Silverblade
4 O Estupendo Recanto do Grande G
Notas iniciais
Louise Abernathie
Era simplesmente impossível. Aquela casa era exatamente igual ao desenho de Alice. Desde a estrutura até as cores. Pedi para meus amigos pararem de andar.
– Alice, vem cá. – chamei. – Olha essa casa aqui.
Ela emitiu um ruído de surpresa, tampando a boca com as mãos.
– Como... Como pode?
– Gente? – indagou Rachel. – O que é que está pegando?
– Essa casa é idêntica a um desenho da Alice. – esclareci.
– Tenho ele aqui comigo. – disse a desenhista, puxando o caderno da bolsa e abrindo na página onde estava a casa e mostrando para nós. Não era uma peça pregada pela minha mente. Uma casa era a cópia perfeita da outra.
– Talvez a casa tenha ficado marcada no seu subconsciente? – sugeriu Max.
– Não. – descartou Alice. – Eu não conheço essa rua. O caminho que eu faço até a sorveteria é outro.
– Então eu sugiro que você mande um depoimento para esses jornais de ET's. Eles vão adorar, talvez vire primeira página.
– Você é impossível. – falei, rindo e esbarrando nele com o ombro de propósito.
– Eu acho que devemos entrar. – opinou Rachel, lendo o que estava escrito em uma placa de latão em cima da porta. Estava pintada de modo a parecer ouro.
– "O Estupendo Recanto do Grande G". – li em voz alta. – Que droga é essa?
– Quero entrar. – a ruiva insistiu.
– Tudo bem, vamos entrar, não precisa fazer pirraça.
Alice empurrou a porta, que rangeu. O cômodo à nossa frente era antigo, ou pelo menos decorado dessa forma. Havia uma mesinha de centro com várias cartas de baralho espalhadas. Antes que pudéssemos notar alguma outra coisa, algo passou voando pela lateral da minha cabeça e cravou-se na parede atrás de mim. O mesmo aconteceu com Max, Alice e Rachel.
Olhei para o lado para ver o que havia sido jogado em mim e me deparei com uma carta, mais precisamente uma rainha do naipe de paus. Vi Rachel tentar pegar a carta, mas uma voz imediatamente disse:
– Não toque nisso.
– Por que não? – ela protestou. – Você é uma voz, não pode fazer nada contra mim!
– Ah, então eu sou só uma voz? Caso não saiba, menina burra, vozes pertencem a pessoas.
– E daí?
– Pessoas podem fazer coisas contra você.
– Então faça, já que é tão bom. – interveio Alice. – Porque o que parece é que você é um covarde que se esconde atrás de uma cortina com um modulador de voz e jogando cartinhas.
– Touché. – a voz dessa vez estava diferente. Um garoto ruivo, de uns 15 anos, saiu de trás de uma cortina roxa quase imperceptível no canto do cômodo. – Você é boa nisso. Podem pegar as cartas.
– Por que eu sou o rei e não o valete? – perguntou Max, olhando sua carta, um rei de espadas.
– Isso é simples, meu caro rei. – e de repente, o desconhecido tinha um valete de copas na mão. – O valete sou eu. Quem é a rainha de copas?
– Eu. – disse Alice, mostrando a carta.
– Muito prazer. – e lançou uma piscadinha para ela, que fez uma careta. Disfarcei uma risada, fingindo que coçava o nariz. – Sabe, não sou eu que escolho as cartas. Eu lanço, mas elas vão para seus respectivos donos. Mas, cartas à parte, porque vieram aqui?
– Acontece que sua... Hmm... Isso é uma casa? Enfim, esse lugar é idêntico a um desenho da Alice. Mostra pra ele, Alice. – pedi. Ela estendeu a página do caderno para o ruivo ver.
– Incrível... Tem até a rachadura ao lado da porta, olha. – ele apontou. – Nunca tinha visto essa casa antes? – Alice negou com a cabeça. – Então só pode ser obra do destino.
Rachel me cutucou com o cotovelo, rindo. Lancei-lhe um olhar de "controle-se, mulher", tentando segurar o riso também.
– Afinal, quem é você? – perguntei.
– Não leram a placa na porta? Eu sou o Grande G! O maior mágico de Liversbadel!
– Não, não é isso. Quem é você, de verdade? Não, espera. Eu vou adivinhar. Você se chama George? Greg? Gary?
– Sam. Sam Green.
– Entendi. O G vem do sobrenome, então. Ok. Se chama Sam, tem cerca de 15 anos e é mágico. Foi seu tio que te ensinou os primeiros truques e te inspirou a continuar com isso? Bom, essa casa não deve ter sido sempre sua. A julgar pela pintura da fachada era dos seus avós, que devem ter se mudado para um lugar mais calmo. Sua casa de verdade é o andar de cima, certo? Aqui você recebe os espectadores. Seus pais não parecem morar por perto. Você precisa se sustentar, por isso faz esses shows de mágica. Aliás, sinto muito pelo seu gato.
– Como você descobriu tudo isso? É mágica também?
– Não. Eu só leio muito Sherlock Holmes, e isso me facilita na hora de perceber detalhes.
– Então explique como percebeu tudo.
– Vejamos. A idade foi fácil. Tios sempre querem ensinar novidades aos sobrinhos, é um fato. Como a casa tem pouca mobília, quem morava aqui antes se mudou. Francamente, essa cor da casa é cor de velho. Meus avós amam bordô, então achei que os seus também gostavam. Você não parece ter dinheiro suficiente para manter duas casas, então deduzi que o andar de cima serve para morar. Sei identificar pais ausentes. Meus pais são hippies, sei como se sente. E você deixou o cesto do gato jogado no jardim perto da entrada.
– Louise, às vezes você me assusta.
– Você também me assusta, Max querido. Não foi você que um dia entrou gritando na minha casa dizendo que tinha achado um fóssil no seu quintal?
– Mas tinha um fóssil! Meu cachorro deve ter escondido depois!
Eu até teria continuado o debate sobre o fóssil, mas fui impedida por batidas violentas na porta.
– Ah, puxa. – suspirou Sam. – Eles chegaram.
– Eles quem? – perguntou Rachel.
– Os mandachuvas. Agentes do Ladrão.
– Por que eles vêm aqui?
– Bem... – ele coçou a nuca em sinal de nervosismo. – Digamos que eu estou devendo.
– Devendo?
– É, bastante dinheiro. E todo dia eles vêm cobrar, delicados e pacíficos que nem um enxame de abelhas correndo atrás do urso com o pote de mel. Então façam o favor de se esconderem se quiserem viver.
– E como você espanta eles? Você tem armas ou diz "abracadabra"?
As batidas se intensificaram, e pude ouvir alguns chutes junto com elas.
– Primeira opção. – Sam nos empurrou para o andar de cima. – Subam e não saiam de lá. Eles acham que é um sótão vazio.
Concordamos, mas ficamos assistindo à tudo que acontecia por uma falha no piso, que abria um buraco pequeno. O ruivo abriu uma gaveta e tirou de lá uma pistola de dardos, uma pistola comum e um canivete suíço.
– Amigos! – disse, abrindo a porta. – A que devo essa inesperada visit... – e foi interrompido por um soco no nariz. – Ai! É isso o que eu ganho por ser gentil?
Outro acertou sua barriga.
– Cadê nosso dinheiro?
– Calma, eu não consegui ainda... – e discretamente começou a puxar o canivete do bolso.
– Pode ir largando isso aí. Já conhecemos seus truquezinhos de...
Seus olhos saíram de foco e ele caiu para trás, desacordado. Havia um dardo em sua perna. Depois disso tido aconteceu muito rápido: eram socos, tiros, ataques com o canivete, até que Sam conseguiu derrubar todos.
– As mãos são mais rápidas que os olhos. – comentou, com uma risada baixa.
De repente, vimos algo se mover perto da cortina. Um capanga tinha se encondido e ia atacá-lo pelas costas.
– E agora? – indagou Max.
– Fiquem quietos enquanto eu dou um jeito. – disse Alice. Depois, muniu-se com um abajur e desceu as escadas, acertando o bandido na cabeça com uma agilidade impressionante.
Sam deixou escapar um assobio. O resto de nós desceu até o primeiro andar para ajudar a esconder os bandidos e deixá-los presos por um tempo.
– Que horas são? – questionou-se Rachel.
– Já está escuro, devem ser umas seis da noite.
– Eu preciso voltar. Do jeito que meu primo é paranóico, deve estar querendo chamar a polícia, os bombeiros, a guarda costeira e o Loki para me procurar.
– Vou com você, então. – ofereci. Fomos conversando e nos despedimos na esquina da rua em que o hotel em que ela estava hospedada ficava.
Antes de ir embora, Rachel disse:
– Imagina só a cara do Oliver quando ele souber o que aconteceu com a gente e não com ele.
Rimos juntas, e virei a rua em direção à minha casa.
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