Simplesmente
29 Capítulo 29: O último obstáculo
Notas iniciais
Vocês não tem noção do quanto eu fiquei surpresa quando eu vi a quantidade de reviews e recomendações que tenho até agora. Eu não esperava isso, é minha primeira fic aqui e tipo... Cara, ainda não acredito! Então obrigada mesmo MaryMelo, Stew Rodrigues, Grey e Maria Helena!!! Vocês me fizeram chorar e eu me senti obrigada a postar um capítulo só para compensar esse retorno tão lindo que vocês estão me dando t_t
Ah, vei, eu to sem tempo de responder as reviews, mas eu li todas ok? Quando eu puder eu juro que respondo! Outra coisa... Sei que to fazendo umas cenas um pouco complicada, mas era realmente necessário acabar com todos os obstáculos dela para que os próximos capítulos fossem mais suaves.
PoV Ivy
A pergunta ainda ecoava em minha mente como um mantra. Meus olhos tão abertos pela surpresa encaravam Shay sem conseguir dar uma resposta. Naquele momento não conseguiria definir o que estava sentindo. Medo? Surpresa? Alegria? Confusão? Ou quem sabe tudo isso junto? Afastei o meu corpo do dela sem conseguir desprender meu olhar do dela.
-Está me pedindo em casamento? – perguntei apenas para confirmar a frase dita em um italiano carregado de sotaque.
-Mais ou menos... – Shay moveu-se embaixo de mim parecendo desconfortável com minha falta de resposta.
-Sim ou não? – segurei nos ombros dela para prendê-la no lugar.
-Isso não é você que tem de responder? – Shay perguntou com um sorriso de lado.
-Como se eu não sei direito sua pergunta?! Não brinque com isso Shay! Você sabe como eu sou romântica e dou importância para essas coisas!
-Eu não estou brincando. Não estou pedindo em casamento para agora, estou só pensando um pouco mais a frente se você casaria comigo. Se aceitaria passar o resto de sua vida comigo, não como uma regra ou planos concretos, mas... Como uma possibilidade?
-Então isso não é um pedido de casamento?
-Acho que... Não? Se disser não eu entenderia, apesar de querer saber o porquê. Nem mesmo eu estou pronta para casar ainda, foi como você disse, apesar de tudo não passamos nem seis meses juntas. Ainda temos muito que aproveitar antes de ter um compromisso tão... Definitivo quanto este. Só quero saber se um dia casaria comigo.
-Mas isso não é um pedido? Eu teria de dizer sim ou não!
-Ah que merda Ivy, então diz logo sim, que eu sou incrível e que me ama e venera. Pronto, estarei feliz!
-Venero? Que conversa é essa? Desde quando você está metida assim?
Ela ia responder, chegou a abrir a boca para depois fechá-la e começar a rir. Ergui uma sobrancelha confusa com a atitude dela, mas sem estar tão inerte na pergunta que ela fez sobre o casamento.
-Isso parece quando eu te pedi em namoro, porque não podemos fazer algo simples e romântico? – ela explicou ainda rindo.
Acabei sorrindo, não apenas com a lembrança, era apenas o som daquele riso gostoso e baixo que mexia com todo o meu ser. Fazia-me ter vontade de provocar risos eternos naquela garota e saber que o motivo disso era eu. Queria todos os seus sorrisos, todos os olhares carinhosos, todos os abraços... Queria ela tão entregue a mim quanto eu era por ela.
-Sim – respondi com uma calma surpreendente.
-Sim, precisamos ter mais jeito com essas coisas e...
-Não Shay, digo, sim, ah que confusão – segurei o rosto dela entre minhas mãos e fitei aqueles olhos dourados – Eu me casaria com você um dia. Mas por favor, seja mais romântica quando for fazer o pedido real ok?
O sorriso dela foi um dos mais lindos que eu já tinha visto. Como eu poderia explicar que nesse momento, com aquele sorriso e jeito dela eu havia acabado de perceber que seria capaz de me casar com aquela garota amanhã mesmo?
{...}
Um mês havia se passado desde a volta da Shay. Apesar da tensão inicial causada por Gerrad tudo foi se ajeitando quase que naturalmente. Ficávamos o máximo de tempos juntas... O que se provou um tempo pequeno. Eu tinha meus estágios, meus horários e compromissos. Shay estava apenas começando dentro da Dogers, apesar de saber que já tinha um projeto aprovado que lhe rendeu um bom dinheiro. Havíamos comemorado com uma noite toda especial, um jantar a luz de velas feito por mim em um final de semana que não saímos de meu apartamento. Como Karen e Gerrad tinham dito, a surpresa de alguns da Oxford foi evidente. Piadinhas aqui e ali, alguns bilhetinhos indesejáveis e comentários sussurrados a nossas costas. Outros ficaram tão surpresos que rodeavam a Shay apenas para ver se era verdade ou perguntar como ela tinha conseguido me conquistar. Nenhum deles ousavam me atormentar por causa de minha antiga imagem, algo que gostava até certo ponto já que a fama de Shay cresceu e as piranhas assanhadas iam para cima dela.
Nunca vou esquecer o meu primeiro beijo com ela dentro da Oxford. Era uma das raras manhãs de sol e clima quente em Londres. A aula havia acabado mais cedo e sabia que naquele horário Shay estaria no Restaurante Universitário lanchando com alguns amigos, principalmente Tinna. Porém quando eu cheguei lá ela estava apenas com sua companheira de quarto e rodeada por um grupo de calouros... E uma morena que só faltava tirar a blusa para mostrar ainda mais aquele decote abusivo. Meu sangue ferveu prontamente e eu me aproximei a passos largos, meu jeito dominante exalando por todo o meu ser. Ao ver-me provavelmente Shay reconheceu todos os índices de que estava com ciúmes. Os olhos afiados, o andar determinado e aquele jeito de quem iria atacar a qualquer movimento brusco. Ela levantou e veio em minha direção com um jeito “calma que eu posso explicar”. Mas eu não queria explicações, eu confiava nela, apenas precisava demarcar meu território. Então quando estava perto o suficiente a puxei meio que bruscamente pela cintura e a beijei totalmente possessiva e dominadora. Foi algo semelhante ao que fiz com Linna, exibindo para quem quisesse ver que aquela garota era minha e apenas minha!
-Certas coisas não mudam mesmo – Shay ria sem se afastar de mim e em um tom em que apenas eu poderia escutar.
-Claro, você sempre rodeada dessas piranhas! – reclamei com raiva contida.
Então ela gargalhou e me puxou para sentar ao seu lado, chegando à mesa já dizendo com um sorriso bobo que era por isso que tinha se apaixonado por mim. Não entendi e não fiz questão de entender, meus olhos estavam presos naquelas garotas irritantes que pareciam incomodadas com minha presença. Depois disso todos que sabiam sobre a Dama de Gelo também sabiam que ela era lésbica e comprometida. E o engraçado? Bastou surgir um boato mais forte de um envolvimento de um professor e um aluno, ambos gays, que fomos deixadas em paz. Claro que ainda chamávamos a atenção, ambas alunas exemplares com estágios que todos ambicionavam e um casal.
Quanto a Gerrad ele foi se afastando aos poucos, ainda parecia manter contato com Benjamin, mas nada mais sabia sobre o inglês. O que de certa forma me deixava um sentimento de perda, apesar de admitir que ele foi um tremendo de um idiota naquele dia foi esse garoto que escutava todos os meus desabafos e choros. Porém ele não conseguir superar isso apenas deixava claro que as intenções dele nunca foram verdadeiras o suficiente para me ver simplesmente feliz.
Mas hoje é um dia mais que especial. Um sábado que havia começado cedo com Shay batendo a minha porta cheia de sacolas plásticas com comida. Tinha dormido de madrugada escrevendo um relatório de estágio e refazendo o resumo de um artigo que queria publicar. Havia arrastado meu corpo até a porta e quando a abri deixando que Shay passasse sem nem lhe dar um bom dia. Ela estava tão animada que irritava o meu ser sonolento.
-Não combinamos de nos encontrar apenas pela tarde? – lembrei um pouco zangada, jogando-me sem remorso no sofá.
-É assim que me ama perdidamente? – ela provocou indo direto para a cozinha guardar as coisas que tinha trago – Justo hoje que tenho uma surpresa que vai te deixar alucinada?
-Mio amore, qualquer coisa poderia esperar, eu preciso dormir! – reclamei abraçando uma almofada e aconchegando naquele meu sofá macio. Havia sido um dos móveis mais caros que tinha comprado e jamais tinha me arrependido.
-Vamos lá italianinha, nem um pouco curiosa? – de repente a voz dela estava perto, quase sussurrando em meu ouvido.
Abri os olhos lentamente. Shay estava sentada a frente do sofá com o corpo virado de lado e olhando-me com uma animação que ainda me irritava. Eu queria simplesmente apagar por semanas e ali estava ela com uma energia que só faltava brilhar. Desisti de ser compreensível e virei meu corpo de lado disposta a dormir e ignorá-la. Estava realmente cansada, sabia que ela iria entender... Mas então as mãos dela passearem por minha barriga fazendo cócegas. Gritei e encolhi prontamente, ela sabia que eu odiava isso! Peguei a almofada e comecei a bater com força nela.
-Sua chata! Sai daqui! – gritei com ela realmente irritada.
-Eu preciso te avisar de uma coisa! – ela ria enquanto tentava fugir – Você precisa por uma roupa decente, teremos visitas daqui... quinze minutos.
-Visitas? Como assim? Convidou o pessoal para cá e não me avisou?! O apartamento é meu sabia?!
-Bom, não tem mesmo como desmarcar agora, vai tirar esse pijama antes que eu mesma tire e a gente acabe fazendo outra coisa.
-Eu te odeio sabia? – falei estreitando os olhos enquanto a fitava com raiva contida – Eu te odeio!
Então sai pisando forte enquanto via-a sorrindo sem se abalar com minha pequena cena. Fui tomar um banho, que foi mais longo do que eu esperava, a água morna estava tão gostosa que meu corpo implorou para ficar ali mais alguns minutos. Depois vesti as primeiras roupas que me vieram à frente. Calça jeans simples, uma blusa um pouco longa, um cinto fino na cintura e o cabelo ficou solto e apenas desembaraçado. Não estava a fim de me produzir toda, afinal estava ainda com muito sono. Estava saindo do quarto quando a companhia tocou anunciando as benditas visitas. Observei Shay ir abrir a porta de braços cruzados, pronta para brigar com a Tinna ou a Karen, seja quem for, por estar atrapalhando meus planos de dormir.
-SHAAAAAY!
Aquele grito fino e exagerado... Meus olhos se abriram e meu coração disparou sem acreditar na garota que saltava no colo de minha namorada a abraçando apertado. Não podia ser!
-LINDSAY! – gritei ao vê-la ali, surtando de felicidade quase sem acreditar – Sua bitch, porque não me avisou que estava vindo?!
Minha melhor amiga soltou da Shay e veio correndo em minha direção já chorando. Eu a abracei tão forte que poderia ser quase similar ao que aconteceu quando vi a Shay. Mas não foi tão desesperado, forte, necessitado, carinhoso e quase eterno... Enfim. Depois de um bom tempo eu consegui soltá-la e ver que Henry estava sorrindo ao lado de Shay, observando junto com minha garota a cena de duas amigas surtando com o reencontro. Eu gritei, pulei encima dele, o mordi e gritei novamente.
-Como? Quando? – eu perguntei quando finalmente me acalmei.
-Eu disse que era uma surpresa – Shay disse com um sorriso sapeca brincando em seus lábios perfeitos – Primeiro encontrei o Henry no Skype que me passou o número da Lind, então juntei os dois em um tempo que poderiam vir ao mesmo tempo.
-Porque não me disseram nada?! Lindsay você falou comigo semana passada! – reclamei emburrada por ter sido a última a saber, mas adorando mesmo assim a surpresa.
-Que saudades desse bico mimado! – Henry ria divertido.
-Eu não faço bico! – contradisse batendo um pé no chão, de repente era como se tivéssemos retrocedido dois anos.
-Faz sim! – os três falaram ao mesmo tempo.
A risada foi inevitável e mais uma vez joguei-me em meus amigos. Estava resplandecendo em alegria, estavam todos ali mais uma vez! Ficamos o tempo todo conversando, lembrando coisas do passado e sendo atualizados das novidades. Henry estava noivo de um rapaz francês muito bonito na foto que ele nos mostrou, ao que parecia era um homem com um grande negócio. Lindsay? Estava não mais com dois namorados, mais com quatro! Como isso era possível? Apenas ela poderia responder isso, ao que pareciam eles sabiam superficialmente um sobre o outro e aceitavam. Contamos também um pouco do nosso reencontro, de como aconteceu e a Shay inflou toda quando contou do soco que deu no Gerrad. Almoçamos fora e ficamos todo o final de semana juntos, obviamente os dois dormiram em meu apartamento.
Era inicio da noite de domingo, estávamos no Sunset por enquanto muito vazio pelo horário, sendo os primeiros clientes da noite. Parecia que nunca nos cansaríamos de conversar, de rir de algumas bobagens, de relembrar os bons momentos do passado e revelar pequenos segredos nunca ditos. Não demorou a que Tinna e seu namorado junto com Karen e Benjamin aparecerem. Adivinhem só? Lindsay ficou encantada com o Benjamin! Estava a maior confusão, Lindsay com ciúmes da Karen por ter assumido o posto de melhor amiga em Londres e os meninos falando de esportes. Eu estava distraída observando-os todos juntos e naquele momento meu peito transbordou com um sentimento estranho, era como se eu me sentisse em casa, em família. E a quanto tempo eu nem ao menos sabia o que essa palavra significava? Fred ainda entrava em contato, mas estava no auge de sua carreira, não tinha tanto tempo e muito menos eu. Meus pais? Não fazia ideia de como estavam, às vezes ainda falava com minha mãe. Senti um beijo molhado em minha bochecha e já com um sorriso no rosto virei para olhar Shay. Ela estava ao meu lado, com um braço ao redor de minha cintura aquecendo o meu corpo sem perceber. O olhar dela era o mais puro carinho, intenso e terno.
-Sei que sentia falta disso, dessa bagunça toda – ela murmurou para que apenas eu ouvisse – Você estava tão séria com esses trabalhos essa semana que pensei que era melhor fazer uma surpresa.
-Grazie, amore mio – também murmurei roçando meu nariz no dela em um beijo de esquimó – Você é o ser mais perfeito desse mundo.
Tudo tinha de vim dela. Meus suspiros, meus sorrisos, minha felicidade. Não sei como pude viver sem ela antes, mas agora era tão dependente que meu peito se partia com a simples ideia de não tê-la mais. Aquilo era uma prisão como os românticos falavam, mas uma prisão tão doce e carinhosa que eu não queria ser livre ou curada desse vício. Shay suspirou, sabia que ela sempre gostava quando eu dizia coisas assim. Como uma química perfeita, começamos a nos inclinar para nos beijarmos... Até que uma bola de guardanapo nos atingiu assustando-me um pouco.
-Estamos aqui casal! – Lindsay reclamou alto.
-Vai pro inferno – Shay disse em brincadeira.
Ela mostrou o dedo do meio e fez questão de me beijar para contrariar minha amiga. Não pude aguentar o riso, mesmo que minha boca estivesse junta com a dela. Estava feliz demais para conseguir não rir das menores besteiras. Quando nos separamos deitei minha cabeça no ombro dela completamente boba, buscando a mão dela para entrelaçar nossos dedos.
-Vocês precisavam ver elas na escola, se odiavam tanto – Henry comentou rindo das lembranças – A Ivy fazia parte daquela turminha chata de populares metidos a donos do mundo.
-Epa! – reclamei na defensiva – Como se você não fosse o gostosão do time de futebol!
-A gente era pior amiga – Lindsay assumiu – Mas a Shay sequestrou você pro lado bem da força, eu como boa amiga apenas a segui.
-Tô me sentindo a mulher maravilha – Shay ria alto – Porque para transformar uma hétero roxa no amor da minha vida não foi fácil.
-Isso ta mais para missão impossível – Karen provocou.
Novamente estava todos rindo divertidos. Mas como a vida estava cansada de me ensinar, nem tudo que era bom iria durar para sempre, principalmente os momentos mais divertidos. Naquele momento tudo parecia prestes a mudar novamente, um frio cruzou minha espinha como em um alerta e meu corpo ficou tenso antes mesmo daquela voz enfurecida exclamar dentro do Sunset:
-IVY! O que é isso?!
Escutar a voz de meu pai definitivamente surpreendeu a todos. Em um único movimento nossas cabeças viraram para a entrada do bar, não muito distante de nossa mesa. Meu corpo gelou automaticamente, lembranças das brigas e de como ele afastou Shay preencheram meu peito me assustando tanto que era como se a minha frente estivesse uma cobra venenosa prestes a me atacar.
-Se afaste dela sua... – meu pai avançou irado em nossa direção.
-Não! – eu me pus de pé bruscamente, o medo estava me dando forças que eu não tinha – Você não vai ferrar com minha vida de novo!
-Olhe o tom que você fala comigo Ivy, você me deve respeito e dignidade! Se afaste dessa garota agora! – meu pai ordenava supremo em seu tom e olhar, apontando o dedo em nossa direção.
-Nunca, meu pai. Você não entendeu ainda que nunca nos separou de verdade?! – gritei para ele com o corpo todo trêmulo apesar de sustentar aquele olhar que eu tanto temia.
-Tomarei providencias novamente! Minha filha isso é errado! Não manche o nosso nome desse jeito, não foi pra isso que eu te eduquei!
-O que pretende fazer? Ameaçar-nos novamente? Prender-nos? Condenar porque nos amamos? Pai caia na real! Você que está errado, eu nunca vou deixar de amar a Shay porque esse sentimento é a coisa mais verdadeira que eu conheci.
-Senhor, por favor, controle-se! – Karen também levantou.
-Não se meta! – meu pai gritou tão forte que a Karen caiu sentada na cadeira assustada.
-Vai embora! – eu gritei no mesmo tom, os anos estudando direito haviam me ensinado a ser firme em meus argumentos – O senhor não manda mais em mim!
-Você depende de mim, não se esqueça disso! Vai ir embora o quanto antes! É inaceitável você com uma garota, o que pensa de seu futuro? O que acham que vão falar de você? Não vai manchar o meu nome, não vai estragar sua vida com essa vadia de merda que surgiu do inferno!
Ele estava perdendo o controle. Meu pai era um promotor, sabia como se portar em público para acusar com toda a sua força perante fatos. Mas dessa vez ele estava em um bar onde todos os funcionários estavam parado vendo aquele pequeno show, descendo o nível de suas palavras, os olhos vermelhos pela raiva. Ele estava mesmo transtornado e isso me partia por dentro ao mesmo tempo em que me dava forças. Eu já perdi a Shay da mesma forma, jamais iria acontecer novamente.
-Não me faça repetir – disse o mais fria que podia – O senhor está baixando o nível.
-Você que está sendo uma desgraça em minha vida! – ele exclamou realmente magoado – Como pode fazer isso comigo e com sua mãe? Nós lhe demos tudo para você se transformar em uma... em uma...
-Homossexual – Shay falou atrás de mim, tão séria e fria quanto ela falou com Gerrad antes de lhe aplicar um gancho forte – Experimente dizer essa palavra, não é contagiosa nem nada. Mas é o que sua filha é, o que eu sou.
-Não! Você pode ser essa coisa ridícula, mas não minha menina! Já ameacei você uma vez, posso cumprir tudo o que eu disse! Vou acabar com sua vida, com sua carreira, com aqueles vizinhos pecadores, com seu irmão!
A ameaça era forte e do jeito que meu pai estava eu não duvidava de nada. Mas então Shay segurou minha mão com força, me dando tudo o que eu precisava mesmo que eu não soubesse exatamente o que. Ela simplesmente estava ao meu lado e isso era o suficiente.
-Já está bom Lindsey – Shay disse e abriu um pequeno sorriso – Pegou tudo?
Eu e meu pai olhamos para ela confusos. O que ela havia feito?
-Perfeitamente e... Acabei de enviar para todos os nossos e-mails – Lindsay disse sorrindo de forma diabólica, mostrando o celular para meu pai – Olhe senhor, você tem um ótimo ângulo! Por isso deve ficar tão apresentável nas fotos da cidade.
Meus olhos se abriram em surpresa, os de meu pai em incredulidade e eu diria até mesmo medo. No celular de Lindsay estava passando uma filmagem de toda a nossa discussão até aquele momento!
-Eu já esperava que você aparecesse – Shay explicou, podia sentir seu corpo tenso, mas sua voz estava firme assim como seu olhar – Pedi para que a Lindsay gravasse tudo enquanto o senhor surtava em sua discriminação. Então vejamos quem ameaça quem agora.
-Não esqueçamos que temos testemunhas em grande número – Karen argumentou – Isso irá validar as filmagens de modo que ninguém poderia dizer que é uma montagem.
-Sem contar que o Sunset tem câmeras de segurança – Benjamin completou sério – O senhor está mesmo encrencado.
-Discriminação aos homossexuais ainda é um crime a ser pago – Shay tornou a falar, dessa vez seu tom estava destilando um veneno ameaçador – Deve saber melhor do que eu quais regras protegem a mim e a sua filha. Também deve saber o que pode acontecer se esse vídeo for parar no e-mail de cada pessoa de nossa cidade, de como isso iria destruir sua reputação e carreira.
-Isso é uma calúnia, sua maldita, irá pagar por tudo isso! – meu pai gritou tão irado que eu recuei um pouco por puro instinto de filha recebendo um castigo.
Shay me segurou firme, não desgrudava os olhos de meu pai como se estivesse pronta para contra-atacar caso fosse necessário. Então lembrei-me de todas as nossas conversas sobre estarmos uma para a outra, de defendermos, de levantar a cada vez que tentassem nos derrubar. Meu pai era o pior demônio e agora estávamos o exorcizando.
-Por favor pai... O senhor não pode fazer nada – falei quase implorando – Não precisa aceitar, apenas nos deixe em paz. Por favor, nos deixe ser felizes.
-Isso não é felicidade, é pecado. Veja o que essa garota está fazendo, está destruindo nossa família! – ele continuava a não enxergar as coisas.
-Não, você está fazendo isso! – já não conseguia mais conter as lágrimas – Eu queria tanto que o senhor simplesmente me amasse do jeito que eu sou, que sorrisse por eu ter conquistado tudo o que eu quis. Shay é a mulher de minha vida.
-Você não sabe o que está dizendo, por favor, volte pra casa minha filha, ainda há um jeito de concertar isso tudo.
-Pai... Eu vou me casar com a Shay.
Aquilo foi o último golpe. Meu pai ficou pálido e recuou dois passos como se finalmente estivesse entendo que eu iria ficar com a Shay.
-Se fizer isso será deserdada, não a reconhecerei mais como minha filha – ele quase estava murmurando, a mágoa dele me atingia com toda a força, afinal ele ainda era meu pai.
-Pai, eu não dependo mais do senhor. Estou conseguindo tudo o que eu quero com minhas próprias mãos, meu emprego, minha mulher, minha casa... Tudo o que o senhor me deu está intacto na conta bancária, estava usando apenas para pagar o aluguel. Eu não dependo mais de você, eu cresci e me tornei mulher para não ter de ser obrigada a ir com você quando viesse a me tirar Shay novamente.
-Não é minha filha! Não é! Nunca mais apareça em nossa casa ou nos procure. Para mim você acaba de morrer!
-Eu sempre vou amá-lo pai, mesmo com tudo isso, você é o homem que me criou e me deu todo o amor que uma garota poderia ter. Mas não posso escolhê-lo porque eu simplesmente morreria sem ela. Sinto muito, mas se o senhor quer assim, assim será. Sabe onde me encontrar, você e mamãe.
Ele nada disse, sua raiva e sua decepção estavam tão forte que era como se tocasse minha pele. Aquilo estava partindo meu coração, eu sempre fui à filhinha de papai, a receber todo o carinho e atenção, todos os mimos e dengos. E agora? Estava dando a pior decepção da vida dele... Mas não da minha. Ter Shay era a coisa mais importante para mim naquele momento, apesar de estar chorando por dentro.
-Se o senhor nos ameaçar em algum momento, lembre-se que os vídeos estão nas contas de todos aqui. Se alguma coisa acontecer com alguma de nós duas por sua causa, qualquer um poderá soltar o vídeo na internet – Shay deu a última ameaça e depois suspirou – Por favor, vá embora, essa é uma guerra perdida. Eu prometo que vou cuidar muito bem de sua filha e...
-Eu não tenho filha.
Meu pai a interrompeu, deu as costas e partiu. Assim que ele saiu eu desabei, se não fosse a Shay me segurando eu iria cair no chão. Minhas forças foram todas embora, a coragem que me segurava deixou meu corpo. Eu chorava alto, soluçava e me agarrava a Shay com força. O dono da Sunset ofereceu água, mas eu recusei, implorei para que fossemos para o apartamento e depois disso tudo Shay ainda teve de me carregar. Fomos todos para lá e o tempo todo me mantive nos braços da Shay, sabia que se não tivesse ela ali, me segurando e envolvendo meu corpo eu iria cair em uma depressão instantânea, se é que isso existe. Demorou quase uma hora para que eu parasse de chorar, no apartamento estava apenas Lindsay e Henry, os outros tiveram de ir embora para dar-me espaço.
-Está melhor, meu amor? – Shay perguntou afastando um pouco o corpo – Quer agora um copo com água?
Fiz que sim com a cabeça e Henry logo se prontificou a ir pegar. Shay também levantou dando espaço para que Lindsay ficasse do meu lado e me apoiasse também. A observei ir até a minha pequena adega e pegar o meu melhor vinho. Franzi o cenho e Henry retornou com a água, também olhando confuso para Shay que abria a garrafa de vinho tinto.
-O que está fazendo? Você nunca foi de beber nessas horas – comentei com a voz rouca.
-Mas eu preciso comemorar algo! – ela exclamou finalmente tirando a rolha da garrafa.
-Shay, a Ivy ainda está abalada e... – Lindsay começou a argumentar.
-Não é isso – Shay riu fraco e encheu uma taça, a ergueu para o alto como em um brinde – De repente fiquei noiva! Então algo de muito bom saiu disso não?
A olhei confusa até lembrar que ela se referia ao momento em que disse que iria casar com ela para meu pai. A risada escapou involuntária e logo foi acompanhada pelos outros. Shay um pouco mais animada serviu o vinho em mais copos e trouxe para nós.
-Você quebrou a promessa – ela acusava – Iriamos fazer isso de um jeito mais romântico, lembra?
-Como se nossa vida não fosse cheia de acontecimentos tensos para dar espaço para isso. Você precisou quase morrer para me pedir em namoro – argumentei um pouco na defensiva.
-Eu juro que quase tive um troço quando você falou “eu vou me casar com ela”. Ou eu te agarrava, ou eu ria ou eu desmaiava. No fim fiquei confusa demais para fazer qualquer coisa – Shay contou rindo de verdade, bebendo logo depois goladas do vinho.
-Espera, então é sério? Pensei que era só uma jogada – Lindsay já havia terminado a sua taça.
-Porque não poderia ser? – Shay perguntou de volta com um sorriso tímido, passando a me fitar um pouco sem jeito – Acho que já passamos por tudo para provarmos uma para outra certas coisas. E dai que só passou um mês desde que eu voltei? Amor não tem um tempo lógico mesmo.
-Porque não? – repetiu Henry com um enorme sorriso – Lindsay estamos presenciando um momento histórico. Aqui está a Shay, o terror das garotas e Ivy, a garota mais cobiçada da Lyon... Ficando noivas!
Fizeram-se alguns segundos de silencio até que todos começassem a gargalhar. Aquilo foi a terapia que meu ser precisava, naquelas risadas eu deixava extravasar toda a tensão e me permitia ficar maravilhada com o fato de que estava noiva do jeito menos convencional possível. Depois de beber todo o meu vinho, expulsei Lindsay de meu lado e chamei por Shay para poder deitar em seu colo feito um bebê carente.
-Espero que nosso casamento seja normal – ela brincou enquanto começava a acariciar meu cabelo dando certa sensação de paz.
-Do jeito que somos? Duvido muito – estava mais fácil sorrir.
-Eu vou chorar tanto – Lindsay revelou – Eu sempre choro em casamentos.
-Que isso, fica feio uma madrinha chorar assim – comentei fazendo que não com a cabeça – Por favor, não me decepcione!
-É SERIO ISSO?
Lindsay surtou com o pedido para ela ser minha madrinha. Karen que viesse a me desculpar depois, mas Lindsay sempre seria a primeira melhor amiga. O dia que começara bem e ficou tenso voltava a ficar suave. Apesar de tudo, de ainda estar machucada por causa de meu pai naquele momento eu estava aliviada. Dessa vez eu tinha certeza de que nada iria nos atrapalhar mesmo. Nada de ameaças, nada de Gerrad... Talvez uma piranha assanhada aqui e ali que eu teria o maior prazer de espantar. Mas depois daquele dia tive certeza de que o pior já tinha passado. Ou que pelo menos sabia que juntas éramos fortes o suficiente para enfrentar tudo.
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