Silente Devoção

21 Silente Devoção


Notas iniciais
Curiosidade sobre o capítulo. Eu sou apaixonada pelo filme "Em algum lugar do passado" e a trilha sonora dele, a musica tema mexe comigo de um jeito que eu nem posso escutar que eu já fico com os olhos marejados, pra mim é musica mais linda, romântica e triste do mundo... Acho que se tivesse que escolher uma unica musica no mundo, seria essa! E é ao som de John Barry - Somewhere In Time que eu escrevi e revisei esse capítulo. Espero que gostem.

♈ *** ♍ Domingo — Templo de Virgem ♈ *** ♍

O astro rei cumpria sua jornada diária erguendo-se no céu, enquanto dois Cavaleiros de Ouro dormiam profundamente embolados nos lençóis terracota perfumados com sândalo da Sexta Casa.

Em pouco tempo o movimento solar fez com que incômodos raios de luz adentrassem pela grande janela aberta do quarto de Virgem e lhe acertassem certeiros o rosto. O loiro estava exausto e bem que tentou no fundo de sua mente ignorar a claridade e continuar dormindo, mas foi impossível. Com um resmungo piscou os olhos preguiçosamente verificando pela intensidade da luz da janela que ainda era cedo, porém bem mais tarde que a hora em que costumava se levantar. Nesse horário normalmente já estaria de pé fazendo sua meditação matinal e se preparando para os deveres do dia, portanto a janela escancarada não seria um problema. Mas aquele não era um dia normal. Não, aquele dia era único, especial e o motivo dormia ressoando baixinho sobre si, pesado e quente.

Áries estava apagado e nem o sol o incomodava, como Shaka constatou ao erguer de leve a cabeça e olhar para baixo, com os olhos entreabertos pelo sono e pelo incômodo da luz forte, constatando que ele usava seu peito como travesseiro enquanto enlaçava sua cintura com um dos braços e tinha as pernas jogadas displicentemente por sobre as suas, com um pedaço do lençol cobrindo apenas o quadril.

Virgem sorriu para si mesmo e voltou a deitar a cabeça no travesseiro.

Naquele momento seu peito inflou e todo seu corpo estremeceu de alegria. Com carinho apertou Mu junto a si, correndo os dedos pelo véu de longos cabelos lilases espalhados sobre ambos, em regozijo pela sensação maravilhosa que o peso e o calor do corpo nu dele em contato com o seu lhe causava. O lemuriano soltou um resmungo quando o indiano apertou-o um pouco mais o que fez com que Shaka aliviasse a pressão para não acorda-lo enquanto mentalmente fazia uma pequena prece de agradecimento.

“Obrigado Buda, Obrigado minha deusa... O que quer que tenha que acontecer, aconteça!... Seja qual for a situação, está ótimo!...”

—...Eu realmente não preciso de coisa alguma!— falou baixinho a última parte dos Três Mantras Ferozes de Tsangpa Gyar. Sentia-se pleno e feliz como jamais se recordou sentir antes.

Não, não precisava de coisa alguma! Tudo o que queria estava ali mesmo, em seus braços naquele exato momento.

Mas logo uma careta se desenhou no belo rosto do virginiano que soltou um muxoxo indignado. Pelo jeito agradeceu cedo demais, precisava de algo sim... Fechar imediatamente a maldita janela para conseguir voltar a dormir e descansar.

Muito a contra gosto e com todo cuidado tentou lentamente escorregar para o lado na intenção de sair da cama sem acordar o lemuriano, porém mal se movera e sentiu Mu o apertar ainda mais forte dificultando seus movimentos.

— Não... — Áries resmungou com a voz abafada, claramente contrariado.

Surpreendido, pois acreditava que ele estava em estado profundo de sono, Shaka sorriu e o aninhou nos braços com carinho, lhe afagando a face.

— Pensei que estivesse dormindo.

— Eu tô! — outro resmungo quase incompreensível.

— Bobo! — riu baixinho e tentou novamente sair da cama e novamente foi impedido pelo braço forte — Mu... Me solta. Só vou fechar a janela, a luz está me incomodando. — tentou argumentar.

Em resposta sentiu o lemuriano saindo de cima de si, mas não para solta-lo e sim para deita-se de lado puxando-o para que formassem uma “conchinha”, Mu se encaixou nas costas de Shaka, enfiou o rosto entre os longos fios dourados próximo a nuca dele e o abraçou possessivamente pela cintura, apertando-o contra si.

— Shhhh!... Dorme! — ordenou sem abrir os olhos ao beijar suavemente o pescoço de Shaka.

Virgem ia protestar, mas não foi preciso, pois fora calado pelo estrondo da janela se fechando por telecinese.

Problema resolvido, a escuridão voltou a reinar em seu quarto e imerso naquele ambiente aconchegante o loiro sorriu para si mais uma vez ao passar as mãos ao redor dos braços de Mu e voltar a dormir, agora acolhido no abraço de seu amor.

Por um instante teve medo de fechar os olhos. Temeu dormir e acordar logo em seguida, sozinho em sua cama, descobrindo que tudo não passara de um sonho, que na verdade ainda estava preso a sua silente devoção... Porém a respiração morna rente a sua nuca, o perfume delicioso de lavanda misturado a suor impregnado em sua pele, o corpo másculo e viril que o aquecia em um abraço íntimo e acolhedor lhe deu a certeza de que não estava sonhando.

Era real! Mu era real! “Eles” eram reais e agora podia dormir em paz sem medo do despertar, pois seus sonhos haviam se tornado realidade.

♈ *** ♍

Já passava do meio dia quando Shaka enfim despertou descansado e com o animo revigorado.

Dessa vez tinha certeza de que Mu dormia profundamente, pois sentia o corpo todo dele pesado e relaxado. Os braços que antes lhe apertavam a cintura, agora jaziam sem força sobre si e a cabeça dele pendia contra a sua, de modo que quando se arrastou cuidadosamente para fora do “abraço” o lemuriano tombou para frente, ficando de bruços, e continuou a dormir.

Shaka permaneceu ainda por alguns minutos na cama assistindo Mu adormecido. Gravava cada detalhe daquela cena linda que via pela penumbra do quarto. Ele ressoava baixinho com os lábios entre abertos e teve ganas de beija-lo, mas ao deitar os olhos pelos hematomas roxos enormes no pescoço dele se conteve. Rapidamente correu os olhos pelo corpo branco parcialmente descoberto pelo lençol e viu muitas outras marcas iguais. Fizera um belo estrago naquela pele imaculada e Mu deveria estar realmente esgotado, era justo que descansasse mais um pouquinho.

Porém já era tarde e talvez o lemuriano estivesse faminto, bom Shaka estava com certeza a julgar pelo ruído vindo da própria barriga, então decidiu preparar uma refeição leve e servi-la ali mesmo, na cama, onde após acordar Mu com muitos beijos comeriam juntos e disfrutariam de mais alguns momentos preguiçosos na companhia um do outro, afinal era domingo e já que perderam o treino matinal não tinham mais nenhum compromisso para o restante do dia.

Apressado Shaka pulou da cama e caminhou silenciosamente até o guarda roupa de madeira onde apanhou um longo robe de algodão carmim e uma calça saruel indiana larguinha e confortável. Vestiu as peças rapidamente e pé ante pé saiu do quarto sem que Mu percebesse.

Enquanto andava pelo corredor que levava a cozinha viu peças de roupas espalhadas pelo chão da sala, desviou-se recolhendo cada uma com um sorriso bobo a lhe estampar a face sempre tão séria e levou o lenço vermelho de Mu próximo ao nariz aspirando fundo para sentir o perfume de lavanda impregnado no tecido.

— Buda! Como é cheiroso! — disse em voz alta um tanto abobado ao esfregar o tecido macio do lenço contra o rosto.

Com todo amor e carinho dobrou as roupas dele e as próprias as deixando metodicamente organizadas em cima de sua mesa de centro, depois as levaria para o quarto, agora precisava se preocupar com a refeição.

Já na cozinha, esta muito colorida apesar dos móveis simples de madeira, Shaka abriu a janela e a cortina deixando a luz do sol entrar. Aspirou fundo o ar puro do alto da colina, saudando o dia antes de começar a cozinhar. Descontraído colocou uma chaleira no fogo para o chai, lavou e cortou algumas frutas frescas como maça, melão e pêssego, e enquanto a bebida leitosa fervia espalhando o cheiro agradável de canela, gengibre e cravo pelo ar, preparou paratha, um tipo comum de pão achatado indiano recheado.

— ♪...Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare... ♫ — enquanto tostava os paratha’s na frigideira cantarolava risonho e sem perceber o Maha Mantra.

O mantra indiano trazia por meio da totalidade de Krishna, deus hindu, a verdadeira alegria de viver e a sabedoria para seguir o caminho com plena felicidade. Shaka o aprendera em sua terra natal quando ainda era apenas uma criança e não fazia a menor ideia do porque agora a melodia alegre lhe vinha à mente tão forte a ponto de lhe fazer cantar.

Em poucos minutos a refeição ficou pronta e o loiro ajeitou o bule de chai, as frutas e os paratha’s sobre uma bandeja, porém faltava um detalhe primordial que ele guardava escondido no fundo de um de seus armários. Foi com um sorriso radiante que Shaka apanhou de dentro de uma caixa de madeira oculta em seu armário mais alto um velho par de xícaras que possuíam gravadas nas laterais da porcelana, em ouro queimado, os símbolos de Áries e Virgem, respectivamente.

Aquele era seu maior tesouro, seu bem mais precioso.

Com todo cuidado do mundo lavou rapidamente as peças, retirou a poeira, as secou e enfim as depositou lado a lado sobre a bandeja. Para dar um toque ainda mais especial criou uma pequena flor de lótus com o cosmo e a colocou na frente das xícaras. Agora sim, tudo estava perfeito.

Com a badeja em mãos o indiano caminhou cuidadosamente até seu quarto, abriu a porta com um pequeno empurrão de seu quadril e acendeu a luz do cômodo com o cotovelo rapidamente se dirigindo até a cama onde Mu ainda dormia. Em silêncio para não acorda-lo, se sentou na borda do colchão e depositou com zelo a bandeja sobre o criado mudo ao lado da cama.

Com um longo suspiro Virgem olhou ternamente para Mu reparando mais uma vez no quanto ele estava lindo dormindo em sua cama, seu semblante era tão sereno... Fez um carinho singelo na testa dele, ajeitando a franja que lhe caía por sobre o belo rosto e depois desviou os olhos para bandeja a sua frente fixando as íris muito azuis no par de xícaras antigas. Sua intenção era acorda-lo com beijos e carinhos, lhe chamando pra comerem juntos, mas naquele momento algo forte e inesperado aconteceu dentro de si.

Como se tivesse sido atingido por um raio ao encarar a porcelana e enfim se dado conta da realidade em sua plenitude, Shaka foi tomado por uma euforia inexplicável, uma emoção tão forte que o deixou trêmulo e com o coração disparado. Nem mesmo na noite anterior, quando fizera amor com Mu, havia sentido tamanha exultação. Sentia pela primeira vez em muito tempo as borboletas em seu estômago agitarem-se enlouquecidas.

Com um movimento lento estendeu os braços até bandeja e um pouco vacilante apanhou as xícaras as trazendo junto ao corpo. Elas lhe traziam tantas lembranças e o significado de usa-las novamente, ali naquele cenário, com Mu dormindo nu ao seu lado era tão impactante que Shaka sentiu uma lágrima quente e úmida molhar seu rosto.

Aquelas xícaras foram um presente do antigo Grande Mestre Shion, que as trouxe de longe após uma longa viagem e entregou uma para si e outra para Mu na época em que ainda eram apenas aprendizes, meras crianças. Foram incontáveis as vezes que brincaram de tomar chá com elas, ou que de fato as usaram para dividir uma bebida morna ao fim de uma tarde cansativa de treino. Aquelas xícaras eram o símbolo da profunda amizade e cumplicidade existente entre o Cavaleiro de Áries e o Cavaleiro de Virgem. Quando Saga executara seu golpe e o lemuriano partira fugindo as presas para Jamiel, Shaka ficara desolado. Sem entender na época o motivo de Mu ter dito adeus na cachoeira, o pequeno virginiano caminhara de volta ao santuário em silêncio até adentrar o primeiro Templo, onde finalmente se permitira chorar copiosamente ao apanhar a xícara do colega abandonada, ainda suja, sobre a pia. Já naquela época o amava e naquele momento teve consciência que o amaria para todo o sempre. Devastado pela tristeza e pela saudade guardara a xícara dele junto da sua em Virgem, esperando para usa-las novamente somente no dia do regresso de Mu.

Porém os anos passaram e Mu não voltou.

Shaka se tornou um homem, o Cavaleiro mais próximo de Deus, sem nunca se esquecer do amor silente que carregava no fundo de seu coração e da promessa que fizera a si mesmo de reencontra-lo um dia. Porém como uma peça cruel do destino o regresso de Áries se dera em um momento de guerra e de luta. Em meio a tantas batalhas, focado em cumprir seu dever sagrado de sacrificar-se por Atena, não tivera tempo para seus sentimentos pessoais, e depois que foram ressuscitados o indiano levara algum tempo pra se habituar a nova vida sem o peso do dever... Tempo demais. Quando enfim reunira coragem de se declarar a Mu era tarde, e mais uma vez o par xícaras ficaram esquecidas no fundo de seu armário.

Era por isso que agora sentado à beira da cama e agarrado a porcelana fria, Shaka soluçava baixinho tendo todo o rosto banhado pelo pranto mudo.

Foram tantos anos de um amor impossível, tanto tempo tentando abnegar-se de si mesmo, que agora não estava preparado para tamanha felicidade. Tomado por uma comoção intensa o Cavaleiro de Virgem pranteava incapaz de impedir que suas emoções transbordassem para fora de si através de seus olhos.

Chorava tal qual chorara no dia em que perdera Mu pela segunda vez, mas agora suas lágrimas salgadas e seus soluços eram de puro júbilo e alegria.

Porém toda aquela comoção intensa não passou despercebida pelo ariano que despertou ainda sonolento piscando os olhos confuso. Estava ouvindo alguém chorar? Mu esfregou o rosto com uma das mãos e se remexeu sobre os lençóis levando um verdadeiro susto quando seus olhos verdes enfim focaram na figura trêmula e soluçante sentada ao seu lado e percebeu se tratar do Cavaleiro de Virgem.

— Shaka?! Pelos deuses, o que houve! — disse sobressaltado ao se sentar em um pulo e imediatamente se arrastar até ele lhe tocando o ombro ao tentar entender o que estava de fato acontecendo.

Não se lembrava na vida toda de ter visto Shaka chorar daquela forma, ou melhor, não se lembrava de tê-lo visto chorar algum dia. Teve medo! Estaria ele arrependido do que fizeram?

— Por favor, fala comigo... Está me assustando. — suplicou.

— Me desculpe, não é nada. — Shaka respondeu com voz embargada e um sorriso sem graça ao apressadamente limpar o rosto molhado com as costas das mãos sem, no entanto, soltar as xícaras — Me desculpe acorda-lo dessa forma.

— Não tem pelo que se desculpar. E não minta para mim, como não é nada? — Mu indagou com uma ruga na testa ao erguer o rosto do loiro com ambas as mãos e fitar os olhos vermelhos rodeado por longos cílios molhados — Nós fazemos amor durante a noite toda e quando eu acordo você está ao meu lado aos prantos... — não conseguiu verbalizar a dúvida que agora lhe oprimia o coração.

Mas não era preciso. Shaka lia em seus olhos o temor que sentia e tratou logo de dissipa-lo por completo.

— Não estou arrependido! Eu sei que pode parecer esquisito, e o é para mim também, mas eu estou chorando de felicidade Mu. — Virgem esclareceu com um sorriso fraco mirando a face alarmada do lemuriano.

— Felicidade? Que felicidade é essa que te faz soluçar desse jeito? — Mu ainda estava desconfiado.

— A maior do mundo. — riu, e seu riso pareceu tranquilizar um pouco o outro — Quando eu sentei aqui fui tomado por uma emoção tão arrebatadora e por tantas lembranças que não pude controlar minhas reações. Então eu chorei de alegria Mu, porque cheguei a pensar por muito tempo, lá no fundo de minha alma, que esse exato momento que estou vivendo agora nunca chegaria.

Havia um tom melancólico na fala do indiano que Mu ainda não entendia. Para piorar sentia um aperto no peito o ver o virginiano daquela forma, porém paciente e entendendo que aquele era um dos raros momentos em que Shaka se abria, limpou as bochechas molhadas dele com os polegares e lhe deu um pequeno beijo, apenas um selar de lábios.

— Muito tempo? — indagou incentivando ele continuar a falar.

— Muito mais do que imagina!

Mu soltou o rosto de Shaka, que baixou o olhar, e com uma carícia escorregou os dedos pelo pescoço dele até depositar uma mão em seu ombro, que apertou moderadamente a deixando ali. Ficaram em silêncio por longos segundos até que após um suspiro entrecortado, daqueles que surgem depois do choro, Shaka enfim retomou a fala.

— Quando eu morri por nossa deusa eu morri com a certeza de que eu nunca o teria comigo. Foi um sentimento cruel e muito doloroso, mas nem se compra ao que viria depois, quando eu o perdi pela segunda vez. — falava devagar, cada palavra sendo arrancada do fundo de sua alma — Em frente ao Muro das Lamentações eu ainda tive o consolo de que não tivemos uma chance porque ambos estávamos entregando nossas vidas por um bem maior, porém fomos revividos e eu o perdi novamente, agora não para os braços da morte e em nome do nosso dever como Cavaleiros de Atena e sim para os braços de outro homem. Só os deuses sabem a dor que senti e o quão terrível foram meus dias desde então, e mais uma vez eu tive certeza de que eu nunca viveria o amor que sinto por você, com o capricho cruel do destino de te ver feliz ao lado de outra pessoa.

— Shaka... — Mu estava tão perplexo com o que ouvia que as palavras morreram em sua boca.

Do que Shaka estava falando? Havia entendido direito ou era delírio? Desde quando ele cultivava sentimentos tão profundos por si? E como, por todos os deuses, nunca se quer suspeitou de nada antes? O fizera sofrer tanto assim?

Percebendo o abalo estampado na face de Áries e aquele turbilhão de perguntas mudas, Virgem cuidadosamente soltou as xicaras em seu colo e segurou as mãos dele com carinho e amor, chamando sua atenção.

— Eu queria te contar antes Mu. Queria ter lhe revelado meus verdadeiros sentimentos, mas estamos juntos há tão pouco tempo que eu temi que você se sentisse pressionado ou intimidado. Mas após o que vivemos ontem, depois de finalmente tê-lo em meus braços, eu não temo mais nada, não tenho mais porque lhe esconder verdade.

— A verdade?

Shaka sorriu timidamente ao sentir uma lágrima teimosa escapar e rolar por sua bochecha.

— Sim, a verdade que guardo em meu coração desde nossa tenra infância.

Com carinho o virginiano então soltou as mãos de Mu e pegou as xícaras em seu colo estendendo-as para ele.

—Lembra-se delas?

—Sim. — Mu respondeu ao apanhar nas mãos a xícara antiga que ganhada de seu mestre Shion quando criança. Olhou enternecido para o símbolo de seu signo gravado na porcelana branca — Você a guardou!

— Sim. Eu roubei a sua de seu templo no dia em que partira para Jamiel e a guardei em Virgem junto da minha por todos esses anos. Elas significavam para mim a esperança de seu retorno, pois um dia finalmente poderíamos usa-las em par novamente e nesse dia eu lhe confessaria todo o meu amor. — Shaka abriu seu coração para o lemuriano, que mal piscava sentindo o ar faltar e completamente abalado por aquela confissão inesperada.

Mu nunca imaginou que Shaka nutrira sentimentos tão antigos por si, estava muito surpreso, pois até o momento acreditava que o interesse amoroso dele surgira recentemente, talvez do convívio que tiveram em Jamiel, e que assim como se apaixonara pelo loiro naqueles dois meses em que moraram juntos, também havia despertado nele sentimentos românticos.

Era uma revelação e tanto e que fazia o ariano palpitar. Agora entendia as lágrimas, eram mesmo de felicidade, mas uma felicidade agridoce que ameaçava inundar também seus olhos.

A sua frente Shaka abriu um belo sorriso ao trocar um olhar apaixonado consigo e com olhos marejados de emoção ele se declarou.

— Eu o Amo Mu. O amo profundamente desde a infância, mas o meu amor por você era tão impossível quanto verdadeiro. . — Virgem levou a mão livre ao rosto de Áries — Por isso passei a minha vida toda me convencendo de que se meu sentimento era genuíno, ele deveria ser Ágape e que por isso eu deveria ser feliz com a sua felicidade. Se isso me incluísse, ótimo! Se não me incluísse, eu só queria que você fosse feliz. — fez uma carícia com o polegar na face corada de Mu e baixou os olhos um pouco, tendo um brilho melancólico no olhar — Mas eu penso hoje, vendo você aqui na minha frente, depois de tudo o que vivemos juntos, que eu estava errado!...Talvez se eu tivesse dito as palavras certas... Na hora certa! Você seria meu.

Mu estava em choque sem saber o que dizer.

Atordoado o ariano deitou os olhos na xícara em sua mão pensando no significado profundo de tudo o que Shaka lhe dissera, na grandiosidade dos sentimentos dele. Depois o olhou novamente, sentindo uma pontinha de tristeza ao pensar no quão terrível havia sido guardar aquele segredo por tanto tempo e em como estaria sendo para ele finalmente poder lhe dizer tudo aquilo. Por ultimo e mais importante, avaliou os próprios sentimentos, se era verdadeiramente capaz de retribui-lo em igualdade. Eram muitas coisas para se pensar, já havia se enganado um vez... Porém estranhamente sua mente estava calma e a resposta que buscara viera em segundos, não de sua cabeça e sim de seu coração que rapidamente lhe entregara um veredito.

Mu tomou a xícara com o símbolo de virgem da mão do loiro e as colocou cuidadosamente sobre a bandeja ali perto deles. Só então se acercou de Shaka, o abraçando com carinho e cumplicidade.

— Eu não sei como deve ter sido difícil para você Shaka, mas sou capaz de imaginar. Confesso que me pegou de surpresa com tudo isso e me sinto um tolo por não ter notado seus sentimentos antes.

— Você não é tolo, Mu! — Shaka interrompeu ao divisar com os olhos marejados o rosto do ariano — Eu que sou. Sinto que perdi anos ao seu lado por... Tolice?

— Não diga isso, somos ambos tolos então. Só que não temos como saber o que aconteceria se agíssemos diferente, o passado já passou, não podemos fazer nada para muda-lo e nem devemos nos martirizar pelo que já se foi. — falava com voz suave ao enxugar o rosto úmido do virginiano com os lábios ao cobrir a face dele com beijos repletos de ternura — Mas eu sei de uma coisa, o que importa é o que estamos vivendo agora. O presente. E minha felicidade agora é você. — o lemuriano interrompeu os beijos para trocar um olhar cumplice com o indiano — Eu quero que saiba que não estou apenas apaixonado Shaka, eu também o amo. Se antes eu o amava como um amigo, se sentia fileo por você, hoje eu tenho plena certeza que eu sinto também eros, amor físico e carnal, e quero junto a você transforma-lo em storge, amor humilde e conjugal, amor infinito e pleno que une um casal. Eu amo você como nunca amei ninguém antes, eu o amo em todos os significados dessa palavra e é só isso que me importa.

Shaka sentia o corpo todo estremecer e o coração que já estava disparado quase lhe arrebentava o peito de tão forte que batia. Novamente não conteve as lágrimas que rolaram involuntárias por seu rosto devido a emoção profunda.

Com um sorriso largo, grande, daqueles que iluminam os olhos, arrebatado pela felicidade plena que sentia, se atirou nos braços de Mu, o abraçando com força e o beijando desesperadamente.

— Ah Mu, por Buda! Repete isso. Por favor! Repete isso...

— Eu te amo Shaka... Eu te amo... Eu te amo... — Mu repetia ao puxar Shaka para si e o derrubar na cama enquanto o enchia de beijos.

Continuaram a trocar beijos e juras de amor, plenos de alegria até que Áries parou e encarou em silêncio o rosto belo e sorridente por alguns instantes.

— Agora eu posso também lhe revelar um segredo?

— Deve.

— Eu acho que a gente fica perfeito junto. Nunca duvide disso...

Shaka sentiu o peito se inflar em plenitude.

— Eu nunca duvidei.

♈ *** ♍ Décimo Terceiro Templo ♈ *** ♍

Com os braços cruzados e a caixa de pandora nas costas, o Cavaleiro de Fênix olhava contemplativo do alto da montanha os doze templos sagrados abaixo quando a voz serena e gentil da deusa o tirou de seus pensamentos.

— Vai mesmo retornar ao Japão ainda hoje Ikki?

— Sim. Não tenho mais porque perder meu tempo aqui. — respondeu seco.

Atena então moveu-se parando para admirar a paisagem ao lado dele. Seus belos olhos vaguearam pelos templos sagrados até se deterem sobre a Sexta Casa.

— Entendo. Sabe, dizem que os deuses escrevem certo por linhas tortas. — Atena sorriu para Ikki — Vá em paz Cavaleiro de Fênix, ele ficará bem.

Fênix arregalou os olhos, mas logo conteve sua reação de surpresa.

— Não sei do que está falando. — ralhou fingindo indiferença.

Porém a deusa não mais o respondeu, apenas lhe fez um carinho singelo no ombro e se retirou.

Não havia nada a ser dito, tudo se resolveria a seu tempo e ela estava feliz pelas linhas tortas da vida finalmente unirem as duas almas apaixonadas na Sexta Casa.

***

*Tsangpa Gyare – fundador da Linhagem Drukpa do Budismo Tibetano

* Talvez se eu te dissesse as palavras certas, Na hora certa, você seria meu.” Fala inspirada na música Baby, Can I Hold You? — Tracy Chapman

* “Eu acho que a gente fica perfeito junto. Nunca duvide disso”— Fala inspirada na série Dark.

***

Grupo no face com as minhas fics — Fics trio ternura

Grupo do Mushakismo espaço reservado apenas para Mu x Shaka

Notas finais
No grupo do face coloquei o link para a música Somewhere In Time, e também para o mantra cantado pelo Shaka. beijoooos