Silhouette
4 Primeiros passos
Notas iniciais
A inquietude dele era perceptível através dos passos ritmados dele pelo cômodo atrás de alguma coisa que estivesse fora do lugar, e assim perturbasse o ambiente. Mas para a completa frustração dele não havia nada fora do lugar, todas as mínimas coisas repousavam passivelmente em seus devidos lugares.
Soltando um suspiro exasperado ele percebeu que não havia mais como protelar o momento que vinha adiando desde que chegara em casa. Calmamente, inspirando e expirando, ele subiu as escadas em direção ao quarto da filha, silenciosamente ele desejou que Marian estivesse ali, ela parecia sempre pronta para lidar com as situações de conflito, quase como se fosse algo natural.
Ele se encostou no batente da porta e em silencio observou a linda garotinha de cabelos longos debruçada sobre o chão que era coberto por uma espécie de quebra-cabeça colorido e aveludado, enquanto coloria o desenho que havia feito mais cedo naquele dia. Reticente em romper a concentração dela, ele tirou o celular de um de seus bolsos e ligou a lanterna jogando o faixo de luz em direção a garota e assim capturando a atenção dela.
Com um sorriso que agora ostentava uma falha na parte inferior, Autumn se virou em direção ao pai, e empurrou o corpo miúdo em direção a parede indicando assim que o pai se juntasse a ela no chão. Ele se juntou a ela e a observou colorir por mais alguns minutos em silencio, então, ele se surpreendeu quando ela deslizou o desenho em direção a ele. A folha de tamanho A4 tinha o fundo pintado de azul e no centro a figura de um anjo de asas rosas e cabelos pretos que apontavam em todas as direções, trazia na parte inferior uma única palavra, palavra essa que tirou completamente o chão Robin, e ele precisou inspirar profundamente afim de conter as lagrimas que pinicavam os cantos dos seus olhos . ‘Mom’, era a palavra que Autumn havia escrito.
“É um lindo desenho querida” ele sinalizou para a filha após o breve segundo que precisou para se recuperar do golpe.
“Obrigada papai.” A menina respondeu expandindo o sorriso falho em direção a Robin.
"Você sente falta dela?” Robin perguntou e sentiu como se a garganta aos poucos se fechasse dificultando assim sua respiração, aquele ainda era um assunto que ele não sabia como falar com Autumn.
“Sim” A menina respondeu de forma simples e seguida dedicou sua atenção a folha em branco que substituiu o lugar onde a folha que desenhara a mãe estava a alguns minutos antes.
“Autumn” Robin disse tocando a filha de forma a ganhar a atenção dela novamente. E de repente os olhos claros e atentos dela acompanhavam todos os mínimos movimentos do pai. “Nós precisamos conversar querida. Existe alguma coisa que você deseja me contar ?”
Um vinco se formou na testa da menina e o semblante dela denunciava que ela repassava em sua cabeça todos os acontecimentos do dia procurando a que o pai se referia. Sem pensar em nada ela apenas balançou a cabeça em sinal de negação como uma resposta ao pai.
“Hoje eu e a senhorita Mills tivemos uma conversa, e ela me contou que você disse palavras que não devem ser dita a um dos seus coleguinhas, você quer me dizer por que você fez isso?”
“Por que ele estava sendo um babaca.” Autumn respondeu após ficar em silencio por uns minutos.
“Autumn, essa não é uma palavra gentil, isso é algo ruim, portanto não devemos chamar as pessoas assim.”
“Mas a vovó te chamou assim quando você gritou com ela, e Doug gritou comigo e amassou o desenho de Belle, por isso eu também o chamei de babaca.”
“Querida, primeiro eu quero te pedir desculpa, eu não queria que você tivesse visto minha briga com sua Avó, às vezes os adultos fazem coisas que não deviam fazer e dizem coisas que não deveriam quando estão muito estressados. Eu e sua avó discordamos em algumas coisas, mas esta tudo bem, eu prometo a você, ok?” A garota que observava atentamente o pai balançou a cabeça em concordância, e Robin deixou um sorriso se espalhar por suas feições quando observou as feições da filha, era quase como se pudesse ver as engrenagens girando na cabeça dela, afim de fazer com que tudo fizesse sentido. “Segundo, o que Doug fez não está certo, e eu entendo que você tenha ficado chateada, mas quando algo assim acontecer você precisa falar com a senhorita Mills, tudo bem? Por que se você xinga como fez, você também está fazendo algo que não é certo querida.”
“O.K” ela disse falando de modo pausado as letras.
“Então amanhã eu quero que você faça duas coisas, eu quero que você peça desculpas a senhorita Mills, e também a Doug, mas diga a ele como você se sentiu quando ele gritou e explique que você não gostou, tudo bem?”
“Tudo bem. Eu posso ter uma tigela de froot loops antes de ir dormir?” A garota perguntou com os olhos marcados pela expectativa.
Robin estava pronto para negar, uma voz em seu subconsciente dizia que ele precisava ‘castigar’ Autumn pela atitude dela naquela tarde, mas ignorando ele apenas decidiu que não faria mal ser um pai ‘permissivo’ naquela noite.
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A ruiva de cabelos cacheados lutava contra eles com mau humor, detestava acordar cedo e de forma silenciosa pensava em maneiras diferentes de torturar a melhor amiga que caminhava empurrando o carrinho de compras pelos corredores como se estivesse tudo bem, e para ruiva nada estava bem.
“Me explica novamente por que você me colocou pra fora da cama quando nem o sol havia nascido ainda.” A ruiva resmungou enquanto arrumava o óculos de sol no rosto.
“Não seja tão dramática, são nove horas da manhã.”
“Esse é meu ponto, se são nove horas da manhã agora, isso significa que você me acordou pelo menos às oito da manhã e isso é inaceitável. Levantar antes das onze da manhã é algo inconcebível para mim.”
“Você tem péssimos hábitos, eu já te disse isso? Enfim, você prometeu a Henry que almoçaria com a gente, e eu precisava passar no supermercado antes que fossemos para lá, então bico calado e pegue aquele sache de sopa de cebola para mim, ele é ótimo para temperar frango.”
Resmungando a ruiva ficou na ponta dos pés e pegou o sache para amiga, logo em seguida elas caminharam para o próximo corredor onde a morena pegou um pacotinho com fermento biológico, uma vez que pretendia fazer pães caseiros para acompanhar a refeição que seria creme de couve flor com champignon e frango assado.
Apesar de morarem na mesma cidade, a casa em que Henry – pai de Regina- morava e na qual ela havia crescido, ficava a cerca de quinze minutos de distancia da atual casa em que a morena. Depois do acidente que tirou a vida de Cora e audição e uma perna de Henry, Regina tinha se tornado totalmente a garotinha do papai, ela assumiu as reponsabilidades da casa mesmo ainda sendo muito nova, assim como tomou para si a responsabilidade de cuidar do pai da melhor forma possível.
Quando Regina completou vinte e um anos, no entanto, Henry decidiu que ela precisava criar asas e voar. Ele sentia-se culpado, sentia que de alguma forma ele estava privando a filha de poder ter as próprias experiências, os próprios conflitos, e a própria vida. E foi assim que ela alugou uma casinha modesta próxima a escola onde ela trabalhava, e era lá que ela morava desde então.
Com a correria do dia a dia, o máximo de contato que ela conseguia manter com o pai durante a semana, eram as esporádicas chamadas de vídeo, que aconteciam as vezes as quartas e as vezes quintas, dias que ela conseguia sair mais cedo da escola, uma vez que suas turmas tinham os últimos horários nesses dias dedicados a aulas de musica e educação físicas, e tais aulas eram dadas por outros professores. Os sábados, no entanto, eram reservados ao pai, ela dirigia para a casa do pai, e preparava uma refeição para eles, em seguida eles conversavam e se atualizavam sobre o que havia acontecido na vida de ambos no curto período que haviam ficado sem conversarem.
Nos fins de tarde Henry preparava café com creme para eles, e eles caminhavam até a estufa que ficava no imenso quintal da casa e cuidavam com o maior carinho e cuidado do mundo das diferentes, perfumadas e coloridas flores que Cora havia dedicado seu cuidado durante anos de sua vida. Normalmente, quando Rebecca acompanhava Regina até a casa de Henry, ela optava por não aceitar o convite deles para ir até a estufa, ela havia ido uma única vez, e sentiu como se tivesse se intrometendo em algo no qual ela não deveria. Era um momento muito intenso, quase como se pai e filha pudessem se conectar com Cora.
“Papai” A morena cumprimentou assim que o pai abriu a porta. Mesmo tendo a chave da casa, ela preferia tocar a campainha, que devido a um sistema acionava uma lâmpada e assim Henry era capaz de perceber que alguém o chamava. A morena tinha medo de assustar o pai ao entrar em casa sem avisar, uma vez que ele não conseguiria ouvi-la.
“Minha pequena” Ele sinalizou com um grande sorriso no rosto, e logo em seguida a puxou para um abraço apertado.
Após as habituais e rápidas saudações a Regina, Henry logo dedicou toda sua atenção a ruiva. O carinho que ele tinha pela amiga da filha era enorme, uma vez que Henry havia visto as duas crescer e havia dedicado sua atenção e carinho as duas. E um dos passatempos favoritos da ruiva era implicar com a morena, dizendo que Henry a amava mais.
“Sua filha favorita chegou” Rebecca disse pausadamente, porque mesmo que soubesse o básico da língua de sinais, ela acaba se embolando em algum momento e como Henry tinha uma capacidade incrível de fazer leitura labial, eles acabaram decidindo que talvez fosse melhor eles mantem a comunicação assim, ela falava e ele lia os lábios dele.
“Vai sonhando!” Regina respondeu empurrando a amiga para longe, e abraçando o pai, que caminhou com as duas até a cozinha.
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Uma rápida vistoria nos armários da cozinha sinalizou que não havia mais como adiar a ida até o supermercado. Como ainda era cedo Robin resolveu que naquela manha fria de domingo, ele e Autumn teriam o café da manha numa confeitaria/ café que havia aberto a pouco tempo na cidade. A confeitaria chamava Que seja doce ganhar e Autumn era completamente apaixonada pelo local que parecia ter saído direto de dentro de um livro infantil, a dono do local que coincidentemente se chamava Regina, diante do encantamento de Autumn havia dito a ele que entendia bem, pois tinha filhos na idade da menina de tranças loiras.
Autumn parecia ter sido recarregada em uma potente fonte de energia quando descobriu onde ela e o pai tomariam o desjejum naquele dia. Pedindo ao pai para usar as galochas azuis de brilhinhos ela saiu pulando e gesticulando por todo o caminho, e Robin acabou desistindo de fazê-la se aquietar. Era extremamente reconfortante vê Autumn alegre daquela forma, principalmente depois da semana que finalmente chegará ao fim. Tinha sido uma semana difícil, Autumn havia perguntado pela mãe mais de uma vez, e acordará uma madrugada chorando e dizendo que estava com saudades.
“Tudo bem querida, deixe eu te ajudar.” Robin disse ajudando a filha a sair de um grosso casaco que a ajudara contra o frio que se intensificava lentamente do lado de fora. Logo em seguida ele a ajudou a se sentar confortavelmente, e a entregou o cardápio.
Autumn era uma garota inteligentíssima, e isso era uma das muitas características que enchia Robin de orgulho. Ela ainda estava na fase da alfabetização, e, portanto, estava começando a ler as palavras, silenciosamente ela juntava as letras em sua cabecinha e sinalizava para o pai perguntando se havia juntado as silabas de forma correta. Robin adorava vê-la se aventurar no mundo das palavras.
“Você sabe o que vai querer?” Robin perguntou chamando a atenção da filha.
“Eu posso ter um cupcake redevelvet com cobertura de frutas silvestres e um de chocolate?”
“Vamos pedir um primeiro, sim? E então se você decidir que pode lidar com mais um a gente pede o outro”
“Ok” A menina concordou balançando as perninhas que pela altura da cadeira não alcançavam o chão
Pai e filha aguardaram o pedido, enquanto comentaram sobre Dinossauros. Robin nunca havia entendido de onde havia surgido o crescente interesse da filha por essas criaturas a muito tempo extintas, mas ele amava como Autumn e Marie eram capazes de passarem horas conversando sob o tópico, e como elas pareciam não se cansar de assistir Vale dos Dinossauros .
“Tia Marie me disse a noite passada que entre os dinossauros que comiam folhinha...”
“Os herbívoros” Robin forneceu a ela o nome e em completa animação ela balançou em concordância.
“Sim esses, tia Marie disse que o maior deles é Argentinossauro, ele tinha quase 45 metros de comprimento.”
“WOW! Isso é bem grande certo querida?”
“Sim! Eu queria ver um desses um dia.”
“Você não ficaria com medo?” O loiro perguntou com um sorriso no rosto.
“Não, eu sou uma menina grande, foi isso que Tia Marie me disse a noite passada.”
“Sim, você é uma menina grande.” Robin concordou e então sentiu algo em seu peito que não soube identificar, sua menina estava crescendo, era verdade e ele não sabia se estava pronto para lidar com isso.
O pedido de ambos chegou, mas antes que pudesse começar a comer a presença de uma linda mulher bagunçou a aparente quietude de Autumn. Vendo a senhorita Mills entrar na confeitaria, Autumn se movimentou e pulou para fora da cadeira correndo em direção a professora. A primeira reação de Regina foi recuar devido ao susto, no entanto, ao perceber do que se tratava, a morena se abaixou na altura da garota e a puxou para um abraço apertado.
As duas conversaram rapidamente, e Regina pediu para a menina aguardar um minuto quando chegou a vez dela e ela precisou fazer seu pedido. Robin a essa altura já havia se juntado a elas e quando percebeu que a morena estava finalmente livre ele começou a se desculpar com ela.
“Me desculpe Regina, antes que eu pudesse acontecer o que estava acontecendo ela já estava fora da cadeira dela correndo em sua direção.”
“Oh! Não precisa se desculpar, esta tudo certo, ela só quis dar um alô” A morena disse desviando sua atenção que até então estava na garota para o pai. Ao fitar atentamente Robin ela percebeu o quanto ele estava bonito naquela manhã, não que ele não fosse bonito nos outros dias, mas naquela manhã ele trazia um áurea tão relaxada, que parecia ter algo a mais. Percebendo por onde seus pensamentos estavam indo, ela se recriminou, afinal não importava se ele estava mais bonito ou não que o usual, ele era o pai de uma de suas alunas e ela não devia pensar tal coisas sobre ele.
“Regina?” Ela ouviu Robin a chamar e percebeu então que havia se distraído mais do que imaginava.
“Ops! Eu me distrair – ela disse e pode sentir o rosto esquentando- você disse algo?”
“Na verdade Autumn quer te dizer algo.”
“Você quer se sentar com a gente para tomar café?” A garota perguntou com o rosto marcado pela expectativa.
“Oh querida, isso seria ótimo, mas ...” Quando a palavra que introduzia uma adversativa foi dita pela morena o rosto a pequenina começou a lentamente se apagar. “Quer saber, sim eu adoraria me sentar com você e com seu pai.”
Completamente empolgada Autumn puxou Regina em direção a mesa onde ela e o pai estavam sentados mais cedo, e por ter ficado para trás Robin pegou as encomendas de Regina e caminhou em direção as duas que já havia se acomodado. Robin não quis admitir nem mesmo para si próprio que ele também estava empolgado por ter Regina se juntando a ele e a Autumn naquele desjejum. Afinal aquela parecia uma oportunidade maravilhosa para conhecer mais Regina, e ele estava consideravelmente ansioso para conhece-la mais.
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