Simple Man

1 Wont you do this for me, son, if you can...


Notas iniciais
Essa fic pertence à saga das histórias Fear of the Dark e Scarlet Monastery.

Vale lembrar essa acontece antes de todas as outras.

Dedicada para Tah.

- Venha até aqui querido...

A voz doce de sua mãe atingiu-lhe os ouvidos. Sentiu uma imensa vontade de dizer que não iria, mas, no auge dos seus quinze anos, não estava em posição de escolher muita coisa. Definitivamente, não.

Caminhou até a mulher, que estava sentada sobre a pequena mureta de tijolos laranjas, e sentou-se ao seu lado, recebendo um gostoso carinho nos cabelos. Seus dedos delicados passeavam entre as mechas escuras do filho, arrumando-as e bagunçando-as, mesmo sem querer.

Um suspiro pesado saiu dos lábios da bela senhora, que soltou o filho e fitou o céu por alguns instantes, sem se preocupar com o horizonte tomando o azul escuro como seu tom principal – prelúdio de um entardecer.

- Sabe, filho... Você só tem quinze anos, mas já viu tanta coisa... Às vezes, me pergunto o que é o melhor para te dizer, mas nunca acho palavras que sejam o suficiente para te consolar, te confortar.

O pai de Hizumi havia falecido há pouco mais de três meses, mas a dor ainda pairava sobre a família, que tentava se ajeitar. Por conta de um câncer generalizado, a convivência com o homem (que, um dia, fora muito sadio) passou a ser mais pesada com um fardo. Não era nada fácil aceitar que ele estava mesmo definhando naquela cama, como se viver não fosse mais a primeira escolha de um homem.

- Tudo bem, mãe. Eu sei disso.

- Seu pai foi um homem maravilhoso. Foi capaz de fazer coisas inimagináveis para dar conforto a família toda. – ela dizia com um sorriso – Ele foi perfeito...

Hizumi negou com a cabeça e deixou que a mãe continuasse a fazer elogios ao pai. Como filho, ele talvez enxergasse coisas que a mãe não via – ou não poderia ver. Mas continuava ouvir a gentil mulher lhe dizer o quanto precisava ser bom, que esses conselhos, um dia, o levariam onde quer que ele quisesse ir.

Uma coisa que a mãe sempre falava era que ele precisava entender o que as coisas significavam. “Problemas virão”, ela dizia, “mas irão passar. Aproveite sua vida, você é muito novo...”. E aquilo não parecia nunca fazer sentido.

- Seu pai era mesmo perfeito...

- Mãe... Não o faça parecer um herói...

A mulher virou o rosto e encarou o filho com um olhar incrédulo, como se realmente quisesse saber o que ele dizia sobre aquilo. Não fazia sentido nenhum seu filho, seu único filho, dizer aquilo.

- Ele batia em você, ele chegava bêbado em casa. Ele matou gente inocente que não tinha nada a ver com os problemas dele só porque achou que estivessem interferindo em seu caminho...

- Não... fale assim...

A mulher murmurou e seus olhos derramaram lágrimas doloridas. O céu, que ia se vestindo para o funeral daquela noite, não queria sequer sorrir, ou dar um brilho a mais. Ela bem sabia a verdade sobre o marido, mas não queria que seu filho soubesse.

- Eu... Não queria que você visse...

- Não tinha como não ver. Ele gritando, você chorando... Como é que eu não veria? – Hizumi suspirou – Não seja tão cruel consigo, mãe. Papai foi horrível, mas eu não serei...

- Promete? Promete que você vai lutar pela sua família, para que todos tenham a paz devida...? – ela passou devagar os dedos pelo rosto do filho, que assentiu.

Hizumi abraçou a senhora enquanto ela chorava e soluçava. Os dedos, que corriam por suas costas, tentavam confortá-la e acalmá-la, a medida que o tempo ia passando. O vento bateu suave e levou algumas folhas ao chão, e as lágrimas caíram com elas.

“Seja um homem simples, meu filho. Seja algo que você ame, compreenda... E não se preocupe com as riquezas dos homens, tudo o que precisar estará em sua alma...”

E então, naquela tarde chuvosa, enquanto as pessoas vinham lhe dar um abraço e dizer “sinto muito, primeiro seu pai e, alguns meses depois, a sua mãe... Deve ser sofrido, não?”, observava o caixão ser coberto de terra. Uns diziam que ela havia morrido de tristeza, outros que ela morrera de satisfação.

Ao passo que seus olhos percorriam pela última vez o caixão já lacrado, não conseguia evitar de lembrar de tudo o que ela lhe dizia constantemente. Acreditar em si, ouvir a voz que vinha do fundo do coração...

Tudo era horrível.

Mas iria cumprir, pela honra de sua mãe e, talvez, pelo orgulho de seu pai, tudo o que prometera à mãe em seu leito de morte. Com quinze anos, assumiria a liderança daquela família. Quando crescesse, iria conseguir ser bom o suficiente. Não precisaria mandar e desmandar em pessoas que não fossem lhe fazer bem, saberia escolher.

Mas tudo o que realmente sabia naquele momento era que seria um homem.

Um homem simples.

Nunca se esquecendo que havia alguém lá em cima e que, achando alguém, acharia o amor também.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!