Simples Desejo
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Duas semanas. Tão pouco tempo e eu não fazia ideia de como conseguiria ir embora daquele lugar.
Não casaria com Alexandre. Não faria isso com minha vida. Crescera lendo livros que sempre alimentaram minha ilusão de que o amor deveria ser o único motivo para unir duas pessoas. As irmãs do orfanato sempre me desdenharam por isso, com frases como “você é uma tola acreditando no amor” e “acabará ficando sozinha”. Mas não era verdade. Encontrei Hugo, e por isso – e por ele – honrarei meu pensamento.
Sinto um aperto no peito ao lembrar-me de minha antiga vida. Por mais que tivera passado por diversas coisas ruins naquele orfanato, sempre sendo destratada e nunca cuidada, eu estava sentindo falta. Sentindo falta de cuidar daquelas crianças, que, a cada palavra ou gesto meu de carinho, me olhavam como se eu fosse sua esperança. Agora estava longe.
Permaneço em pé encostada ao batente da grande janela da sala de estar, meus braços abraçam meu corpo. Estou sozinha, nenhum sinal dos criados. Alexandre seguira para seu quarto, após me deixar com minha sentença. Duas semanas.
Contrapondo meu pensamento, escuto passos. Viro-me, encontrando Clement.
– Vim pedir-lhe desculpas, minha senhora. – ele parece realmente arrependido, mas não estou brava.
– Como ele conseguiu a carta?
– Um de seus homens vira nosso encontro e fora atrás de mim.
Assinto com a cabeça e suspiro. Realmente os homens dele estão por toda parte. Isso me faz pensar que Alexandre os colocou exatamente para me vigiar.
Decido que quero recolher-me, e, depois de me despedir de Clement, subo a escadaria. Caminho devagar pelo extenso corredor, repleto de portas que dão para os quartos e banheiros da casa. Um lugar tão grande para um homem tão solitário. Quando estou na metade do caminho, percebo que há uma porta aberta, o aposento está iluminado. Olho desinteressadamente para dentro, mas meus pés congelam no lugar com o que vejo.
Alexandre está de pé em apenas calças de pano. Suas costas e torso completamente expostos. Ele é realmente musculoso, mas não de um jeito exagerado. Sigo meu olhar por seus braços fortes, que levam até suas grandes mãos que fazem o trabalho de secar seu cabelo molhado com uma toalha. Aquilo era o máximo que eu já vira de perto de um homem nu – e ele nem estava nu. A combustão em meu rosto só piora quando constato isso.
E eu teria ficado imensamente grata aos céus se fosse apenas isso, mas o pior acontece. Alexandre se volta em minha direção, me flagrando ali, uma estatua o encarando. Arregalo os olhos e saio correndo para o meu quarto, como uma criança quando pega fazendo traquinagens.
*
Quando completa uma semana que estou aprisionada nesse lugar, me sinto a beira da loucura. Não faço nada, apenas assistir aulas da senhora Bauer e dar pequenos passeios pelo casarão. Às vezes converso amenidades com Margaret e Clement, mas estou em completa monotonia.
Caminho até a janela do meu quarto. É depois do almoço, e o dia não está tão bonito. Chovera muito pela manhã e o tempo parece ainda estar recuperando seu bom humor. Alexandre aparece em meu campo de visão. No jardim, ele está segurando seu cavalo pelas rédeas. Nada foi comentando depois que fui pega o bisbilhotando, para meu contentamento.
– Rosie! – ouço seu grito, e vejo que ele me capturou o olhando. Pega novamente. – Desça aqui.
O olho desconfiada. – Para que? – grito de volta.
– Desça, mulher. Agora!
Bufo aborrecida por seu tom autoritário. Ele realmente acha que é meu dono. Vou a seu encontro ainda receosa. Todos esses dias ele se mantera distante de mim, por que estava tentando contato agora?
Quando o localizo no jardim, percebo que há mais um cavalo consigo.
– Cavalgue comigo. – ele diz. Sério?
– Não sei. Nunca fiz isso na vida. – passo minha mão pelo cavalo que ele reservara para mim. Todo em um tom de caramelo, o cavalo é uma graça.
– Não acredito que você terá maiores problemas com isso. Venha.
Estou tentada a aceitar. Um pouco de diversão talvez refresque minha mente. Pergunto-me vagamente se há como ter diversão ao lado desse ogro. Alexandre continua parado próximo a mim. Ele é muito mais alto que eu.
– Você vai ou não? – insiste.
– Por que está querendo minha companhia? Você parece me odiar todo o tempo.
Ele bufa, impaciente.
– Você não pode simplesmente fazer algo sem pestanejar? Você não é como nenhuma mulher que já conheci. Elas sempre me ouvem caladas, já você tem prazer em tentar me aborrecer.
– Bem, então posso dizer que, devido a nossa convivência juntos, estou aprendendo isso com o senhor. A aborrecer. – sorrio com falsa inocência e ele ri irônico, descrente do que digo.
Pega de surpresa, sinto suas mãos em minha cintura quando Alexandre me ergue, até que estou montada desajeitadamente sobre o cavalo.
– Segure bem as rédeas. Conduzirei-te.
Passeamos devagar – devido a minha falta de experiência – pelo prado. Mas até que eu não estava indo tão mal. Alexandre ia à frente, guiando meu caminho. Vez ou outra ele olhava para trás, como se para se certificar de que eu ainda estava ali. Ela acha mesmo que eu seria tão suicida a ponto de tentar fugir em cavalo que mal sei conduzir?
– Com medo de me perder, senhor Herman? – o provoco.
Ele ri. – Sempre.
O prado é demasiado belo. Por conta da primavera, há uma riqueza imensa de cores, de agradar os olhos de qualquer um. A vegetação abaixo de nós ainda está um pouco encharcada pela chuva. Não muito longe no horizonte, consigo avistar a cidade. Eu nunca havia saído de Londres – penso ao sentir curiosidade por aquela cidade.
Um movimento corta minha linha de pensamentos. Alexandre faz uma curva grosseira e começa a cavalgar com rapidez, sem se afastar muito. Ele sorri para si mesmo, parecendo feliz. O modo como controla bem o animal e a elegância com que faz isso me deixando hipnotizada, e me pego sorrindo também.
Noto quando ele para, olhando em minha direção. O olhar sério para baixo.
– Rosie! – ele grita. – O buraco.
Sigo seu olhar para encontrar um buraco ao chão, repleto de agua. Tento afastar o cavalo puxando as rédeas, mas acredito que faço isto errado, pois o animal se assusta, me lançando para longe.
Nos segundos seguintes tudo que sinto é uma pancada contra minha cabeça, a dor aguda me tirando os sentidos. Tudo gira e está borrado.
– Rosie. – Alexandre me ergue em seus braços. – Não feche os olhos. Fique comigo.
Sinto quando ele me coloca sobre seu cavalo. Em seus braços, encostada a seu peito, eu caio na inconsciência.
*
Desperto sentindo muito calor. Estou enrolada em lençóis, com olhares preocupados de Alexandre e Margaret sobre mim.
– Finalmente. – ele diz. – Pensei que estava em coma.
Reviro os olhos. – Como você é exagerado.
– Então você lembra o que aconteceu?
– Sim.
– Bom.
Ainda sinto dor na cabeça, mas é algo suportável.
– Com fome? – dessa vez é a Margaret que se pronuncia.
– Com sede.
Ela sorri docemente para mim. – É pra já.
E sai, me deixando sozinha com o senhor simpatia. Ele me observa enquanto sento, com o corpo totalmente apoiado por um amontoado de travesseiros.
– Achei que um só não seria suficiente. – ele diz, como se pudesse ler meus pensamentos. – Eu disse que você não teria maiores problemas em cavalgar, mas até nisso você me desafia.
Rio fracamente, achando graça por ele estar realmente aborrecido. Alexandre está sentado à beira da cama, me olhando. Devolvo seu olhar e nos encaramos profundamente. Aos poucos, noto algo mudar em seus olhos.
– Não olhe assim para mim. Sou comprometida.
– Comigo.
– Com Hugo.
Ele revira os olhos, irritado. – Você está proibida de citar o nome desse verme em minha casa.
– Você não é ninguém para me proibir de algo.
– Sou seu marido.
– Não é. E nem será.
Ele bufa, ignorando o que falo. — Não irá se levantar daqui por um bom tempo.
Arqueio as sobrancelhas para ele, confusa. – Machuquei mais alguma parte do corpo?
– Não, mas estou preocupado com esse machucado em sua cabeça. – levo minha mão ao topo da testa, mas não consigo tocar o ferimento. – Já viu a epidemia de doenças que está lá fora? Vírus e bactérias por toda parte.
– Não vejo nada lá fora porque você está me mantendo presa aqui.
– Argh! É impossível falar com você. – ele se levanta, enfurecido.
– Tudo bem, tudo bem. – tento amansa-lo. – Não quero te aborrecer.
Ele cede, voltando a sentar-se, mas ainda mantém a expressão mal humorada. Margaret retorna com um copo com agua em mãos. Ao me entregar, sussurra um “fico feliz que esteja bem”. Sorrio genuinamente para ela.
– Por que ainda está aqui? – falo a Alexandre ao ficarmos sozinhos novamente. – Não precisa cuidar de mim, pode retornar aos seus afazeres.
– Meu afazer é aqui e agora.
Apoiando uma mão sobre a cama, Alexandre se inclina sobre mim. Permaneço imóvel enquanto ele afasta meu cabelo de meu ferimento no topo da testa.
– Você é tão bela. – e repete sua frase de mais cedo. – Você não é como nenhuma mulher que já conheci.
Encaro suas íris azuis, com medo do que aquilo pode significar.
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