Silhouette
1 Prólogo
Notas iniciais
Como se pudesse esquecer
Foi apenas um momento
Foi apenas uma vida
Mas esta noite você é um estranho
Apenas uma silhueta"
?”Aquilo
Enebriado, esse era o melhor adjetivo que eu poderia dar para o horizonte naquela manhã. Cheiro de terra molhada e café sendo coado. Meu corpo despendurado sobre uma janela, sentia o vento bater contra ela, enquanto observava o horizonte ser consumido por todos aqueles prédios. Não deveria passar das 7:00h, ainda não havia pegado meu celular, para ser bem sincera, estava correndo dele desde a última vez, desde a última mensagem que enviei e não havia nenhum relógio a minha volta.
Observei a rua abaixo de mim e vi que algumas pessoas transitando, pareciam formigas de onde eu enxergava. Todos imersos em suas vidas, em suas rotinas e em seus próprios problemas. Queria poder ser uma formiga, me sentiria menos consumida e meu maior problema seria encontrar comida para hibernar.
Peguei o celular e senti a capinha vermelha de silicone encontrar meus dedos. Bufei e abandonei o celular em cima de minhas coxas, sentia meu rosto queimar e tinha certeza que estava vermelha. Suspirei novamente e me confrontei a pegar novamente. Não podia fugir mais daquilo. A qualquer momento eu seria obrigada a confrontar a realidade, mas observar o horizonte parecia uma maneira tão melhor de começar o dia. Não parecia ser um daqueles dias ruins, parecia que tudo daria certo para ser bem sincera. O cheiro de chuva me dizia aquilo, me abraçada e me convidava para ser confortada em seu aroma.
Minhas costas doíam de estar sentada naquela posição por tanto tempo, meu corpo pedia por cama, pois não havia conseguido dormir muito bem na noite anterior. Mandei a mensagem era por volta das 23h, esperei por exatamente 1h, aflita, olhando o celular a cada cinco segundos, mas após nenhuma resposta resolvi ir dormir, mas meu cérebro não permitiu. A todo momento eu era perturbada por aquela sensação que não merecia dormir. Não merecia estar bem ou me sentir bem, nem mesmo aproveitar um céu enebriado como aquele, nem mesmo o cheiro de chuva, nem a sensação de paz.
A cafeteria do outro lado da rua estava movimentada, adivinhei que seria por volta das 7h porque geralmente este é horário que as pessoas mais transitam por ali, com seus celulares, seus copos de café correndo para qualquer obrigação que as estejam esperando. Respirei fundo e consegui vê-lo, do outro lado da rua, cabelos despojados, alto, com a barba sem fazer há algumas semanas. O café em sua mão provavelmente já deveria estar frio depois de tanto falar no telefone, mas ele continua em uma discussão acirrada que ele se recusa a perder. O sorriso debochado enquanto escuta a outra voz é um sinal que ele não está nenhum pouco preocupado com aquele embate, ele sabe que consegue convencer o que quer que seja, consegue o quer que queira, mas na verdade, não há ninguém assim do outro lado da rua, estes são apenas meus pensamentos sobre ele, é apenas a culpa projetando-o em minha mente, me pedindo para não fugir.
Peguei o celular novamente em uma mão, encaro meu papel de bloqueio que contém a cara sorridente da Lorelai de Gilmore Girls, ela me olha como quem soubesse que preciso de apoio num momento daqueles, mas na verdade sei que não passa de um papel de parede. Desbloqueio o celular e ativo a internet. Desligo novamente a tela do celular e o viro de costas, sinto a vibração em meu colo e quase sinto lagrimas escorrerem dos meus olhos, elas estão a espreita, prontas para descerem.
Meu coração está pesado, meu corpo está pesado e tudo que quero fazer é me debulhar em lagrimas, mas não posso, não tenho esse luxo, não mereço esse luxo. Viro o celular novamente em meu campo de visão e encaro as notificações. A primeira é alguma marcação no facebook por parte da Victoria, algum post engraçadinho presumo. A segunda é onde se concentram todas as mensagens do whatsapp. Nenhuma ligação. Nada de anormal. Clico na notificação.
5 mensagens, a principal é a mais antiga e diz exatamente assim, apenas 1 mensagem, 3 palavras:
“também sinto muito.”
As exatas palavras para que meu coração se aperte e as lagrimas finalmente saiam, escorrendo desenfreada, enquanto encaro a ordem exata das mensagens.
“sinto muito, não consigo mais levar isso adiante. Não consigo me casar com você, sinto muitíssimo.”
“também sinto muito.”
Por telefone. Sou uma covarde. Não consigo fazer nada direito, a não ser machucar a todos a minha volta. Não lhe dei uma explicação, não tentei contatá-lo pessoalmente. Para ser sincera não conseguiria nem olhar para seus lindos olhos castanhos. Era uma covarde, tão patética e solitária quanto qualquer pessoa poderia ser, mas não foi aqui que essa história teve início e sim naquele dia. O dia que eu resolvi finalmente descer do prédio.
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