Simples
1 Capítulo único.
Notas iniciais

E então a tão temida data havia chegado mais rápido do que o previsto e agora ela não sabia o que fazer.
A questão era a seguinte: Sasha se encontrava na cozinha de seu apartamento, vestindo apenas um moletom largo e que ia até os joelhos e nos pés uma pantufa de ursinho. Era madrugada do dia 14 de fevereiro, do lado de fora estava nevando e o motivo de toda a comoção da madrugada de Sasha era justamente a data. Certo, não a data em si, mas o que ela representava. Dia dos namorados. E era mais do que justo que ela presenteasse o namorado com chocolates ou algo do tipo em uma típica conduta tradicional. Tudo estaria perfeitamente certo... Se não houvesse apenas um pequeno, porém crucial detalhe...
Sasha olhou desesperadamente para o seu celular em cima da mesa da cozinha e resolveu fazer uso do objeto ligando para a primeira pessoa que apareceu em sua mente... E não importava que eram quatro e meia da manhã, ela apenas tinha a absoluta certeza de que Ymir estaria acordada. Pelo menos esperava que sua intuição estivesse certa, caso contrário podia considerar-se uma mulher morta.
– O que é que você quer, Sasha? – Ouviu a voz irritada do outro lado da linha atender.
– Acontece é que eu estou com um pequeno grande problema aqui, Ymir...
– Fala logo o que raios você quer, mulher. – Ymir já estava ficando impaciente. – Qual é a porra do problema?
– É dia dos namorados e eu havia preparado o bolo de chocolate do Jean ontem à tarde. Acontece que... Eu comi o bolo hoje à tarde. Ymir o que eu faço?
Sasha já possuía uma voz chorosa e Ymir soltou um suspiro pesaroso do outro lado da linha.
– Eu realmente não sei como te ajudar nesta situação em especial, Sasha. Pra te falar a verdade eu estou com um problema semelhante aqui...
– Eu não sei o que fazer e eu definitivamente preciso fazer alguma coisa e... Como é que é? – Agora Sasha estava curiosa, como assim Ymir com um problema semelhante ao seu? – Não me diga que você comeu os doces do seu namorado também?
– Não, eu não comi. Na verdade eu... Esqueci de preparar os chocolates do Bert, Sasha.
[...]
E então foi feito silêncio na ligação. Se fosse verão, com toda a certeza, seria possível ouvir o barulho dos grilos. Mas não era verão, e os grilos não estavam fazendo o barulho irritante, mas... Sasha estava com vontade de rir ao mesmo tempo em que estava momentaneamente espantada.
– Certo, Ymir. Eu entendo... – Sasha quebrou o silêncio pausadamente com uma voz falsamente compreensiva.
– Entende porra nenhuma, sua víbora! – Ymir alterou o tom de voz por breves instantes, mas logo abaixou, completando em um sussurro. – Agora me faça o favor de me dar licença porque eu vou continuar a preparar um brigadeiro especial de dia dos namorados.
– Sei...
– Cale essa sua maldita boca. Não fui eu quem comeu o bolo de dia dos namorados do próprio namorado. E vá você preparar algum bonito doce para o Jean, eu tenho mais o que fazer.
Antes que Sasha pudesse responder às palavras doces e irritadas de sua doce amiga, Ymir já havia encerrado a ligação.
– Maldita seja...
Sasha resmungava mais algumas coisas enquanto pensava no que preparar para Jean. Não que ela não tivesse ingredientes disponíveis, a questão era o tempo e o cansaço. Era sexta feira e ainda teria que trabalhar o dia inteiro.
Resolveu que faria algo simples e gostoso, e fácil de fazer, além de não tomar tanto de seu tempo. Sasha não era lá uma chefe cinco estrelas na cozinha, mas sabia fazer muitas coisas e conhecia muitas receitas práticas e gostosas. E tinha o dom de preparar receitas rapidamente e sem alterar o sabor no resultado.
Andou pela cozinha apressadamente, abrindo e fechando os armários após pegar os ingredientes que desejava, colocando-os em cima do balcão americano que dividia sua cozinha. Sorriu consigo mesma. Nem sujaria tantos utensílios. Tudo o que precisava agora era de uma forma e lembrou que tinha uma em formatos de coração no armário. Pegou a dita forma e, como um ditado popular, mãos à massa!
Derreteu o chocolate meio amargo fracionado, o que lhe rendeu em média uns três minutos e logo foi forrando as forminhas do bombom com uma camada fina do chocolate derretido, para logo em seguida levar as forminhas à geladeira por 5 minutos.
Enquanto as forminhas forradas com chocolates estava na geladeira Sasha foi ao preparo do recheio, adicionando em uma tigela os chocolates meio amargos também derretidos, creme de leite e manteiga. Mexeu bem até que ficasse no ponto certo.
Mordeu o lábio inferior levemente enquanto olhava para a tigela preocupadamente. Precisava acrescentar algo de especial, que desse um gosto diferente e que ficasse ainda mais especial e gostoso. Abriu a geladeira e observou seu interior. Achou uma pequena garrafa de rum e sorriu ao pegá-la. Perfeito.
Olhou para o relógio na parede e constatou que já haviam se passado os cinco minutos e retirou as forminhas da geladeira, colocando-as sobre o balcão. Acrescentou aproximadamente 50 ml de rum à tigela com o recheio e misturou mais um pouco até que a mistura ficasse totalmente homogênea.
Agora com o recheio pronto, só lhe restava rechear os bombons, fechá-los com chocolate e levá-los à geladeira, por mais cinco minutos.
[...]
Foi até a sala e pegou sua pasta de trabalho, já que passaram-se das cinco horas da manhã e não conseguiria mais dormir. Sentou-se à mesa da cozinha e passou a analisar alguns últimos detalhes da reportagem que deveria apresentar no dia seguinte para publicação. Passou os olhos pelo texto, mas parou ao constatar que findaram os cinco minutos e que deveria finalizar os bombons.
Levantou-se, abriu a geladeira e de lá tirou as forminhas mais uma vez. Colocou-as sobre a bancada e pôs-se a desenformar os bombons e retirar os excessos de chocolate ao redor. Colocou-os já prontos em uma vasilha e colocou-os na geladeira mais uma vez, para que não pudessem derreter.
Após o preparo dos bombons ter chegado ao fim, Sasha recolheu os utensílios espalhados e os colocou dentro da pia, mas não sem antes untar os dedos de chocolate e levá-los à boca para lamber.
Sentiu duas mãos em sua cintura, mas não se sobressaltou, já sabia de quem se tratava. Sorriu. Olhou por sobre o ombro.
– Quer? – Perguntou enquanto levantava os dedos sujos de chocolate.
Jean Kirstein sorriu ao encarar o rosto e logo depois as mãos da namorada. Meneou a cabeça negativamente, mas possuía um sorriso travesso nos lábios enquanto girava o corpo da namorada para que ela ficasse de frente para ele.
– Tenho uma ideia melhor, batatinha.
E antes que Sasha pudesse pensar em algum suposto questionamento sobre a tal ideia brilhante do namorado, sentiu aqueles deliciosos lábios masculinos cobrirem os seus em um beijo molhado e ardente. E maravilhosamente saboroso com chocolate. Jean envolvia a língua de Sasha com a própria e sorvia daquele gosto único. Sasha já possuía naturalmente um sabor de chocolate, agora aquele gosto estava apenas mais apurado e acentuado na boca dela. Deu uma leve mordiscada no lábio inferior feminino e encerrou o beijo sorrindo ao olhar para face corada da morena.
– Delicioso, Sasha. Como tudo o que vem de você. – Jean abraçou o corpo da namorada, envolvendo com os braços a cintura fina e definida. – Mas você não acha que esta é uma hora um tanto inadequada para isso?
Jean ostentava um olhar significativo. Sasha agora possuía um olhar envergonhado e fazia, não intencionalmente, aquele biquinho adorável com os lábios, o que rendeu à morena um beijo suave nos lábios que agora se encontravam avermelhados e levemente inchados.
– É que... Eu tive um pequeno probleminha e tive que vir resolver.
– Ah, é mesmo? E eu posso saber que tipo de problema é esse?
Sasha possuía uma expressão divertida enquanto Jean arqueava uma de suas sobrancelhas em curiosidade e descrença. Porque era notável que ele possuía uma namorada compulsiva por comida.
A morena elevou o corpo, ficando na ponta dos pés ao depositar um beijo suave e delicado nos lábios do namorado. Sorriu ao perceber a língua masculina pressionando levemente seu lábio inferior em um pedido mudo de passagem. Passagem esta que foi concedida imediatamente pela morena, que agora possuía os dedos das mãos em meio aos fios dos cabelos de Jean, que apertava levemente o corpo dela contra o seu. E quando os pulmões de ambos ansiaram por ar, eles foram obrigados a separar os lábios e línguas para que pudessem respirar.
Sasha sorriu aquele sorriso lindo que só ela tinha e que ele amava imensamente. Involuntariamente Jean sorriu também, não um sorriso tão aberto e brilhante quanto o dela, mas um sorriso que era só dele e que ela amava de todas as formas, por ser um sorriso dele e por ser para ela.
– Feliz dia dos namorados, Jean.
Agora tudo fazia sentido. O despertar no meio da madrugada, a movimentação na cozinha, o chocolate. Jean sorriu mais uma vez. Ele realmente possuía muito mais do que ele merecia. A abraçou com firmeza e apoiou a cabeça no ombro dela.
– Obrigado. – Sussurrou ele e logo depois ergueu a cabeça para olhar naqueles olhos achocolatados. – Mas, você sabe, eu não preciso disso, Sasha. Eu já tenho você, e, acredite, não há chocolate mais delicioso para mim.
Jean terminou a frase com um sorriso atrevido nos lábios. Sasha riu. Ele tinha o dom de fazê-la ficar envergonhada às vezes, e com coisas tão simples. Mas o relacionamento deles era assim. Simples. E intenso. E eles se envolviam perfeitamente.
Ela soltou uma risada divertida ao dar um soco no ombro dele. Ele apertou mais o abraço.
– Eu te amo, cara de cavalo.
– E lá vem você com esse maldito apelido, Sasha. Será que você me ama mesmo, mulher? – Ele tinha o tom falsamente irritado. Mas ambos possuíam um olhar suave um para o outro. – Você sabe que eu não preciso nem dizer o quanto eu te amo, batatinha. Eu não posso porque eu não consigo dizer, porque eu amo muito mais do que eu mesmo posso imaginar. Porque eu não sou perfeito e você me ama mesmo assim, Sasha.
Ele também tinha o dom de fazê-la se emocionar com coisas simples e palavras mais simples ainda. Mas eles eram assim, uma mistura emocionante de sentimentos. Assim imperfeitos, mas perfeitamente completos.
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