Silver Knight
6 Em casa, de certa forma
Notas iniciais
Phoebe sorriu meio a alegria do garotinho e logo refletiu nostálgica:
— Já faz um tempo...
— De quem estão falando? — Quis saber.
Phoebe mexeu a cabeça.
— Levaremos a senhorita até lá. Não se preocupe. Green-sama é muito gentil.
— Eu não entendo... — Murmurei entre dentes.
— Senhorita? —Aproximou-se Phoebe.
— Por que tudo isso tá acontecendo? Eu fiz alguma coisa errada?
Me encolhi enquanto os observava sem esperar alguma resposta. Eu me sentia estranha.
— Desde que cheguei aqui eu mudei, não sei o que aconteceu, mas quero minha vida de volta. Me sinto... — refleti por um momento —... vazia.
Após essas palavras escaparem de mim como um suspiro, Phoebe e o garotinho se entreolharam enquanto erguiam as sobrancelhas. Logo depois o garotinho decidiu se manifestar de forma calma:
— Provavelmente vai ter a resposta para suas perguntas bem em breve.
Phoebe esticou uma de suas delicadas mãos e tocou em minha testa com um dedo. A mesma luz de antes tomou conta do lugar. Consegui sentir meu corpo flutuar por uma fração de segundo, pousando-me em um chão macio e levemente pontudo. Quando consegui enxergar, percebi o quão lindo era o lugar onde estávamos.
Um jardim imenso cobria boa parte da minha visão. O ar era totalmente confortante e materno. Observei em volta, encantada com a visão: era todo colorido por flores, borboletas, insetos. Uma grande fonte de três andares que afinavam ao final marcava o centro do grande jardim. Eu ainda estava boba com tamanha beleza quando Phoebe interrompeu docemente:
— Este aqui é o jardim da Green-sama. Venha, senhorita, a levaremos até o castelo.
O garotinho ria com minha cara de boba para o lugar. Quantas vezes ele já deveria ter vindo aqui?
— Phoebe? — Uma voz delicada chamou, seguido de vários risos de crianças.
Phoebe virou-se de supetão e fez uma reverência depois de superar a surpresa.
— Green-sama! — Exclamou Phoebe.
O garotinho logo a seguiu. Atrasei ao me virar, e quando o fiz me surpreendi com a beleza exorbitante da mulher a nossa frente.
— Phoebe, Aspsel! Vocês sumiram do nada! Me deixaram bastante preocupada. — Ela fez uma careta enquanto empurrava levemente as costas de duas das crianças ao redor dela, as fazendo correr e rir para outro lado junto as outras.
Phoebe e o garotinho, chamado agora Aspsel, sorriram com o carinho.
A mulher chamada Green tinha cabelos lisos verde musgo. Vivos e soltos. Os olhos tão castanhos quanto os meus, mas os dela esbanjavam sem medo expressões, era como se caso eu olhasse diretamente, poderia ser sugada para dentro dessa porta cheia de sentimentos. Era incrível.
Sua pele corada combinava com um estilo verão que nunca tive. Era um pouco mais alta e com mais curvas que Phoebe. Antes eu poderia julgar Phoebe como a pessoa mais bela que já vira na vida, mas ela acabara de perder facilmente o lugar para Green.
A flor vermelha na lateral direita de seu cabelo chamava bastante atenção, e se eu fixasse meu olhar no mesmo, poderia dizer que até brilhava.
Levei um susto com a abordagem da mesma:
— Ah! Você deve ser Katherine, não é mesmo? — Ela pulou em minha direção e segurou minhas mãos com as suas macias. — Estou tão feliz por te conhecer! Jack fala demais de você. E sinto em dizer, mas dói até os meus ouvidos! — Disse com um sorriso torto.
—Você o conhece? — Consegui apenas dizer, apertando levemente as mãos dela.
Vi Phoebe desviar o olhar enquanto Aspsel assoviava.
Percebi a tamanha informalidade da minha parte quando percebi o olhar surpreso de Green.
Ela logo riu da minha situação, fazendo-me corar.
— D-Digo... A senhorita... e, bem...
— Você é uma graça, Kate! Me trate como trata uma amiga, o.k.? Venha, vou te mostrar a minha casa.
Ela largou uma de minhas mãos e me acompanhou por um labirinto após a fonte. Phoebe e Aspsel seguiam quietos atrás de nós, interrompidos vez ou outra por algumas crianças lhe dando flores e rodando em suas pernas. Notei que as mesmas não possuíam pés muito visíveis e brilhavam levemente.
— Essas crianças... São espíritos?— Sussurrei para Green.
— Ah, sim — Ela espiou levemente pelo ombro e voltou-se para mim com um sorriso simpático. — Bem
esperta — Ela deu uma piscadela.
Seguimos em silêncio por mais alguns segundos quando Green me observou.
—Ahn... — Seu sorriso quase desapareceu — parece meio tensa. Tem algo errado?
Engoli em seco. Ela tinha percebido?
— Está tão visível assim?
— Talvez não, mas a mim sempre vai estar. — Ela continuou me olhando. — Envolve tudo isso aqui, não é? Deve ser complicado mesmo... — Ela suspirou.
Dobramos um corredor entre o labirinto cheiro de trepadeiras e flores cobrindo os muros. Continuei:
— Eu acho que não posso esconder nada de você. — Olhei para seus olhos com um mínimo sorriso.
Sentia que ela podia decodificar rapidamente qualquer um apenas olhando nos olhos. Comigo não seria diferente. Realmente não dava para esconder.
— Não pode. — Ela balançou a cabeça, com um sorriso gentil. — Mas vai perceber que isso não é de todo ruim.
Ela acariciou levemente minha mão num gesto amigável. E era verdade. Talvez tudo o que eu precisasse era de alguém para me ajudar sem que eu tivesse que me expor. Green sabia exatamente os sentimentos que passavam por mim, e não os motivos.
Abri um leve, mas feliz, sorriso.
Ela olhou para o céu, observando as nuvens brancas se movendo lentamente pelo céu azul um pouco escuro pela hora.
— Ahh... Vamos nos dar tão bem! — Ela sorriu, fechando os olhos.
*****
Se eu me surpreendi com o jardim, eu não tinha palavras para descrever a minha reação a grandeza do pequeno castelo de Green. Era de pedras, e muito delas estavam lotadas de trepadeiras e flores por todo lado. Estava quase camuflada meio a tanto verde.
Dentro do mesmo era quente e as mobílias eram enfeitadas e cheias de detalhes esculpidos em madeira. Variavam de marrom a dourado, era confortante aos olhos.
Quando chegamos a sala, Green abriu levemente os lábios para dizer algo, mas não concluiu e apertou levemente minha mão.
— Ah, visita! Kate, espere aqui, por favor. Eu já ven...!
Quando ela se virou, bateu desajeitadamente no peito de um homem alto de cabelos escuros médios. Ele fez uma careta quando eles se esbarraram.
Phoebe corou e Aspsel segurou o riso.
— Ahn... — Ela acariciou o nariz, espirrando duas vezes. — Leo, isso não tem graça! — Choramingou ela. — Você não devia saber o caminho do labirinto até aqui, sabia?!
Foi aí que percebi: eu não me lembrava do caminho até aqui, e eu prestei uma atenção especial por ser a primeira vez que vinha. Talvez tivesse algo que impedia da pessoa se lembrar, visto que o labirinto cobria todas as passagens até o castelo. O mesmo ficava bem no centro do labirinto, mas em nenhuma vez o vi enquanto vinha. Os muros eram muito altos.
Ele deu de ombros, sentando-se numa poltrona a minha frente. Ele jogou os braços atrás da cabeça, meio cansado. Ele tinha um jeito descontraído e leve, uma parte do que fazia seu charme.
— Você me ensinou, não tenho culpa. — Murmurou com sua voz grave.
Green corou feito uma pimenta, e saiu distribuindo tapas em Leo. Desconfiava se ele podia sentir dor em algum deles, mesmo com alguns tecidos por cima, dava para ver que seus braços e peito eram bem fortes. Phoebe e Aspsel riram alto com a situação. Não pude deixar de rir junto.
— Babaca! — Brigou ela, feito uma criança irritada, mas de forma fofa.
Ele sorriu e a encarou. A sala ficou em silêncio completo.
— Hmf... — Ela murmurou novamente, dando um ultimo tapa na cabeça dele.
Ele riu, conseguindo o que queria. Algo me dizia que isso acontecia com frequência.
Ela respirou fundo e conseguiu recuperar parte da postura. Cruzou os braços, jogou levemente o quadril para um lado, e, com um ar superior e um pouco irritado, exigiu:
— Aspsel, prepare a janta, por favor. Phoebe, mostre o quarto que preparei para Kate. O resto eu cuido.
— Sim, Green-sama! — Disseram em uníssono.
Senti que o "resto" se dirigia mortalmente a Leo. Quando o mesmo riu, fazendo-a corar, pude perceber que estava certa.
Phoebe me ajudou sem necessidade a levantar e sorri para o casal da sala antes de entrar em um corredor bem amplo e iluminado por pequenas luzes em série no teto, deixando algumas partes escuras. Desconfiava que se ficasse muito tempo ali, poderia até dormir.
Subimos dois andares depois de atravessar vários corredores. Passamos por algumas portas brancas e chegamos ao fim de uma esquina do corredor. Phoebe virou-se e abriu com uma chave a ultima porta do mesmo. Agradeci mentalmente a Green por ter sido mais uma vez incrível ao me colocar num quarto que poderia decorar facilmente onde ficava. Perguntava-me o quanto ela já poderia me conhecer apenas por me olhar nos olhos.
— Aqui será o seu quarto, a senhorita pode decorá-lo como quiser, essa é apenas uma decoração inicial — Sorriu Phoebe, logo abrindo a porta.
Fiquei imediatamente boquiaberta com tamanho espaço do quarto. A cama era enorme e seus cobertores e travesseiros aparentavam ser mais macios que algodão. De frente para cama tinha outra porta, aparentemente para o banheiro. O guarda-roupa marrom com detalhes em um tom mais escuro cobria uma longa parede inteira. Havia uma escrivaninha ao lado da cama e um criado-mudo da outra, onde estava um relógio. Do outro lado da cama cortinas grandes e claras cobria uma porta-janela enorme para uma varanda redonda. Dava para mim e mais quatro pessoas morar ali.
— Nossa... É tão grande...
— A-A senhorita não gostou?
— N-Não! De forma alguma! É maravilhoso! Como tudo daqui é. E, Phoebe, por favor, me chame apenas de Kate.
Ela abriu um longo sorriso.
— Está bem. Fico feliz! Venha, provavelmente quer um banho, certo? — Sorriu ela.
Esfreguei as mãos, animada.
— Sim! Por favor.
Entramos no quarto, e enquanto ia direto a varanda, Phoebe abria a porta em frente a cama.
Observei a bela visão. Dava para ver todo o jardim de lá, inclusive o longo labirinto. Eu me perderia lá com a maior facilidade sem ajuda. Talvez eu me arriscasse qualquer hora.
Apoiei minha cabeça em minhas mãos enquanto observava o Sol se pondo lentamente no horizonte.
Me perguntava o que tinha acontecido de ruim quando vim para cá, não lembrava de nada. E quanto a Jack? Será que ele já estava melhor? Ele planejou tudo isso para mim porque ele estava mal demais? De onde ele e Green se conheciam?
— Kate? — Phoebe chamou da porta da varanda. — Preparei seu banho e arrumei uma roupa para quando sair. Agora se me der licença, eu preciso arrumar algumas coisas — Ela sorriu, logo se virando.
— Espere, Phoebe.
Ela se virou, ainda com o sorriso.
— Sim?
— Que lugar é esse?
Ela alargou um pouco mais o sorriso
— Um santuário. O santuário e casa da deusa Green.
Pisquei rapidamente, não era essa a resposta que estava querendo.
— Obrigada, Phoebe.
— Não há de quê. Se precisar de algo, estou à disposição.
E ela saiu rapidamente, deixando-me apenas com a brisa da varanda e o quarto enorme que certamente chamaria de meu por algum tempo.
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