Simplesmente
4 Capítulo 4: O amor de um irmão.
Notas iniciais
Pov Shay
O milagre da semana foi ter conseguido chegar bem a tempo da primeira aula. Não havia me atrasado ou dormido demais. Era aula de matemática e eu não queria perde-la. Ou simplesmente não queria deixar de ver certa garota. Depois da conversa com Ivy, não mais a encontrei na festa. Tivemos nossa primeira conversa civilizada e isso era um avanço e tanto. Ela havia me descoberto sem querer, mas não significava que eu não queria saber dela. Aquela vontade não tinha explicação e eu apenas tentava me convencer que era para a redação.
Ao chegar à sala, antes do professor, meus olhos logo correram pela sala em busca não de um lugar, mas da garota italiana. Ela estava sentada em sua carteira costumeira, mas ao seu redor estavam os rapazes mais bonitos e as garotas populares. Lindsay ao me ver acenou de leve e sorriu. Eu havia pedido à garota que não contasse a ninguém o que eu fazia e ela pareceu concordar de boa, não era tão esnobe quanto a maioria das garotas daquela escola. Joguei-me em uma carteira qualquer e me espreguicei de forma discreta. Sim, estava com sono, quando eu não estava?
O trabalho de sábado me rendeu um bom extra, já que o pai da aniversariante além de gostar muito do meu trabalho simpatizou comigo. Eu nunca recusava esses extras, precisava deles. Finalmente iria poder comprar roupas novas para Sean e até algum joguinho que ele queira. Sorri fraco contente comigo mesma. Logo o professor entrou e começou a aula, eu prestava atenção e pegava o assunto fácil, porém meia hora antes da aula acabar, ele anunciou:
-A nota da maioria do pessoal está baixa e estamos no mês final do primeiro bimestre. Não quero ninguém de recuperação no meio do ano então resolvi dar uma forcinha. Irão fazer uma lista de questões em trios e me entregar na aula de segunda-feira que vem.
Ah que ótimo. Eu era terrível em trabalhos de equipe, primeiro porque os que me procuravam eram por causa de minhas notas, segundo porque geralmente não tinha tempo! Mas para minha surpresa, Lindsay e Ivy levantaram e se aproximaram de mim. Olhei de uma para outra, mas foi em Ivy que meu olhar repousou. Era algo que não podia controlar.
-Vamos fazer juntas? – Lindsay propôs – É o melhor para todas. Precisamos de nota em matemática, você precisa... Você sabe.
-Sério? Valeu mesmo, já estava começando a me preocupar – disse sincera – Vou ter a quarta-feira livre totalmente. Quinta e sexta-feira tenho alguns compromissos então... Domingo posso abrir mão de minha folga.
-Da para fazer tudo não é? – Lindsay ponderou – Então vamos para a casa de quem?
-A minha – Ivy se manifestou – Meus pais vão viajar e estará tudo livre.
-Opa, isso quer dizer que da para dormimos lá também! Festa das meninas! – animou-se Lindsay quase batendo as palmas feito criança.
-Ahn... Como dizer, eu não posso dormir na casa dos outros – fiquei mais séria, sentando direito na carteira.
-Por quê? – Ivy questionou.
A fitei realmente me perguntando até onde deveria contar as coisas para ela. O engraçado é quão curiosa ela parecia comigo, outrora ela teria apenas falado alguma coisa mal-humorada. A demora de minha resposta pareceu começar a irritá-la, seu olhar azulado prendeu-se no meu e tornou-se desconfiado, então suspirei.
-Eu tenho um irmão e não tenho quem tome conta dele. Não posso deixar na casa de meus vizinhos porque a quarta-feira é o dia dos dois namorarem. E não, não tem ninguém para tomar conta dele, Ivy.
Ela franziu o cenho parecendo digerir todas as minhas informações. Mordeu o canto do lábio inferior pensativa e isso me fez olhar para aquela boca cheia e levemente rosada. Eu a beijaria, ah e como a beijaria. Era difícil conter esses pensamentos, eles já existiam antes, mas com aquela proximidade toda, eu raramente conseguia controla-los agora.
-Então leve ele também. Ele não vai ficar entediado nem nada, eu prometo – Ivy decidiu.
-Não tem problema mesmo? É um garoto de dez anos – a olhei meio desconfiada.
-Eu tenho um irmão mais velho que mais parece criança – Ivy contou dando de ombros – Lá tem jogos e tudo o mais, ele vai poder se distrair enquanto fazemos nosso estudo, além da piscina é claro.
-Piscina? Sean adora água. Então está feito. Quarta-feira depois da escola?
-Direto! – Lindsay exclamou feliz.
Sorri de leve e Ivy retribuiu o sorriso, mas ao ver o que fazia ela fez uma careta e se afastou. Balancei a cabeça de leve rindo baixinho. Aquela garota era... Completamente diferente da lógica do normal. Mas não era isso que me interessava tanto? As próximas aulas se seguiram calmas e sem problemas maiores, as mesmas zuações e provocações de sempre, nada mais. Naquela noite havia ido para o Fuego normalmente, mas servindo como bargirl já que não era dia de agitação. Na terça reservei meu tempo para ajudar Sean nos trabalhos escolares. Havia demorado, mas depois que nossa ligação foi estabelecida eu já não conseguia mais viver sem ele.
-Antes que esqueça – comentei quando escovávamos nossos dentes – Amanhã vou passar na sua escola e vamos para a casa de uma amiga. Preciso fazer um trabalho de matemática, então você vai junto.
-Eu não sou criança, posso ficar sozinho! – Sean reclamou cuspindo na pia e voltando a escovação.
-Não posso deixar você sozinho tanto tempo. Sou sua irmã e estou cuidando de você. Quando tiver no mínimo 16 pode começar a se virar sozinho, eu deixo.
-Você é tão chata.
-Claro, sou sua irmã mais velha. Que eu posso fazer? É uma obrigação!
Ele riu terminando a higiene, saindo primeiro do banheiro. Enquanto tentava dormir me peguei pensando nela novamente. Ivy Lazinni. O que eu realmente sabia sobre ela? Uma filha de promotor, o irmão também estava fazendo advocacia. O pai era famoso e a mãe era conhecida na cidade inteira. Mas e ela? Apenas a filha perfeitinha e popular da escola? Qual seria o sabor do beijo dela? Ah com certeza seria bom, assim como seria gostoso abraça-la apertado e... Minha mente dormiu pensando nessas coisas e quando acordei novamente pensei nela, como se não tivesse realmente apagado na cama.
Novamente não cheguei atrasada na escola por não ter ido trabalhar. Eu adorava as quartas-feiras, tinha a maioria das aulas ao lado de Henry, o único membro do time de futebol que eu gostava. Talvez por ele ser gay no armário ainda, mas ainda assim, um dos poucos amigos que eu tinha na Lyon High School. Estávamos no laboratório de química quando ele começou a falar de um garoto que conheceu no final de semana, só então lembrei de contar sobre o que Ivy.
-Você devia ter visto a cara dela quando me viu na mesa de DJ – comentei segurando o riso – Mas mano, ela estava tão gostosa! A beijaria mesmo sabendo que levaria um tapa.
-Pensei que tivesse parado de gostar dela. Fazia tempo que não comentava nada. Tem haver com o lance da diretora? – ele perguntou enquanto misturava dois líquidos paciente.
-Acho que sim. A Sra. Moore passou um trabalho meio absurdo, mas até que está valendo a pena. Ou não. Eu quero aquela garota, mas ela é tão irritante. E tão hetero!
-Nunca se sabe – Henry deu de ombros e sorriu com seus dentes todos perfeitos – Ela implica tanto com você que quem sabe não seja um desejo obscuro?
-Ou apenas o jeito fresca dela de ser. Não me dê esperanças! – reclamei tocando meu ombro nele para empurrá-lo de leve.
-Calma! O experimento, quer explodir tudo de novo?!
-Desculpe! Acho que estou ansiosa, vou fazer meu trabalho de matemática com ela hoje. E Sean vai ir comigo.
-Por que não faz assim... A beija pelo menos uma vez. Um beijo sempre muda tudo, ainda mais se estiver em dúvida. Se você levar o tapa, pede desculpas e não vai se repetir. Até porque vocês tem esse trabalho pra fazer. Mas é melhor do que ficar se torturando dessa forma.
-Henry, porque você não segue o próprio conselho? – o encarei mais séria.
-Porque não gosto de nenhum garoto daqui. Quero homens e não nerds ou garotos com testosterona alta demais. Ah e também sou muito jovem para morrer, você sabe que meus pais me matariam se descobrissem!
Revirei os olhos e continuei a me concentrar no nosso experimento de química. Tudo ocorreu bem e recebemos uma ótima nota. Adorava Henry por causa disso, podia ser rico, jogador do time de futebol, mas era dedicado e delicado a sua maneira. Ele me acompanhava até o estacionamento quando encontrei Lindsay e Ivy em uma Mercedes conversível.
-Não se esqueça de que quando for beijá-la, dar tudo de si para fazer inesquecível. Ai se ela não for pelo menos bi, acaba se tornando! – Henry sussurrou em meu ouvido.
Dei outro tapa no ombro dele e o garoto se afastou rindo, acenando para as garotas. Quando me aproximei apenas cumprimentei rapidamente e entrei no carro, ficando no banco traseiro. Fomos direto para a escola de Sean, as deixei conversando animadamente sobre moda, garotos, festas... Estava completamente distraída com a ideia de Henry, pensando e imaginando o que devia e não devia. Até porque eu nada sabia sobre qual era a marca de bolsas do momento ou qual era o novo corte de cabelo de algum famoso. Apesar de tudo elas ainda eram burguesinhas por natureza. Quando chegamos, pedi para elas esperarem no carro. Era uma escola pública e não era lá muito legal duas garotas da alta sociedade aparecerem assim do nada. Fui direto para o pátio, onde geralmente Sean me esperava.
Mas então uma confusão enorme estava acontecendo. Várias crianças se aglomerando em um círculo, não havia nenhum professor por perto. Meu coração parou. Eu já tinha visto aquilo algumas vezes e rezei por dentro para não ser o que eu estava imaginando. Infelizmente Deus parecia não estar me ouvindo naquele dia. Quando empurrei as crianças, encontrei Sean sendo segurado por dois garotos enquanto um terceiro ia começar a soca-lo. Segurei o braço do garoto, que devia ter a mesma idade de Sean, mas já era mais alto que a maioria ali. Ele me olhou por um momento confuso e surpreso, o empurrei com força para o chão e olhei furiosa para os outros dois garotos que seguravam meu irmão. Eles o soltaram e já estavam prestes a correr quando os professores enfim chegaram junto com a diretora.
-O que é isso?! – gritou a diretora.
-Eu que pergunto – disse sem controlar a raiva – Quando cheguei os garotos estavam prendendo meu irmão para que esse o batesse. Onde estavam os adultos dessa escola?
-Isso é verdade? – um professor me olhou desconfiado.
-Ah, não, imagina. Um monte de criança em uma roda gritando briga não é nada! – ataquei furiosa – Isso não é a primeira vez que acontece. Eu juro que se atacarem meu irmão novamente eu entro com um processo aqui!
-Ela é uma anormal! Meu pai disse isso! – o garoto alto que tentou bater em meu irmão gritou – E se ela é anormal o irmão também é. Mal de família, ta no sangue deles!
Mais uma vez aquilo. Meu sangue gelava ao mesmo tempo em que meu coração bombardeava toda a ira da discriminação que estava sofrendo, o pior era escutar aquelas palavras vindo de uma boca infantil, que devia ser pura e inocente. Mais que isso, meu irmão fora motivos do preconceito posto em ação. Puxei Sean para mais perto, contendo minha vontade de esmagar aquele imbecil não me importando com a idade dele. Mas a necessidade de proteger meu irmão era mais forte.
-Você deve ter entendido errado Brian – a diretora tentava amenizar as coisas.
-Não! Ela gosta de garotas, fica com elas. Isso é errado! – o garoto, Brian, continuou – Ele não pode ficar aqui, eu não vou estudar em uma escola que tem bichas!
-Oh, fala isso porque ainda não saiu do armário, quando você tiver coragem de beijar um garoto, vai virar mocinha rapidinho – Sean provocou e eu tive de puxá-lo para longe do ataque do outro.
-Parem com isso – os professores tiveram de segurar o Brian – Nessa escola não é permitido brigas!
-Mas é permitido preconceito?
Virei surpresa ao ver Ivy parada de braços cruzados. Minha surpresa ali foi superada por ver a raiva nos olhos azuis claros dela, agora intensos e realmente perigosos. Mesmo estando fofa em um vestido babado azul claro, os braços cruzados e o olhar briguento dava a ela uma aparência até assustadora.
-Senhorita, não é nada disso... – o professor começou – E de onde você veio? Por favor, se retire...
-Eu sou filha de Antony Lazinni, promotor de justiça – Ivy foi irredutível em seu tom de voz – E como Shay disse, se isso voltar a se repetir, ela terá acesso completo aos melhores advogados da cidade e qualquer pai que reaja com preconceito será processado. O que me diz disso diretora? Ao menos assim poderemos manter a aprendizagem de tolerância ao modo antigo.
-Srta. Lazinni, não é bem isso, foi apenas uma questão que fugiu um pouco do controle – a diretora tentava conter a situação, virou para os encrenqueiros e finalmente ordenou – Os três em minha sala, receberão detenção e convocarei uma reunião com os pais de vocês.
Sean me olhou como se perguntasse quem era aquela louca de sotaque engraçado. Mas eu apenas sorri de leve e com um aceno de cabeça o pedi para me acompanhar. Ivy seguia ao meu lado, a passos pesados e silenciosa. Apenas quando estávamos dentro do carro, o qual Sean arregalou os olhos ao ver, ela explodiu. Mas falando em italiano sem que ninguém entendesse, gritando coisas como “Quel ragazzo meritava una punizione medievale!” ou então “Gli insegnanti irresponsabili!”. O pior foi que ela ficava fofa daquele jeito, brigando e com os olhos azuis tão vividos. Saber que era por minha causa que ela estava furiosa me deixava estranhamente contente.
-Ivy! Não sabemos italiano ainda, apesar de ter certeza que xingou tanto nessa sua frase – Lindsay a interrompeu rindo – Mas agora me diga o que aconteceu.
-Exatamente, o que aconteceu Sean? – perguntei virando para meu irmão, eu e ele estávamos no banco de trás.
Ele acuou e olhou para o chão. Era desconfortável falar sobre aquilo na frente delas. Mas eu tinha de saber o que aconteceu, apesar de já imaginar o que havia se passado. Ele passou a mão sobre o cabelo cacheado e me olhou com tanto pesar que meu coração se apertou.
-Eles são uns idiotas – Sean começou a falar apesar de ainda ficar olhando para Ivy e Lindsay – Sempre fazem piadinhas sobre a Shay e... Eu aprendi a ignorar, mas o Brian falou aquilo de novo e eu partir pra cima dele.
-Espero que o tenha batido muito – falei com raiva contida.
Eu sabia o que Brian tinha falado e o que meu irmão não queria repetir. Havia me chamado de monstro e mencionado que nossos pais havia nos abandonados por minha causa. Para uma criança de dez anos assustada e morando com uma irmã lésbica era um dos ataques psicológicos mais pesados que eu já havia visto. Sean sorriu de lado e mostrou os punhos vermelhos.
-Acertei na barriga para que a diretora não visse hematomas no rosto – ele explicou contente.
-Violência não resolve nada – Lindsay comentou um pouco séria.
– Deveriam processá-los, seria o mais correto – Ivy completou em mesmo tom.
-Sim, sei que é – falei com calma, fitando aqueles olhos azuis preocupados – Contratar um advogado, denunciar o preconceito na escola. Mudar o mundo. Não é tão fácil assim, ainda mais quando não temos dinheiro e suporte. Esfregam isso em nossa cara, cospem e dão risada. Então aprendemos a lutar para nos defender quando somos atacados.
-Minha irmã não está errada! – Sean logo me defendeu – Eles que são idiotas! Ela é melhor do que qualquer adulto!
O olhei meio surpresa. Não que não soubesse disso, mas sempre me emocionava quando o escutava falar dessas coisas tão sincero e espontâneo. Olhei para Ivy que também parecia surpresa e confusa, revirei os olhos e avancei para meu irmão, bagunçando o cabelo dele e começando a fazer cócegas para descontraí-lo.
-Já passou – dei fim àquilo – Tudo o que precisa fazer agora é relaxar, a casa da Ivy tem piscina, trouxe o calção de banho não é?
-Claro! A piscina é grande?
-Muito, você vai gostar – Ivy sorriu doce.
-E você gosta de jogar? – Lindsay logo aproveitou a deixa – O irmão da Ivy tem um play 3 e um monte de jogos. Sou viciada neles.
-Ah, saberá o quanto eu sou bom quando eu derrotar você! – Sean provocou já relaxado.
Suspirei aliviada, encostando no banco e o olhando um tanto orgulhosa. Ele havia aprendido a ficar forte e convicto do que queria. O melhor era saber que eu havia ensinado isso a ele.
Notas finais
Galera, muito obrigada pelos reviews, eles tão me incentivando a manter o ritmo da fic.
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