Simplesmente Amor

1 Capítulo 1 Como ei de partir?


Notas iniciais
Olá, moçada! Venho com um mais novo projeto que me apareceu na cabeça numa dessas noites que virei estudando. Não sei o pq, mas tive que escrever. Então, cada capítulo contará a história de amor de alguém e pode ser que elas se encontrem ou não. Espero que gostem!
Hoje, o casal é Temari e Shikamaru. Espero que gostem!

jarras se espatifaram na parede, os berros continuaram e os lamentos e as lágrimas continuaram a rolar sem perdão. Não havia um móvel sequer no lugar daquele apartamento já nem sempre tão arrumado. A noite fria de outono invadia rua a fora e nem mesmo a lua queria presenciar mais uma das grandes brigas daquele casal, quem dirá as estrelas. Apenas algumas insistiam em saber o resultado daquela discussão que ninguém mais sabia como havia começado.

Shikamaru ouvia tudo pacientemente, fumando na janela e observando tanto as parcas estrelas que ainda davam as caras naquela noite cheia de nuvens – que, agora, para ele, não representavam coisas boas – vermelhas. Vermelhas como os olhos dela. Vermelho como suas unhas, seu colo, sua pele. Vermelha pelo calor da discussão tão potente, naquela hora do dia/noite. Não sabia mais quanto tempo estavam naquela situação, haviam perdido a noção das horas, já haviam perdido tudo, jogado fora toda e qualquer oportunidade de se acertarem. Não combinavam, diziam. Mas eles não os conhecia tão bem assim para dizer esse tipo de coisa.

Ele desviou o olhar das nuvens e observou-a. Estava tão magnífica quanto o dia em que se conheceram. Os cabelos emaranhados, os olhos raivosos, os lábios avermelhados, sua roupa desorganizada. Quando se conheceram, não conseguia mais sonhar com outra coisa, fora fisgado pela imagem de uma pessoa prepotente e arrogante. Rompeu com seu mundo tão pacato e a partir do momento em que ela o invadiu, desligou-se do seu mundo, queimando toda e qualquer ponte com o mundo real. Era como àquele conquistador espanhol que havia chegado nas Américas, e com medo de seus homens o abandonarem naquela terra tão diferente, mandara queimar os navios para que eles não fugissem. Ela era aquela terra diferente para ele. Temari era o novo, o impenetrável, o selvagem.

- Vá embora.

E nada mais foi dito, só sentido. Os olhos nos olhos, transbordando de sentimentos. Nada mais era apático. Mas também não era mais a primeira vez que essas simples palavras – mas tão carregadas de sentimentos selvagens e conturbados e paradoxais — eram proferidas por aquela boca. Boca essa que já fora provada tantas vezes, tantas vezes rasgada por mordidas no calor daquele amor tão pagão, que lhe partiam ao meio, sem separá-los.

Sentada num canto da parede, com as pernas quase encostadas nas dele, que eram facilmente trocadas em travessuras nas tais noites — que, para ele, eram eternas. Mal sabia ele, que para ela, também eram. Pernas lânguidas, esbeltas, bronzeadas. Ao se levantar rápido, suas pernas enroscaram nas dele e por uma fração de segundo, ele a segurou, evitando com que ela fosse de encontro ao chão.

Desvencilhando-se rápido, Temari foi rapidamente ao armário embutido, certa de que, mesmo com aquela aproximação forçada, seu coração parasse de palpitar por ele. Dentro da desordem tão imensa daquele armário, o terno tão pouco usado dele ainda enlaçava seu vestido preto, como naquela noite em que ainda eram felizes e saiam para dançar nas noites quentes de primavera. E ironicamente, o sapato dele ainda pisava no seu, como naquelas danças primaveris. Sentia falta daquele tempo e quem ouvisse o que se passava em seu interior acharia que aquilo havia acontecido a muito tempo atrás, e não a parcos meses.

Irritada, retirou a aliança que ainda era guardada em uma corrente presa ao pescoço. Não cabia mais em seu anelar, e por falta de vontade e medo de estragar tão bela peça de joalheria antiga que havia pertencido à avó dele, não fora apertada e sim, colocada em uma corrente da mesma cor e colocada sob seu coração. Talvez deveria ter percebido naquilo algum desejo do destino de perceber que não se encaixava na vida dele e que deveria ter saído de perto dele.

Arrancou com raiva e jogou em direção a um dos poucos jarros ainda inteiros que sobreviviam na sala. Com a força empregada em tal ato, seu pescoço fora ferido e resultou no espatifamento do belo jarro de cristal, espalhando água e rosas pelo chão, encharcando o carpete. Seria mais uma das muitas manchas que ficariam naquele apartamento, palco de tantos atos como aquele. Mas aquela mancha no carpete seria a menor das marcas que ficariam por lá. As mais graves, ela carregaria no peito, exatamente aonde ela tão cuidadosa guardara aquela tão fina joalheria que simbolizava o amor de ambos. Amor agora quebrado feito o rico vaso que já não sobrava mais do que farelos cortantes escondidos pelo carpete felpudo da cor da areia.

Ele enlaçou-a pela cintura e com a destreza que lhe era peculiar, surpreendendo-a, impediu que ela se soltasse do abraço forçado e afastou seus cabelos emaranhados e soltos do pescoço, e lá fazendo uma pequena assepsia no ferimento que deixava brotar algumas gotículas de sangue com a língua. O arrepio que ela dava ao ser tocada daquela maneira, tão íntima, somente fez com que ele continuasse com a carícia e subisse a mão esquerda ao seio direito, apertando-o.

Arfava, mas não dava sinais de que queria sair daquela ligação tão dominante. Se sentia dominada por ele. Seus corações pulsavam na mesma sintonia e não seria estranho se alguém dissesse que, daquela forma, naquela bagunça que eram seus sistemas circulatórios, seus sangues erravam as veias e se perderiam, um em outro. Sim, se sentia terrivelmente perdida naqueles braços que fortemente a seguravam para que não partisse, ou partisse sua cara e provavelmente cairia se não fosse segurada por aqueles braços tão fortes.

Novamente, perderam a noção da hora, do dia, da situação. Era sempre assim. Se confundiram nas pernas, tropeçando nelas, indo de encontro ao chão coberto pelo carpete cor de areia. As mãos travessas faziam o caminho que mais ansiavam. Se amavam feito dois pagãos, se perdendo em pernas, braços, beijos, abraços. Queriam matar o que o peito gritava. Aquilo era amor. Sádico, cruel... mas continuava sendo amor.

Por mais que ela insistisse, dizendo para ele partir, não saberia mais com que pernas ele deveria ir, ou com que cara. Se olhavam, olhares que juravam tomar conta um do outro. Se perdiam neles próprios, se corrompiam, rompiam com o mundo. Não haveria lugar algum para que fossem embora, nunca estariam longe o suficiente de si próprios. Não eram um casal, eram um inteiro. Não haviam metades. Não haviam opostos.

- Me diga, como ei de partir?

E ao olhar para ela, teve a ligeira impressão de que nada mais era de verdade, tudo não passava de uma tremenda confusão. O que não deixava de ser, pois os dois eram uma confusão. Tanta que nem sabiam ao certo onde terminava um e começava o outro. E o piano ainda tocava solenemente no aparelho de som, num lamento digno de uma canção de blues, ao ver tanta sorte e amor derramado no chão e paredes daquele lar tão confuso.

A chuva fina que agora caía das nuvens vermelhas, como num choro sentido, batia na parte fechava da janela e entrava pela sala, molhando o rosto dela, já molhado recentemente pelas lágrimas quentes e salgadas e amargas que cruzavam seu rosto, igualmente sentido. De repente se sentiu abandonada, quando não se sentiu mais protegida contra o frio que penetrava pela casa pela mesma janela antes aberta para que a fumaça do cigarro não a incomodasse. Ele sempre fazia isso. Sempre pensava nela, para não incomodá-la com aquele cheiro forte. Sempre a protegia, e para ela, uma pessoa tão cheia de si, admitir isso era mais do que assustador.

Mas, aonde estava ele agora? Aonde estava, que não a protegia de si mesma? O que ela faria com aquele frio, que agora ela sabia não vir mais da janela aberta e sim da falta da transfusão do calor dele para seu corpo tão ínfimo e pequeno perto dele. Não, ela não era nem um terço do que Shikamaru achava que ela era. Ela era minúscula perante aqueles olhos tão cativantes. Seus olhos novamente se avermelharam, perante as novas lágrimas que brotavam com a possível partida de seu moreno. Não, não iria se virar para trás, para confirmar aquilo que seu peito já sabia e se esmagava com a constatação.

O tempo que ela passou ali, aninhada entre o carpete e os cacos de cristal e também, por que não, seu coração e sua sorte, se arrastou interruptamente. Fechou seus ouvidos para não ouvir a porta se bater e escutar o vazio que ficaria, tanto em seu apartamento, quanto em seu peito, quando ele se fosse. Nem mais o lamento do piano era ouvido, provavelmente já havia acabado o cd, pois tudo tinha um fim.

Sim, tudo tinha seu fim, e aquele era o dela e o dele. Mas, não havia sido ela mesma a fazer aquele pedido? Agora já não fazia mais sentido aquelas duas pequenas palavras que ela proferia horas atrás, mas ela não daria o braço a torcer e muito menos pediria para que ele voltasse atrás e permanecesse com ela.

O frio na alma dela passou a ter formato definitivo. Àquele formato lapidado, aquela pedra brilhante que para ela não havia mais brilho algum. Ela não precisava se virar para ver que, o que estava encostando em suas costas nuas mas também cheias de pedaços de cristal, era sua aliança. Novamente, seu cabelo fora afastado de seu pescoço e o calor proveniente das mãos dele passou a invadi-la novamente. Calor e frio. Calor das mãos. Frio do metal da corrente.

- Me diga, como ei de partir? Se, no fundo, já perdemos a noção das horas, se juntos, já jogamos quase tudo fora? Me conte agora, como ei de partir?

A voz melodiosa dele atravessava seu corpo, penetrando como um sussurro em seu ouvido exposto e tocava seu coração. Seus lábios ainda tocavam sua pele da cervical e suas mãos ainda acariciavam sua coluna, acariciando. A pele dela ainda era arranhada pelos fragmentos do cristal anteriormente quebrado naquele mesmo local em que ela estava deitada, mas não tinha a mínima vontade de sair dali e quebrar aquele contato tão sutil e invasivo ao mesmo tempo.

- Me diga, pra onde eu ainda posso ir? Se nós, nas nossas travessuras das noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas que eu mais nem sei quais são as minhas. Me diga, com que pernas eu devo seguir?

E, mais uma vez, as pernas se enlaçaram como se fossem um conjunto só. Com um movimento forte, arrancou-a do chão, colocando-a sobre o seu colo e com isso, fazendo com que o colar que prendia a aliança corresse para frente, para perto de seu coração, novamente. E as mãos dele pararam sobre tal órgão, sentindo-o bater ritmado. Com a outra mão, obrigou-a a colocar a mão sobre o peito dele, fazendo com que ela sentisse também seu fluxo cardíaco ritmado, enquanto ela tentava – inutilmente — , desviar do olhar dele.

- Me diga como, se, na bagunça dos nossos corações, nosso sangue errou de veia e se perdeu?

E as mãos, que a pouco tempo estavam sob seu coração, agora pararam nos seios alvos, levemente pressionados pelo dorso dele.

- Como, se nós nos amamos feito dois pagãos neste chão, sob esse tapete repleto de cacos de cristal, a poucos minutos atrás e os teus seios ainda pertencem às minhas mãos, me explica... com que cara eu devo sair por aquela porta? — E os olhares novamente se encontraram. Se engoliram, se fagocitaram. – Não, – e sorriu – Acho que estás só fazendo de conta... se lembra que eu te dei meus olhos pra tomardes conta... agora conta, como ei de partir?

E, como se fosse mais possível, Temari se encolheu mais e se aninhou no peito largo dele, quebrando o contato visual tão intenso que ela ainda sentia atravessar sua cabeça, e se proteger em seu peito, fazendo morada por lá. Sentiu um beijo no topo de sua cabeça, um carinho ínfimo perante ás carícias sob as rosas destruídas e os cacos de cristal espalhados pelo chão, mas de significado muito mais amplo.

- Sei que há léguas a nos separar... tanto mar, tanto mar. – E os olhos dela, cor-de-mar, já estavam aguados novamente – Sei também o que é preciso para navegar.

Navegue. Não me jogue fora. Me perdoe. Era o que o olhar de Temari transmitia. Mas não proferia uma só palavra. E nem era preciso afinal. Ele não a jogaria fora. Shikamaru nunca a abandonaria. Não fez isso da primeira vez e não seria agora que ele faria. Ele sabia o que era preciso para navegar naquele mar tão tempestuoso. Ele sabia o que era preciso para perdoá-la. Ele sabia o que era preciso para navegar, mesmo tendo queimado todos os seus navios quando a conheceu, tão tempestuosa quanto agora.

- Como ei de partir?

Não havia como. Eles se pertenciam mutuamente, eternamente. E ele não sairia de perto dela, nem se ela o obrigasse... pois ambos eram um só.

Notas finais
O que acharam? Só espero não receber nenhuma review, como no último projeto que postei... nem tive ânimo para postar os próximos capítulos :(
Se alguém interessar, o nome é "Saori no Ai" e já tem 3 capítulos prontos, só falta postar e tem em média 3.000 palavras cada. (Sim, estive deveras inspirada, rs)
Quanto a regularidade para postar, bem... fim de ano é dureza e eu ando sem internet, mas resolverei isso em breve. Espero realmente que gostem e me mandem seus comentários, por favor.
Beijos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.