Simplesmente
6 Capítulo 6: Consequências
Notas iniciais
Pov Shay
Queria dizer que depois disso tudo se resolveu. Eu pensei assim. Doce ilusão. Na quinta-feira fomos para a aula... E Ivy me ignorou completamente. Eu me aproximava dela, ela fugia dando alguma desculpa. Não olhava para mim e quando eu a flagrava olhando desviava o olhar rapidamente, com certo desespero até. Tentei imaginar que era apenas uma confusão, já que agora ela havia saído do torpor do beijo e finalmente entrado na realidade de que havia beijado uma garota.
Por tudo o que é mais divino, tudo o que era gostoso e delicioso parecia canalizado nos lábios daquela italiana. Eu tive de lutar para manter a calma quando a beijava, meu instinto era devorá-la para poder sentir cada vez mais aquele sabor. Ivy não só beijava bem, como tinha tudo para me encantar e me por aos pés dela. E por mais que eu tentasse ser compreensiva, até mesmo no trabalho eu estava distraída um pouco.
-O que aconteceu? – Brandon perguntou ao meu lado enquanto lavava os copos. Todas as quintas e sextas ele sempre ajudava ao namorado no bar.
-Como assim? – perguntei realmente confusa.
-Está distante, não cantarolou nenhuma música e fica fazer umas caretas estranhas – Brandon franziu o cenho e fez bico – Tipo assim.
-Deus, eu não sou tão feia a ponto de fazer algo assim – brinquei com ele e suspirei – Vamos ver... Beijei uma hetero muito, muito... Tipo, apenas muito sabe? Muito tudo. E ela resolveu me ignorar hoje o dia todo.
-E ela gostou?
-Ah com certeza que sim. Disso eu tenho certeza.
-Talvez agora ela esteja confusa. Tem de dar espaço para ela. Conheço?
-Lá da escola.
-Você raramente fica com garotas da escola! Diz que são imaturas e tudo o mais – Brandon não escondeu a surpresa.
-Mas ela é diferente e pior. Mimada e burguesinha. Mas Deus tava tão inspirado quando fez a criatura. Além do mais, é italiana briguenta. Ela começa a falar Io não sei o que, ragazza stupida e tudo o mais.
-Alejandro! Acho que a Shay ta apaixonada!
Joguei restos de gelo em Brandon e revirei os olhos, voltando ao meu trabalho com os coquetéis e outras bebidas. Eu não estava apaixonada. Ainda não. Revirei os olhos e continuei a minha rotina normal e para variar, no dia seguinte eu estava atrasada na primeira aula. Na sexta-feira o sono me consumia por completo, dei graças por não ter nenhuma aula com Ivy nesse dia, ou iria falar diretamente com ela e perguntar qual era o problema. Apesar de no fundo ter medo de descobrir qual fosse realmente.
Estávamos no almoço, eu novamente sozinha, praticamente cochilando enquanto comia o prato do dia. Mas foi então que começou. Primeiro veio uma bolinha de papel quase caindo sobre meu prato. Respirei fundo e olhei para o grupo do time de basquete rindo quase sem disfarçar. A joguei para o lado ignorando, idiotas mereciam um tratamento especial. Ignorá-los. Porém, como sempre, outros papeis vieram, tudo de uma vez, acertando meu copo de coca-cola e o fazendo derrubar o líquido negro e gasoso. Por pouco eu não conseguia salvar o meu caderno com todas as minhas anotações. Minha vontade era a de ir brigar com eles, mas não podia, não poria minha bolsa de estudos em risco. As risadas me fazia segurar com força o talher em minha mão, mal percebendo que estava me machucando. Era mais uma humilhação que eu teria de passar quieta. Apenas mais uma delas...
-Io imagino que não faça nada para não perder a bolsa.
Ergui meu olhar rapidamente. Ivy estava a minha frente, sentando a minha mesa, jogando os papéis de lado com um pouco de repulsa, mas logo pondo o seu prato a mesa e sentando pra fazer a refeição. Olhei para os lados e vi que todos cochichavam e olhavam para a garota que havia sentado a minha mesa.
-O que está fazendo? Pensei que estivesse me ignorando – a acusei ainda com um pouco de raiva.
-Io estava – ela admitiu me olhando diretamente nos olhos – Está com muita raiva?
-Daqueles idiotas? Sim – sentei direito sobre a mesa, olhando de novo para o time de basquete que havia encontrado outra vítima.
-Sempre foi assim? – perguntou Ivy abrindo o seu suco.
-Desde que eles descobriram que além de nerd e bolsista, eu era lésbica. Ah e o fato de que pegava mais garotas do que eles.
Ivy parou com o suco no meio de caminho lançando um olhar ranzinza para mim quando falei das outras garotas. Arqueei uma sobrancelha, ela estaria com ciúme ou seria minha tola esperança? Peguei um guardanapo para tentar amenizar a situação do refrigerante derramado, perdendo completamente a fome.
-Não deveria está aqui – comentei com um nó na garganta – Isso não faz parte de seu mundo perfeitinho. Tanto que nunca viu isso acontecer antes.
-Então tenho de abrir meus olhos não é? – ela contra argumentou – Ainda mais se quiser me tornar uma diplomata como pretendo.
-Um ramo de advocacia, isso está no sangue de sua família? – não pude evitar o comentário.
-Talvez. E io queria pedir desculpas. Por tentar te ignorar e...
-Tudo bem. Esqueça. Eu tento compreender. Você gosta de homens, beij...
-Fale baixo!
-Ok, fez o que fez. Uau, grande mudança de perspectiva. Pode ter sido coisa do momento, curiosidade e outras coisas parecidas – falei rápido e finalmente a fitei de forma intensa – Ou pode estar fugindo por ter gostado e querer mais.
Ela arfou e ficou corada. Era a segunda opção, mesmo que rapidamente ela tenha dado de ombros e voltado a sua comida. Meu coração estava saltando tão rápido contra o meu peito que pensei que qualquer um poderia ouvir. Respirei fundo e ia comentar algo quando Lindsay e Henry apareceram para sentar a minha mesa.
-Estamos perdendo a festa! – Lindsay fingiu reclamar.
-Ela só começa a ser divertida quando vocês chegam – comentei sorrindo para eles.
-Vamos bagunçar um pouco o sistema pelo visto – Henry riu enquanto sentava ao meu lado – Ah! Shay, quem vai tocar lá hoje no Fuego?
-Vai ser aqueles dois, Louis e John. Hoje vou ficar só no bar.
-O Henry sabe? – Ivy perguntou surpresa.
-Sei de coisas que nem imagina – Henry respondeu piscando o olho divertido.
Não pude evitar rir. Ivy havia feito mais do que me defender na hora do almoço, trouxe o meu bom humor de volta. Ainda mais que havia descoberto que ela me evitava por ter gostado do meu beijo. Veria até quando ela iria continuar fugindo. Não vou negar, o motivo dela gostar de homens, mas ceder especialmente a mim fazia meu ego ir lá para pras alturas. Continuamos a conversar de coisas mais amenas, mas no fim Lindsay bateu o copo sobre a mesa e disse:
-Vamos conhecer esse Fuego hoje Ivy!
-Vamos? – Ivy arqueou uma sobrancelha em sinal de desconfiança.
-É sexta, precisamos de um lugar para ir! – Lindsay se defendeu – E vai ter o Henry e a Shay, pra mim está perfeito.
-É um lugar modesto, mesmo que bem freqüentado – comentei um pouco preocupada.
-O que está querendo insinuar? – Ivy me encarou.
-Que não é lugar de burguesinhas acostumadas a lugares de elite – falei sem temor nenhum, a fitando divertida – Não é um lugar para você.
-Ragazza stupida! – Ivy exclamava indignada – Não pode dizer onde vou ou não! Io vou para esse lugar e vou me divertir como qualquer outra!
-Se você o diz. Só depois não fique chateada consigo mesma quando descobrir que não tem bebidas caras e vodkas de preço absurdo – continuei provocando.
-Mas o Dry Martini da Shay... Nunca experimentei outro igual. E são apenas oito dólares! – Henry cortou o nosso drama.
-Melhor ainda, coisa barata! – Lindsay ficou animada – Ah, o que devemos usar Shay?
-Nada muito extravagante, hoje o dueto vai ser de um rock light meio que um jazz também.
Ivy deu um sorriso diabólico e eu a encarei com um pouco de medo. Ela iria aprontar algo... Mas eu mal sabia do que ela estava planejando.
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