Simili

1 Parte I


Notas iniciais
Hello pessoal!

No início pensei que seria algo rápido, mas me vi tão envolvida nessa história que passei esse "feriadão" escrevendo e o que era para ser uma one teve que ser dividido, pq eu gastei 3 dias e mais de 16 mil palavras para chegar ao momento em que eles dizem "sim" um para o outro. (fiquei chocada com isso, só espero que vcs consigam ler isso tudo e ñ seja massante).
Meu planos incluem mais um capítulo para essa história, entretanto, não tenha nada escrito ainda e terei alguns compromissos nos próximos dias, por isso, por ora, encarem como uma one ;)
Sem mais delongas, espero que gostem *-*

Pedro estava feliz quando ele e sua amada arqueóloga finalmente pisaram no chão de Nápoles, aquela noite ele nem se deu ao trabalho de pensar em voltar para seu apartamento, acompanhando assim a namorada até o apartamento que outrora ela dividiu com a melhor amiga fofoqueira e por lá ficando.

A noite de paixão deu lugar a uma preguiçosa que Pedro pensou que se estenderia por algumas boas horas, entretanto, Teresa quebrou o clima ao dizer:

Io tenho que ir trabalhar amore mio.

Por mais que amasse ouvi-la misturando os dois idiomas de forma tão natural, Pedro não se sentiu exatamente feliz com o que ouviu, muito menos ao ouvir a morena acrescentar:

—Tenho que encontrar Dumas as dez.

A expressão de Pedro mudou completamente na menção do homem que vez ou outra tentava algumas investidas mal sucedidas na arqueóloga.

Non fique com ciúmes Pedro. –A napolitana repetiu a frase tão costumeira, mas que agora tinha ainda mais significado.

Va bene. –Pedro se força a dizer da maneira menos ciumenta possível.

Va bene? –Teresa indagou com um meio sorriso, vez que adorava quando o homem de olhos tão azuis quanto o céu falava em italiano.

Va bene! –O único filho homem de dona Leopoldina respondeu não evitando de sorrir ao olhar para a amada.

E foi assim com um longo beijo de despedida que Pedro ficou ainda na cama observando a mulher de cabelos negros despenteados levantar-se e preparar se para o dia.

Depois de um café rápido, Pedro de Alcântara estava prestes a ir para casa, entretanto, ele não sabe o porquê mas se viu alterando a rota de destino.

Ao chegar em frente da bela e refinada mansão que Teresa referia-se como “a casa de meus pais” foi impossível que Pedro não sentisse o coração bater mais forte. A residência era o retrato da riqueza, elegância e imponência da família Bourbon, na primeira vez que parou em frente ao local o filho do governador do Rio de Janeiro lembra-se de engolir em seco temendo o que encontraria lá dentro, mas não encontrou nada mais do que uma religiosa fervorosa, mas sem papas na língua, um empresário centrado, mas que não escondia seu apreço pela arte, paixão esta herdada por seus três filhos: Ferdinando, o herdeiro da empresa, que estampava sempre uma expressão séria, mas um colecionador avido de artes; Teresa, a doce nem tão doce filha do meio, fascinada pelo passado e por antiguidades; Luigi, o artista por vezes incompreendido, mas apaixonado pela vida e corajoso o suficiente para viver apenas o hoje.

Inalando profundamente, Pedro olha para cima e reza para que se haja uma força superior esta lhe abençoe na empreitada.

Com a coragem recém adquirida, o fotografo toca a campainha, sendo rapidamente recebido por um dos empregados mais antigos da família Bourbon, que já o conhecendo há tempo suficiente permite sua entrada.

—Eu gostaria de falar com o senhor e a senhora Bourbon. –Pedro disse com a formalidade costumeira, afinal de contas o fato dos pais de Teresa serem boas pessoas, não anulava o fato de que ainda assim eram presenças intimidadoras, seja Francesco por seus olhos tão escuros quanto os da filha, mas na maioria das vezes inexpressivos, ou por Maria Isabel e aquele olhar esmera sempre atento.

O irmão de Januária não percebeu que estava tremendo ligeiramente até que a mãe de Teresa lhe questionasse ligeiramente preocupada:

—Aconteceu algo com Teresa?

Pedro franziu o cenho ligeiramente, temendo que estivesse parecendo um covarde ele fez o possível para parecer firme enquanto respondia:

—Teresa está bem dona Maria Isabel, desculpe incomodá-los a essa hora da manhã, mas tenho um assunto muito importante a tratar com vocês.

A mulher de cabelos castanhos encaracolados ergue a sobrancelha direita, ao passo que o marido limita-se a indagar:

—E o que seria Pedro?

—Teresa e eu estamos em um relacionamento. –O fotografo diz corajosamente e aguarda a reação dos sogros.

—De verdade dessa vez? –A mulher de olhos esmeraldas não consegue se conter, já que sempre achou engraçado a forma que a filha e o homem a sua frente pareciam dançar em torno um do outro.

—Sim senhora. –Pedro afirmou com convicção.

—Agradecemos sua sinceridade para conosco Pedro. –Maria Isabel disse e tratou logo de acrescentar antes que o marido pudesse dizer algo, já que não era exatamente um segredo o quanto Francesco era ciumento com sua única filha –E se veio buscar nossa aprovação, você já a tem há muito tempo.

O senhor Bourbon não parece concordar exatamente com as últimas palavras da esposa, afinal de contas para ele Teresa ainda é aquela falante garotinha de cabelos negros encaracolados na altura da cintura que ficaria horas e horas em sua companhia no museu apenas encarando silenciosamente uma peça de arte.

Percebendo então a expressão do marido, Maria Isabel trata logo de cutuca-lo sutilmente enquanto diz:

—Não é mesmo querido?

—Claro. –Francesco disse um pouco a contragosto, não hesitando em acrescentar com um olhar quase que ameaçador –Desde que minha princesa esteja feliz, eu estou feliz.

Pedro podia ser lerdo o bastante para demorar a perceber seus sentimentos, mas captou alto e claro o significado por trás das palavras do seu sogro, não era uma ameaça infundada, era apenas a mais pura promessa que se ele ousasse machucar Teresa Cristina haveria sérias consequências.

—Ela está feliz senhor, eu prometo fazê-la feliz o resto de nossas vidas. –O fotografo disse o mais rápido que podia.

—Oh por favor, não sejam tão piegas. –Maria Isabel disse rolando os olhos com a dramatização dos homens ali presentes, razão pela qual ela se vê na obrigação de ser racional –Todo relacionamento tem bons e maus momentos, o de vocês não será diferente. Só espero que você se empenhe tanto nos momentos felizes quanto nos infelizes.

Pedro não pensa duas vezes antes de prometer aos sogros.

Minutos depois, enquanto caminha para fora da residência dos pais de sua amada, Pedro respira mais tranquilamente e já se sente até mais confiante quando tiver que pedir a mão de Teresa aos pais. Afinal de contas, não foi sem motivos que dona Leopoldina lhe entregou sorrateiramente aquela herança de família consistente em um delicado anel de ouro branco, cravejado em diamantes, com uma grande e bela safira no centro.

Não é segredo que Teresa Cristina de Bourbon ama azul.

Pedro sorri com o pensamento de Teresa trajando um vestido branco e um buque azul.

Sono scappata via

quando mi sono vista dentro a un labirinto

senza decidere

Teresa mal notou que entoava junto a voz de Laura Pausini que ecoava pelas caixinhas de som do barzinho os versos de Simili, mas isso não significa que Celestina não havia percebido.

—Se eu não te conhecesse tão bem Teresa diria que está apaixonada. –A repórter comentou, não que ela não soubesse, até mesmo primeiro, que a arqueóloga nutre sentimentos bem mais fortes que apenas uma amizade em relação a um certo fotógrafo de renome mundial.

Instantaneamente a senhorita Bourbon arregalou os olhos, afinal de contas havia chegado do Rio de Janeiro há exatamente uma semana e logo no primeiro encontro com a amiga, ela até pretendia contar o novo desdobramento de seu relacionamento com Pedro, entretanto, naquela noite Celestina precisava mais de um ombro amigo para lamentar por mais uma vez ter caído na lábia do maldito Nino Sorrento, motivo pelo qual Teresa se conteve e desde então não teve a oportunidade de compartilhar as boas novas com a melhor amiga.

_Ai. Meu. Deus! –Celestina fala pausadamente e finalmente percebe o que teria percebido há uma semana se não estivesse mais uma vez machucada por sua relação de cão e gata com Nino, já que para o desgosto da brasileira sua mãe tinha razão ao dizer que o relacionamento com um colega de profissão nunca daria certo.

—Tina... –Teresa tenta ao menos argumentar o motivo pelo qual não compartilhou as boas novas com a amiga.

—O faz de conta não é mais faz de conta? Por favor, me diga que Pedro finalmente criou coragem... pensando bem provavelmente você deve ter tomado uma atitude. –Celestina indagou não escondendo sua curiosidade, afinal de contas não era à toa ser a morena uma das melhores jornalistas investigativas.

Non foi exatamente assim Tina. –Teresa começa sentindo-se levemente envergonhada ao relembrar o beijo ardente na varanda da casa de Petrópolis, o qual logo após se separarem eles tiveram suas atenções atraídas pelo som distinto de algo se quebrando, fazendo com que assim eles se virassem praticamente ao mesmo tempo para encarar a porta de vidro da cozinha que ligava ao jardim, onde Januária estava sorrindo como uma criança na manhã de Natal, Francisca com a expressão culpada e dona Leopoldina brava com a segunda filha por ter deixado a taça de cristal muito antiga cair no chão e ainda ser a causadora da distração que fez o casal notar que estava sendo observado.

—Então como foi? –Celestina questionou dirigindo à melhor amiga um olhar inquisitivo, que fez Teresa pensar que a mulher provavelmente seria uma ótima policial, demorando a obter a resposta que queria, Celestina prosseguiu –Não me digam que tudo aconteceu naquele deserto e você teve a audácia de não me contar quando me ligou...

Oh non, enquanto estávamos lá eu já tinha praticamente perdido as esperanças. –Teresa confidenciou à amiga algo que não tinha contado nem mesmo a Pedro.

—Então diga-me mulher ou meu coração não vai aguentar de tanta curiosidade. –Celestina praticamente implorou.

—Os anos passam e você continua uma fofoqueira Tina. –Teresa alfinetou a amiga enquanto sorria levemente lembrando-se da adolescência e de como Celestina sempre sabia de tudo sobre todo mundo, motivo pelo qual ela não se surpreendeu quando Celestina decidiu trocar o curso de literatura por jornalismo.

—Eu não sou fofoqueira, fofoqueiro é quem saiu contando fofoca, eu só quero saber a fofoca. –Celestina defendeu-se com um olhar ligeiramente irritado.

Va bene. –Teresa diz rindo da expressão da amiga, optando por não comentar sobre o fato de Celestina estar na “profissão dos fofoqueiros” a qual Pedro sempre usa para provocar sua melhor amiga.

E assim, Teresa narrou toda a história desde o momento em que dona Leopoldina ligou para Pedro quando ainda estavam no deserto africano cobrando a promessa de conhecer sua namorada, a qual para a alegria da italiana já havia findado o relacionamento e ela nem mesmo se importava em saber o motivo, a arqueóloga contou à amiga que se ofereceu para ir com Pedro apenas como a boa amiga que ela é e quando chegaram havia um primo até engraçado do fotografo, que ela não conhecia, mas compartilhou histórias engraçadas da infância do filho mimado de dona Leopoldina, com um sorriso apaixonado a filha de Francesco Bourbon compartilhou com a amiga a descrição do momento em que se perdeu nos olhos e na memória de Pedro de Alcântara enquanto cantava Víveme e o fotografo tocava violão como se tivesse feito aquilo a vida toda. Finalmente, com os olhos brilhando de felicidade e amor, a arqueóloga falou sobre o ápice da noite, a declaração de Pedro, o beijo tão esperado, o momento interrompido pelas mulheres Alcântara, a confissão de Januária sobre seu “plano”, as reações da família, mas optou por deixar de lado o fato que ela e o fotografo não conseguiram se conter e amaram-se naquela noite pela primeira vez.

Quando finalmente terminou de narrar o episódio em Petrópolis, Teresa percebeu que Celestina estampava a mais feliz das expressões, não deixando de se sentir grata por ter uma amiga tão boa quanto a brasileira que se mudou para Nápoles aos dez anos, afinal de contas é tão raro achar uma amizade em que se pode crescer junto, que um estará ao lado do outro em todos os momentos da vida, eventualmente não dando atenção aos próprios sentimentos enquanto apoia o outro.

—Então você está me dizendo que Pedro “Não pode deixar Nápoles”? –Celestina não resistiu em provocar, afinal de contas implicar com o fotógrafo medroso era seu passatempo favorito.

—Sim... –Teresa disse com um sorriso enquanto sentia as bochechas arderem, afinal de contas ela sabia muito bem que o amado não se referia a sua cidade natal e sim ao fato de não deixa-la, já que quando ele mudou, poucas semanas após ela ter voltado para casa, ele ainda reclamava e falava de Roma a cada oportunidade, sem falar que na primeira oportunidade em que ela diria que estava indo viajar, o filho do governador do Rio de Janeiro não hesitaria em encontrar uma razão para segui-la.

Teresa sabe que nunca foi sobre Nápoles, sempre foi sobre ela e isso era motivo o suficiente para ela perdoar a lentidão de Pedro em finalmente dizer em voz alta o que ambos ansiavam há muito tempo.

—Isso quer dizer que se um dia você quiser se mudar ele vai permanecer aqui? –Celestina indagou seriamente.

—Tina! –Teresa repreende a amiga e ambas caem na gargalhada não deixando de atrair a atenção daqueles sentados nas proximidades.

O momento não demora a ser interrompido pelo toque de celular da arqueóloga.

—Não me diga que agora terei que dividir nossos momentos com aquele paspalho. –Celestina disse franzindo o nariz ligeiramente em desagrado não tardando em acrescentar –Só se lembre de quem chegou primeiro dona Teresa Cristina.

Teresa rolou os olhos enquanto pegava o celular na bolsa e ao ver o nome “Mamma” acompanhado da foto de Maria Isabel, sendo assim ela fez questão de mostrar a tela do aparelho para a amiga.

—Diga a dona Maria Isabel que mandei um beijo. –Celestina pediu, afinal a gentil senhora Bourbon a acolheu como uma filha desde os primórdios de sua amizade com Teresa a ajudando com o italiano enquanto sua mãe estava muito ocupada trabalhando.

Teresa assentiu enquanto dizia o primeiro:

Ciao mamma.

E assim uma breve conversa se seguiu, onde a mãe praticamente convocou a filha para um almoço no restaurante favorito da matriarca no dia seguinte.

Ospite in casa mia

con sillabe d'amore tutte al pavimento

come la polvere

A arqueóloga ainda entoava as linhas de Similares quando estacionou seu automóvel nas proximidades do restaurante favorito de sua mãe.

Logo que adentrou o estabelecimento, Teresa nem esperou que fosse direcionada até a mesa que com certeza a mãe havia reservado, já que instantaneamente localizou os cachos castanhos na altura dos ombros de Maria Isabel, sendo assim rapidamente ela caminhou em direção a mãe que levantou-se para receber a filha do meio com um abraço acolhedor.

—Estava com saudades minha querida. –Maria Isabel disse com seu sotaque distinto, que só quando estava no início da adolescência que o sotaque da mãe era resultado de ter se mudado da Espanha para a Itália quando era apenas uma menina de treze anos.

—Não seja exagerada mamãe, nos vimos logo no dia seguinte que cheguei do Brasil. –Teresa disse rolando os olhos diante do exagero de sua mamma.

—Oh sim, a viagem na qual você disse que ocorreu perfeitamente normal, não é mesmo Teresa Cristina Bourbon? –A mulher de sangue espanhol indagou a filha enquanto a analisava minunciosamente com seus olhos esmeralda.

Teresa fez o seu melhor para não esboçar reação ao ouvir a mãe dizer seu nome completo, pois sabia que iria apenas confirmar as suspeitas da mãe.

A arqueóloga sabia que a mãe sabia que algo havia acontecido, só não sabia como ela poderia ter descoberto.

Só um nome lhe veio em mente.

—O que Luigi te disse? –A mulher de longos cabelos negros encaracolados questionou a mãe.

—Luigi sabe? –A matriarca da família Bourbon respondeu com outra pergunta.

Diante da indagação da mãe, a namorada de Pedro de Alcântara franziu o cenho confusa.

—No fim das contas o que a senhora sabe mamãe? –Teresa pergunta à mãe em um misto de confusão e ligeira irritação.

—Você realmente vai me fazer dizer que sei do seu namoro com Pedro como uma adolescente Teresa Cristina? –Maria Isabel disse evidenciando de quem a filha havia herdado a falta de paciência.

Teresa suspirou, sabendo que a mãe lembraria disso pelos próximos dez anos.

—Eu ia contar. –A arqueóloga diz humildemente fazendo o seu melhor para parecer arrependida.

—Quando? No casamento? Quando meus netos nascessem? –A esposa de Francesco indagou a filha que engasgou na menção dos supostos netos.

—Mamãe... –Teresa começou enquanto deixava a taça de água em cima da mesa.

—Pelo menos embora seja tão devagar quanto uma tartaruga, Pedro ao menos é decente o suficiente para nos procurar pedir para namorar-lhe não que eu ache que nossa opinião importasse muito. –A mais velha disse surpreendendo a mais nova.

—Pedro fez o que? –Teresa perguntou surpresa.

Maria Isabel por sua vez sorriu levemente ao lembrar-se daquela manhã em que ela e o marido foram interrompidos enquanto tomavam café da manhã por um fotógrafo que parecia estar suando frio e tremendo mais do que uma vara de bamboo, por alguns segundos a mulher de olhos verdes ficou preocupada que algo pudesse ter acontecido com sua única filha, mas bastou uma analisada mais minuciosa no semblante do carioca para saber que eles tratariam sobre outros assuntos, um assunto que ela esperava desde a primeira vez que ouviu a filha falar tão sorridente do amigo que havia feito na universidade.

—Na manhã após o dia que vocês chegaram do Brasil, seu pai e eu estávamos tomando o café da manhã quando... –Maria Isabel começou a narrar os acontecimentos daquela manhã .

—Não acredito que Pedro fez isso... é tão... antiquado. –Teresa disse assim que terminou de ouvir a narrativa da mãe.

—Os homens fazem coisas estranhas quando estão apaixonados minha querida. –A esposa de Francesco diz à filha.

Teresa sorriu afinal não poderia concordar mais com as palavras da mãe.

—Agora, finalmente me conte como esse namoro começou. –A mãe praticamente suplica para a filha.

—Bem... tudo começou quando ainda estávamos na África... –Teresa se viu repetindo a mesma história contada para Celestina no dia anterior.

Enquanto ouvia a filha contar o desfecho da história a matriarca levou a taça de seu vinho favorito a boca.

—Realmente foi uma declaração a cara de Pedro. –Maria Isabel comentou.

—Mamãe... –Teresa advertiu a mãe levemente.

—Só espero que meus netos não sejam tão lerdos quanto o pai. –A morena de olhos esmeraldas comentou.

—Mamãe! –A arqueóloga repreendeu a mãe rapidamente.

—O que foi querida? Eu não estou ficando mais jovem, Ferdinando tem relacionamentos tão breves que nem se dá ao trabalho de apresentar as moças à família, Luigi e Januária são como duas crianças, Deus sabe que não há como aqueles dois cuidarem de outra criança, só me sobra você meu bem. –A católica fervorosa explica à filha.

—Nós estamos namorando há uma semana e a senhora já está falando de netos dona Maria Isabel? –A jovem de mulher de olhos tão escuros quanto seus próprios cabelos diz ainda incrédula.

—Se serve de consolo, vocês dois estão dançando em torno um do outro há uma década. –A mãe justifica.

A jovem napolitana suspira.

—Agora que você gentilmente compartilhou os desenvolvimentos recentes, já decidiram onde vão passar o Natal? –A senhora Bourbon questiona a filha antes de finalmente chamar um garçom.

Tendo mãe e filha realizado seus pedidos, Teresa finalmente falou dando de ombros:

—Não fizemos planos, provavelmente jantaremos com vocês igual a todos os anos, um amigo de Pedro nos convidou para uma pequena viagem a Bari no dia seguinte.

—Ficarei feliz em ter meus filhos na véspera de Natal em casa, embora sentirei saudades da minha filha postiça. –Maria Isabel disse referindo-se a melhor amiga da filha, quem ela havia se afeiçoado há tanto tempo.

—Tina não vai de novo? –Teresa perguntou antes que pudesse pensar no que estava dizendo.

Cuidadosamente a mais velha assentiu.

—Ela disse que estava planejando visitar a mãe, por mais estranho que possa ser. –Maria Isabel disse o que Celestina havia lhe dito há poucos dias quando declinou seu convite.

—Isso será bom para elas. –Teresa se vê dizendo, embora não consiga acreditar na desculpa da amiga de longa data.

O restante da conversa seguiu-se sobre amenidades, Maria Isabel compartilhou com a filha algumas notícias sobre as senhoras da igreja e um novo escândalo na alta sociedade napolitana que ocorreu enquanto a jovem estava no exterior.

Já a tarde, Teresa estava saindo do museu quando lembrou-se de ligar para Celestina e questionar-lhe o motivo pelo qual mentiu para sua mãe.

—Oi Tetê. –Celestina diz ao atender após o terceiro toque.

—Esse apelido é horrendo Tina. –Teresa resmungou.

—Ninguém mandou seus pais escolherem um nome que não dá para colocar um apelido legal. –Celestina argumentou.

—Falou a mulher que se chama Celestina. –Teresa disse rolando os olhos.

—Isso foi baixo até mesmo para você dona Teresa Cristina. –A jornalista falou.

—Oh Tina, não seja uma criança chorona. Agora diga-me o que está fazendo? –A arqueóloga questionou a melhor amiga.

—Acabei de chegar em casa, tive um dia péssimo no jornal. –Celestina diz enquanto coloca os pés em cima da mesinha de centro da sala.

—Eu chego em vinte minutos. –Teresa diz.

—Você vai trocar o paspalho por mim? Me sinto lisonjeada amiga. –A brasileira diz enquanto analisa o teto de sua sala de estar.

—Até daqui a pouco Celestina. –A filha de Maria Isabel diz antes de desligar.

Não demora muito para que Teresa esteja a caminho do prédio que tanto ela quanto a amiga moravam, pois quando Celestina lhe comunicou que iria mudar para lhe dar mais privacidade ela não imaginou que ela estaria apenas alugando o apartamento do andar de cima, mas no fim era Celestina e isso não surpreendeu a italiana, que pensa que talvez tudo o que a jornalista queria fosse tentar levar Nino para casa e não ter que lidar com os olhares da amiga no dia seguinte.

Parando primeiro em seu apartamento, Teresa deixa suas pastas, veste algo mais confortável e pega uma garrafa de vinho que havia comprado antes de embarcar para a África e sai de casa a fim de encontrar a amiga de infância.

A arqueóloga adentra o apartamento sem dificuldades, já que Celestina havia deixado a porta destrancada, assim logo que chegou tratou de pegar duas taças no armário e servir uma dose generosa de vinho, antes de abrir a geladeira e procurar algo para acompanhar, não tendo tantas opções já que a jornalista tinha o hábito de fazer suas refeições no apartamento do andar inferior, motivo pelo qual ela se viu pegando o queijo que ali estava e o picando em cubos.

—Você nem imagina a conversa que tive com minha mãe hoje. –Teresa disse enquanto colocava os objetos em cima da mesinha de centro que até poucos segundos atrás a amiga deixava os pés descansando.

—Ela não quer leiloar outro jantar com você para a caridade de novo, quer? –A conceituada jornalista indagou.

Oh non, eu disse a ela com todas as letras que não faria aquilo novamente. –Teresa disse fazendo uma careta ao lembrar-se do fatídico evento em que se viu tendo que cumprir com o prometido e no final acabou por ter que jantar com Solano Lopez.

—Acredita que na manhã após chegarmos do Brasil, Pedro foi até a casa dos meus pais pedir para namorar-me? –Teresa compartilhou algo que tinha a certeza que faria a amiga rir.

—Oh Deus, isso é tão século XIX. –Celestina riu.

E assim a italiana contou a história para a melhor amiga.

—Agora é sua vez de me dizer porque parecia tão chateada no telefone. –A única filha de Francesco Bourbon afirmou.

—Nada fora do comum, meu chefe sendo meu chefe, Nino sendo Nino, mal vejo a hora das minhas férias de fim de ano. –A brasileira divagou.

—Oh sim, soube que você irá aproveitar e visitar a sua mãe no Natal. –Teresa diz aproveitando a oportunidade.

Após alguns segundos em silêncio, Celestina enfim diz:

—Então vocês duas falaram sobre isso.

—Mamãe me contou, eu não tive coragem de dizer a ela que você estava mentindo, mas gostaria de saber o por quê você vai faltar o nosso Natal pelo terceiro ano seguido.

—É um momento de família Tetê e não vejo motivos para ir, agora você tem Pedro, Luigi tem até uma esposa, é melhor eu me afastar, afinal de contas eu invado seus natais desde que tinha dezesseis anos. –A jornalista diz e sem coragem de encarar a amiga pega um cubinho de queijo.

—Tina! Você é praticamente da família, minha mãe praticamente adotou você, Luigi te adora e Ferdinando implica tanto com você quanto comigo, mas isso é coisa de irmão mais velho. –Teresa justifica.

E diante do olhar da amiga, a italiana questiona:

—Você não está faltando por causa de Ferdinando está? Tudo bem que ele é meio mesquinho as vezes, mas...

Celestina corta a amiga antes que ela possa continuar.

—Deus, não é por causa de seu irmão. –A jornalista diz rindo quase que nervosamente e então prossegue –Ana e Luís também me convidaram para o Natal na praia, pensei que seria bom passar alguns dias em Bari e não queria magoar sua mãe, por isso disse a ela algo que eu sabia que ela não ia se entristecer.

Teresa assentiu, por ora ela acreditaria na amiga.

—Então você está planejando viajar e conhecer alguns ragazzi ou você está levando aquele encosto do Nino? –A arqueóloga indaga quase que em tom conspiratório.

—É uma viagem de garotas, Vitória está na área e ela também insiste em marcar uma notte delle ragazze. –Celestina disse rindo.

—Oh que saudades eu estava da prima de meu namorado. –Teresa disse saudosa, afinal de contas ter se encontrado com o meio irmão de Vitória há alguns dias fez lhe lembrar da prima de Pedro que também estudou na Universidade de Roma e fez amizade com ela e Celestina enquanto estavam no segundo ano.

—Desde que não seja uma noite igual a nossa viagem a Monte Carlo eu topo. –Teresa disse rindo, sendo acompanhada pelas gargalhadas da amiga.

—Deus... quem diria que uma noite naquele lugar iria dar em uma confusão daquelas? Eu dormi em um cassino, você brigou com o garçom que não queria mais vender bebidas, Vitória estava contando cartas... –Celestina rememorou aquela noite.

—Eu nunca pensei que teria de usar o nome da minha família para nos tirar de uma enrascada. –A senhorita Bourbon se viu dizendo ao lembrar-se que o gerente do local só não chamou a polícia porque Teresa havia convenientemente dito que os pais adoravam passar algumas semanas do mês de junho no local.

—Acho que não tenho coragem de pisar lá nunca mais. –A jornalista disse.

Ambas as amigas riram mais uma vez.

Teresa estava satisfeita ao ver feliz a amiga que embora pareça durona, sabe que tem problemas o bastante de confiança em razão da forma como o relacionamento entre o senhor e a senhora Urú findaram o casamento.

—Sabe o que vai bem com queijo e vinho? –A arqueóloga questionou a amiga enquanto pegava seu celular.

—Sexo? –Celestina responde.

—Celestina! –Teresa a repreende imediatamente.

—Que foi? Errada eu não estou. –A brasileira argumenta, ao passo que Teresa mexe em seu celular até abrir o aplicativo de música.

—Música mia cara. –A irmã mais velha de Luigi responde.

Celestina dá de ombros enquanto ouve a voz inconfundível de Laura Pausini ecoar por seu apartamento.

Ma arrivi tu che parli piano

e chiedi scusa se ci assomigliamo

arrivi tu da che pianeta?

Occhi sereni anima complicata

anima complicata

Era apenas uma manhã preguiçosa de sábado, Pedro acariciava os cabelos negros de Teresa que estava deitada em cima de seu peito com cuidado o bastante para não acordá-la, enquanto pensava no quão fácil foi cair nessa rotina.

—Deus eu sou um idiota. –O único filho de dona Leopoldina murmurou para si mesmo, ao mais uma vez constatar que deveria ter tomado uma atitude mais cedo.

—O meu idiota. –A voz sonolenta de Teresa acrescentou.

—E apenas seu amore mio. –O fotografo afirmou antes de puxá-la para um beijo terno.

Buon giorno Pedro! –Teresa sussurrou mais alerta.

Buon giono dona Teresa – Pedro disse bem-humorado, não tardando em questioná-la –Então o que temos para hoje?

—Hum... –A arqueóloga fingiu pensar antes de dizer brilhantemente –Io tenho que encontrar Tina e Vitória às seis, até lá podemos passar o dia juntos.

—Com Vitória, você está dizendo Vitória Alcântara minha priminha aventureira? –O fotografo questiona a namorada.

. –Teresa confirma.

—Tem certeza que é uma boa ideia? –Pedro indaga.

—Pedro... –A italiana começou a protestar ao mesmo tempo em que o estômago do fotógrafo sinalizou estar na hora de comer.

Teresa começa a rir da situação enquanto levanta-se.

—Vou preparar o café da manhã, andaimo. –A herdeira de Francesco Bourbon disse enquanto caminhava em direção a porta da cozinha.

Pedro se encarregou de fazer o suco, enquanto Teresa fazia panquecas, o cheiro já impregnava o apartamento quando a campainha tocou.

—Deve ser Tina. –A arqueóloga disse sem se dar ao trabalho de encarar o amado.

—Ao menos ela aprendeu a tocar a campainha. –Pedro suspirou enquanto se dirigia até a porta para abri-la, não que Celestina não tivesse a chave e não tinha pudor em usá-la, mas desde que interrompeu um momento íntimo do casal na sala de estar há alguns dias a moça de cabelos chocolate passou a usar a campainha.

—Bom dia Celestina! –Pedro diz em falsa empolgação assim que abre a porta.

—Bom dia Pedroca! –A jornalista diz no mesmo tom utilizando o apelido que Vitória havia compartilhado há muitos anos.

—Bom dia Tetê! O cheiro está ótimo. –Celestina diz enquanto se serve de um copo de suco de laranja.

Pedro que observa a cena faz o possível para evitar o sorriso, desde que conheceu Teresa naquela noite há tantos anos, ele soube que Teresa e Celestina eram um pacote e por sua amada ele estava disposto a tolerar a jornalista, por mais irritante que ela pudesse ser, às vezes ele não deixava de se surpreender com o fato da amiga de sua namorada lhe lembrar tanto de sua irmã caçula, ele pensa que talvez por isso elas tenham se tornado amigas tão facilmente.

O trio come o café da manhã juntos e quando terminam Celestina encarrega-se de lavar a louça, no fundo, bem no fundo Pedro admite que sua presença não é tão ruim, mas ele também não dirá isso em voz alta.

—Agora sinto lhes informar que terei de trabalhar, encontro você a noite Tetê. –A senhorita Urú diz despedindo-se dos amigos.

Ao ver a porta se fechar, Pedro não resiste e puxando Teresa pela cintura ele aproxima os corpos dos dois.

—Você realmente vai me deixar sozinho em casa no sábado a noite? –O fotografo questiona a namorada, que sorrir assim que ouve a expressão “em casa”, eles poderiam estar namorando há menos de um mês, Pedro ainda estava mantendo seu apartamento há quinze minutos de distância, mas passava praticamente todos os dias ali e sua presença no local era tão natural, que Teresa não podia negar que o local podia ser considerado de fato uma casa agora.

Non essere triste amore mio. –A italiana diz antes de ficar na ponta dos pés e lhe dar um selinho e acrescenta –Prometo que dessa vez você não precisará nos resgatar em uma delegacia.

—Sem brigas de bar? –O carioca indaga a amada.

—Pedro! –Teresa o censurou rapidamente, não tardando em acrescentar –Assim você me ofende, falando desse modo parece que somos um bando de delinquenti.

O filho de dona Leopoldina fez o possível para conter o sorriso enquanto ouvia a esposa falar em falso tom de ofensa.

Mesmo assim ele sabia que o melhor a se fazer era contornar a situação:

—Jamais mia cara, temo apenas a influência de Celestina e Vitória, você por outro lado eu sei que é una principessa.

—E você um bajulador, mas não vai ajudar você falar mal de minhas amigas, sendo que uma delas é sua prima. –Teresa disse seriamente.

—Justamente, conheço Vitória desde que usávamos fraldas e desde aquela época a peste dava trabalho para tia Anna. –Pedro justificou.

—E você continua sendo um bebêzão. –A herdeira dos Bourbon falou seriamente.

—Teresa! –Pedro falou ofendido.

—Sem drama lhama. –A arqueóloga disse.

—Deus, você está até parecendo Januária. Precisamos diminuir essa convivência. –O filho do governador do Rio de Janeiro resmungou.

Amore mio, isso é impossível, nós somos cunhadas duas vezes. –Teresa racionalizou.

—Por que eu deixei que meus pais mandassem aquela militante para a mesma universidade que eu? –Pedro indagou.

Non acho que você tivesse poder de decisão. –Teresa o alfinetou, lembrando-se muito bem que Januária havia sido mandada para a Itália em razão de seus constantes envolvimentos em protestos políticos, que na época estava afetando a imagem do Senhor Alcântara.

—Aquela pestinha sempre foi baderneira. –Pedro disse lembrando-se da infância.

Teresa sorriu levemente antes de dizer:

—Minha cunhada luta por seus ideais, ela não se cala perante as injustiças do mundo, um dia ela ainda será presidente amore mio.

—Uma aspirante ao presidente não roda a Europa com apenas uma mochila e torrando dinheiro. –Pedro argumentou.

Per Dio Pedro, pare de ser tão pão duro e deixe nossos irmãos caçulas curtirem o casamento e construir casas sabe Deus onde e pintar sabe-se Deus o que. –A italiana disse defendendo os caçulas de ambas as famílias.

—Eles são dois sonhadores, por isso não apoiei o relacionamento deles no início. –O fotografo se viu dizendo.

—Eles são fofos juntos e você só tem inveja porque eles foram mais rápidos que nós. –A arqueóloga disse roubando um beijo rápido do amado antes de desvencilhar de seus braços.

—Todo esse tempo que eu demorei foi para construir os alicerces de nosso relacionamento mia cara, uma base forte proporciona uma estrutura indestrutível. –Pedro se viu dizendo enquanto seguia a morena de volta para o quarto principal.

—Se você está dizendo... –Teresa diz em ironia antes de escolher uma roupa e adentrar o banheiro.

Horas depois, Pedro encontrava-se sentado na cama assistindo a namorada arrumar-se para sair com uma carranca que Teresa até mesmo achou fofa.

—Para que você precisa se arrumar tanto se apenas vai sair com suas amigas? –Pedro resmungou.

Non seja ciumento senhor Alcântara. –A arqueóloga diz enquanto termina de passar o batom vermelho cereja e finalmente se vira para encarar o namorado.

O filho de dona Leopoldina engole em seco ao ver a amada com os cabelos negros encaracolados soltos, usando um macacão longo preto, cujo decote em V parecia-lhe muito ousado.

Solo con te signorina Bourbon. –O fotografo disse no seu melhor tom sedutor sabendo muito bem o efeito que causava na morena quando falava em sua língua nativa.

Teresa que a essa altura já voltava de seu closet com as sandálias de salto alto em mãos não escondeu o sorriso malicioso.

Sendo assim, a italiana sentou-se ao lado do namorado para calçar as sandálias e quando terminou o fitou por longos segundos até lhe dizer em um tom baixo e sedutor:

Se ti comporti bene, ti prometto che ti ricompenserò.

Tal frase foi o bastante para que os olhos azuis de Pedro de Alcântara brilhassem com a perspectiva de sua recompensa.

Va bene? –A irmã de Luigi e Ferdinando perguntou após alguns segundos do mais profundo silencio no ambiente.

Va bene. –O sempre sério Pedro de Alcântara disse enquanto sorria como uma criança na manhã de Natal.

E assim Teresa levantou-se e saiu do quarto, mas não sem antes dar lhe um beijo na bochecha.

A primeira meia hora passou com Pedro ainda sentado estático no mesmo local em que Teresa havia o deixado, apenas o toque de seu celular foi capaz de lhe tirar do transe em que estava, verificando tratar-se de seu velho amigo Luís e não sua namorada Pedro não pode deixar de atender a ligação um pouco decepcionado, o que claro não passou despercebido pelo amigo, que ligou no intuito de questionar-lhe alguns detalhes da visita que planejavam a Bari e a sua casa de praia.

As horas passaram, Pedro se viu jantando sozinho e assistiu a um jogo da Champions League enquanto aguardava a namorada que chegou quase a meia noite esboçando um grande sorriso e cheirando álcool que nem um gambá.

—Você está bêbada. –Pedro disse seriamente enquanto via a mulher descalça com as sandálias em mãos e uma expressão feliz no rosto, apesar da ressaca fazer Teresa uma pessoa terrível de conviver, Pedro gostava da Teresa bêbada, esta sempre era uma italiana alegre.

Non sono bêbada. –A italiana disse embolando o italiano e o português.

—Claro que non. –Pedro diz divertido enquanto a ajuda a caminhar até o quarto, não tardando em acrescentar –Mas fede como um gambá, sinto muito, mas você vai precisar de um banho.

—Você não sente non. –Teresa diz rindo, provocando a mesma reação no homem de cabelos cor de areia e barba malfeita.

Meia hora depois, Pedro enfim cobria a namorada adormecida com o edredom azul.

—Amanhã você estará terrível. –Pedro diz antes de se retirar do quarto e procurar uma aspirina e um copo de água para deixar ao lado da mesinha de cabeceira.

Após dez minutos, Pedro enfim deitava-se ao lado da amada e após dar um beijo em sua testa ele está quase fechando os olhos quando sente a morena se aconchegar ao seu lado.

—Eu poderia me acostumar com isso. –Pedro sussurra sabendo que apenas as paredes o estão ouvindo.

Em resposta Teresa murmura algo incompreensível, Pedro nunca saberia e a bêbada Teresa nunca iria lembrar-se de ter dito “Ti voglio bene”.

Io cosi simile a te

a trasformare il suono della rabbia

io cosi simile a te

un bacio in fronte e dopo sulle labbra

la meraviglia di essere simili

la tenerezza di essere simili

la protezione tra essere simili

Os dias passam tão rápido e enfim o dia 24 de dezembro chega, Teresa sai de casa logo após o café da manhã aproveitando a carona que Celestina lhe oferece até o museu, enquanto Pedro fica ali apenas utilizando seu notebook de última geração para trabalhar em algumas fotografias.

No entanto, por ser véspera de Natal a italiana sai do trabalho mais cedo, mas não esquece de desejar a todos os funcionários do museu um feliz natal. Pedro por sua vez, ainda está entretido em seu notebook quando a namorada chega.

—Trabalhou o dia todo amore mio? –Teresa o questiona enquanto guarda o casaco, não demorando em se aproximar e lhe dar um breve beijo antes que ele possa respondê-la.

—Estou editando as fotos que tirei enquanto estávamos no deserto, acredito que posso inscrever alguma no Concurso de Fotografias da Vida Selvagem. –Pedro disse encarando os olhos tão escuros quanto a noite da amada.

Teresa assente, não tardando em acrescentar:

—Vamos expor alguns dos artefatos que encontramos no próximo mês, você já escolheu as fotos para expor? Dumas adora quando temos fotografias do local nas exposições.

Pedro não pode evitar de fazer uma careta na menção do homem, que em sua opinião sempre está arrastando assas para Teresa e assim indaga quase que sem pensar:

—Dumas gosta é?

—Você deveria estar lisonjeado, ele é o coordenador das expedições. –Teresa afirma enquanto se contém para não comentar o quanto o namorado fica fofo com ciúmes.

—E o que minha namorada acha? –O fotografo indaga.

Teresa dá de ombros decidida a manter a provocação.

—Enquanto o coordenador estiver feliz, ele não irá se opor a ter você nos seguindo. –A italiana diz simplesmente.

—Falando assim você me faz parecer um stalker. –O filho de dona Leopoldina resmunga.

Amore mio, non seja tão dramático. –A senhorita Bourbon afirma antes de selar seus lábios nos do amado.

E por mais que o carioca tenha tentado aprofundar aquele beijo, a italiana se desvencilhou dizendo:

—Preciso começar a me preparar para a ceia.

Pedro assentiu sorrindo e assim viu Teresa caminhar em direção ao quarto principal.

Poucas horas depois, Pedro está segurando os casacos de ambos, enquanto passa mais uma vez a mão nervosamente no bolso do blazer apenas para garantir pela milésima vez que aquela joia que trouxe do Rio ainda estava lá, ele havia dito a mãe que provavelmente demoraria a dá-la para Teresa, mas os últimos dias com a amada só mostraram a ele que já havia perdido muito tempo e cuidar de Teresa bêbada naquele sábado, só lhe fez pensar que ele estava pronto para cuidar da morena na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, Pedro estava pronto para pedi-la em casamento, só não sabia quando seria o momento ideal.

Quando enfim levanta seu olhar, Pedro de Alcântara é hipnotizado ao ver a arqueóloga aparecer em sua frente usando um lindo vestido azul royal ombro a ombro e o cabelo negro ondulado semi-preso.

—Como estou Pedro? – A filha de Maria Isabel perguntou ao amado após vê-lo encará-la em silêncio pelo que pareceu uma eternidade.

O sotaque acentuado de Teresa enquanto ela lhe perguntava em português foi o bastante para tirar Pedro de Alcântara de sua paralisia momentânea.

Assim, engolindo em seco ele respondeu:

—Linda, elegante, perfeita.

O sorriso que brotou nos lábios da italiana iluminou todo aquele ambiente.

Nunca foi segredo que Teresa amava azul, mas apenas naquele momento Pedro percebeu que também amava azul.

—E eu como estou? –O filho de Pedro e Leopoldina indagou.

Molto elegante. –Teresa disse com um sorriso de canto e esperou que ele a provocasse.

Andiamo? –Pedro perguntou lhe oferecendo o braço, agradecendo por já ter colocado os presentes no carro enquanto Teresa se arrumava.

Andiamo. –Teresa diz enquanto entrelaça seu braço ao do amado.

O percurso até a residência dos Bourbon é rápido, mas isso não impede que Pedro comente:

—Hoje está frio, acha que vai nevar?

Io dubito, desde que voltei para Nápoles não teve nenhuma Nevasca, nevar no Natal? Apenas um milagre. – A italiana respondeu, sabendo muito bem que nevar em Nápoles é quase tão raro quanto ver um comento.

Quando enfim chegam ao seu destino, ambos não deixam de se surpreenderem ao ver Januária abrir a porta sorridente.

—Pedrinho, Teresa, que saudades! –A loira de cabelos encaracolados diz contente enquanto abraça os dois ao mesmo tempo, não tardando em acrescentar – Buon natale fratelli!

—Feliz Natal sua chata. –Pedro diz à irmã.

Buon natale sorella! – Teresa diz quase ao mesmo tempo que Pedro.

—Vamos, entrem. Já estão todos reunidos. –A jovem de olhos tão azuis quanto os do irmão diz abrindo espaço para o casal adentrar.

Ao adentrarem na grande sala de estar, o casal encontra Luigi conversando animadamente com a mãe, enquanto Francesco e Ferdinando estão entretido em uma conversa.

Buon natale famiglia! –Teresa diz fazendo sua presença ser notada e assim iniciam-se os cumprimentos.

Tudo está indo bem, até que chega o momento de Pedro cumprimentar o irmão mais velho da namorada.

—Soube que vocês estão namorando. –Ferdinando disse enquanto apertava a mão de Pedro.

—Finalmente, diga-se de passagem. –Luigi que estava mais próximo dos dois disse.

—Se você machucá-la... –O primogênito dos Bourbon começa a dizer, entretanto, logo é interrompido pela irmã que estranha de longe a conversa do trio.

—Nando pare de assustar o Pedro. –Teresa diz enquanto enlaça o braço em torno do namorado sem saber ao certo qual era o assunto.

—Eu não estava assustando ninguém. –O mais velho diz em um resmungo e então encara Pedro com seus olhos verdes e indaga quase que como se estivesse o desafiando a contrariá-lo –Estava cunhado?

—De forma alguma. –Pedro diz forçando um sorriso.

—Você conhece nosso irmão Teresa, ele está sentindo falta de um certo alguém para implicar. –O caçula dos Bourbon acrescentou levianamente.

—Quem sente falta de quem? –Januária questionou ao se posicionar ao lado do marido, já que pegou apenas a parte final da conversa.

—Não é óbvio a razão do mal humor bella? –Luigi indaga a esposa sorrindo de canto, que sabendo muito bem a quem o marido se refere, a loira limita-se a sorrir de volta.

—Vamos ajudar sua mãe a colocar a mesa ? –Januária diz arrastando o marido para longe do pequeno grupo.

—Mas amore mio... –O jovem de olhos escuros começa a protestar enquanto é arrastado.

—Eu te conheço muito bem Luigi, ainda está muito cedo para colocar fogo no parquinho. –A filha de dona Leopoldina diz quando sabe que o trio já não pode mais ouvi-lo.

E assim a mesa é devidamente posta e a família Bourbon degusta as mais tradicionais comidas italianas e o melhor vinho do porto.

Os presentes também são trocados, como de praxe Luigi não leva as coisas a sério e acaba por presentear o irmão com algo que o primogênito de dona Maria Isabel se recusa a mostrar aos outros.

Há música ecoando na ampla sala de estar, enquanto dona Maria Isabel dedilha os dedos no piano com uma melodia lenta, Januária e Luigi dançam alegremente e percebendo o olhar do pai sobre a mãe, Ferdinando acaba por pedir a mãe para trocar de lugar e logo os patriarcas da família estão dançando também.

Teresa observa toda aquela cena com um brilho no olhar, ela ama a sensação de liberdade que suas expedições proporcionam, mas também ama os momentos de aconchego que sua família proporciona e se isso não fosse o bastante, ela já não se imagina sem a companhia do homem ao seu lado, que a observa como se fosse a mais bela das pinturas, e, ainda, lhe proporciona a sensação de segurança em qualquer lugar em que estejam, ela está em casa, ela está em família. No entanto, seu coração diz que seu lar, seu verdadeiro lar é o homem de olhos azuis bem ao seu lado.

E assim a napolitana vira o rosto lentamente para encará-lo.

Azul no preto.

Dia e noite.

Pedro e Teresa.

Uma mera troca de olhares para qualquer expectador, mas para esses dois é toda uma conversa silenciosa, é assim há muito tempo.

Se Teresa não tivesse tido uma educação tão católica, ela diria que os dois já se conhecem de outra vida.

Pedro não sabe o que dizer, afinal de contas ele não é um homem de palavras, por isso a única coisa que ele pode fazer naquele momento para demonstrar todo o afeto que sente por sua arqueóloga é se aproximar o suficiente para lhe dar um beijo na testa.

Teresa suspira, o gesto é mais íntimo do que um selar de lábios, é sinônimo de cuidado, de carinho, significa que ele se importa, já que ele o fazia bem antes de namorarem, ela não se lembra exatamente quando foi a primeira vez, mas se lembra muito bem de todas as vezes que precisava de apoio, de confiança, de fé, Pedro estava lá ao seu lado, pronto para incentivá-la e, se na hipótese dela cair, ele a ajudaria a se levantar.

Sorrindo levemente para o homem a sua frente, Teresa dá uma última olhada no restante da família, que parece imerso em seu próprio mundo e assim agarrando Pedro pela mão ela o leva para os jardins de sua mãe.

—Nós estamos parecendo dois adolescentes. –Pedro diz assim que os dois finalmente chegam ao destino almejado pela morena.

Ambos riem e Pedro gostaria de poder estar com uma câmera para filmá-la assim.

Quando finalmente param de rir, Teresa o fita atentamente, é inevitável para ambos lembrar da cena dos jardins em Petrópolis, talvez isso seja o que os impulsiona a darem um passo mais a frente, faz com que a italiana coloque as mãos sobre as bochechas do carioca e este enlace seus braços na cintura da morena, aproximando ainda mais seus corpos.

Ti voglio bene. –Teresa diz não mais alto que um sussurro e Pedro pode jurar que sente seu coração parar algumas batidas.

O fotógrafo quer beijá-la nesse exato instante, mas sabe que precisa responde-la, entretanto, as palavras também estão presas em sua garganta.

De repente, ele sente aquela caixinha no bolso interno de seu blazer pesar uma tonelada.

Ele não tinha planejado o que fazer direito, já estava até mesmo cogitando retornar com ela para casa e se humilhar pedindo ajuda a Celestina. No entanto, ele percebe que assim como em Petrópolis, eles é que fazem o momento perfeito.

Assim, de repente Pedro larga os braços da cintura da amada e dá um passo para trás, por breves segundos Teresa teme a rejeição, ela inala profundamente, temendo a reação do homem de olhos azuis.

No entanto, o desespero iminente da napolitana não dura muito, já que logo ela o vê se abaixar, franzindo o cenho Teresa não entende a ação até ver o loiro retirar uma caixinha do blazer.

—Pedro... –A voz da arqueóloga falha, ela não consegue prosseguir, na verdade ela não faz a mínima ideia do que dizer.

—Eu esperei uma década para me declarar Teresa e não me leve a mal, todo esse tempo que eu passei ao seu lado como amigo eu não trocaria por nenhuma outra aventura, tenho em ti minha querida a mais fiel companheira, a melhor das amigas e também o amor de minha vida. Sei que estamos namorando há pouco tempo, mas se dependesse de mim nos casaríamos agora mesmo. Por isso mia cara, me ponho aqui humildemente de joelhos e lhe imploro para aceitar esse homem que já não sabe viver sem você. –Pedro fala sem nenhuma preparação prévia enquanto encara aqueles olhos tão escuros e agora marejados, respirando profundamente ele faz a pergunta –Teresa Cristina Bourbon, você me daria a honra de ser minha esposa?

A morena engole o soluço, as lágrimas já não podem mais ser seguradas, lutando para dizer alguma coisa ela assente enquanto fala ainda com a voz embargada:

Pedro, mil vezes .

Rindo e também deixando escapar as lágrimas que nem sabia que estava segurando e delicadamente coloca o anel de safira cravejado em diamantes no dedo anelar da amada.

Mio Dio! Io non acredito que você me pediu em casamento tão rápido. –Teresa disse entre risos enquanto Pedro a enlaçava pela cintura e a girava.

—Já perdemos tempo demais amore mio. –Pedro diz eufórico, não tardando em acrescentar –Vamos nos casar amanhã se você concordar.

A gargalhada de Teresa é música para os ouvidos de Pedro, se isso não fosse o suficiente, Pedro e logo Teresa sentem algo gelado cair sobre eles.

Olhando para o céu instantaneamente ambos percebem que está nevado.

—É um milagre de Natal! –Teresa diz contente e Pedro não faz outra coisa a não ser assentir antes de completar:

—Não sou religioso, mas acho que é uma benção.

Teresa o olha amorosamente, antes de então lembrar da declaração anterior a constatação que estava nevando.

—Creio que os cartórios estarão fechados amanhã, mas poderemos nos casar no primeiro dia após o recesso das festas de fim de ano. –A italiana diz convicta e Pedro de repente a encara.

—Não brinque comigo dona Teresa Cristina. –O fotógrafo diz seriamente.

Io non estou brincando amore mio. –A morena diz seriamente.

—Teresa... –Pedro começa a dizer, sendo logo interrompido pela noiva.

—Já esperamos dez anos Pedro, acho que podemos nos casar em dez dias. –Teresa disse com toda a convicção do mundo e Pedro não resistiu, ele simplesmente avança sobre a amada e lhe beija com paixão.

O beijo é interrompido antes que o ar se faça necessário por alguém coçando a garganta.

Relutantemente o casal se separa e vê Ferdinando ali ligeiramente constrangido, Pedro sorri nervoso, já Teresa pergunta não muito feliz por ter sido interrompida:

—O que há Nando?

—Pensei que vocês dois pudessem ajudar o clima dos pombinhos lá dentro, mas já vi que estão piores do que eles. –O irmão mais velho de Teresa diz seriamente, mas a morena o conhece a tempo suficiente para saber que ele ficou constrangido.

—Tudo bem, meu noivo e eu vamos compartilhar as boas novas com eles. –Teresa diz simplesmente enlaçando seu braço ao de Pedro deixando em evidencia o anel de noivado.

—Noivo? –Ferdinando indaga.

. –Teresa diz animadamente enquanto Pedro engole em seco pensando se não deveria ter conversado com o pai e irmão de Teresa antes de fazer o pedido.

Andiamo. –Teresa diz puxando Pedro e deixando o irmão ligeiramente atordoado para trás.

Famiglia, Pedro e eu temos um anuncio importante para fazer. –Teresa diz assim que encontra o restante da família reunida na sala de estar.

—Vocês vão ter um bebê? –Januária indaga risonha, mas para instantaneamente ao notar a joia no dedo anelar da cunhada.

—O que é mia cara? –Francesco pergunta voltado toda a sua atenção para a filha.

Maria Isabel é certeira ao focar a visão no dedo anelar da filha e não reconhecendo aquele anel, afinal de contas ela já estava prevendo que isso aconteceria em breve, mas dessa vez Pedro a surpreendeu com sua velocidade.

—Luigi traga o espumante. –A matriarca da família disse quase que instantaneamente.

—Por que? –Francesco questionou olhando da filha para a esposa.

Celebrare. –Maria Isabel diz com um sorriso idêntico ao da filha.

—Pedro e eu vamos nos casar! –Teresa diz não conseguindo conter a emoção.

Alleluia fratello!—Luigi diz enquanto se levanta feliz e abraça Pedro e logo em seguida a irmã.

Enquanto Januária felicita os dois, Luigi rapidamente trata de ir buscar o espumante.

Logo em seguida Maria Isabel os abraça e os felicita.

Francesco abraça a filha e murmura frases desconexas sobre o quanto ela cresceu e para ela não abandoná-lo quando tiver sua própria família, Pedro jura que os olhos do homem estão marejados.

No entanto, quando se aproxima de Pedro, ele o puxa para um abraço e murmura em seu ouvido:

—Ainda precisamos ter uma conversa meu jovem.

Ferdinado finalmente aparece um pouco mais lúcida e abraça a irmã fortemente enquanto a parabeniza, limitando-se a apertar a mão do cunhado em felicitação, além de claro o alertar:

—Se você ousar magoar minha irmãzinha, saiba que é um homem morto.

—Ferdinando! –Teresa e Maria Isabel dizem simultaneamente.

—Acho que nossa próxima missão é juntar Nando e Ti... –Luigi começa a dizer para a esposa, mas alto o suficiente para os demais ouvirem, por isso rapidamente Januária dá uma cotovelada nada discreta no estômago do marido.

—Missão é? –Teresa os indaga divertida.

—Qual é, todo mundo sabe que vocês dois nunca teriam ficado juntos se não fosse o nosso plano em Petrópolis. –Januária disse brilhantemente recebendo agora uma cotovelada do marido, que notou o ligeiro arquear de sobrancelha da irmã.

—Vamos comemorar. –Luigi diz rapidamente tratando de abrir a garrafa de espumante, enquanto a mãe e a esposa vão buscar algumas taças.

Logo que brindam, Januária faz a pergunta que todos estavam ansiosos para saber a resposta:

—Então... quando será o grande dia? Confesso que somos muito ocupados devo marcar na minha agenda com antecedência.

Pedro sorri levemente enquanto dirige o olhar para Teresa em um sinal claro que a decisão era toda dela.

—Assim que o recesso de final de ano terminar. –Teresa diz sorridente.

—O que!? –Ferdinando, Januária e Luigi dizem ao mesmo tempo.

O som do vidro se quebrando é ouvido imediatamente chamando a atenção de todos para uma senhora incrivelmente surpresa.

Non. –Maria Isabel diz após alguns segundos de tensão.

Mamma... –Teresa começa a argumentar, mas logo é interrompida.

—Um casamento bem feito demora no mínimo seis meses para planejar, vocês querem se casar em duas semanas, non accetto. –A mulher de olhos verdes disse firmemente.

—Mas nós já esperamos tempo demais mamma. –Teresa argumenta.

Todos os presentes ali naquele momento focam suas atenções nas duas mulheres Bourbon, sabendo que uma disputa de vontades começou.

—Você está grávida? –Maria Isabel perguntou enquanto cruzava os braços e encarava fixamente a filha.

Non. –Teresa respondeu convicta.

—Algum de vocês dois está com uma doença terminal? –A matriarca perguntou fitando a filha com seus olhos esmeralda.

Dios mamma, não. –Teresa disse quase que atormentada com a suposição.

—Pedro vai ser deportado? –A esposa de Francesco perguntou erguendo a sobrancelha direita.

Non. –Teresa respondeu franzindo o cenho.

—Pois bem, não há motivos para apressar o casamento. –A mulher de cabelos chocolate encaracolados disse simplesmente.

Mamma! –Teresa disse em ligeira repreensão.

—O que? Estamos no século XXI vocês bem podem morar juntos antes de se casarem e teremos tempo o suficiente para planejar o casamento. –A mãe disse à filha, aproveitando ainda para acrescentar –Até Luigi, que é Luigi deu tempo para planejarem o casamento dele.

Teresa inalou bruscamente e assim voltou seu olhar para o pai em um pedido de socorro, tendo ainda verbalizado:

—Papà!?

—Isabel... –Francesco se viu tendo que intervir diante do olhar suplicante, mesmo que as consequências depois pudessem colocá-lo na casinha do cachorro ele acrescentou contra o seu melhor julgamento –Seja razoável amore mio.

Io sono, sua filha que não é. –A senhora Bourbon disse com um olhar que Pedro achou que era no mínimo assassino.

Correre per le colline, o Vesúvio entrou em erupção. –Luigi que estava entre Ferdinando e Januária comentou a uma distância segura, sendo instantaneamente censurado por uma cotovelada dupla da esposa e do irmão ao mesmo tempo.

Mamma... –Teresa disse saindo do lado do enfim noivo e aproximando-se da mamãe que a fitava com seus olhos verdes penetrantes.

Io preciso que a senhora entenda minha situação... –Teresa disse ficando em frente a mãe e tentando o melhor que podia conter suas próprias emoções.

Io também preciso que me entenda mi amor, tu eres mi unica hija. –A senhora Bourbon finalizou em sua língua materna.

Mamá, hemos esperado lo suficiente. –A arqueóloga disse em um espanhol perfeito.

—Sempre sonhei em vê-la casando na igreja Teresa, nada me deixaria mais feliz do que isso. –A mais velha disse à mais nova não se importando com a plateia que as assistia.

Teresa suspirou enquanto pensava porquê sua mãe era uma mulher tão difícil de se dobrar.

Por sua vez Maria Isabel havia criado muito bem a filha, para saber como manipula-la ao seu favor, sendo assim não demorou em dizer sem se importar com os demais filhos presentes:

—Eu estou velha Teresa Cristina, não tenho a esperança que verei seu irmão se casando tão cedo e você é minha única filha, se eu vê-la vestida de noiva entrando na igreja eu poderei morrer feliz e não voltarei para assombrar você e Ferdinando.

A arqueóloga bufou, antes de começar a rir, instantaneamente tanto mãe e filha faziam o possível para segurar o riso, mas nenhuma das duas obteve sucesso.

—Elas surtaram? –Januária questionou ao marido não muito baixo.

No vas a renunciar a esto, ¿verdad?—Teresa questionou a mãe em um espanhol invejável.

En absoluto, mi querida hija. – A madrilense disse.

Suspirando derrotada, Teresa estava disposta a fazer uma concessão.

—Podemos adiar algumas semanas, mas ainda nos casaremos em janeiro. Acha que conseguimos planejar um casamento em tão pouco tempo? –Teresa indagou e por um segundo Pedro a achou mais parecida com aqueles políticos que estavam sempre em volta de seu pai do que a arqueóloga tão interessada no passado.

—Você se surpreenderia com o que se pode fazer com dinheiro. –A matriarca disse sorrindo vitoriosa.

—Pois bem. –Teresa disse feliz antes de voltar a atenção aos demais e prosseguir –Alguém quer fazer mais alguma objeção sobre o meu casamento?

Luigi fez sinal que iria levantar a mão, entretanto, Januária foi mais rápido ao desferir um tapa em seu braço.

—Pedro? –Teresa chamou a atenção do noivo e o questionou –Se importa com a mudança de data?

Por trás da filha, Maria Isabel encarou fixamente o genro que logo que engoliu em seco ligeiramente assustado com a expressão quase que assassina da mulher, não disse mais nada a não ser:

Non mia cara.

Teresa sorriu satisfeita.

—Va bene, precisarei de uma lista das madrinhas e padrinhos e suas medidas, mas não tenham tanta pressa, irei procurar uma igreja e marcaremos a data primeiro. –A senhora Bourbon disse enquanto pegava a taça que o marido lhe oferecia e se sentava no sofá.

—Presumo que seus sobrinhos poderão ser pajens e daminhas, quantos sobrinhos você tem mesmo Pedro? –Maria Isabel começou os planejamentos iniciais do que seria o casamento napolitano do ano.

A conversa sobre casamento e indiretas ao primogênito da família se seguiram por quase duas horas, até que Pedro finalmente se viu caminhando para fora da casa dos Bourbon.

A noite passou rapidamente e logo na manhã seguinte ambos encontravam-se a caminho de Bari em um voo rápido.

Tão envolvidos pela conversa no dia anterior e ainda cansados do natal com os Bourbon, nenhum dos dois lembrou de dizer nada aos amigos, entretanto, também não foi preciso, pois logo que chegaram a casa de praia e encontraram Ana, Luís, Celestina, Vitória, Irineu e até o recluso Machado de Assis.

Nem mesmo dois minutos depois de chegarem, Celestina já indagou sem cerimonias:

—Teresa Cristina de Bourbon o que significa isso no seu dedo?

A napolitana sorriu levemente antes de dizer:

—Um anel de noivado oras.

—Finalmente, obrigado Deus! –Luís Alves, o primeiro amigo que Pedro fez quando entrou na Universidade manifestou-se, não demorando para que Ana, sua adorável esposa e amiga dos tempos de colégio de Celestina e Teresa lhe desse uma cotovelada.

—Já não era sem tempo. –Disse Irineu, o amigo de Pedro desde a infância que fez intercambio em Roma quando o seleto grupo ainda estava na universidade.

—Isso já era previsível. –Machado, também amigo de Pedro e ex-namorado de Celestina afirmou, mas diante do olhar da ex-namorada acrescentou –Parabéns a proposito.

—Quando será o casamento? Preciso me programar para estar na Itália. –A sempre viajante Vitória foi a próxima a manifestar-se.

Teresa e Pedro trocaram um sorriso antes que a napolitana pudesse dizer:

—Mês que vem.

—O que!? –Foi a resposta unanime do grupo.

—Precisamos providenciar o hotel e as passagens. –Luís disse como sendo planejando com antecedência.

—Eu preciso de um vestido. –Ana falou.

—Tão depressa? Adorei! –Vitória disse empolgada.

—Ótimo, mais um motivo para prolongar minha viagem. –Irineu disse satisfeito.

—Eu preciso de mais tempo para me acostumar com essa ideia. –Celestina se manifestou antes de virar a lata de cerveja em um gole só.

—Mulher, eu já não te disse que esses dois era acabar juntos? –Machado indagou Celestina que limitou-se a rolar os olhos.

Os demais presentes ali riram e assim passou-se a tarde com planejamentos de casamento, bebidas e planos de despedidas de solteiros. Isso até em dado momento da tarde uma Celestina muito embriagada sentasse ao lado de Teresa e começasse a dizer com os olhos marejados:

—Estou tão feliz por você Tetê.

Grazie Tina. –A italiana disse agradecida.

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—Só não esqueça a sua melhor amiga, Pedro é bonito, mas é um paspalho. –Celestina disse antes de desatar a chorar copiosamente.

—Tina... non fique triste. –Teresa tenta consolar a amiga que a abraça e continua a chorar.

—Eu não estou triste, estou muito feliz por você. –A jornalista dizia em meio aos soluços.

, estou vendo. –Teresa disse enquanto dava tapinhas nas costas da amiga, sabendo muito bem que a bêbada Celestina era uma mulher muito chorona.

—Meu Deus, eu falei para essa doida não beber daquela cachaça do Irineu. –Vitória disse ao se aproximar e notar a cena quase que cômica.

—Vamos Tina, deixa eu te levar para o quarto, você precisa dormir. –A prima de Pedro disse aproximando-se da amiga na intenção de ajuda-la a se levantar.

—Eu amo tanto vocês! –Celestina disse ainda chorando enquanto agarrava o pescoço das duas.

—Nós também amamos você Tina. –Teresa disse antes que Vitória pudesse dizer qualquer coisa que fizesse a jornalista chorar ainda mais.

—Você me ama mais do que o Pedro? –A brasileira indagou em meio aos soluços.

Vitória não conseguiu conter a risada.

, eu amo. –A italiana se viu dizendo e sentiu o braço de Celestina apertar ainda mais em volta do seu pescoço.

—Não diga para o paspalho, mas eu até que gosto dele. –A jornalista disse soltando as amigas e finalmente encarando a amiga de infância.

—Eu sei. –Teresa confessa antes que Vitória finalmente convença Celestina a ir se deitar.

A dupla de brasileiras mal saiu, quando Pedro sentou-se ocupando o lugar de Celestina.

—Você presenciou tudo? –Teresa indagou o noivo.

Pedro assentiu antes de comentar:

—Sempre achei Celestina desequilibrada.

—Pedro! –Teresa diz em repreensão, mas esforça-se para não rir enquanto lhe dá um leve tapa no braço.

—Ela é uma boa amiga, praticamente minha irmã. –Teresa diz após alguns segundos em silêncio.

—Eu sei, sei também que a opinião dela é importante, por isso estou feliz em saber que ela gosta do paspalho. –O fotógrafo diz rindo ao final.

A arqueóloga sorri levemente enquanto diz:

—Ela é tão ciumenta quanto meus irmãos, mas eu não a amo menos do que eles, acho que ela é a irmã que a vida me deu.

Pedro sorriu, embora Celestina pudesse ser uma pedra no sapato dele muitas vezes, ela é a amiga mais leal e a presidente do fã clube Teresa Cristina e ele está disposto a tolerá-la se isso significa que faz sua noiva feliz.

Se ele fosse honesto consigo mesmo, ele nem mesmo odeia a jornalista, ele só se irrita facilmente com suas implicâncias. Ele pensa que talvez se existir essa coisa de outras vidas, em sua vida passada ele deve ter dificultado e muito a vida da jornalista, para que ela sempre esteja a atormentá-lo.

Os três dias na praia passam rapidamente e assim que os noivos chegam em Nápoles, Maria Isabel os encontra lhes comunicando que não foi fácil, envolveu algumas generosas doações e uma ameaça de enviar uma carta ao papa, mas a senhora Bourbon conseguiu marcar o casamento para o dia vinte e cinco de janeiro na Catedral de São Januário.

Nesse mesmo dia, Teresa foi praticamente sequestrada pela mãe para a escolha dos convites, flores e claro ser apresentada a senhorita Emma a melhor planejadora de casamentos da Itália.

Enquanto Teresa escolhia a paleta de cores do casamento, Pedro, que estava no apartamento da amada ouviu seu celular tocar e atendeu imediatamente assim que viu ser dona Leopoldina:

—Olá mamãe.

—Pedro de Alcântara e Bragança Júnior, por que diabos sua sogra quer saber as medidas de nossa família e se os filhos de Maria e Francisca são obedientes? –Dona Leopoldina disse assim que o filho atendeu, embora ela já bem tivesse suas suspeitas pelo motivo.

—Teresa e eu vamos nos casar dia vinte e cinco de janeiro mamãe. –O fotógrafo disse sabendo que enrolar a mãe não é uma boa opção.

—vinte e cinco de janeiro do mês que vem!? –A esposa do governador carioca disse mais para si mesma do que para o filho.

—Sim... sei que é apressado, mas Teresa e eu já esperamos o bastante. –Pedro defende seu ponto de vista.

—Oh meu querido estou tão feliz em ouvir isso. –A mulher de olhos tão azuis quanto o do filho diz orgulhosa e logo acrescenta –Vocês precisarão de ajuda com algo?

Pedro dá uma risadinha.

—Dona Maria Isabel está muito dedicada nessa missão. –O homem de cabelos cor de areia informa a mãe.

—Teresa é sua única filha, é compreensível. –Leopoldina diz lembrando-se muito bem da emoção dos preparativos das três filhas.

O fotógrafo sorri levemente ao lembrar-se do episódio do Natal com os Bourbon.

Mãe e filho conversam por cerca de mais dez minutos e Pedro encerra a ligação com a promessa de mantê-la informada sobre os preparativos de seu grande dia.

Os dias passam, a lista de convidados de Pedro e Teresa são entregues à matriarca dos Bourbons, os noivos escolhem os convites, o fotógrafo se vê acompanhando as mulheres Bourbon na escolha das flores, tapeçaria, local das festa, músicas e cardápio.

Os dias passam tão depressa que eles mal tem tempo para aproveitar o Ano Novo. A noiva embarca para Milão com a mãe e as três melhores amigas, juntamente com a cunhada, para a escolha dos vestidos, o noivo escolhe seu terno dentre os que a sogra selecionou.

Os dias de Pedro e Teresa entre trabalho e preparativos para o casamento são agitados, é em meados de janeiro, quando Pedro lendo um jornal on-line se depara com uma manchete que o perturba: Filho do governador do Rio de Janeiro casará com herdeira de uma multinacional em Nápoles/Itália.

Rapidamente Pedro abre a notícia e fica indignado com o que ele só pode definir como uma mídia sensacionalista, que faz parecer que os noivos vivem uma vida boêmia às custas dos pais, retratando o filho do governador como um mero andarilho e não o fotógrafo premiado que é, ao passo que a senhorita Bourbon é tida como alguém fora dos padrões da alta sociedade napolitana.

E é por esse motivo que ao chegar em casa, Teresa vê o noivo nervoso.

—Pedro, o que aconteceu? –A arqueóloga pergunta preocupada ao ver o amado tão vermelho quanto a bandeira de Nápoles.

—A impressa Teresa. –Pedro diz bufando e enquanto mostra a tela de seu tablet à amada acrescenta –É inacreditável Teresa, a mídia brasileira nos faz parecer dois... dois filhinhos de papai...

Teresa analisa a notícia brasileira, enquanto Pedro continua a esbravejar:

—Eles ainda tem a ousadia de fazerem insinuações políticas em cima do nosso casamento. Inacreditável.

Não muito surpresa, Teresa devolve o tablet ao noivo, que percebe que a napolitana sequer abalou-se com as notícias.

—Como você pode estar tão calma? –Pedro indaga a arqueóloga.

Questo pode ser novidade no Brasil amore mio, mas já está nas colunas de fofocas napolitanas. –A morena diz quase que amargamente ao lembrar-se da ocasião em que uma Celestina pesarosa lhe mostrou as notícias de um tabloide.

—Então você já sabia que estavam falando do nosso casamento? –Pedro indagou e a noiva limitou-se a assentir.

—Por que não me contou? –Pedro a questionou.

Perché io sabia que você ficaria assim. –A senhorita Bourbon afirmou simplesmente, já que conhece muito bem o homem de olhos azuis.

—Estou triste que tenha que ter lidado com isso sozinha. –O fotógrafo disse deixando o tablet de lado e puxando a amada pela cintura.

Va bene amore, são apenas desocupados espalhando inverdades sobre nós a troco de engajamento. –Teresa disse dando de ombros.

—São um bando de fofoqueiros isso sim. –Pedro diz ainda irritado, provocando um sorriso nos lábios da morena.

—Mas diga-me, o que esses desocupados falaram sobre nós? –O carioca a indaga, enquanto se senta a colocando em seu colo.

—Eles ainda não conseguem entender como io, principessa dell'alta società napoletana, se apaixonou por você. –Teresa diz seriamente.

—Isso é um ultraje, todo mundo sabe que foi você que me enfeitiçou. –O filho de dona Leopoldina diz seriamente.

—Está me chamando de bruxa Pedro de Alcântara? –Teresa disse em falso tom de irritação enquanto afastava seu rosto para melhor encarar o noivo.

—Jamais, tu é mais linda e encantadora do que Afrodite amore mio. –Pedro diz charmoso.

—Você é péssimo para flertar Pedro. –A napolitana diz fazendo uma careta.

—Ei, assim você me ofende. –O fotógrafo diz em falso tom de indignação.

Non posso mentir, homem que não pode deixar Nápoles. –Teresa diz com um sorriso malicioso.

—Deus... você nunca vai esquecer isso? –O carioca indaga.

Non enquanto eu viver e só para você ficar ciente io contei para Tina. –A arqueóloga diz brilhantemente.

—Definitivamente, vocês duas nunca vão me deixar esquecer isso. –Pedro resmunga o que faz com que a noiva lhe roube um selinho.

—Mas foi fofo. –A filha de Francesco diz.

—Quão fofo? –O irmão de Januária a questiona enquanto distribui beijos em seu pescoço.

Molto carino. –Teresa diz entre risadas e suspiros.

—Eu vou te mostrar o quanto eu posso ser fofo dona Teresa Cristina. –O homem de olhos tão azuis quanto o céu diz enquanto se levanta com a noiva no colo.

E assim, entre momentos roubados enquanto equilibram o trabalho e os preparativos para o que de acordo com dona Maria Isabel será o casamento do ano, os dias passam rapidamente e logo já está faltando menos de uma semana para o grande dia.

Na segunda-feira é feita a prova final do vestido de noiva e das madrinhas, o noivo e os padrinhos fazem a prova no dia seguinte.

Na terça-feira as irmãs mais velhas de Pedro e suas respectivas pequenas famílias chegam na cidade e fazem a prova de suas vestes, infelizmente Pedro é proibido de ver os sobrinhos, mas Teresa o garante que estão todos lindos.

Na quarta-feira os pais de Pedro finalmente chegam e após os levar para a prova de roupas, o pai de Pedro lhe presenteia com a lua de mel em Paris, afirmando que disseram que é o lugar mais romântico e cheio de história que se poderia achar em tão pouco tempo, Pedro ri e agradece aos pais.

Na quinta-feira toda a numerosa família de Teresa está presente, até mesmo sua excêntrica tia Carlota Joaquina.

Os amigos mais íntimos do casal, se reúnem em Nápoles na sexta-feira pela manhã e assim os noivos se encontram para almoçar com Luís e Ana, Irineu, Machado, Vitória e claro Celestina que não pode faltar.

Na sexta-feira à noite também acontece o jantar de ensaio, Pedro e Teresa começam a se questionar se foi uma boa ideia ter tantos padrinhos ao serem indagados se todos fariam discursos, mas ao final foi decidido que apenas Luís, já que de todos os seus amigos foi o grande confidente de Pedro ao longo dos anos em um “relacionamento” com Teresa, das irmãs de Pedro, seria Francisca a falar, ao passo que dos irmãos de Teresa seria Ferdinando e, para a surpresa de ninguém, Celestina era a responsável pelo discurso das madrinhas.

E após um jantar de ensaio farto das iguarias italianas, o sábado chegou e mais cedo do que o necessário, Pedro se viu sendo expulso por Celestina, Vitória, Ana e Januária do apartamento de Teresa, entretanto, ele não poupou de comentar “Celestina está fazendo isso com gosto”.

Mal saindo do apartamento da noiva, Pedro deu de cara com os amigos já o esperando no corredor, estando Luigi e Irineu com expressões muito animadas para seu gosto.

As senhoras passaram um dia no spa de um famoso hotel fazenda não muito distante da cidade, onde tiveram um dia de beleza e uma noite de drinques, enquanto falavam da vida.

Diferentemente de Pedro, que se viu em um carro com apenas Luigi, que garantiu que encontrariam os outros mais tarde, já que primeiro Pedro tinha uma missão, não deixando de o surpreender quando o mais jovem estacionou em frente a maior floricultura da cidade e o pediu para entrar.

Obedecendo a ordem do cunhado, Pedro adentrou o estabelecimento e praticamente deu de cara com a mãe.

—Mãe? O que a senhora está fazendo aqui? –O fotógrafo indagou a senhora de cabelos loiro encaracolados.

—Bom dia querido, ao que parece os italianos tem uma tradição um tanto quanto peculiar em relação ao buque da noiva. –Dona Leopoldina respondeu e vendo o filho franzir o cenho acrescentou –Sua sogra gosta de seguir tradições e pelo que ela me explicou é costume o noivo escolher o buque da noiva em uma espécie de último presente do namorado à namorada e da sogra o entrega-lo no dia do casamento, como um sinal de que aprova a união.

—Isso soa como uma coisa de dona Maria Isabel. –Pedro refletiu com um sorriso de canto.

—Vamos? –A mãe pergunta ao filho.

—Vamos. –Pedro responde e ambos vão de encontro ao atendente que parece estar por dentro do assunto, o que Pedro não duvida, que a senhora Bourbon já tenha deixado as coisas mais ou menos encaminhadas.

—Eu quero um desse. –Pedro diz apontando para a foto que lhe é mostrada de um buque com rosas brancas, hortênsias azuis e pequenas florzinhas brancas que ele não sabe o nome.

Tendo assim cumprido com sua missão, dona Leopoldina acompanha o filho até o carro do genro e o adverte para cuidar bem de seu filho.

Assim, não demora para que Pedro esteja sendo levado a um campo de golfe, onde acaba por encontrar não só os amigos, como também o irmão mais velho de Teresa.

—Ferdinando veio para se certificar que não faremos nenhuma besteira. –Luigi murmura, mas alto o suficiente para que todos ouçam.

O jogo de golfe não dura nem mesmo uma hora, já que todos, por exceção de Luigi e Ferdinando, são péssimos. É então que se descobre o real motivo para terem escolhido o local, que também é na verdade um clube de cavalheiros, o qual diga-se de passagem estava especialmente fechado para um evento privado, qual seja a despedida de solteiro de Pedro.

Deixe um grupo de mulheres sozinhas e elas saberão se divertir com responsabilidade, deixe um grupo de homens sozinhos com bebidas e o resultado é que nem mesmo o mais responsável estará a salvo.

E foi assim após uma tarde de bebedeira, que Irineu lamentava o fato de nunca ter vivido um grande amor, Luigi falava sobre alguma viagem, e, surpreendendo a todos, Ferdinando e Machado encontrava-se divagando sobre as dificuldades em lidar com mulheres a frente de seu tempo, Pedro estava embriagado demais para perceber que ambos se referiam a mesma mulher de cabelos chocolate.

Se isso já não fosse o suficiente, Luigi os contou sobre uma antiga tradição italiana consistente em uma serenata na noite anterior ao casamento.

Em seu juízo perfeito, Luís e Ferdinando os impediria, enquanto Machado criticaria tal atitude, mas como todos ali estavam muito influenciados pelo álcool, os três foram os primeiros a se levantarem e providenciarem um táxi.

E foi assim que no sábado à noite, Teresa e as amigas acabaram todas empoleiradas em uma janela do chalé do hotel fazenda em que estavam vendo Machado e Luís tocarem violão com dificuldade, Ferdinando com um triangulo, Luigi com um pandeiro e Irineu soprando desajeitadamente uma flauta, enquanto Pedro mostrava que como cantor, ele realmente era um desastre.

—Devo chamar a polícia ou um manicômio? –Celestina questionou Teresa.

—Tina! –Ana e Vitória a repreenderam ao mesmo tempo.

—Que foi? Se não dermos um jeito nesses loucos logo, alguém realmente vai chamar a polícia. –A jornalista justificou.

—Vou ligar para minhas irmãs e pedir que mandem meus cunhados resolverem essa situação. –Januária disse ao terminar de filmar a cena que acontecia do lado de fora.

E foi assim que o seleto grupo de homens encontrou-se dormindo no apartamento de Pedro até que Ana e Januária chegasse as seis e meia da manhã seguinte batendo nas panelas.

—Acordem flores do dia! –A irmã de Pedro dizia enquanto continuava a fazer barulho.

—Januária mia cara, eu te amo, mas se você continuar a bater essas panelas eu vou pedir o divórcio. –Luigi disse tampando o rosto com a almofada do sofá.

—Ainda bem que trouxe o kit ressaca. –Ana disse para a jovem de cabelos loiros encaracolados enquanto os retirava da sacola e os deixava em cima da mesa da cozinha.

—Pedro de Alcântara Bragança Júnior você vai se atrasar para o seu casamento. –Januária dizia tão alto que praticamente gritava, enquanto passava na sala pulando sobre os corpos de Irineu e Machado.

—Ferdinando? O que você está fazendo na cama do meu irmão? –Januária disse assim que notou o cunhado deitado na cama do irmão.

—Que? –O primogênito dos Bourbon disse sentando-se rapidamente na cama.

—Pedro!? Pedro cadê você? –Januária começou a gritar pelo apartamento ficando ligeiramente preocupada que pudessem ter perdido o noivo, especialmente quando notou que quem estava no quarto de hóspedes era Luís.

—Jesus amado, perdemos o noivo. –A caçula dos Alcântara começou a entrar em pânico, até que notou a porta do banheiro entreaberta e sem pensar duas vezes acabou adentrando e se assustando com a visão do irmão dormindo na banheira.

—Isso é por você ter me assustado. –Januária diz enquanto liga o chuveiro, fazendo o irmão acordar sobressaltado.

—Apareceu a margarida! –A loira diz sorridente.

E finalmente após acordar todos, Januária e Ana repassam os itinerários com os senhores ali presentes, os lembrando de que o casamento era as dez e meia da manhã e apenas a noiva estava autorizada a se atrasar, mesmo que o noivo fosse completamente contra atrasos.

E logo a correria começou, Ana levou o marido e os amigos para se preparem no hotel em que haviam se hospedado, Januária garantiu que Pedro tomasse o café da manhã antes de seguir para a casa dos Bourbon com o marido e o cunhado.

Enquanto isso, Teresa estava se preparando em um ateliê bem próximo a Catedral, tendo primeiro feito o lindo penteado em um elegante coque grego, com alguns fios soltos na lateral, logo foi realizada a maquiagem e finalmente chegou a hora de se trocar.

Quando Teresa saiu do provador, Vitória e Celestina já haviam se juntado a sua mãe para espera-la.

Eres tan hermosa mi amor. –Dona Maria Isabel foi a primeira a se pronunciar ainda em sua língua materna.

Teresa sorri agradecida enquanto pronuncia no mais perfeito espanhol:

Gracias mamá.

—Você está divina minha amiga. –Vitória se pronuncia.

—E aquele paspalho nem merece isso tudo. –Celestina diz com um meio sorriso.

—Tina! –Teresa repreende a amiga rindo.

E assim a conversa se segue amena, enquanto as amigas ajudam a noiva a calçar o sapato, em seguida a senhora Bourbon prende o véu da filha.

—Espero não estar atrasada. –Dona Leopoldina diz enquanto adentra o local com o buque não contendo o sorriso.

—Minha querida, disseram-me que a tradição é que a sogra entregue o buque em um sinal de que a noiva é bem-vinda a família, espero que saiba que estou muito feliz em finalmente fazer isso. –A esposa do governador diz com os olhos azuis idênticos aos dos filhos brilhando de alegria.

Grazie, dona Leopoldina e obrigada por me acolher tão bem. –A napolitana diz agradecida.

É então que ambos os irmãos de Teresa adentram o local e coçam a garganta na tentativa de chamar a atenção para a dupla e Januária, que já está com seu vestido azul de madrinha.

—Vocês dois parecem muito bem. –Teresa alfineta os irmãos com um meio-sorriso, não deixando de desperta a curiosidade da mãe, que para o bem de todos é melhor que ainda não saiba dos eventos da noite anterior.

Stiamo molto bene sorella. –Ferdinando diz enquanto se aproxima da irmã sendo seguido pelo irmão caçula.

—Não perderíamos esse dia por nada. –Luigi diz sorridente.

—Só fariam o noivo perder. –Celestina acrescenta bem a tempo de receber um olhar do primogênito dos Bourbon, olhar esse que não pareceu passar despercebido para a maioria dos presentes.

—Não diga que você também não partilha dos nossos sentimentos senhorita fofoqueira. –Ferdinando alfineta a jornalista com um sorriso de canto.

Io non estou dizendo nada senhor Bourbon. –A brasileira diz antes de pegar sua taça de champanhe e levar aos lábios.

—Vocês dois parem de brigar, que hoje é o dia da Tetê. –Luigi diz chamando a atenção para si e logo em seguida diz para o irmão –Vamos, entregue logo ou vamos nos atrasar.

—Não está com você? –Ferdinando diz de repente assustado com a hipótese de terem esquecido.

Ambos os irmãos se encaram.

—O que vocês seriam sem mim? –Uma Januária sorridente se aproxima enquanto entrega uma caixinha para o marido que a abre com cuidado.

—Trouxemos um presente para você. –Luigi diz enquanto mostra a irmã a linda pulseira de ouro branco com pequenos pingentes variados.

Ferdinando pega a pulseira e espera que a irmã ofereça o braço, enquanto diz:

—Acho que com isso você já tem algo novo e um presente.

—Só para que fique claro, eu os ajudei a escolher. –Januária acrescentou ao fundo despertando algumas risadas.

Grazie fratellini. –Teresa diz enquanto abraça ambos os irmãos.

—Lindo, lindo, lindo. –Celestina diz batendo palmas e enquanto os irmãos se afastam ela pronuncia –Agora é minha vez.

Retirando assim um terço de ouro branco de uma caixinha a jornalista sorri levemente enquanto caminha em direção a melhor amiga.

—Eu não sou muito católica, diferentemente de minha avó, que quando me mudei para a Itália me presenteou com esse terço na esperança que eu nunca me esquecesse de onde vim e estivesse segura aonde quer que eu fosse e, eu sempre me senti segura estando com ele, por isso eu lhe empresto ele hoje. –Celestina disse entregando o terço para a amiga, que logo o pega e a puxa para um abraço, enquanto murmura um “Obrigada Tina”, já que a napolitana sabe muito bem que a amiga raramente menciona a família e ainda assim compartilhou essa história inédita, oportunidade em que a jornalista acrescenta mais baixinho –Ele vai mantê-la segura.

Quando enfim se afastam, a jornalista fala agora mais alto:

—Acho que ele vai ajudar você a não tropeçar enquanto caminha na igreja.

Todos ali riem com o comentário da mulher de cabelos chocolate.

Limpando a garganta, dona Maria Isabel diz em espanhol:

Bien, ahora es mi turno!

Teresa sorri emocionada, pois conhece muito bem a mãe para saber que apenas quando a matriarca da família está com os sentimentos a flor da pele ela utiliza o espanhol.

Com cuidado a morena de olhos verdes retira de uma caixa uma linda gargantilha em ouro branco com uma safira solitária.

—Esta gargantilha costumava ser da minha abuelita e tem sido repassada para as mulheres de nossa família nas ocasiões de seu casamento. –A esposa de Francesco explicou enquanto com cuidado prendia a joia no pescoço da filha.

Mais uma vez mãe e filha se abraçam, mas são interrompidas de seu momento com a chegada de um novo alguém.

Buongiorno a todos, não quero ser estraga prazeres, mas já estamos no horário. –Francesco Bourbon diz assim que sua presença é notada pelos demais ocupantes do local.

Rapidamente a pequena multidão é dispersada.

Enquanto isso, já na igreja, Pedro está rodeado das duas irmãs mais velhas e o pai que tentam em vão acalmá-lo, claro que o comentário de Machado sobre ainda dar tempo de Teresa desistir não ajuda em nada.

—Deus, se não começar logo temo que as crianças irão sujar as roupas. –Francisca resmungou antes de correr atrás da filha o mais rápido que podia com as roupas que usava.

—Calma Pedro, vai dar tudo certo. –Luís diz dando um tapinha nas costas do amigo.

E após mais algumas palavras encorajadoras, logo chega um sedã preto com Luigi, Januária, Leopoldina e Vitória.

Celestina e Maria Isabel chegam minutos depois com Ferdinando como motorista.

—A noiva já está a caminho. –Maria Isabel anuncia feliz e logo a organizadora de casamentos já está iniciando as entradas.

—Os padrinhos, per favore. –A senhorita Emma e com um tablet em mãos começou a chama-los –Luís e Ana.

—Presente. –Os dois disseram simultaneamente já com os braços enlaçados.

—Ferdinando e Celestina? –A jovem organizadora de casamentos chamou erguendo a cabeça e vendo um casal de expressões não muito amistosa darem os braços, por isso os pede –Per favor sorriam ou vão assustar os convidados.

O irmão da noiva e sua melhor amiga se encaram fixamente antes de sorrirem levemente.

—Fernando e Maria? –A planejadora chamou o cunhado e a irmã de Pedro, que já estavam se posicionando atrás de Celestina e Ferdinando.

—Luigi e Januária? –A senhorita Emma chamou.

—Os mais lindos estão aqui. –Luigi disse já em seu lugar, provocando uma risadinha da esposa.

E assim seguiu-se Francisca e seu marido francês, Irineu e Vitória, Machado e uma prima de Teresa.

Vendo então o último casal de padrinhos adentrar a Catedral o pai de Pedro, aproxima-se de dona Maria Isabel e diz lhe oferecendo o braço:

—Acredito que agora seja nossa vez.

Gracias. –A mulher de origem espanhola diz aceitando o braço que lhe é oferecido e logo também já estão caminhando em direção ao altar.

—Você está pronto querido? –Leopoldina diz enquanto aproxima-se do filho e ajeita sua gravata.

—Sim senhora. –Pedro diz sem vacilar e oferece o braço para a mãe.

Durante todo o trajeto até o altar Pedro vê muitos rostos conhecidos, vê a expressão de alegria dos amigos e padrinhos, inclusive de Luigi e Januária que sorriem tão amplamente que ele chega até mesmo a achar perturbador, o que não deixa de contrastar com a dupla briguenta, Celestina e Ferdinando que raramente parecem concordar um com o outro, nesse momento lhes dirigem um olhar que ele sabe ser uma ameaça velada de que se algo acontecer com Teresa eles mesmos resolverão o assunto.

Pedro finalmente chega ao altar e se vira para a entrada da igreja, onde vê suas sobrinhas entrarem com vestidos brancos idênticos, todos bordados com flores azuis e uma grande fita azul abaixo do busto, todas com os cabelos soltos e tiaras de flores, enquanto jogam pétalas de rosas azuis, brancas e rosas pelo corredor.

Por sua vez, Teresa Cristina já está do lado de fora da igreja visivelmente nervosa, motivo pelo qual o pai coloca suas mãos sobre as da filha e diz:

—Vai dar tudo certo minha princesa, Pedro estará lhe esperando no altar, o Padre abençoará sua união, vocês farão seus votos na frente de Deus e dos homens e, não se preocupe, garantirei pessoalmente que Pedro cumpra com o prometido.

Teresa ri nervosamente.

Papà... –Ela diz com a voz ligeiramente embargada e Francesco vê ali as lágrimas prestes a caírem de seus olhos.

—Não chore Teresa... Hoje será um dos dias mais especiais da sua vida minha querida, sua mãe e eu não poderíamos estar mais orgulhosos de você. –Francesco diz enquanto acaricia o rosto da única filha.

—De repente eu acho que me precipitei, não sei se casar tão depressa é uma boa ideia. –A noiva diz ligeiramente nervosa, o que provoca uma risada nasalada do pai.

—Meu amor... vocês dois já se conhecem há dez anos, tenho certeza que se casando hoje ou daqui dez anos o sentimento será o mesmo. Sabe o nervosismo que você está sentindo agora? –Francesco faz uma pausa e espera a filha assentir, finalmente ele prossegue –Para ele é ainda pior, ele está naquele altar temendo que você desista.

—Será? –Teresa questiona com grandes olhos curiosos, fazendo com que inevitavelmente o pai se lembre de uma época em que ela não tinha mais que um metro de altura e o via como seu herói.

—Eu tenho experiência. –O senhor Bourbon garante provocando um sorriso na filha.

—Então vamos papai. –Teresa diz em seu tom de voz inflexível tão semelhante ao da mãe e o pai não tem escolher a não ser acatar.

E assim finalmente toca a marcha nupcial, Pedro sente seu coração bater fortemente contra seu peito e só quando avista Teresa, sua amiga, companheira, noiva e em breve esposa dar os primeiros passos na igreja ele solta o ar que nem sabia que estava segurando.

A senhorita Bourbon mal sabe como conseguiu forças para fazer todo o trajeto até o altar, ela agarra mais fortemente o aperto em torno do braço do pai e espera que ele entenda isso como um agradecimento, pois ela não imagina como poderia fazer todo esse trajeto sem um dos homens mais importantes de sua vida a seu lado.

Quando enfim chega o momento em que Francesco tem de entregar oficialmente a filha ao genro, ele dá um beijo carinhoso na testa de Teresa que sorri agradecida por tudo, enquanto aperta a mão do genro e sussurra:

—É melhor você cuidar muito bem dela.

E sorrindo como quem não disse nada, Francesco posiciona-se ao lado da esposa, que já tinha um lenço para enxugar as lágrimas que já começaram a derramar.

Para Pedro e Teresa a cerimônia ao mesmo tempo em que acontece tão rápida, parece demorar uma eternidade, sendo um paradoxo. O noivo teme não lembrar-se das palavras que ensaiou tanto, ao mesmo tempo em que sabe que jamais esquecera a visão de sua Teresa entrando na igreja com o vestido e véu branco, segurando o buque que ele havia escolhido.

Ele a fita enquanto ela profere seus votos, o sorriso que a morena estampa é o mesmo pelo qual ele se apaixonou há tanto tempo, ele nota a gargantilha em seu pescoço como uma peça inédita de sua coleção de joias, da mesma forma que repara atentamente na pulseira enquanto desliza a aliança em seu anelar.

Quando Teresa se vê saindo de seu transe ela já está na porta da igreja debaixo de uma chuva de arroz e pétalas de rosas coloridas, toda a cerimônia para ela foi como um sonho. Na verdade, ela faz uma nota mental de agradecer a mãe mais tarde, pois toda a cerimônia ultrapassou qualquer que fosse as suas expectativas.

Os noivos saem ao som de buzinas, não leva mais que quinze minutos e logo já estão na ampla propriedade onde ocorrerá a festa.

Não demora muito para que o local esteja lotado de pessoas, Pedro e Teresa recepcionam a todos ostentando belos sorrisos e se em algum momento desse dia eles estiveram nervosos, eles já nem se lembram mais.

Pouco mais de uma hora de festa, é chegada a hora do brinde, por isso Celestina utiliza-se de um garfo para bater em sua taça chamando a atenção de todos antes de se levantar.

—Boa tarde a todos, àqueles que não me conhecem sou Tina, e como melhor amiga da noiva estou encarregada de iniciar os discursos nesse dia tão especial. –Celestina inicia seu discurso –Conheci Teresa assim que me mudei para Nápoles, na época tínhamos dez anos e meu italiano era péssimo, as outras crianças riam do meu sotaque e minha dificuldade em pronunciar certas palavras e Deus... como eu odiava a Itália naquela época, mas então em um belo dia de chuva, minha mãe não tão surpreendentemente esqueceu-se de me lembrar de pegar o guarda-chuvas e por isso, Teresa tão gentil como sempre dividiu seu guarda-chuvas comigo até que eu pudesse chegar ao ônibus, entretanto, o que me surpreendeu foi que ela me entregou o guarda-chuvas para que quando eu descesse eu não me molhasse.

Celestina fez uma pausa e encarou a amiga, ambas sorriam com a memória.

—Alerta de spoiler, eu peguei o guarda-chuvas e ela teve uma baita gripe e isso me faz chegar a moral da história Teresa Cristina é a pessoa mais humana que eu já conheci na minha vida, sua capacidade de colocar o bem-estar dos outros acima dos seus é admirável, se tivéssemos um mundo com mais Teresas tenho certeza absoluta que seria um lugar melhor, por isso acho bom você cuidar muito bem dela Pedroca. –Celestina diz a última parte fuzilando Pedro com um olhar antes de prosseguir erguendo a taça de champanhe –Um brinde a Teresa... e claro ao Pedro.

Pouco tempo após Celestina se sentar, foi a vez de Luís se levantar dizendo:

—Para quem não me conhece meu nome é Luís Alves um grande amigo de Pedro, diferentemente de Celestina e Teresa, nós nos conhecemos em nosso primeiro dia na Universidade de Roma, dois brasileiros dividindo um alojamento foi assim que nossa amizade começou, uma amizade, que diga-se de passagem, metade do tempo inclui eu ouvir Pedro divagar sobre Teresa. –Luís faz uma pausa para rir e logo contínua –Desde a primeira vez que Pedro viu Teresa ainda em um barzinho próximo a universidade ele não parou de falar dela e gente, isso já faz mais de dez anos.

Agora foi inevitável que todo mundo não risse.

—Mas nossa querida Teresa, nem mesmo deu o número de telefone para ele naquela noite e por isso demorou três dias para que nos encontrássemos novamente, três longos dias... até que eu saísse com minha namorada que tinha dito que levaria algumas amigas e eu me vi obrigado a levar o chato do Pedro para ver se ele esquecia a tal morena, mas imaginem só a surpresa quando descobrimos que as amigas a quem minha amada Ana se referia eram na verdade Teresa e Tina? Ninguém ficou mais feliz que o Pedro, isso eu posso garantir.

Mais algumas risadas foram ouvidas.

—E tem sido assim ao longo dos anos, para encontrar Pedro, basta procurar Teresa e vice-versa, nós até tínhamos uma aposta sobre quando esse dia chegaria. –Luís fez uma pausa e Machado levantou-se sutilmente.

—A propósito eu ganhei a aposta, aguardo os depósitos até a meia-noite de hoje e sem calote Irineu. –Machado de Assis falou seriamente e se sentou novamente, o que provocou mais alguns risos.

—Tá bom Machado, ninguém vai se esquecer de te pagar. –Luís disse antes de prosseguir –Acredito que eu falo por todos aqui que conhecem o Pedro, que Graças a Deus esse dia chegou e por favor Teresa cuide bem do nosso amigo e pare de o arrastar para lugares inóspitos. Um brinde a Pedresa!

Luís Alves ergueu o copo ao som de risos e palmas.

Ferdinando falou do quanto sua irmãzinha é destemida e não deixou de lembrar a Pedro para cuidar bem dela.

Francisca por sua vez, limitou-se a uma história de infância sobre um garotinho que estava sempre concentrado em livros e um homem que era empenhado em tudo o que gostava, desejou que a cunhada cuidasse bem de seu irmãozinho.

Luigi e Januária surpreenderam a todos com um discurso duplo agradecendo os dois por terem lhes juntada e dizendo terem sido os grandes responsáveis pela enfim união do casal.

Os pais de ambos os noivos disseram o tanto que estavam organizados.

Logo foi a primeira dança do casal, seguida por algumas danças dos noivos com familiares e claro não poderia faltar a tradicional tarantella como manda os costumes italianos.

As horas passaram regadas pelo melhor que a culinária italiana tem a oferecer, o vinho e o champanhe não faltaram, muito menos a animação de todos ali naquele local.

O álcool já fazia efeito nos convidados quando enfim Teresa anunciou que jogaria o buque, com o auxílio de Januária e Francisca a noiva reuniu as moças solteiras ali presentes, até mesmo Vitória e Celestina sob os protestos que nunca se casariam.

No entanto, seja o destino ou a falta de sorte de uma certa morena, mas quando Teresa virou-se de costas e arremessou o lindo buque que Pedro havia escolhido, instantaneamente um grito quase que apavorado foi ouvido fazendo a noiva se virar imediatamente.

—Oh não! –Celestina dizia encarando o buque com os olhos esbugalhados e em um ato impensado, a jornalista acabou jogando o buque para trás como se as flores estivessem queimando suas mãos.

A cena pareceu ocorrer em câmera lenta, Teresa viu muito bem o exato momento em que Celestina jogou o buque para trás sem pesar duas vezes, mas por está estar mais ao canto do grupo de mulheres solteira, o buque azul acabou indo longe o suficiente de modo a cair no colo do irmão mais velho de Teresa, que estava sentando nas proximidades conversando com Luigi e Irineu.

De repente um silêncio quase que sepulcral se instaurou ali naquelas redondezas, com exceção da música que ainda tocava ao fundo.

Celestina estava tão vermelha quanto um tomate, não sabia se olhava para Teresa, Ferdinando ou simplesmente abaixava a cabeça.

Ferdinando parecia não ter coragem de mover o buque de seu colo.

Foi Januária, que não surpreendendo ninguém que a conhece, falou animadamente:

—Acho que isso significa que nós já sabemos quem são os próximos noivos!

—A Tina e o Nando! –Luigi disse erguendo sua taça de vinho rindo.

—Santo Deus, eu preciso de algo mais forte do que vinho para esquecer disso. –Celestina disse praticamente correndo dali.

Ainda de longe, Teresa observa Ferdinando arremessar o buque com uma carranca em direção ao irmão mais novo.

—Vamos dançar? –Pedro a indaga aparecendo Deus sabe de onde e a puxando para a pista de dança.

Quando já estavam dançando pela décima vez naquele dia, Pedro falou:

—Acho que já podemos parar, os convidados parecem já terem se esquecido da pequena cena dos seus irmãos.

Teresa riu levemente e então comentou:

—Então você me chamou para dançar a fim de dar cobertura para eles?

Pedro assentiu provocando uma risada da esposa.

Amore mio... tem que acontecer ao menos uma confusão para ser considerada uma tradicional festa italiana. –Teresa afirma o olhando amorosamente.

—Então você não se importa? –Pedro questionou enquanto girava a napolitana.

—Meus irmãos estão sempre brigando Pedro, e Celestina... –Teresa fez uma pausa, franzindo o cenho antes de prosseguir –Bem é a Celestina.

E foi assim que o dia vinte e cinco de janeiro entrou para a lista dos dias inesquecíveis de Pedro e Teresa.

No entanto se isso não fosse o suficiente, os noivos estavam a caminho do aeroporto por volta da meia-noite rumo a lua de mel, o motorista perguntou aos noivos, agora em trajes mais casuais, se eles não se importavam que ele ligasse o som do automóvel, tanto Teresa quanto Pedro não fizeram objeções e assim não demorou muito para que uma melodia bem conhecida por ambos ecoasse pelo interior do veículo proporcionando uma troca de sorrisos cúmplices.

Non mi domando più

se ci sara' qualcuno a tendere la rete

pronto a soccorrere

me lo ricordi tu

chi vola impara a sfottere le sue cadute

come a difenderle

e cosi fai tu e nascondi piano

la tosse e il cuore nella stessa mano

arrivi tu

che sai chi sono

Notas finais
Então... exaustos??? Pq sinceramente eu estou esgotada kkkkkkk
O que acharam? Por favor me deixem saber se realmente compensa q eu mostre o restante do ano e se tem algum pedido especial, além do que preciso saber que ninguém pulou do barco antes de terminar ;)
Eu amo demais a amizade de Celestina e Teresa, espero que tenham gostado do modo como retratei a amizade delas aqui ♥
Lembro-me de ter visto Machado citado em uma fanfic (só ñ me recordo qual nesse momento) e como Pedro precisava de mais amigos acabei colocando ele ;)
Gostaram da família Bourbon? Espero que ao menos tenham gostado de Luigi e Januária, pois eu me divertir bastante escrevendo esses dois encrenqueiros (dona Maria Isabel também foi divertida) (e as implicâncias de um certo "casal" também).
Enfim vou parando de falar (escrever) por aqui, pq já abusei demais da boa vontade de vcs ao lerem tudo isso ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.