Simplesmente
26 Capítulo 26: Finalmente
Notas iniciais
Pov Shay
Eu tinha chegado a Londres exatamente dois dias antes do aniversário de Ivy. O que era um ‘time’ perfeito para um bom reencontro. No primeiro dia minha mente estava atribulada de coisas para fazer e resolver. Felizmente eu não fui à única estagiária de Londres, uma garota que já estudava ali também foi selecionada e se disponibilizou a dividir seu apartamento comigo e dividir as despesas. A mudança foi bastante cansativa, assim como ter de ir até o prédio da Dodger resolver a parte burocrática. Por sorte eu tinha Leonard como minha fada madrinha para poder abençoar o meu caminho e agilizar as coisas, ou estaria no dia seguinte ali novamente para terminar de resolver as coisas.
Obviamente eu havia passado na avaliação da Dodger, não pela avaliação que eu tirei uma média mais baixa do que esperava, mas sim por um desenho que foi avaliado. Eles haviam gostado tanto de meu projeto de orfanato para crianças e feito para crianças que estavam especulando em pô-lo em prática o mais rápido possível ali em Londres. Meu ego estava tão alto quanto as minhas esperanças de encontrar com Ivy novamente. No dia seguinte, pela manhã, acordei Tinna bem cedo implorando para aquela garota branca e de cabelos loiros bem arrumados para que me mostrasse Oxford. Na verdade tudo o que eu ansiava era por pistas de certa italiana.
Como era cedo mal havia alunos por ali. Sinceramente aquele lugar era tão grande que não sabia como poderia estar lotado algum dia. Sentia-me como em um verdadeiro castelo, se aparecesse algum bobo da corte ou cavaleiro em armadura eu não ficaria nem um pouco surpresa. A tradição parecia exalar de cada pedaço da construção. Mas isso apenas arrancava-me suspiros mentais, afinal como em um lugar tão grande iria encontrar o meu grande amor? Sem falar que sempre que pensava nisso um frio sinistro envolvia meu ser. E se ela estivesse com outra pessoa? Ou tivesse me superado? Não, isso não importava, eu a reconquistaria, não iria simplesmente desistir!
A luz para o fim do túnel chegou quando estávamos indo em direção para a biblioteca e passamos por um mural. Em uma das fotos estava Ivy e mais dois estudantes segurando algum tipo de troféu. Meu coração disparou ao vê-la ali forçando um sorriso para a câmera, evidentemente orgulhosa pela seu feito, mas não parecendo estar... Feliz. Meus olhos arderam teimando em querer chorar, porém eu respirei fundo contendo todo o tipo de emoção. Tinna parou ao meu lado encarando a foto e resmungou baixo.
-Os nobres – ela falou com certo desdém – Os melhores em notas, comportamentos, melhores cargos de estágio.
-Então quando irão tirar uma foto nossa? – brinquei tentando descontrair até mesmo a mim. Tinna lançou-me um sorriso tímido – Mas diga-me, quem é essa garota? A do centro? Ela é bastante bonita.
-Ah, a Dama de Gelo – Tinna revirou os olhos – Uma italiana muito inteligente, mas completamente fechada. Incrivelmente linda, mas totalmente centrada nos estudos. Tem poucos amigos e todo mundo sabe que o Gerrad, o garoto ao lado dela na foto, é afim dela desde que a conheceu, mas ela não tem um coração, então não poderia se apaixonar.
Meu coração apertou-se com o que eu escutei. Ela teria ficado tão amarga com a nossa separação abrupta? Teria mudado demais e deixado de ser minha italianinha? Novamente eu sabia que poderia superar isso, trazê-la de volta. Minha convicção era tão forte quanto minha determinação em tê-la apenas para mim. O que me enchia de ciúmes só de olhar para o senhor inglês perfeito ao lado dela. Então aquele garoto estava querendo a minha mulher?
-Pode me dar algumas informações? – pedi voltando a olhar para a foto.
-Estou aqui para isso – Tinna murmurou com um pouco de tédio.
-Sabe o horário em que ela está na universidade mais ou menos? – questionei um tanto sem jeito.
-Por que esse interesse todo na garota? – Tinna indagou arqueando uma de suas sobrancelhas finas.
-Porque ela é a mulher de minha vida – respondi com um sorriso torto.
-Você é lésbica?! – ela agora me encarava com surpresa evidente em seus olhos castanhos claros.
-Sim... Algum problema?
-Não, minha prima casou faz um ano com uma garota, só estou surpresa. Mas... Olha, sei que acabamos de nos conhecer, porém sinto-me na obrigação de te dizer. Esqueça, é impossível, ela é a Dama de Gelo por puro merecimento. E duvido que seja lésbica.
Tive vontade de rir, eu também já havia duvidado disso e aposto que até mesmo a própria Ivy antes de me conhecer teria surtado se tivesse escutado algo parecido. Cruzei os braços mais para conter o frio e manter meu corpo aquecido. Londres era mais fria do que todo mundo dizia!
-Acredite, eu vou casar com essa mulher. Posso fazer até uma aposta. Uma semana arrumando a casa se não conseguir me aproximar da Ivy – propus com um sorriso maroto – Tenho certeza apenas de uma coisa, essa garota vai ser minha.
-Ok, isso é suicídio. Mas ela faz o mesmo semestre que meu namorado, então provavelmente que esteja aqui às dez horas.
Olhei o meu relógio, tinha duas horas até que o amor de minha vida aparecesse. Fui até a biblioteca preparar uma pequena surpresa, afinal de contas eu tinha um medo tremendo de encará-la frente a frente e ter uma decepção muito grande. E também qual seria a graça de simplesmente aparecer? Eu tinha de ver pelo menos a reação que ela teria, ter algumas pistas para alimentar o fogo de esperanças que começava a ferver dentro de mim. Naquelas duas horas eu escrevi uma redação assim como tinha pedido a minha querida e ex-diretora. Tinha de ser pequena para seguir o padrão de uma redação, trabalhei duro para conseguir criar um cabeçalho no mínimo parecido com o que era utilizado no Lyon.
Então quando finalmente a hora chegou eu estava correndo quase atrasada para o encontro predestinado. Quando a vi quase escorreguei no chão por ter pedido o compasso do meu andar. Ela estava deslumbrante! Era como a mais perfeita das alucinações. Respirei fundo tentando acalmar meu teimoso coração, ele insistia em querer bater em minha garganta e não dentro do meu peito, talvez fosse uma tentativa de fugir por minha boca e correr ao encontro dela. Segurei firme o envelope em minha mão e segui em direção a Ivy. Ela usava um vestido que ia um pouco abaixo do seu joelho, botas e um sobretudo preto e ao mesmo tempo delicado. Seu cabelo estava muito mais curto, no meio dos ombros com leves ondulações. Seu semblante era tão sério e com um olhar levemente confuso. Vê-la distraída deu-me a brilhante ideia de por o capuz de meu casaco e esbarrar nela com uma força proposital.
E foi assim que aconteceu. Coloquei a carta na bolsa dela tremendo ao sentir o perfume que vinha dela, a sua voz, o seu jeito, sua pele tão mais branca pela falta de bronze a beira da piscina. Afastei-me quase em uma fuga para não agarrá-la ali mesmo. Com o coração ainda disparado, saltei no lugar quando Tinna tocou meu ombro dando-me um belo de um susto.
-Eu não acredito que esbarrou nela de propósito – Tinna dizia quase rindo – Isso é tão clichê!
-Faz tudo parte de meu plano! Agora vamos, tenho de ver minha grade de horários.
Minha mente não sabia no que se concentrar. Na visão de Ivy, tão perto e palpável ou nas minhas obrigações que a secretária passava. Era muito mais charmoso pensar em minha italiana, definitivamente. Porém foi no período da tarde, quando retornava para o meu novo apartamento que vi Tinna falando ao telefone com seu namorado. Ao me ver ela correu e me puxou, despedindo-se rapidamente do garoto e praticamente desligando em sua cara.
-O que você fez?! – ela perguntou agitada e animada – Todo mundo está comentando que a Dama estava chorando na aula e que saiu mais cedo. Ela nunca faltou uma aula! Nem quando pegava resfriado!
-Ela está bem? – perguntei com uma leve preocupação.
-Sim, ao que parece. Mas isso só pode ser coincidência!
-Ou não, Ivy não tem aparência de quem adoece fácil, até porque ela não tem um coração não é? – provoquei jogando-me em um dos sofás.
-Espere... Eu nunca disse o nome dela, disse apenas que era a Dama de Gelo.
-Como eu não saberia o nome da mulher de minha vida? Por favor, né Tinna!
O olhar confuso dela apenas me fez gargalhar. Ela nem ao menos imaginava um terço daquela história que mais parecia uma novela. Uma novela que eu pretendia ter um final feliz.
-Bom, que seja. Tenho uma informação para você. Hoje é aniversário dela e parece que os amigos vão comemorar no Sunset, um bar um tanto caro que os filhinhos de papai costumam ir.
-Então é para lá que eu vou! Afinal ela precisa descobrir que o amor de sua vida chegou – disse em um tom de brincadeira, mas sendo uma total verdade.
-Você não tem jeito, depois não venha chorar em meu ombro, por favor. Eu sou inglesa e não uma pessoa caridosa.
Dei de ombros e corri para meu quarto para resolver o que usar. Olhei-me no espelho não gostando nada do que via. Estava mais magra do que antes, tudo bem, havia me descuidado um pouco por causa do meu foco excessivo em meus objetivos. Meu cabelo estava sem corte e grande demais. Como poderia me apresentar a Ivy novamente naquele estado? Resmungando decidi fazer uma das coisas mais raras em minha vida: ir ao salão de beleza. Foi nesse lugar que passei todo o resto de minha tarde e inicio da noite. O dono queria dar-me um tratamento total: cabelo, manicure e pedicure, massagem facial. Segundo ele minha beleza estava maltratada e precisava renascer. Maldito gay animado demais! Porém o resultado foi mais do que esperava. Meu cabelo estava um pouco menor que o de costume e mais repicado, porém brilhando e tão macios que nem mesmo eu conseguia parar de passear os dedos pelos fios.
Quando cheguei novamente no apartamento Tinna elogiou a minha nova aparência, dessa vez ao seu lado estava um rapaz negro bastante alto e forte, mas com um sorriso branco simpático. Aquele era Thomás, seu namorado estudante de direito. Segui direto para o quarto para poder tomar um banho e vestir-me, afinal a qualquer momento aquela italiana poderia chegar ao tal Sunset.
-Amor, ela acha que a Dama de Gelo é o amor da vida dela! – Tinna falava alto da sala propositalmente para que eu escutasse.
A risada forte do garoto me fez revirar os olhos.
-Eu tenho certeza! Ela vai casar comigo! – respondi tão alto quanto a garota e dessa vez ambos riram.
Também ri baixo com a brincadeira. Estava animada, elétrica. Precisei de um banho gelado para controlar todos os meus impulsos de sair correndo feito uma louca até o endereço de Ivy e gritar de sua janela que eu estava ali, que viesse logo para meus braços. Mas infelizmente ainda não sabia ao certo como ela estava, como me receberia. Por mais que tivesse forças para reconquistá-la caso fosse necessário iria sofrer de forma inenarrável caso ela tivesse com outro ou me esquecido. Meus trajes foram relativamente simples já que nesses últimos tempos não havia me preocupado com os trapos que vestia. Uma calça jeans preta colada, botas de cano baixo e uma blusa preta um pouco folgada. O casaco que usava era grosso o suficiente para proteger-me daquele frio insano que fazia naquele país e dar-me um ar mais feminino. Deixei meu cabelo solto e usei uma maquiagem leve, caprichando apenas no lápis de olho. Quando sai até Thomás assoviou, recebendo um leve tapa de Tinna.
-Desculpe, eu sou linda e isso é um fato – brinquei com a inglesa – Mas não se preocupe, por mais que ele seja legal não faz nem de perto o meu tipo.
-Você prefere as frias – Thomás provocou rindo.
-Espere e verá meu caro. Derreterei todas as barreiras daquela mulher gostosa mais rápido do que pensa! – prometi como se também tentasse convencer a mim mesma.
-Estaremos sentados, em pé cansa – Tinna alfinetou.
-Bom, me desejem boa sorte pelo menos!
-Boa sorte, vai precisar e muito. Ah e não se preocupe em voltar com algum consolo, vou dormir na casa do Thomás hoje – Tinna avisou.
Apenas afirmei com a cabeça, peguei minhas coisas e partir. Peguei o primeiro táxi que vi e por sorte o tal Sunset era famoso já que não precisei dar um endereço específico para o lugar. A cada quarteirão que passamos meu corpo parecia tremer mais ainda e não era de frio, era puro nervosismo e ansiedade. Minha mente era invadida por possibilidades, ruins, boas, excitantes e românticas. E se ela me negasse? E se ela estivesse com outro alguém? E se ela estivesse tão linda e eu a agarrasse sem dizer nada? Ela morreria de um infarto, eu tinha certeza. Imaginar isso me fez sorrir sozinha, eu teria de tomar todo o cuidado do mundo.
Por fim o táxi parou de frente para um Pub bem arrumado e decorado, um tanto rústico mas completamente elegante. Paguei ao taxista e me aproximei da porta hesitando por alguns segundos. Mas aquele era o amor de minha vida, não poderia esperar demais! Ou aquele Gerrad a tomaria de mim. Foi com tal pensamento que toda a minha determinação retornou. Entrei de forma mais discreta possível, indo rapidamente para um canto afastado. Para minha felicidade e deleite Ivy e seus amigos já estavam ali, em uma mesa mais ao centro assistindo a um show de Jazz em um palco pequeno, mas bem equipado. Ela usava um vestido preto e sandálias de salto alto agulha enormes. O cabelo estava mais ondulado e a maquiagem era escura. Ela parecia distante e perdida em seus próprios pensamentos. Não pude deixar de cogitar que talvez estivesse pensando em mim.
Respirei fundo e tomei toda a coragem que precisava. Chamei um garçom e pedi um papel para fazer um bilhete. Escrevi em uma letra levemente tremida: “Encontre-me na praça, minha italianinha, se ainda quiser descobrir se sou um sonho ou verdade”. Pedi que ele entregasse para Ivy junto com um Dry Martini, paguei e rapidamente sai dali. Do outro lado do Pub havia uma pequena praça, ela estava movimentada apesar do horário e bem iluminada. Porém era melhor do que o ambiente com seus amigos e um local fechado onde a atenção seria voltada para nós rapidamente. Na praça eu fui até o lugar onde havia menos gente, parei debaixo de uma enorme árvore e encostei em seu tronco sem ter coragem de ficar olhando para a entrada do Pub.
Meu coração estava tão disparado! As emoções circulando dentro de mim em um caleidoscópio confuso e cheio de adrenalina. Eu mal conseguia ficar parada, porém pior seria se me mexesse, pois ficaria andando de um lado para o outro parecendo um animal tonto. Porque ela estava demorando? Já não deveria ter chegado? Será que teria lido o bilhete de primeira? E se tivesse ido ao banheiro e só visse o bilhete muito depois? E se o garçom não entregasse?
-SHAY!
Meu olhar ergue-se rapidamente na direção do chamado. Meu corpo instintivamente afastou-se do tronco e meus olhos marejaram assim que vi a garota mais linda parada a poucos metros de mim com as mãos nos lábios como se tentasse conter suas emoções. Ivy me olhava tão feliz e incrédula ao mesmo tempo em que me fez sorrir de leve. Finalmente, finalmente!
-Sabe, eu estou com frio – falei para quebrar aquele clima de surpresa – Eu agradeceria se você me abraçasse.
Ela rapidamente correu em minha direção. Por um momento admirei sua simples habilidade de locomover-se tão velozmente com aqueles saltos. Depois ela jogou-se em meus braços quase me derrubando com o choque de nossos corpos. Gemi baixo, mas não de dor ou coisa parecida, mas sim por sentir seu calor penetrando meu corpo assim como seu perfume invadia meus pulmões. Fechei meus braços ao redor de seu corpo com força a prendendo entre eles como uma tentativa inconsciente de dizer que ela não iria sair dali, nunca mais.
-Porque demorou tanto? – ela perguntou apertando-me mais forte, sussurrando em meu ouvido.
Eu ri alto sem consegui me conter em felicidade. Naquele primeiro momento ficamos ali, apenas em um abraço que por mim poderia ser eterno. Mas que era como se estivesse pondo meu coração arrancado bruscamente de volta para meu peito de uma forma terna e segura. Eu nunca mais iria largá-la, nunca. Necessitava desesperadamente sentir sua presença, perceber que aquilo já não era mais um de meus inúmeros sonhos, mas sim uma feliz realidade. Que ao menos uma vez na vida as coisas estavam dando certo depois de todos os meus esforços.
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