responde que não tem, só comissão pelo o que vender.

E ela diz, e ajuda de custo?

Ele responde que também não.

Mas e vale transporte, marmitas, algo assim?

Ele diz que como já disse, não tem ajuda de custo, mas que ela poderia passar uma lista de lugares em São Paulo que seriam possíveis compradores.

Ela olha para ele meio assustada e diz:

Senhor, eu não sei nem o nome da rua que eu estou aqui agora, não conheço nada na cidade, e o senhor acha que essa lista resolveria meu problema?

Se pelo menos o senhor garantisse o salário, eu iria pensar.

Ela saiu de lá muito decepcionada.

Mas por um lado foi até bom, pois serviram um café com pão na sala de esperas que foi seu café da manhã;

Sempre tem um lado bom.

Tentando resumir, ela passou o dia indo a salas em prédios da praça e um atrás do outro , eram decepcionantes.

O segundo era para vender planos de saúde, nos mesmos termos, sem nenhuma garantia, sem salário, sem transporte.

O terceiro era para vender, lotes de terreno também nos mesmos termos e ficar parada com uma placa nos metros oferendo os terrenos aos transeuntes.

E assim foi indo, assim sucessivamente até que o dia se findou, e já ia escurecendo.

Com medo, fome ela se lembrou do conselho daquele moço simpático e foi conhecer o hotelzinho da Praça Roosevelt.

Chegando lá foi recebida por uma mulher enorme, negra, com jeito bem masculino, que parecia mais um homem que mulher, e ela perguntou se poderia dormir essa noite lá.

A recepcionista disse que sim, desde que ás onze horas ela fosse a boate ao lado, e ficasse lá até as quatro da manhã,

Maria perguntou se era só ficar lá, ou se teria de fazer alguma coisa?

Ela disse que Maria só faria se quisesse, e que pela casa, só teria que ficar até o horário combinado.

E que teria direito a uma sopa ou refeição pela casa.

Maria aceitou.

A recepcionista disse que teria que ficar com seus documentos, enquanto ela estivesse lá, e Maria deixou com ela e pegou a chave de um quarto. Claro que Maria só foi aceita porque apesar da cicatriz no rosto, ela era uma mulher bonita, pois se não fosse, nem lá entraria.

Maria tinha 1,75 de altura, olhos grandes, boca carnudas, não tinha seios avantajados, nem muito bumbum, pois era magra, tipo elegante, um andar seguro, de quem sabe o que quer, tinha um charme, uma luz especial.

O lugar era mais do que ela esperava. Era bem aconchegante e limpo.

Só havia mulheres nesse hotel.

E com muita fome e sem nenhum tostão, pois com os 0,80 centavos ela havia comprado uma esfirra na hora do almoço, que veio estragada, mas ela tentou comer e comeu metade com medo de passar mal e acabar pior.

E nessa situação, ela foi guardando suas coisas em um guarda roupa branco e grande, com uma cama de casal limpa e cheirosa.

Mais tarde algumas moças vieram se apresentar.

Todas vestidas de forma muito sexy.

Maria já previa o que seria, mas pensou, melhor estar aqui e poder dormir em uma cama, do que se eu estivesse na rua, ao léo.

E também tinha certeza que logo arrumaria um emprego, pois cedinho ela já iria sair a procura novamente.

Quando chegou o horário, todas se dirigiram á boate que ficava ao lado, a casa parecia um castelo, tudo muito chic, luxuoso, aos poucos veio chegando os executivos, e Maria ficou em um cantinho encostada na parede, paralisada, não conseguia conversar com ninguém, estava como em estado de choque, pois nunca havia pensado que chegaria á tal ponto.

Assim foi o primeiro dia, enquanto as moças sorriam, e iam até as mesas, conversavam, ganhavam caixinhas pela bebida, e faziam programas, Maria ficava paralisada, esperando a hora da sopa e também depois a hora de ir embora.

Como combinado, quatro horas da manhã elas liberam a porta e todas podiam sair. Somente as que saíssem acompanhadas poderiam sair e voltar a hora que quisessem.

Ela foi para o hotel e nem conseguiu dormir, esperou amanhecer e já foi procurar emprego, mas mais um dia perdido, nada que valesse a pena, só empregos sem salários.

E mais uma noite Maria volta ao hotel. E as onze horas todas vão novamente para a boate.

Mais uma noite difícil, mas pelo menos tem comida, e no segundo dia não foi sopa, já foi um belo jantar, que valeria como jantar e almoço para ela.

Depois de comer ela desceu para a boate, e ficou no mesmo lugar do dia anterior paralisada.

A dona da casa, veio falar com ela, e disse:

Amor, você precisa passear, sorrir para os clientes, senão você não ganhará nada.

Mas Maria nem deu ouvidos, foi gentil, mas continuou petrificada, paralisada.

A noite toda e até as quatro horas esperou para ir dormir no hotel, pois já não aguentava mais uma noite em claro.

E mais uma vez ao amanhecer, ela vai a procura de emprego, e como milhões de brasileiros, volta sem nada, mas com esperança.

Essa noite ela vai mais uma vez á boate, mas ela não sabia o que estava prestes a ver, era final de semana e tinha show, pela primeira vez em sua vida, ela teve que assistir do palco que ficava na boate, sexo explícito.

Aquilo foi muito chocante e ela ficou claramente assustada. Devemos lembrar que ela era do interior do estado, criada de forma simples, se casou com o primeiro namorado que teve e com seu marido perdeu a virgindade, e até então, não conhecia nada desse tipo e nem outro homem.

Do seu cantinho de sempre, chorou e disse á Deus que essa seria a última noite que ficaria ali, que pegaria suas coisas e sairia pelas ruas, que seria o que Deus quisesse, mas que ela não poderia suportar mais tamanha humilhação.

E assim foi, quando acabou a noite, ela foi descansar um pouco e logo cedo acordou e pediu seus documentos a recepcionista, e aquela mulher enorme, olhou nos olhos de Maria e disse, sim eu dou, mas quando você acertar sua dívida no hotel que é de tanto.

Maria não acreditava no que ouvia, pois ela havia falado que seria gratuito.

A recepcionista diz que ninguém dá nada de graça, e que se ela não pagasse não sairia dali nem os documentos e nem suas coisas.

Foi um choque!!!!

Agora além de tudo, ela teria que se submeter á isso???

Como de costume deu onze horas e todas foram á boate, inclusive Maria, que queria morrer, mas sua fé e amor à vida não permitiam.

Na boate pelo quarto dia Maria orou a Deus.

Com todas suas forças, lá de dentro implorou um milagre, qualquer coisa que a ajudasse a sair dali.

Encostada na parede, longe de todos, perto do corredor do banheiro, as lágrimas desciam.

Algumas horas se passaram e um senhor elegantíssimo, que provavelmente era algum rico executivo, mas que parecia mais um juiz ou alguém do mais alto escalão, e ele veio falar com ela.

Ele logo disse, que da sua mesa á observava, e que viu que ela estava muito quieta e triste e que ficou curioso para saber o que estava acontecendo para tanta tristeza.

Maria sempre foi muito sincera, falante e educada com todos.

Ela olhou para aquele senhor tão gentil e fino, e contou toda sua história, disse que por mais que pudesse parecer mentira ou irreal, ela nunca havia feito um programa, nunca havia estado em uma boate, e estava desesperada agora com a dívida que contraiu. Contou sobre sua mãe, seu ex marido, seu acidente, o abandono, sua vinda á São Paulo, etc...

O senhor elegantemente perguntou se ela aceitaria sentar-se com ele á mesa, e que ele realmente só gostaria de conversar com ela e nada mais.

Maria prontamente aceitou e eles foram.

Parecia que eles se conheciam á tempos, conversavam como grandes amigos. Ele entendia e acreditava em tudo o que ela falava, e ela se encantava com o sentimento que ele demonstrava ter com ela;

Passaram horas conversando, e depois de beberem um pouco, Maria já bem mais solta e alegre pelo efeito do vinho, e da companhia amigável.

Esse senhor chamado Francisco, disse que ela poderia se despreocupar, pois no final da noite, quando ele fosse embora, ele lhe daria o valor para pagar as diárias do hotel e um dinheiro a mais que ela poderia ter tranquilamente um mês de tempo, em um hotel melhor no centro, para encontrar trabalho com dignidade.

Maria chorou...mas dessa vez de alegria.

Deus ouviu seu clamor!!!!!!!!!

Ela pensou, como em meio à tantas mulheres desinibidas e lindas, todas se oferecendo, com corpos descomunais, e esse senhor tão bondoso e rico, que estaria indo embora para Singapura no outro dia pela manhã, iria observar uma moça tímida, magra, triste, com um corte lateral no rosto, e mais, se oferecer para dar-lhe gratuitamente as diárias do hotel, se não fosse Deus que estava falando dentro dele?????

Um homem quando vai a um lugar desses obviamente via á procura de satisfazer seus desejos carnais e não de satisfazer seus sentimentos e caridade.

Maria ficou tão agradecida, e já estava tão apaixonada pelo jeito dele e pelo seu charme, e tão carente de contato, de carinho, que só teve uma resposta para dar.

Ela olhou-o nos olhos e disse que aceitaria sim, mas que teria uma condição, que se ele quisesse ela gostaria de passar a noite com ele. Ele sorriu e disse que também queria.

E assim fizeram, ele á levou dali para um motel luxuoso, os dois jantaram, conversaram, parecia um casal em lua de mel, ele á tratou com tanto carinho que parecia que eram casados, e Maria teve seu dia de princesa.

Finalmente ele á deixou em seu hotel e cumpriu tudo o que prometeu, e disse que se ele ficasse aqui no Brasil, com certeza eles iriam se ver, mas que seus negócios o levavam para longe, e que não teria previsão de retorno. Os dois se despedem, e cada um do seu lado senti a felicidade, ele de ter podido ajudar, ela por ter sido ajudada.

Maria bem cedo faz suas malas, e vai á recepção, e para sua alegria pagar sua dívida e pega seu documento, para seguir para uma jornada, talvez menos dura.

Ela agradece pela hospedagem, pois sabe que se não fosse aquela porta aberta ali, por mais que tenha sido difícil ela teria dormido na rua, passado frio e fome, e graças aquele hotelzinho, ela dormiu, teve um cobertor, e uma refeição boa por dia.

Quando saiu de lá, não foi com raiva do lugar, nem das pessoas, mas foi com gratidão!!!!

E ali no centro mesmo, ela conseguiu alugar um hotelzinho simples e barato, pagando quinze dias adiantado, ficou ainda com uns trocados para comer... e pensou, por mais que seja difícil, por mais que eu esteja sozinha, Deus está comigo!!!!!!!!!!

Sentiu-se feliz e mais forte para enfrentar o que viesse pela frente.