Silver Knight
8 O meu amor por você
Notas iniciais
O jantar estava realmente bom. Tinha de tudo do bom e do melhor. Digo isso porque tinha tudo — o que eu gostava também — e mais um pouco, era um banquete enorme! Não conseguia acreditar que todas essas delícias foram feitas em pouquíssimas horas. Já tinha marcado de passear pelo labirinto, a próxima vítima seria a cozinha, com certeza. Imagina quanta coisa boa teria por lá?
Olhei para Aspsel, que sorria com orgulho enquanto experimentava seus pratos. Era um garotinho com aparência de, no máximo, 12 anos, e cozinhava melhor que muito chefe da gastronomia. Criei uma nota mental para não me esquecer de parabeniza-lo depois.
Leo agitava próximo aos lábios um amuleto com um pingente em forma de espada no pescoço. Ele observava com cuidado Jack, enquanto o mesmo conversava sobre história medieval com Inka. Se Jack percebeu a análise de Leo, não estava demonstrando incômodo.
Comecei a observar Inka. Ela dissertava tanto com o irmão que parecia ter muito mais idade do que realmente tinha. Além do mais, ela o corrigia de vez em quando, o que eu achei o máximo pelo cara de paisagem de Jack quando ele assumia que ela estava certa, e ele errado.
Já Green, radiante como sempre, sorria enquanto conversava sobre as crianças do jardim com Phobe, parecia que as crianças tinham preparado uma surpresa para ela mais cedo.
O clima do lugar era agradável e calmo.
Alguns minutos depois, quando terminei minha sobremesa, Green se levantou e me chamou para acompanhá-la fora da sala. Levantei após pedir licença e fui.
Andamos pelo pátio e subimos a escada sem pressa enquanto conversávamos sobre diversas coisas.
— E aí? Como estava a comida? Boa? — Sorriu ela.
Eu abri um sorriso gigante.
— Aspsel é incrível! Quantos anos ele tem? 10? 12?
— 864.
Cai para trás.
— Não, diz sério! Como assim? É impossível.
Ela riu da minha reação, e quando parou disse docemente:
— Você encontrou fantasmas aqui, Kate, por que isso não seria possível?
— Vendo por esse lado... — Suspirei.
— Mas então, te chamei sozinha porque queria te fazer um convite — Ela bateu palmas alegres — amanhã você gostaria de ir numa fonte de água quente daqui comigo? Você vai adorar. Chamei Inka e Phoebe também — Ela se aproximou como se contasse um segredo. Quase ri por sua imitação perfeita, sorrindo em seguida — É um encontro de mulheres. — Ela deu uma piscadela simpática.
—Seria divertido! Que horas?
— Hm... De manhã, para começar bem o dia.
— Tá bem.
Green me acompanhou até o quarto e se despediu com um "boa-noite" e "não se atrase de amanhã, senão aí vai ver minha ira" ela me entregou um papel com coordenadas para a sala e saiu sorrindo.
Quando Green já desaparecia de visão, apertei o bilhetinho ao peito e sorri, observando o teto.
Eu me sentia estranhamente feliz.
E logo após, meu sorriso desapareceu.
Mas sempre tinha algo para me atormentar. E nesse caso, se chamava Willian. A nossa primeira e breve conversa me deixara inquieta. Decidi que deveria esquecê-lo temporariamente, porque agora tinha coisas bem melhores para se pensar.
Entrei rapidamente no quarto, afastando pensamentos indesejáveis de minha mente enquanto escovava os dentes e colocava o pijama. Dei impulso e pulei de costas na cama que alvejara tanto desde que botei os olhos. Sorri. Era realmente tão macias quanto algodão, e só o leve impacto de meu corpo em sua superfície, fazia com que o colchão me jogasse levemente para o lado.
Puxei um dos incontáveis travesseiros e coloquei sob minha cabeça. Mais uma vez, era tão macia quanto nuvens.
E aliás, como seria estar deitada em nuvens?
Com aquela leve brisa acariciando minha face enquanto eu era aninhada por "colchões" tão finos que eram levados preguiçosamente pelo vento...
Como se eu tivesse o peso de uma pena...
Sendo levada pelo vento...
Para bem longe...
— Tá acordada?
Acordei de meu sonho nas nuvens, suspirando. A voz era de Jack.
Cocei os olhos, murmurando.
— Tô dormindo.
— Eh, desde quando fala enquanto dorme? — A voz por detrás da porta voltou a rir.
Eu ri baixinho, meio chateada de ter sido acordada de um sonho tão bom, mas feliz por ser ele.
— Agora eu já acordei. Entra logo.
Talvez fosse interessante conversar agora.
Ouvi a porta se abrindo e sentei com dificuldade na cama. Realmente já estava num sono profundo.
Jack sentou na borda da cama e fez uma careta quando viu minha cara de sono.
— Queria conversar, mas você parece estar cansada.
— Ah, mais ou menos, eu posso aguentar mais algum tempo.
Ele abriu um leve sorriso, mas parecia não querer incomodar tanto.
— Você gostou daqui?
— É fantástico. Posso morar aqui?
— Infelizmente não. Quando era menor também tinha a mesma vontade, mas não podia abandonar meus estudos na Academia. — Ele apoiou a cabeça na mão — Bem, não que eu tivesse tanta escolha. — Murmurou.
— Tem mais gente que conhece esse lugar? — Perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— Não, somos só nós três.
— Por quê?
Bocejei, o sono era persistente.
— Porque esse lugar é sagrado. É a casa de um deus... Conheci Green por acaso, quando a encontrei cantando para uma flor. A flor cresceu ao longo da canção. — Seus olhos brilharam ao se lembrar — Já deve ter adivinhado: eu me encantei. Era pequeno e nem sabia o que era isso.
Ele abriu um sorriso nostálgico, algo me dizia que ele gostava daquela época mais que atualmente, mas não quis perguntar.
— Green é uma deusa? Do quê?
Bocejei novamente, agora deitando ao contrário da cama, de modo que ficasse próxima de Jack.
— Sim. Terra. São quatro deuses principais que representam elementos. Ar, água, fogo e terra. Conhecemos Green como a Mãe Natureza.
Ele começou a me olhar, percebendo que eu estava com um olhar distante.
— É incrível... — Balbuciei.
Jack sorriu e acariciou meu devagar cabelo. Acho que ele realmente queria que eu dormisse. Às vezes Jack era tão carinhoso que eu até estranhava, mas sabia que aquele era o jeito dele. E de qualquer forma, eu gostava — e precisava — de todo aquele carinho.
Aproximei-me e acabei por encostar o rosto em sua perna. Eu me sentia quase que como um gato pedindo atenção.
Ouvi um baixo riso vindo dele, e então o ouvi sussurrar:
— Quer que eu fique aqui mais um pouco?
Fiz que sim com a cabeça. Na verdade já estávamos acostumados com isso, tínhamos crescidos juntos e não era raro as vezes em que dormíamos abraçados ou um do lado do outro quando Jack ia em casa. Seus pais viajavam demais por causa do trabalho e como Jack não gostava da casa vazia, com alguns empregados silenciosos, vivia junto a minha mãe, Raquel, eu, e meu pai — antes do mesmo falecer. Era difícil eu me lembrar de alguma vez em que passei algum tempo considerável sem Jack. Ele estava sempre ali, e eu realmente não ligava, e nem ligo. Eu sempre o amei demais, e isso não ia mudar tão cedo.
Ele tirou os tênis e deitou ao meu lado, me abraçando em seguida.
Era confortável demais abraçá-lo. O sentimento de calma e proteção tomava conta de mim, e de todos os mimos que recusava, esse era de longe aquele que mais dava tréguas. Seus braços quentes e longos abraçavam as minhas costas enquanto de olhos fechados, eu desfrutava de cada toque. Imaginei por um momento como seria se, a nuvem que tanto queria que me levasse para longe fosse, na verdade, Jack. Meu rosto imediatamente queimou com o meu pensamento idiota. Eu devia estar dormindo há muito, muito tempo.
Fechei os olhos com força e fiquei me repreendendo por ser tão infantil.
Jack pareceu não perceber o meu constrangimento, porque era comum para ele também tal proximidade entre nós. Aliás, ele continuou a mexer com as pontas do meu cabelo, parecia se divertir com isso.
— Leo me chamou para treinar junto com ele amanhã... — Jack comentou baixo, na esperança de que eu ainda estive acordada.
Mas eu quase nem estava ali. Pensamentos de todo tipo invadiam minha mente, e eu estava cada vez mais afundada neles. Principalmente naqueles que diziam respeito a Jack. Quando que eu tinha começado a pensar um pouco diferente sobre ele? E porque quando ele ficava tão próximo eu me sentia envergonhada? Talvez a idade? Ah, difícil responder.
Ele era atencioso, protetor, gentil, compreensivo, irritado quando eu dava uma de teimosa. Eu nunca procurei listar as qualidades de Jack, e, agora, cada vez que encontrava uma era mais difícil encontrar um defeito, porque cada um deles me levava de volta a uma qualidade.
Era a primeira vez que notei o quanto tive sorte em ter Jack ao meu lado. Eu sabia por que pensava tudo isso, sabia o motivo de gostar tanto de Jack, sabia por que ele era tão dessa forma, era porque ele é...
— Simplesmente perfeito. — Pensei alto, quase balbuciando.
Não consegui ouvir ou ver qualquer tipo de resposta ou expressão da parte dele, pois acabei dormindo logo após, sem me dar conta do que tinha dito.
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