Simple.

1 Simple.


Neji era um cara simples.


Já fora um cara complicado, complicado... Mas por ver a vida em sua forma mais simples, havia decidido adotar sua filosofia, também. O Byakugan havia lhe ajudado a perceber que, por mais devastadora ou inexplicável que fosse, o fluxo de qualquer existência era tão simples quanto a direção que percorria uma kunai: Sempre em linha reta. Sempre tão simples. Algo que inicia num ato brusco, que se mantém por um determinado tempo e que acaba.


E que sempre acaba.


Eis o mistério da vida.


Era simples ver o mundo daquela forma. Seres tão passíveis de vida quanto de morte. Mas nada, nada poderia ser tão mais simples do que a mão que inicia o ato brusco para arremessar a kunai.


Mão que ele conhecia muito bem.


Dentre tantas outras coisas, se perguntava como, por tudo o que fosse mais sagrado, a simplicidade parecia saciar-se em habitar o corpo dela. Como o próprio delinear dos membros, dos cabelos, das maçãs do rosto e até do dedo dos pés lhe fazia sentir-se simples como nunca se sentira antes. Neji era um cara simples e gostava dela porque a simplicidade lhe adornava de formas que ele talvez jamais fosse capaz de descrever.


Tenten era, definitivamente, uma garota simples.


A forma de seus cabelos era simples. Até a combinação de suas melenas com a cor dos seus olhos – era tudo tão simples que, de alguma forma, chegava a aborrecê-lo. Os ombros pequenos, a estatura afinada e com curvas mais singelas do que a das outras mulheres que conhecera. O nariz, um pouco achatado e pequeno, tão simples. As pernas, mesmo torneadas pelos treinos, também eram mais finas. Tenten, diferente de tudo e todos, era uma mulher simples.


E isso simplesmente lhe deixava louco.


Gostava do jeito bobo que ela sorria quando lhe fazia um elogio, ou do jeito que ficava sem graça quando seus olhares se cruzavam. Dos suspiros que ela dava do nada, da facilidade que ela tinha em deixá-lo confuso. Até em suas confusões, Tenten era simples. Gostava de reparar em seus cabelos, nas raras vezes que estavam soltos e em como eles caíam desarrumados por seu rosto. Também adorava quando ela torcia um pouco o nariz, quando comia algo que não gostasse ou quando ele começava com seus assuntos monótonos sobre as obrigações para o clã. A morena não gostava desses assuntos. Preferia coisas mais simples, como o que ele havia comido no café da manhã.


Tenten era, definitivamente, uma garota simples.


E por Neji ser um cara simples, ele simplesmente adorava isso.


Não havia complexidade em seus jutsus, também. Não menosprezava o poder da morena, mas deveria admitir que usar armas para atacar era uma forma simples de lutar. Enquanto outros se desgastavam em dominar técnicas que exigiam mais luzes e efeitos do que poder, Tenten destruía seus adversários com aquilo que ela dominava melhor: Armas. Era tão, tão simples! Ele, que demorou tanto tempo aperfeiçoando-se em suas técnicas, não conseguia imaginar-se simplificando seu poder daquela maneira. Tão destrutivamente e inexplicavelmente simples. Pelos céus.


Até mesmo a fachada de sua casa era simples, ele agora reparava. No meio de algumas casas com paredes em tons berrantes, escondia-se uma parede branca, de poucas janelas, espremidas entre a complexidade e a irreverência mundana. A única janela de luzes acesas denunciava a presença da simplicidade em pessoas, talvez preparando-se para algo, talvez simplesmente passando o tempo. Não haviam flores ou adornos, apenas uma parede branca e uma varandinha um tanto quanto gasta. Neji sorriu. Era tão simples encontrá-la!


Não era difícil escalá-la, ela percebeu. Aliás, com um simples salto ele conseguiu alcançar a varandinha, tão gasta que ele temeu cair quando depositou seu peso sobre ela. A janela estava aberta, portanto, entrou sem ser convidado. O quarto de Tenten era tão simples que o deixava entediado. A parede novamente branca, uma cama, uma mesa de cabeceira e alguns tipos diferentes de kunais pendurados na parede – talvez os únicos enfeites que a morena se permitisse ter. Pensou que aquele poderia ser um gesto maternal para com seu arsenal ou uma ameaça a qualquer um que ousasse invadir seu quarto às escuras – pigarreou, sentindo-se culpado -, mas lembrou-se que Tenten era simples demais para implicitar quaisquer entrelinha que fosse. Se elas estavam ali era por um motivo simples, concluiu. E passou a analisar o quarto.


Sobre a mesa de cabeceira, uma shuriken meio gasta, provavelmente cega e com aparência cansada. A seu lado, dois porta-retratos: Um com sua família e o outro com o time que ele conhecia tão bem, ilustrando a foto com um sorriso infantil. Ah, Neji adorava aquele sorriso. Podia observá-lo por horas e horas e ainda não conseguiria saciar-se com ele o bastante...


... E então, uma kunai sussurrou a alguns milímetros e fincou-se na parede.


Sempre em linha reta.


Sempre tão simples.


“Pensei que não fosse aparecer.” Sorriu ao ouvir a voz dela. “Francamente, Neji, você parece um menininho quando entra sorrateiro no quarto dos outros.”


Era tão simples perceber quando ela estava emburrada.


Vestia um pijama rosa com porquinhos voadores, tinha os cabelos soltos e bagunçado e trajava duas pantufas que imitavam as patas de um gatinho. Havia acabado de tomar banho, ele percebeu.


Afinal, era fácil decifrá-la.


Mesmo em suas confusões.


Neji era um cara simples. Já fora complicado, complicado... Mas por ver a vida em sua forma mais simples, havia decidido adotar sua filosofia, também. Ali, diante de Tenten, ele percebia que a vida era simples como a kunai que é desferida ao vento – segue sempre reta, numa única direção, e se acaba. Sempre se acaba. Contudo, ele percebeu, não se importaria que acabasse ali. Não ligaria se seu dia fosse improdutivo ou estressante, duradouro ou procastinado, caso aquele sorriso estivesse em seus finais. Um sorriso de cabelos bagunçados e pijama de porquinhos, chamando-lhe de menino e lhe fazendo tão homem. Ser acertado pela kunai que não desvia era o mais simples dos problemas.


Tenten era, definitivamente, uma garota simples.


E Neji simplesmente amava isso.

Notas finais
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