Silverblade
2 Seu primo é chato, mas os amigos novos não são
Notas iniciais
Rachel Rizzi
– Ok, por isso eu não esperava...
– Surpresos? – perguntou Alice.
– Claro! Mas cara, isso é incrível.
– São os primeiros a achar isso. Normalmente uma pessoa puxaria uma arma e tentaria me matar.
– Mas só porque você prevê o futuro? Não é, tipo, alienação?
– Na verdade, eu nunca previ o futuro na vida. Eu tento viver como uma adolescente normal. Por isso eu uso a peruca e tento não ser reconhecida. Eu vou ao colégio, tenho uma coleção de coisas relacionadas à Segunda Guerra Mundial e adoro desenhar.
– Você nunca tentou contar... Pra ninguém?
– Não.
– E por que contou agora?
– Vocês são turistas. Não conheciam a história.
– Ah.
– Bom, agora eu preciso ir. Já mostrei o mais importante da cidade. Sabe, não é seguro eu andar por aí com o cabelo à mostra. – ela colocou a peruca.
– Será que a gente vai se ver de novo?
– Ah, vamos. Todo mundo se esbarra por aqui. Para voltar ao hotel é só virar à esquerda, depois seguir em frente até a sorveteria, virar à direita e o hotel é no final da rua.
– Tudo bem. Tchau.
Chegamos ao hotel e subimos para nosso quarto. Já estava de noite, mas eu não queria dormir. Pelo contrário, estava pensando em comprar bastante refrigerante e passar a noite acordada.
– Então Oliver, que tal me emprestar dinheiro pra comprar refrigerante?
– Não senhora. – respondeu ele. – Você não vai ficar acordada de madrugada. Da última vez que fez isso, eu tive que ameaçar jogar fora suas revistas pra você acordar. E você tem aula amanhã.
– Droga. Mas eu não quero dormir agora. Cadê o notebook?
– Você não trouxe?
– Não lembro. Talvez eu tenha posto na mala. – fui procurar o note e achei, junto com as meias dos Vingadores que eu tenho pena de sujar. Liguei e tentei conectar. – Você sabe a senha do wi-fi do hotel?
– Não, é falta de educação perguntar essas coisas.
– Ah, fala sério. Como você é careta. – peguei o telefone e liguei pra a recepção. A mulher atendeu com voz de tédio total. – Oi! Não, a gente não precisa de camareira. Escuta moça, qual é a senha do wi-fi? Ah, ok. Não, só isso. Tchau.
– E aí?
– A senha é Usain Bolt, tudo junto, letra minúscula.
Oliver resmungou algo que poderia ser tanto "Quanta criatividade" quanto "Anta não se escreve com crase". Optei pela primeira, por ser mais racional e menos óbvia. Abri o YouTube e fiquei encarando a tela.
– Você pediu a senha do wi-fi para abrir um site e não fazer nada?
– Não, é que eu não sei o que fazer.
– Fale por você. Eu vou dormir. Vê se não faz barulho.
E foi a partir desse momento que eu percebi que primos mais velhos não servem pra nada. Pelo menos, o meu não serve.
Minhas pálpebras começaram a pesar. Pensei que alguém tinha me dado algum remédio para dormir, mas o fato de eu estar com um tédio maior que... Não consigo pensar em algo tão grande quanto meu tédio. O território da Rússia, talvez? Enfim, devido ao meu tédio ser enorme, comecei automaticamente a sentir sono. Desliguei o notebook, coloquei meu pijama do Homem de Ferro, me enrosquei nos cobertores e fechei os olhos.
Depois do que pareceram dez minutos, um som me acordou:
Beyoncé, Beyoncé
Shakira, Shakira
Just a beautiful liar...
Que tipo de pessoa colocaria esse tipo de música como despertador? Eu teria reclamado com Oliver, mas estava ocupada rindo da cara dele.
– Beyoncé e Shakira? O que mais você tem no celular? Madonna?
Ganhei um travesseiro na cara como resposta.
– Levanta daí e começa a se organizar. Temos 45 minutos para chegar no colégio.
Depois de 25 minutos eu estava devidamente arrumada e a mochila roxa onde eu guardara os salgadinhos agora estava cheia de livros. Uma troca cruel. E bem mais pesada.
Não sei se seria relevante descrever minha roupa, mas a quem possa interessar eu estava vestindo calça jeans, all star vermelho e a camisa do Capitão América.
– Não consigo me acostumar com esse seu cabelo. – disse Oliver, esbanjando caretice em uma camisa xadrez idêntica às outras nove que ele trouxe na mala.
– Fala como se eu tivesse pintado de amarelo neon. É vermelho cereja, e ainda tem cabelo original aqui. – me defendi, puxando um pedaço do cabelo para cima e revelando mechas pretas que resistiram bravamente à coloração.
– Você vai enjoar logo, e depois vai ficar tudo ressecado.
– Quem anda te ensinando essas coisas sobre tintura de cabelo?
– Caso você não se lembre, minha mãe já trabalhou com isso.
– Ah, é. Esqueci.
Fomos a pé ao colégio. Era bem grande, paredes revestidas com tinta branca e detalhes vermelhos. Tinha um portão de ferro na frente, por onde entravam vários alunos. Bem clichê.
– Boa sorte no seu primeiro dia, priminha. Sua sala é no segundo andar. Tente não dormir na aula de Filosofia, ok?
– Tente não parecer um irritante sabe-tudo. Alguns professores não gostam.
Ele bagunçou o meu cabelo como se eu tivesse sete anos de idade. Às vezes, Oliver diz que essa é minha idade mental.
Falou o cara que se não tomar chá às cinco horas da tarde fica em depressão por duas semanas.
Ao chegar na sala, a primeira coisa que eu pensei foi: um bando de malucos. A segunda foi: não tem lugar para eu sentar. A terceira foi: como eu queria um pacote bem grande de Doritos.
O que foi? Eu estava com fome!
Tinha um lugar para mim, afinal. Bem no fundo da sala, ao lado de uma menina com cabelo preto bem curto, uma blusa onde estava escrito "Vegetarianos arrasam", fones de ouvido em forma de kiwi, lendo um livro gigantesco.
– Vou sentar aqui, ok?
Ela assentiu com a cabeça lentamente, muito concentrada em seu livro. Olhei para as páginas, tentando identificar a história. Enquanto isso, ouvi murmúrios dos outros alunos: "Ela foi sentar com a esquisita..."
– Pode me fazer um favorzinho? – ela perguntou. Confirmei. – Do que eles estão me chamando hoje? A música não me deixa ouvir.
– Te chamaram de esquisita.
Ela revirou os olhos.
– Achei que eles ainda tinham criatividade. Francamente, Bob, não consegue pensar em nada melhor? – ela gritou para um garoto que quase dormia. – Eu preferia quando eles me chamavam de "Elementar". Mas "Metida a detetive" também era bom.
– Por que te chamariam de "Elementar"?
Ela mostrou a capa do livro, e eu pude ler: "Sherlock Holmes, obra completa de Sir Connan Doyle".
– Elementar, minha cara. – ela disse. – Já me acostumei faz tempo. Sou Louise Abernathie, muito prazer.
– Sou Rachel Rizzi.
– Que nome legal. Você é italiana?
– Mais ou menos. Me mudei para a Inglaterra quando ainda era pequena, então eu não falo italiano direito. Mas se você prestar atenção, eu tenho sotaque.
– Gosta do Capitão América?
– Na verdade, da Marvel inteira. E de Senhor dos Anéis, Star Wars e qualquer tipo de fantasia ou ficção científica.
– Nossa, você vai se dar muito bem com o Max. A gente se conhece faz tempo, mas como a diretora conspira contra os alunos, ele ficou na outra turma. Mas no intervalo eu te apresento ele. Gosta de música alternativa?
– Nunca ouvi. Prefiro rock antigo.
Nesse momento, o professor chegou e ela pôs o livro debaixo da mesa. Três longos e tediosos períodos se passaram e o sinal que anunciava o intervalo finalmente tocou.
– Acho que eu nunca ouvi um som mais bonito desde a última abertura de Star Wars. Vende alguma coisa na cantina? – perguntei.
–Hambúrguer, refrigerante, salgadinho... Basicamente isso.
– Agora sim, esse colégio fala a minha língua. – peguei dinheiro suficiente para comprar um hambúrguer, uma lata de refrigerante e um pacote de Fandangos. – Partiu.
Chegando no pátio, um garoto de cabelos castanhos, óculos acenava para nós. Ele usava uma camiseta com um telescópio e ao seu lado estava uma garota bastante familiar.
– Alice!
– Eu falei que a gente ia se esbarrar por aí, não falei? – ela disse.
– Se conhecem? – perguntou Louise.
– Encontrei sem querer com ela ontem na sorveteria. A gente bateu um papo enquanto consertavam a máquina que travou. – Alice inventou (muito bem, diga-se de passagem) uma desculpa.
Fui comprar meu lanche e, quando voltei Louise me apresentou a Max, e descobri que temos muitas coisas em comum, tirando a fixação dele por cientistas como Galileu e Nikola Tesla. Acho que retiro o que disse sobre "não fazer nenhum amigo". Pelo visto essa temporada em uma cidade nova não vai ser tão ruim.
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