Simplesmente
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Pov Ivy
Mesmo depois que Shay dormiu, o que foi rápido, eu continuei lá com ela. Admirava o rosto dela tão perto do meu, os lábios que tanto me enlouqueciam, o traço do nariz, queixo, os olhos que me hipnotizavam com aquele dourado intenso. Aquela garota havia me conquistado de uma forma que mal podia mensurar, mas nem queria e não me importava, apenas o que estava sentindo era relevante no momento. Deixá-la foi difícil, mas era melhor ela descansar um pouco mais... E também precisava digerir uma novidade que ainda fazia borboletas voarem dentro de mim, por todo o meu corpo e não só no estômago como diziam. Eu. Estava. Namorando! Dio mio, estava namorando uma garota!
Assim que saí do quarto encontrei todos conversando no sofá, alguns sentados no chão por existir apenas um móvel. Ao ver-me, Sean todo educado levantou e apontou pro sofá para que eu sentasse no seu lugar. Não reclamei, sentia minhas pernas bambas e o rosto vermelho por ter tanta emoção guardada dentro de mim. Lindsay logo notou isso e me encarava com uma sobrancelha arqueada, fazendo uma pergunta silenciosa com o olhar. Sentei, respirei fundo, encarei um a um ali dentro da sala e sorri de forma boba. As palavras se formavam em minha garganta e eu mal acreditei quando falei:
–Io faccio la conoscenza.
Dois segundos de silêncio e eu repeti traduzindo, eu estava namorando! E então todos se exultaram quase gritando. Eu tive de olhar feio para todos eles e falar brava para que eles calassem a boca porque Shay estava dormindo. Eles riram e vieram me abraçar, mas foi o abraço do Sean o mais apertado. Sabia que ele gostava de mim, mas ver o sorriso tão contente do garoto me fez pensar em como eu já o amava como alguém bem próximo a mim.
–A Shay que pediu? Mas é claro, você nunca teria coragem – ria Lindsay – Você ainda está sorrindo, olha que fofa!
Senti minha face esquentar e tive certeza que havia corado. Realmente sorria, mas que culpa tinha se aquilo havia virado um ato involuntário quando meu peito transbordava uma felicidade que nunca tinha sentido antes? Fiquei com meus amigos, e isso já incluía Brandon e Alejandro, um pouco mais, conversando e rindo de coisas que o Alejandro contava da Shay, coisas que nunca teria coragem de revelar na frente dela pois ela o mataria. Sabendo que minha garota, ah como era bom pensar dessa forma, sabendo que Shay demoraria a acordar resolvi ir fazer o jantar. Daria a ela um tratamento especial e não tive medo de lavar os pratos e deixar tudo ajeitado.
–Quem diria que a filhinha de papai estaria bancando a doméstica?! – provocava Lindsay apenas me observando fazer as coisas.
–Eu só estou cuidando dela, não me importo de fazer coisinhas assim já que ela não me deixa fazer coisas maiores – tentei explicar depois de dar de ombros.
Coloquei o sanduiche americano no forno e fui checar a sopa que estava cozinhando ainda. Se fosse em outra situação eu estaria pirando. Apesar de gostar de cozinhar sempre tinha a Carmem para cuidar de toda a minha bagunça, ainda continuava sendo a filha do patrão e nada dependia realmente de mim. Mas só de imaginar a carinha que Shay iria fazer ao experimentar aquilo e depois aquele sorriso todo meigo e só meu depois de descobrir que fui eu que fiz... Valia a pena por em risco as minhas unhas.
–Você está mesmo apaixonada – admirou Lindsay e suspirou – Mas está tudo bem o fato dela ser uma garota? Tipo, estão namorando e tudo o mais então quer dizer que no mínimo você é bissexual Ivy.
Encostei-me a pia e mordi o lábio inferior. Aquilo sim me deixava confusa e com um pouco de medo. Nunca havia gostado de garotas ou tivera curiosidade, pelo contrário, eu gostava de homens. Sarados, gostoso, fortes, charmosos e misteriosos. Passei boa parte de minha vida pós-adolescência pensando e planejando coisas para chamar a atenção de homens, tê-los em minhas mãos como prêmios e então descarta-los quando aparecesse algo melhor. Sim, eu era desse tipo de pessoa, não me importava muito com relações sérias... E, no entanto, aqui estava eu. Namorando uma garota.
–Isso é tão esquisito para mim não é? – suspirei e cruzei os braços – Mas eu não sei explicar. Simplesmente... Aconteceu.
–Ok, vamos fazer um teste. Imagine o... Ian, o Damon de Vampire Diaries, sem camisa e com aquele sorrisinho irônico e sedutor dele – Lindsay começou e eu apenas sorri e revirei os olhos – Ok, agora imagine a Shay de shortinho antigo, mas curto e abrindo uma camisa de botão... Deus, você ficou vermelha!
–Isso foi golpe baixo! – reclamei passando a olhar o chão para tentar disfarçar.
–Então amiga... Talvez seja algo só com ela. Deus, então essa garota deve ter mesmo a pegada divina como dizem por ai.
E tinha. Mas pensar que outras falavam disso por constatação própria fazia meu coração apertar e ser possuído por um sentimento que me fez ficar séria e tensa. Ciúme. Lindsay pareceu notar pois riu e ergueu as mãos como se estivesse pedindo por paz.
–Ela é sua amiga, relaxe! Mas espere... Irão assumir publicamente? – disse minha amiga em dúvida.
–E-eu... Não sei... Eu quero mas...
–Mas é cedo para isso.
Levei um susto enorme. Tanto a ponto de saltar e deixar um pequeno grito escapar de meus lábios. Levei a mão ao peito como que para segurar o coração dentro dele. Shay estava encostada na porta, com um sorriso culpado nos lábios e um olhar divertido, provavelmente segurando o riso. O cabelo um pouco molhado denunciava que havia tomado banho, mas ao ver que ela usava um shortinho jeans e uma blusa vermelha simples de abotoar, não pude evitar corar forte só de lembrar a insinuação que Lindsay havia plantado em minha mente. Shay arqueou as sobrancelhas provavelmente estranhando a minha reação, limpei a garganta e fingir checar a sopa.
–Perdão, não quis assustar – pediu Shay finalmente entrando na cozinha.
Estava concentrada em tentar me acalmar, não havia visto que ela se aproximava e mal pude conter um suspiro quando senti os braços dela envolverem a minha cintura. Automaticamente encostei-me a ela, deixando minha costa colada ao peitoral dela.
–Acho melhor não revelarmos pra todo mundo ainda Ivy – ela começou falando baixo, quase um sussurro – É melhor pra você.
–Como sabe disso? Eu não quero aquelas ragazze senza vergogna dando encima do que é meu, mas como fazer isso se não posso mostrar que é minha? – reclamei.
–Você vai mostrar um dia – ria Shay – Mas não por agora. Você era a hetero mais cobiçada pelos homens. É filha do promotor da cidade e um ícone escolar. Do nada aparecer namorando a lésbica mais sabichona da área... Pode trazer problemas para você, as pessoas que tem inveja e adoram humilhar os outros iriam te atacar de todas as formas possíveis.
–Ela tem razão Ivy – Lindsay acrescentou – Imagina a Megan sabendo disso? Capaz de sair no jornal da cidade ou até mesmo na CNN. Não só ela, aposto que o Luke e outros iriam fazer de sua vida um inferno.
Suspirei frustrada e finalmente virei para ficar de frente para Shay. Eu queria poder abraçá-la o tempo todo. Agarrá-la quando alguma garota a olhasse diferente, com interesse, o que acontecia varias vezes, mais do que eu poderia aceitar. Queria andar de mãos dadas pelas ruas... Maldito preconceito!
–Não faça esse beicinho – Shay riu baixo – É muito fofo e sedutor ao mesmo tempo.
–Io não estava fazendo beicinho! – virei o rosto.
–Está fazendo ainda. Só que mais zangado. Mas não pense tão negativo. Estamos de férias e apesar de ter uma tendência a trabalhar mais, tenho mais tempo livre. Você pode até me acompanhar e levar a Lindsay de tira colo para ninguém desconfiar. Também podemos sair para lugares mais afastados... Pode vim pra cá onde ninguém vai incomodar, apesar de ser bem modesta a minha casa.
–Io gosto daqui – a interrompi rapidamente.
Ela sorriu e eu suspirei ao ver novamente aquelas covinhas encantadoras. No fim das contas Shay estava fazendo isso por mim, me protegendo mais uma vez. Mas no fundo eu me sentia bem com aquilo, saber que ela fazia isso tudo significava que sempre estaria do meu lado. Aquele sentimento de segurança nunca ia embora quando eu estava perto dela.
–Quando eu completar 18 – falei decidida.
–Como assim? – Shay ficou confusa.
–Daqui a três meses eu completo 18 anos. Serei maior de idade. Então iremos assumir tudo! Mio padre não poderá me impedir e é tempo para... Para termos só nossos.
O sorriso que ela me deu fez meu corpo inteiro derreter. Já estava aproximando nossos rostos, sentindo aquela química que puxava para ela, o hálito fresco beijando minha face... Mas antes que nossos lábios encostassem Lindsay interrompeu mais uma vez:
–IVY! A sopa!
Saltei dos braços de minha garota e fui correndo salvar a minha sopa. Fora por pouco, mas estava no ponto. Elas me ajudaram a montar a mesa novamente, Shay gritou aos meninos que já estava na hora do jantar e eles vieram esfomeados. Mais uma vez havia sido divertido e até barulhento. Era tão diferente de minha realidade! Ninguém precisava ser refinado à mesa, ou pensar em educação na hora de falar. Os modos eram aceitáveis, mas acontecia uma gafe atrás da outra e ninguém se importava. Não tinha luxo algum, as cadeiras incomodavam até que se acostumasse. Mas mesmo assim... Aquele calor, aquela diversão geravam um aconchego que eu não via a muito tempo.
–Shay, semana que vem já poderá sair? – Alejandro comentou.
–Já sim, por bem ou por mal. Preciso fazer meu trabalho – Shay falou simplesmente e sorriu ao me ver olhando-a séria – Não se preocupe, eu vou sobreviver. Mas não vou conseguir muito bem se não tiver dinheiro para pelo menos fazer a feira da semana.
–Mas io posso ajudar, não é errado nem coisa parecida. Você precisa se recuperar do acidente!
–E vou. Sabe também que não vou aceitar mais do que você está oferecendo. Quer me ajudar? Venha me ver todo dia o máximo que puder e sorria para mim.
–Não brinque com isso, você tem de estar realmente boa!
–Eu não estou brincando. Quando você sorrir... Tudo muda e eu fico muito melhor – Shay falou em um tom carinhoso e sincero.
O resultado foi que fiquei totalmente boba. Ela inclinou um pouco para selar nossos lábios rapidamente, mas o suficiente para deixar o gosto dela em minha boca. Eu conhecia vários lados dela, mas não aquele romântico que me derretia por inteiro. Ao menos até agora.
–Bom, não foi exatamente para isso que perguntei. Eu conheço um cliente que virou um amigo meu. Chegou a conhecer o Robert? – Alejandro chamou atenção antes que o clima ficasse meloso demais.
–Aquele cara negro gente boa? – tentou Shay pensativa.
–Ele mesmo. O conheci um pouco depois de abrir o Fuego, ele era frequentador e na época apenas um pequeno empresário. Advinha só, o negocio do cara cresceu e ele ficou realmente rico. Outro dia ele passou lá para uma visita e conversa vai e conversa vem, Robert falou que vai dar uma festa no litoral, reservou praticamente um hotel inteiro. Será de sexta-feira a segunda-feira já que é feriado segunda.
Meus olhos se abriram com as mil possibilidades em minha mente. Seria verdade aquilo que Alejandro queria insinuar? A mão de Shay pegou a minha e apertou forte, apesar de seu semblante ser calmo.
–E...? – instigou Shay para que Alejandro continuasse.
–E que eu falei um pouco de você e o Robert ganhou uma simpatia logo de cara. Ele se lembra de você e tudo o mais, ficou surpreso de como lutou e cresceu. Então ele quer que você toque uma noite na festa dele, sendo que você poderá ficar na festa todos os quatro dias. Acredito que a “gorjeta” dele será bem generosa.
–GRAZIE MIO DIO! – eu fui a primeira a me manifestar, exultando na cadeira feito uma criança que acabava de ganhar um presente de aniversário maravilhoso.
Todos riram de minha reação e eu não me importei. Quatro dias com Shay em uma praia longe da cidade era como uma realização do momento. Alejandro continuou a explicar os pequenos detalhes. Ao que parecia o tal do Robert havia alugado vários quartos de um hotel luxuoso a beira-mar para poder dar essa festa. O homem iria pagar tudo para Shay e o irmão, já que ele sabia que não tinha ninguém para cuidar da criança. A primeira coisa que fiz depois do jantar foi fazer uma reserva nesse mesmo hotel, depois falaria com meus pais e apostava que eles em nada reclamariam já que eram férias.
Algo dentro de mim dizia que essas férias seriam completamente diferentes das que eu já passei em toda a minha vida!
Notas finais
Abraço para todos xD
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