Silêncios no Corredor

2 A Voz Que Nunca Sai


Aoi sabia que tinha uma voz. Ouvia-a claramente dentro da própria cabeça, firme e articulada, formando frases completas, pensamentos complexos, perguntas que nunca chegavam a ser feitas. No entanto, quando tentava libertá-las, algo a prendia. As palavras ficavam suspensas, presas entre o peito e a garganta, como se atravessar aquele limite fosse demasiado arriscado.

Na sala de aula, isso tornava-se particularmente evidente. Sempre que o professor lançava uma pergunta, Aoi reconhecia a resposta quase de imediato. O coração acelerava-lhe, os dedos contraíam-se levemente sobre a secretária, e por breves segundos acreditava que seria capaz de levantar a mão. Mas o receio surgia logo a seguir. O medo de errar, de chamar a atenção, de ser observada. E, sobretudo, o medo de que a sua voz soasse estranha, inadequada, fora de lugar.

Recordava-se vagamente de quando falara mais. Em criança, antes da morte da mãe, a voz saía-lhe com naturalidade. Fazia perguntas, contava histórias, ria alto. Depois, tudo se tornara mais silencioso. Primeiro em casa, onde aprendera a medir cada palavra para não perturbar o cansaço do pai. Depois na escola, onde uma interrupção ou um olhar distraído bastaram para lhe ensinar que falar nem sempre significava ser ouvida.

Com o tempo, habituara-se a guardar tudo para dentro. Tornara-se boa ouvinte. Observava os outros com atenção, memorizava detalhes, compreendia emoções alheias com facilidade. Era como se a voz que não saía tivesse encontrado outra forma de existir.

Em casa, quando estava sozinha, falava em voz baixa. Comentava o que via na televisão, murmurava pensamentos enquanto cozinhava, ensaiava conversas imaginárias. Nessas alturas, sentia-se inteira. Não havia julgamentos, nem expectativas. Apenas ela e as palavras.

Na escola, porém, o silêncio regressava com força. Os corredores cheios de gente tornavam-se um obstáculo invisível. Aoi caminhava entre vozes alheias, sentindo a sua própria voz diminuir a cada passo.

Por vezes, perguntava-se como seria ser diferente. Dizer o que pensava no momento exacto, sem ensaios nem arrependimentos. Mas a ideia parecia-lhe distante, quase irreal.

Num dos intervalos, sentada na sua carteira habitual, escreveu no caderno uma frase solta: “Se eu falasse, quem ouviria?” Ficou a olhar para as palavras durante vários minutos. Não tinha resposta.

Fechou o caderno com cuidado e guardou-o na mochila. A voz continuava ali, intacta, à espera. Talvez não fosse silenciosa por fraqueza, pensou. Talvez estivesse apenas à espera do momento certo para sair.