Silente Devoção

9 Serenata ao luar.


Notas iniciais
Olá meus amores. Devem ter reparado que meu nome mudou não é mesmo? Esse será meu pseudônimo de agora em diante. A explicação da escolha está no nosso grupo de fics ;) Mais um capítulo e dessa vez nem demorei tanto...ou demorei? Estou muito feliz, Rosenrot fez uma capinha para mim *-* Na imagem Mu toca um Dranyen. Mais detalhes sobre ele aparecerão no cap e nas notas finais. Beijosss. ps: estou muito feliz com uma coisa. Fui reler os primeiros capítulos e encontrei vários erros... e por que isso me deixa feliz? Eu tê-los enxergado significa que aos poucos estou melhorando a escrita e não os cometendo de novo, afinal o objetivo dessa fanfic é meu aprendizado e evolução pessoal *-*

♈ *** ♍ Domingo, 7:30 p.m., Santuário de Athena, Centro de Detenção Comum♈ *** ♍

— Para qual detento deseja solicitar visita? — o agente penitenciário perguntou, sentado atrás de uma mesinha com várias fichas em mãos e uma prancheta.

— Para o Cavaleiro de Áries. — Shaka respondeu com voz firme e imponência.

— Por favor, Cavaleiro de Virgem, preencha a solicitação e assine aqui em baixo. — de maneira respeitosa, já que era extremamente incomum ter a presença da patente dourada na detenção comum, o agente anotou o nome do detendo na prancheta e entregou a ficha de solicitação ao virginiano junto de uma caneta, que se pôs a preencher — Iremos encaminhar seu pedido ao carcereiro chefe, que fará a liberação e depois para o Cavaleiro de Áries, pois ele precisa aceitar sua solicitação. A resposta é dada no momento da visita, por isso o senhor deve estar presente aqui amanhã meia hora antes apara verificarmos a autorização e passar pela revista.

Com um aceno positivo de cabeça, o virginiano deixou claro que havia entendido.

Não demonstrava, mas estava ansioso. Mu havia sido preso na sexta-feira à noite e por mais que quisesse vê-lo já no dia seguinte, não podia. As visitas só eram permitidas as segundas, quartas e sextas, com solicitação prévia e apenas por uma hora.

Por isso Virgem estava ali, naquela pequena sala de pedra, diante de um guarda de classe inferior preenchendo aquela papelada, era domingo à noite, e amanhã finalmente poderia encontrar Mu. Queria muito vê-lo, saber como estava e quem sabe matar um pouco a saudade que sentia do homem que amava, mas para isso precisava passar por todo aquele protocolo enfadonho.

— Preciso fazer mais alguma coisa? — disse ao entregar o papel preenchido ao guarda carcerário.

— Não senhor, é só isso. — o homem recolheu o papel e o colocou na pilha, junto de outras solicitações.

Shaka acenou mais uma vez, deu as costas ao agente penitenciário e saiu.

Do lado de fora do centro de detenção, o virginiano deu um longo suspiro olhando para a construção atrás de si. O local era rustico, feito de pedra, não muito grande e normalmente era usado para punir aprendizes indisciplinados, guardas comuns e servos, jamais um Cavaleiro, ainda mais de ouro. Mu estar preso naquele lugar era quase cômico, além de uma evidente prova de confiança, pois apenas com a força de seus punhos, o lemuriano poderia por as paredes abaixo e ir embora.

Despedindo-se mentalmente do local, Shaka contornou a construção rumo a seu templo com apenas a luz da lua cheia a iluminar seu caminho, foi quando algo capturou sua atenção. Um som! Quase inaudível de tão baixa, uma canção melodiosa ecoava levada pelo vento até seus ouvidos apurados. Parou imediatamente de caminhar, concentrado ao que ouvia: uma bela voz acompanhada por acordes de um instrumento musical de corda.

Instigado e curioso queria entender a letra da canção. Decidido, ocultou sua presença para que não fosse notado e com passos lentos e silenciosos, evitando ser visto pelos guardas do local, seguiu a música até chegar a uma das paredes da prisão. Agora mais alto e claro, podia notar que o som vinha de uma cela, mais especificamente saía por uma pequena janela no alto da construção.

Reconheceria aquela voz doce e melodiosa em qualquer lugar.

Era Mu.

Ficou por um instante ali parado em arrebatamento, até que sorrateiro, o Cavaleiro de Virgem se aproximou tocando a parede fria de pedra com as mãos, depois pressionando seu rosto contra ela, na tentativa se ouvir melhor.

Dentro da construção em uma cela simples situada em uma ala vazia, alheio ao ouvinte incógnito, Mu estava sentado em sua cama observando a luz das estrelas pelas grades da pequena janela.

Em suas mãos estava o Dranyen que seu mestre Shion lhe dera há muitos anos. O tradicional instrumento musical tibetano tinha corpo pequeno e braço muito longo e estreito com apenas três cordas. Possuía uma beleza incrível oriunda da maneira como havia sido esculpido, de forma que seus intrincados entalhes formavam a figura de um dragão. O som produzido era gracioso e continha características bem orientais, que em conjunto com a voz grave e harmoniosa de Mu, compunham uma canção tão linda, quanto triste.

A prisão trouxera ao lemuriano um sentimento de vazio, isolamento e saudade semelhante ao que sentira na morte de seu mestre e exílio. Por isso agora do fundo de sua alma, surgia uma antiga canção tibetana que falava sobre saudade. Composta por monges refugiados no norte da Índia, os versos contavam em rima à falta que eles sentiam de casa, da beleza das montanhas e vales, do lar agora tão longe.

Mas para Mu a música tinha um significado ainda maior. Enquanto dedilhava as cordas e cantava, o ariano se lembrava de Jamiel, a torre forte e imponente no alto da montanha, isolada a beira do precipício e ainda assim tão convidativa e aconchegante para ele. Em sua mente, as imagens de seu amado lar vinham acompanhadas de uma figura alta, de longos cabelos loiros que voavam com o forte vento frio que atingiam o pagode sagrado.

Parecia insanidade admitir, mas em seu íntimo, sabia que sofria pela ausência de Shaka. Após meses de convívio íntimo e diário, não poder vê-lo era uma transição difícil, ainda mais para seu coração apaixonado. Por isso sua voz dava um tom ainda mais penoso à melodia, sem imaginar que sua serenata possuía um ouvinte devoto.

Do lado de fora, Shaka apreciava cada nota musical que saía dos lábios do lemuriano, captando e entendendo perfeitamente a letra da canção entoada em tibetano, sem desconfiar do significado pessoal que ela tinha para Mu.

Quase fundido a parede de pedra, o virginiano mantinha os olhos fechados e controlava a respiração, com medo de ser descoberto, mas incapaz de ir embora.

Mu era uma criatura sem igual, uma joia rara, única e preciosa.

Além de toda a beleza, força, honra e coragem, ainda possuía erudição ímpar, que revelava toda a sensibilidade e sabedoria contida em sua alma.

Como amava aquele homem! E como era difícil ouvir aquele timbre de voz tão suave entoar notas tão sofridas e não fazer nada. Sentia uma vontade louca de se teleportar para dentro daquela cela e acabar de vez com a solidão de ambos.

Com muito custo, após longos minutos em que fora um ouvinte anônimo da triste cantilena, Virgem decidiu se afastar antes que fosse descoberto.

Apressado, afastou-se da parede de pedra e ainda na surdina retornou para a trilha que seguia rumo as Doze Casas. Antes de ir embora, voltou o rosto mais uma vez em direção a cela onde o lemuriano estava e despediu-se dele mentalmente, um pouco mais confortado ao saber que o veria no dia seguinte.

♈ *** ♍

As dezoito e trinta no dia seguinte, logo após a tarde exaustiva de treinos, uma pequena fila se formava na entrada do complexo penitenciário. Familiares e amigos aguardavam ansiosos, alguns com presentes em mãos, para visitarem os detentos. Dentre os presentes duas figuras destoantes despertava a curiosidade das pessoas ao redor.

Munido de um enorme ramalhete de flores, visivelmente ansioso, pois não conseguia ficar parado no lugar, o Cavaleiro de Touro ocupava um dos primeiros lugares na fila. Estava muito arrumado, com uma camisa nova de cor clara, calça escura, o perfume forte amadeirado emanando ao seu redor, cabelos presos e suava muito, sendo necessário enxugar o rosto com um lenço a todo instante, provavelmente por conta do nervosismo.

Apenas duas posições atrás dele estava o Cavaleiro de Virgem. Shaka ainda tinha os cabelos úmidos do banho recém-tomado e vestia sua tradicional túnica laranja com uma camiseta de algodão fresquinha por baixo. Mantinha seus olhos fechados demonstrando aparente calma e tranquilidade, enquanto segurava com ambas as mãos uma pequena bolsa térmica em frente ao corpo.

O enorme brasileiro não disfarçava sua irritação diante da presença do outro, mas o indiano, por mais que também estivesse incomodado, fazia questão de ignora-lo solenemente, não demonstrando emoção alguma em seu rosto ou modos.

Para alívio de ambos logo a espera chegou ao fim, pois o guarda deu início ao protocolo de visitação, conferindo o nome dos presentes na fila e os encaminhando para a revista e posteriormente para a o encontro com o detento.

Um bate boca começou a se formar quando chegou à vez do Cavaleiro de Touro, atraindo a atenção dos presentes.

— Como assim minha solicitação foi negada? — o brasileiro questionava o agente penitenciário.

— São as normas, sua visita foi liberada pelo carcereiro chefe, mas o detento recusou sua visita e não assinou a autorização. Sinto muito Cavaleiro De Touro.

— Mas é porque ele está com a cabeça quente. Se me deixarem falar com ele por apenas alguns instantes que tenho certeza que ele permitirá.

— Cavaleiro de Touro, por favor, não podemos deixar que o senhor entre para conseguir uma visita. É contra as regras e contraditório entende?

Como a discussão atrasava o andamento da fila outro funcionário seguiu com o protocolo enquanto Aldebaran, um pouco mais para o lado, ainda tentava convence-los a deixar que entrasse.

Shaka, que observava discretamente a patética cena que o outro fazia, logo foi chamado. Naquele momento a discussão do taurino ficou silenciosa, pois o virginiano sentia os olhos do brasileiro cravados em si.

— Cavaleiro de Virgem, sua solicitação foi aceita. — o virginiano ouviu com satisfação — Traz algum presente ou objeto?

— Sim. — o loiro levantou a bolsa térmica a apresentando ao guarda.

— Então, por favor, se dirija ao segundo corredor para que façam a revista completa.

Shaka acenou com a cabeça e se encaminhou para o local indicado, porém antes de entrar não foi capaz de reprimir uma ânsia interna, um desejo íntimo de sua alma que brotava de seu lado mais humano, por isso virou o rosto para traz e levantou as pálpebras ligeiramente encarando Aldebaran nos olhos e lhe deu um pequeno sorriso.

Um gesto simples com um significado imenso para ambos.

Imediatamente o taurino arregalou os olhos e sentiu como se o tempo congelasse assim como seu corpo. O chão desapareceu aos seus pés sendo tragado para o nada, o som da conversa do guarda se tornou distante enquanto seu coração parecia parar de bater em um aperto dolorido.

Conhecia aquele olhar, o que ele representava, pois no passado havia sido ele, Aldebaran, quem o direcionara a Shaka!

A lembrança da tarde na arena em que pedira Mu em casamento se fez presente na mente do brasileiro, como uma cena de filme em uma grande tela de cinema.

**Flashback on **

Naquele dia, enquanto abraçava o lemuriano após ter seu pedido aceito, o taurino viu Virgem um pouco afastado dos outros cavaleiros que parabenizavam o casal. Shaka estava de olhos abertos, com o semblante muito sério fixo no casal e foi então que seus olhares se chocaram.

Aldebaran não conseguiu resistir e sorriu para ele, mas não por que estava feliz e desejava dividir com o companheiro de armas sua emoção, seu sorriso foi o mesmo dado por um lutador a seu adversário após o derrotar em um ringue de luta.

Um sorriso de vitória.

O taurino era o único que sabia que os sentimentos de Virgem por Mu iam bem além de amizade. Desde a infância disputava com o loiro a atenção e o companheirismo do lemuriano, no amor não seria diferente. Havia descoberto o segredo de Shaka através da convivência entre os três, notando os olhares discretos do loiro para o ariano, a diferença de tratamento e até certo ciúme direcionado a sua pessoa, afinal sendo ambos melhores amigos de Mu, Shaka se tornara seu adversário velado.

Não era atoa que havia se apressado em pedir Áries em namoro e depois em casamento. Agora que estavam revividos e podiam ter uma vida mais tranquila e livre Shaka se tornara um perigo real. Por isso tomara a dianteira e agora Mu era seu.

O gosto da vitória era muito melhor com uma pitada de vaidade sobre o inimigo derrotado.

**Flashback off **

— Não pode ser. — Aldebaran deixou escapar em voz baixa com o semblante visivelmente consternado.

A troca de olhares entre os dois não durou muito, pois Shaka logo deu as costas ao taurino e seguiu corredor adentro em direção à revista. O Cavaleiro de Touro por sua vez esqueceu-se até o motivo de sua discussão com o guarda, e o deixou falando sozinho enquanto voltava para seu templo ruminando aquele sorriso.

Será que Mu lhe rejeitara por estar com aquele indiano metido? Conhecia a personalidade do lemuriano, não era possível tê-lo trocado em tão pouco tempo. Por outro lado, Shaka não faria aquilo se não houvesse acontecido nada em Jamiel... Ou será que era um recado? Que agora ele iria conquistar Mu? Será que ele sabia sobre o pedido de divorcio?

Com esses e muitos outros pensamentos lhe tirando o juízo, o caminho para o segundo Templo fora sofrido e árduo para Aldebaran, ainda mais ao lembrar que naquele instante era Shaka quem estava com Mu, e não ele.

♈ *** ♍

Na ala isolada Mu aguardava sua visita sentado na cama de sua cela um tanto ansioso.

Sua cela era modesta, composta apenas por uma cama, uma pequena prateleira na parede onde estavam suas roupas e um banheiro improvisado. Esse era composto por uma mureta baixa que ocultava o vaso sanitário e uma pequena pia, lhe dando alguma privacidade quando precisava usar o sanitário.

Por saber que veria Shaka, havia se arrumado da melhor maneira possível dentro de suas condições. Não foi possível tomar um banho longo e caprichoso como gostaria, já que o banho era apenas uma vez ao dia e com tempo contado, mas agradecia por terem permitido que se banhasse antes da visita e não antes de dormir como normalmente ocorria. Não usavam uniforme, por isso trajava roupas próprias bem simples, apenas uma calça e túnica, porém estavam limpas. Penteara os cabelos de modo a ficarem mais apresentáveis e como não possuía espelho torcia para estar com boa aparência.

As mãos suavam frio e apertavam inquietas o colchão de espuma vagabunda da cama quando finalmente ouviu a aproximação de pessoas, fazendo seu coração disparar em expectativa.

Quando Shaka surgiu pelo corredor acompanhado de um guarda e parou em frente a sua cela, o lemuriano sentiu como se um raio de sol, quente e aprazível lhe tocasse, sorrindo de modo discreto no mesmo instante. Imediatamente levantou-se e caminhou até ele até que apenas as grades os separassem.

Não disseram nada, um silêncio confortável os acolheu naquele instante, até que a voz grave do guarda chamou a atenção de ambos.

— A visita dura uma hora. Para que tenham um pouco de privacidade esperarei na entrada do corredor. — o carcereiro avisou e já se afastou para vigia-los de longe.

Assim que o homem se retirou, como se houvessem ensaiado o movimento, tanto Mu quanto Shaka passaram um dos braços através das grades de ferro e se abraçaram como podiam, pois o metal frio entre eles dificultava a aproximação.

Apesar de não se verem a apenas três dias, estavam saudosos um do outro e não sentiram necessidade alguma de esconder esse sentimento, afinal após os três meses juntos em Jamiel, a amizade que partilhavam estava mais forte do que nunca. E era a essa intimidade recém-adquirida que o lemuriano atribuía aquele contato tão raro, afinal Shaka era conhecido por sua discrição.

— Oi Mu. — o loiro disse com voz baixa e rosto colado ao gradil, sem no entanto soltar o amigo, pois mesmo com aquela barreira entre eles podia sentir o cheiro delicioso que brotava naturalmente do corpo do ariano — Como você está?

— Bem, na medida do possível. — a resposta veio baixa, pois Mu também desfrutava daquele momento de intimidade e afeto que tanto sentia falta, sentindo-se acolhido por aquele abraço.

Os braços se soltaram e o contado foi cortado, mas permaneceram próximos um do outro, a cumplicidade entre eles se tornando cada vez mais evidente.

— Eu prometi que viria visita-lo.— o indiano puxou conversa.

— E eu fico muito feliz, pois aguardava sua visita. Gosto de isolamento e solidão, mas ficar preso dentro de uma cela não é exatamente um retiro de paz e tranquilidade.

— Imagino. Mas... — Shaka aproximou um pouco o rosto da grade cochichou como quem faz uma fofoca — As visitas são assim mesmo? Você ai dentro? Pensei que tivessem uma sala ou quem sabe um pátio. Trouxe chai, vamos ter que tomar aqui mesmo? — Levantou o braço e mostrou a bolsa térmica em suas mãos ao amigo.

Mu sorriu em resposta rindo divertido da preocupação do loiro.

— Essa prisão é simples Shaka, o único pátio que temos é o de tomar sol e o refeitório, infelizmente às visitas são assim mesmo. Sei que é esquisito, mas teremos que nos sentar aqui e tomar chai pelas grades. — o lemuriano respondeu meio sem graça — Se importa?

— De modo algum, já estou satisfeito de terem permitido que eu entrasse com a bebida. — Shaka disse já se abaixando para se sentar no chão de pedra, sendo acompanhado por Mu. Quando ambos estavam sentados sobre as pernas, frente a frente, o indiano retirou de dentro da bolsa uma garrafa plástica térmica e dois copos pequenos também de plástico, serviu um ao ariano e outro para si — O chai ainda está quente e fresco, porém seria mais saboroso em xícaras de porcelana, mas não podemos entrar com cerâmicas, vidros, porcelanas nem metais.

— Não seja rabugento. — Áries achava graça enquanto provava a bebida quente, o sabor exótico impregnando sua boca e agradando ao paladar, especialmente o gengibre — Hmmm... Está delicioso. Estava com saudade de tomar um bom chá, ou chai no caso. Aqui só tem café pela manhã e um suco mais ou menos no almoço. — suspirou de olhos fechados.

— Está sendo muito difícil? Como é a sua rotina? — o loiro perguntou curioso bebericando a bebida.

— Difícil não seria bem a palavra e sim tedioso. Já li duas vezes os dois livros que pude trazer e agora me distraio tocando o Dranyen, já que estou isolado e dessa forma o som não incomoda os demais. — Apontou para o instrumento sobre a cama — Apesar de tudo tenho sido bem tratado e inclusive tenho alguns privilégios. — Mu explicava sendo ouvido atentamente pelo amigo — Estou alojado em uma ala isolada por conta da minha patente, ter um dourado preso aqui mexeu com os detentos e os funcionários querem evitar o assédio.

— Assédio? — Shaka perguntou arqueando as sobrancelhas, com certa preocupação no tom de voz.

— Não do jeito que deve estar imaginando, não se preocupe! Mas aparentemente eu sou uma espécie de celebridade e os jovens aprendizes e guerreiros de patentes mais baixas ficam eufóricos para se aproximarem de mim. Precisa ver no banho de sol, quase não tenho sossego com o tanto de perguntas que me fazem sobre as batalhas e nossos grandes feitos. Virei uma atração turística. — Mu contou divertido.

— Por Buda! Bem que eu estranhei você isolado aqui nessa ala vazia. Já estava pensando qual mau comportamento teve para vir parar nesta... “solitária”. — disse em tom de piada apontando com o dedo as celas vazias ao redor de ambos.

— Pois saiba que sou um preso exemplar, os guardas me adoram. Mas continuando... — bebericou mais um tanto de chai — Me servem três refeições diárias aqui mesmo na cela, nada muito terrível. Banho de sol uma hora por dia durante a tarde e uma ducha antes das luzes apagarem, nisso também tenho certo privilégio, pois não me banho nos chuveiros coletivos e sim no vestiário dos funcionários, onde tenho privacidade.

— Acho que os guardas não sabem que nós da patente de Ouro também tomamos banho coletivo após os treinos.— Shaka disse divertido.

— Aparentemente eles não sabem como funciona o nosso vestiário e estão preocupados que os aprendizes vejam meu belo bumbum. Mal sabem eles que nós já estamos mais do que acostumados e traumatizados também. Ninguém merece ver o Máscara da Morte pelado!

Ouve um segundo de silêncio e logo ambos caíram na risada.

— Parece que todos te admiram muito aqui. — o loiro disse quando recuperou o fôlego e a sobriedade — O que não me surpreende, afinal você sempre foi um guerreiro justo e honrado.

— Não é para tanto Shaka, creio que seja mais o fato de eu ser um Cavaleiro de Ouro.

— Pois eu duvido que tratariam o Máscara da mesma maneira que tratam você. Para ele só teria banho frio coletivo e olhe lá. — Virgem repôs seu copo com a bebida quente, aproveitando para repor também o copo de Mu, que lhe foi estendido através da grade.

—E eu duvido que Athena mandaria o Cavaleiro de Câncer para cá. — Mu riu agradecendo com um aceno a reposição da bebida e a levando aos lábios para mais um gole — Com a paciência dele, já teria dado um soco na parede e ido embora na primeira noite.

Ambos riram e a conversa se desenrolou por mais alguns minutos. O chai já havia findado e os dois cavaleiros já estavam sentados de maneira bem mais relaxada e informal quando Shaka finalmente encontrou uma brecha para abordar o assunto que corroía seu coração desde que voltaram ao santuário.

— Mu, não quero parecer indiscreto ou desrespeitar sua privacidade. Porém seria hipocrisia da minha parte negar que quando fui procura-lo em Jamiel, e depois quando o ajudei a providenciar os papéis da separação, eu acabei me intrometendo na história entre você e Aldebaran. — Virgem dizia com sinceridade.

Mu não disse nada por alguns instantes, mas logo deu um suspiro cansado ajeitando os cabelos enquanto piscava os olhos de modo preguiçoso. Sabia que o assunto viria à tona e já estava preparado, por isso ergueu o rosto e encarou o virginiano.

— Você é meu melhor amigo Shaka, foi quem esteve ao meu lado em um dos piores momentos da minha vida. Você não se intrometeu, eu que aceitei sua ajuda de bom grado e creio que até sei o que deseja me perguntar. — o lemuriano então abaixou a cabeça pesaroso e a meneou levemente de um lado para o outro em negativa — Ele não assinou. Ao contrário fez uma cena ridícula.

O desgosto era visível nas palavras de Mu, mas não surpreenderam ao virginiano. Sabia o quanto o taurino poderia ser teimoso, e depois de vê-lo tentando visitar Mu teve certeza que ele não facilitaria as coisas.

— Não fique assim Mu, eu bem que suspeitei quando senti seu cosmo alterado naquele dia. Mas não se abale, Touro é teimoso por natureza, a separação sairá quer ele queira ou não. Uma assinatura e um papel não significa nada se o sentimento já não existe. — o loiro então se aproximou um pouco mais das grades, passando uma das mãos por entre as barras de ferro para tocar gentilmente o amigo, apertando seu ombro enquanto fazia uma carícia leve com o polegar.

Mu fora pego de surpresa pelo toque gentil, sentindo um leve tremor pelo corpo e uma sensação de tontura.

Era surpreendente como apenas o calor da mão de Shaka por sobre o tecido de sua camisa podia lhe causar uma reação tão intensa. De cabeça baixa, ficou sem reação por alguns instantes, paralisado e perdido entre euforia e medo.

Porém logo seu conflito teve fim, quando o contato foi quebrado pois Shaka recolhera o braço assim que avistou o guarda que se aproximava indicando o fim da visita. Estavam tão entrosados que nem perceberam os minutos passarem, e o fim do tempo que partilhavam juntos deixou em ambos um sentimento de tristeza.

— O horário de visita acabou. — o funcionário avisou parando ao lado de Shaka, que acenou positivamente com a cabeça enquanto guardava os copos e a garrafa de chai na bolsa térmica e se levantava sendo acompanhado por Mu.
Os dois então se despediram enquanto o guarda esperava para conduzir Virgem a saída.

— Passou rápido, nem percebi. — Mu segurava as grades um tanto sem jeito.

— Estamos acostumados com tardes inteiras de prosa, uma hora realmente passa voando. — Shaka disse e se afastou em seguida — Eu volto! — Afirmou ao olhar para traz antes de sair.

— É bom mesmo! Adorei a visita! — o lemuriano respondeu elevando a voz, pois o amigo já estava distante, sendo retribuído com mais uma olhada para traz e um sorriso de Shaka que logo desapareceu corredor a dentro.

Mu ficou ali segurando as grades sentindo um misto de ansiedade e frustração.

Assim que ficou sozinho, fechou os olhos e encostou a testa nas grades de ferro um tanto irritado consigo mesmo — “É bom mesmo! Adorei a visita! Que droga de reposta foi essa? E aquela tremedeira por causa da mão dele no meu ombro?”— pensava inconformado — “Queria tê-lo abraçado direito, sem essas malditas grades entre nós... Sentir o perfume dos seus cabelos úmidos... Deuses! Mal ele saiu daqui e eu já estou na expectativa de seu retorno. Athena, isso não pode estar acontecendo comigo, como eu pude ser tão fraco a ponto de me apaixonar dessa forma?”.

O lemuriano se recriminava sem conseguir sair do lugar. Estava louco ou ainda podia sentir o cheiro do perfume de sândalo que o indiano usava nas grades? De olhos fechados inalou um pouco mais fundo percebendo que não era do metal frio que o cheiro vinha, e sim das próprias roupas que provavelmente se perfumaram quando se abraçaram.

Imediatamente se afastou das barras de ferro e puxou com os dedos o tecido da camisa o levando até o nariz. Assim que aspirou o ar com força, para sua completa perdição, o cheiro se sândalo o arrebatou completamente. Foi impossível para Mu conter a revoada de borboletas que voaram frenéticas em seu estômago, sendo tomado por um comichão tão forte que o obrigou a caminhar de costas até chocar as pernas contra a cama ao fundo da cela, onde se jogou de costas sobre o colchão.

— “Maldição! Precisava vir tão perfumado? Como eu vou conseguir dormir com o cheiro dele me atormentando desse jeito?”.

De fato a cada dia que passava sua paixão desenfreada pelo amigo se tornava mais torturante à medida que parecia cada vez mais forte e intensa. Tentar contê-la parecia impossível, restava então ao pobre lemuriano a difícil missão de oculta-la no fundo de sua alma e tentar, na medida do possível, lidar com seus desastrosos efeitos colaterais.

******

Aqui está um vídeo com uma melodia parecida com a que imagino Mu cantando( não faço ideia do que diz a letra hahaha)

https://www.youtube.com/watch?v=adHxlYlC4Og

Grupo das minhas fics com as meninas— Tem mais algumas imagens do Dranyen, a fanart do cap grande ...etc.

Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka



Notas finais
CURIOSIDADE DO DRANYEN: No passado ele já foi usado em uma área maior, chegando até o norte da Índia, mas hoje em dia a pratica dele é restrita as regiões montanhosas do Himalaia. É isso. Eu achei que ia aparecer um personagem nesse cap, mas fico muito longo e decidi deixar a participação especial para o próximo XD beijosss