Silente Devoção
7 Fagulha de esperança.
Notas iniciais

♈ *** ♍ Athenas – Grécia, início da tarde ♈ *** ♍
— Está pronto? — o Cavaleiro de Virgem perguntou repousando a mão próximo aos pesados chifres de ouro sobre os ombros do amigo, em demonstração de apoio.
Mu e Shaka trajavam suas respectivas armaduras de ouro.
Estavam parados no começo das antigas ruínas gregas, de onde se podia ver, ao longe, as casas zodiacais encrustadas na montanha.
O tibetano não respondeu à pergunta de imediato. Sabia que assim que adentrasse o santuário toda sua paz iria embora e dias turbulentos o viriam. Apesar no nervosismo, sabia o que tinha que fazer, por isso mesmo desviou os olhos do templo de Athena e os voltou o companheiro ao seu lado.
— Sim. Shaka, eu... — Mu fez uma pausa, como quem procura as palavras certas a dizer— Obrigado mais uma vez, eu...
— Já disse que não precisa agradecer. — Shaka o interrompeu gentil, retirando a mão que ainda estava apoiada no ombro do lemuriano.
— Está certo, vamos então.
Quase em sincronia, pegaram suas bagagens e começaram a caminhar adentrando o santuário e rumo as longas escadarias.
A cada passo dado, era possível notar o burburinho e agitação tomar os servos, aprendizes e cavaleiros que cruzavam pelo caminho. A visão de dois Cavaleiros de Ouro trajando suas armaduras não era por si só algo raro, mas os quase três meses de ausência misteriosa do Santo de Áries, foram mais do que suficientes para que toda sorte de fofoca corresse na boca miúda, tornando seu retorno digno de cochichos e olhares curiosos.
Com certo desconforto e irritação, Mu percebia que agora ele e Aldebaran eram os desafetos mais famosos do santuário, e por mais que odiasse toda essa atenção sobre sua vida privada, sabia que parte da culpa era sua por conta de sua fuga para Jamiel.
Virgem notava o descontentamento do tibetano, mas nada podia fazer além de se manter ao seu lado durante a caminhada.
Não tardou para que ambos chegassem nos primeiros degraus da longa escadaria.
Mu parou por alguns segundos, soltando um longo suspiro ao olhar para a entrada do templo de Áries.
— Essa será a pior parte. — Confessou em voz baixa. — Estão todos em seus templos. Será um cortejo ridículo.
— Não subestime nossos irmãos de armas. Apesar de curiosos, tenho certeza que não irão constrangê-lo, eles saberão respeitar o momento. — Shaka respondeu com convicção, mas logo ficou sério — Ou quase todos.
— Ele já sabe que estou aqui. Sinto a agitação em seu cosmo. — Mu levantou o olhar avistando o Templo de Touro — Teremos problemas ao passar pela segunda casa.
— Então é bom nos apressarmos, pois Athena nos espera no décimo terceiro templo e já estamos atrasados devido a nossa parada no centro de Athenas.
Com um aceno de cabeça, o lemuriano concordou e subiu o primeiro degrau.
Mu queria resolver sua situação o mais rápido possível, portanto ao passar por Áries não adentrou a área residencial, deixando sua bagagem no pátio mesmo para depois a guardar devidamente, seguindo a diante rumo a segunda casa.
Assim que saiu pelos fundos de Áries e o templo de Touro se tornou nitidamente visível, o sentimento de raiva e revolta voltou a tomar Mu, tornando suas passadas mais duras e barulhentas à medida que o metal das botas da armadura se chocavam com os degraus de pedra.
Fato esse que não passou desapercebido por Shaka, que em uma tentativa de acalma-lo e transmitir confiança, sem desviar seu rosto das escadarias, discretamente levou a mão livre até alcançar a mão do lemuriano, a segurando firme entre os dedos com cumplicidade, como quando eram jovens aprendizes. Os meses juntos em Jamiel havia aumentado a intimidade que partilhavam desde a infância, além de fazer com que o loiro se sentisse cada vez mais seguro ao realizar pequenas demonstrações de afeto.
Aquele gesto singelo por sua vez, só serviu para desestabilizar Mu, que assustado, ainda tentava lidar com a avalanche de emoções que a repentina paixão pelo amigo indiano lhe causava.
Pego de surpresa, o lemuriano sentiu a mão queimar ao toque do loiro, como se o virginiano possuísse por carvão em brasa no lugar dos dedos, o fazendo involuntariamente prender a respiração por alguns instantes, e enrijecer todo o corpo, tenso.
A raiva desapareceu, dando lugar a uma sensação estranha na boca do estômago, deixando o lemuriano um tanto nervoso e eufórico, conforme sentia calafrios percorrer sua espinha e suor frio brotar de seus poros. Uma reação completamente inadequada e exagerada para um toque tão sutil, na visão de Mu, mas que ele não conseguia se desfazer, permanecendo de mãos dadas com o loiro conforme subia as escadas.
— Ignore-o, não importa o que ele diga. — Shaka aconselhou, acreditando que a reação do tibetano era devido ao nervosismo diante do evidente confronto com o ex-marido — Agora não é hora, deixe a conversa para depois de se apresentar a deusa.
— Não será muito fácil. Ele sabe ser extremamente teatral e dramático quando quer. Além de teimoso como uma mula quando está decidido a algo. — Mu respondeu baixo e aproveitou a oportunidade para soltar as mãos de Shaka, pois o contato o estava perturbando mais do que deveria.
— Taurinos... E já nos espera. — Shaka avisou apontando com o rosto para a entrada da casa zodiacal logo a frente.
Dirigindo o olhar para cima, Mu pode ver ainda distante a figura de Aldebaran parado na entrada do pátio de Touro.
Imediatamente o ariano franziu a testa, fechou os punhos, voltou a pisar duro e afirmou decidido:
— Vamos acabar logo com isso!
Do alto da escadaria, o Cavaleiro de Touro aguardava inquieto e exasperado o reencontro com Áries.
Havia sentido o cosmo do lemuriano assim que ele pisara o pé dentro do santuário, de início pensou em correr ao seu encontro, descendo as escadas desesperado, mas logo deu meia volta e com muito custo controlou seu ímpeto, sabendo o quanto Mu detestava exposição desnecessária. Uma cena na arena de treinamento em frente a servos e aprendizes só pioraria as coisas. Além disso era parte do protocolo, que ao retornar de missão os cavaleiros deveriam primeiramente se apresentar no décimo terceiro templo.
Com isso em mente, Aldebaran achou melhor esperar a passagem do ariano por Touro para aborda-lo, afinal mesmo permanecendo cada um em sua casa zodiacal durante o casamento, pois não podiam deixa-las sem proteção, o segundo templo também era o lar de Mu, ou ainda acreditava ser.
Fora de modo afoito, quase aos tropeços, que Aldebaran havia trocado de roupa apressado, para uma que julgava mais bonita, pego o presente que mantinha em cima do armário à espera do retorno do lemuriano, e se dirigido a entrada do pátio, onde aguardou roendo as unhas o reencontro com o esposo.
Só os desuses sabiam a agonia que fora para o taurino a espera pela volta do homem que amava.
Sem notícias e com os dias se arrastando sem que Mu voltasse, a mente do moreno se perdia em suposições e medo de nunca mais ver o marido.
O modo como o tibetano partira, sem lhe dizer nada, lhe deixando as cegas, lhe causava extrema agonia, além de aumentar toda a culpa e remorso em seu coração. Havia também a vergonha, pois o julgamento estava estampado em cada olhar atravessado que recebia dos companheiros de armas.
Mesmo assim, apesar do que aconteceu, no fundo Aldebaran ainda nutria esperanças de que assim que a ira de Mu abrandasse, ele voltaria para casa e poderia então se redimir e quem sabe se reconciliarem.
Angustiado, era nesses momentos que o taurino descia para Áries e se jogava sobre a cama, agora vazia, do quarto do lemuriano. Imediatamente o perfume de lavanda surgia dos lençóis, como uma lembrança amarga da ausência de Mu e sem conseguir conter as lágrimas, era tomado por arrependimento.
A longa ausência do tibetano, servira também para que Aldebaran pudesse pensar com clareza no que havia acontecido e em tudo o que falaria e explicaria ao marido.
Porém ao finalmente ver Mu subindo as escadarias ao lado de Shaka, todo o discurso que havia ensaiado até a exaustão desaparecera de sua mente, as palavras sendo carregadas para longe pelo ciúme que corroía sua alma.
O taurino esperava se encontrar sozinho com o lemuriano, e a imagem dos dois subindo lado a lado, fazia seu sangue ferver, principalmente após Virgem ter lhe quebrado o nariz e se recusado a dizer onde Mu estava.
Conforme se aproximava da entrada de Touro, o lemuriano ficava cada vez mais sério e decidido a ignorar Aldebaran. Por mais que houvesse superado a dor da traição, a raiva que sentia ao vê-lo na entrada do pátio da segunda casa zodiacal, pateticamente arrumado e com um presente em mãos, só serviam para ter certeza absoluta de que não o havia perdoado, e nem estava disposto a fazê-lo.
Evitando um confronto, o tibetano buscava olhar além, para o pátio vazio atrás do taurino, porém a tensão podia ser sentida no ar, e assim que ele e Shaka galgaram os últimos degraus da escadaria, tiveram que parar pois Aldebaran bloqueou a passagem, tornando impossível desviar e evitar que seus olhares se chocassem.
Nenhum dos três cavaleiros presentes ousava se mover devido ao clima horrível e estranho que se instalou.
Calado, Shaka aguardava Mu, mas não fazia esforço algum para disfarçar o desprezo pelo taurino estampado em seu rosto.
Com olhos arregalados e marejados, Aldebaran ignorava o virginiano e encarava o tibetano, trêmulo sem conseguir tomar alguma atitude, pois sustentando seu olhar, Áries tinha lumes verdes cravadas em si, lhe lançando um olhar tão severo que o moreno teve medo de morrer fulminado.
— Abra passagem, Cavaleiro de Touro. — apesar da expressão dura, a voz grave de Mu soou impassível e controlada.
Foi o suficiente para retirar o taurino de seu estado de letargia, que imediatamente correu na direção do ariano em desespero.
— Mu, pelos deuses, achei que nunca voltaria para casa... — Touro dizia aflito e angustiado, tentando conter as lágrimas — Você foi embora e eu nem... Me deixe explicar... Não é o que parecia...
— Não se aproxime de mim! — elevando a voz, o lemuriano interrompeu e repreendeu o taurino, que vinha em sua direção com nítida intenção de toca-lo.
Tentando não aumentar ainda mais a zanga de Mu, o moreno parou a alguns passos de distância, visivelmente abalado.
— Tudo bem. Eu entendo, está bravo! Tem toda a razão, mas se acalma. Precisamos conversar, me escute, eu sei que fui um idiota e fiz uma besteira enorme, mas eu preciso lhe explicar o que aconteceu...
— Agora não. Vamos evitar essa cena ridícula por favor. — Mu o interrompeu novamente, irritado. — Deixe-me passar.
Um tanto envergonhado por Shaka presenciar aquela situação deprimente, o tibetano recomeçou a caminhar na intenção de atravessar o mais rápido possível o pátio de Touro.
— Eu não vou deixar que passe sem ao menos me escutar, eu esperei todos esses meses para te ver novamente Mu, por favor... — Aldebaran suplicou segurando no braço do ariano quando este tentou desviar.
— NÃO TOQUE EM MIM! — soltando o braço com um safanão, Áries encarou o moreno deixando finalmente transbordar toda a fúria que sentia, o que fez com que seu cosmo se elevasse instantaneamente de forma perigosa.
— Mu, calma...
— Não me peça para ter calma cavaleiro de Touro! Não quero lutar com você aqui e agora, tornando essa situação pior do que já está. Portanto libere seu cosmo do pátio da segunda casa e me deixe passar, ou terei que travar uma guerra de mil dias com você, por bloquear meu caminho. — o ariano ameaçou com o olhar firme, não deixando dúvidas de que cumpriria sua palavra.
O taurino esperava uma postura hostil e colérica do outro, afinal apesar da aparência pacífica, Mu honrava o signo que o regia, e mais do que ninguém Touro sabia como ele poderia ser extremamente explosivo quando descontente com algo. Ainda assim, havia uma belicosidade no tom da ameaça que o fez recuar.
Aldebaran soube ali, olhando nos olhos do lemuriano, que o cavaleiro de Áries não blefava. Nas íris verdes furiosas, o taurino também se deu conta de outra verdade dolorosa: havia perdido Mu.
Sentiu uma dor forte no peito, e uma vontade imensa de chorar, mas por um instante seus olhos se desviaram do ariano e focaram no cavaleiro de Virgem logo atrás dele.
Shaka o encarava com total desprezo.
Imediatamente a mente ciumenta de Touro culpou Virgem pela postura agressiva do lemuriano.
Não que não tivesse culpa, mas com toda certeza Shaka deveria ter envenenado Mu contra ele, afinal o ariano era alguém amável e pacífico, e mesmo magoado teria lhe dado uma chance para se explicar, aquela agressividade toda era culpa do loiro.
Tomado por essa certeza, Aldebaran recuou tentando não piorar mais as coisas.
— Está bem. — disse ao se afastar e liberar o pátio, dissipando seu cosmo que impedia a passagem. — Não vou atrapalhar sua subida, mas eu preciso conversar com você... a sós. — Aldebaran encarou Shaka, que mesmo de olhos fechados, parecia retribuir seu olhar nada amigável.
Tentando se acalmar, Mu organizou sua mente, e viu na tal conversa a sós a chance de resolver tudo de uma vez.
— Me aguarde em Áries. Descerei após a reunião com a deusa.
Sem esperar resposta, o lemuriano se voltou para frente e recomeçou a andar sendo seguido por Virgem, deixando o moreno para traz.
Atravessar o templo de Touro fora muito difícil para o lemuriano, assim como sentir o cosmo do ex marido o rodeando. Milhares de lembranças perturbavam sua mente, de modo que apressava o passo e não tardou para avistar a saída.
Já no meio das escadarias para o templo de Gêmeos, o ariano interrompeu o silêncio desconfortável e pesado que se instaurara entre ele e o loiro ao seu lado.
— Me desculpe pela situação ridícula. Estou envergonhado por ter presenciado aquilo.
— Envergonhado pelo que? — a voz de Shaka soou branda — O único disparate que presenciei, foi a visão patética e decadente das lamúrias daquele boçal infiel.
Mu parou por alguns instantes encarando Shaka, pois o amigo chamando Aldebaran de boçal infiel lhe soou tão cômico, que quebrou todo o clima tenso no ar, diminuindo o constrangimento que sentia e lhe gerando uma vontade incontrolável de rir.
— Que foi? — o indiano perguntou arqueando uma das sobrancelhas.
— Nada. — Mu respondeu retornando a caminhada, segurando o riso.
Sem mais percalços pelo caminho, a subida se mostrou tranquila. Os guardiões das demais casas zodiacais permitiram a passagem dos dois sem perguntas, respeitando a situação delicada do cavaleiro de Áries, como o indiano previra. Shaka havia deixado sua bagagem no pátio de Virgem, assim como Mu fizera em seu templo e logo os dois cavaleiros se encontravam nas portas do décimo terceiro templo.
Portas essas que foram abertas prontamente, pois a deusa Athena já os aguardava sentada eu seu trono.
Em silêncio ambos adentraram o grande salão e pararam diante a deusa, retirando os respectivos elmos.
— Sejam bem-vindos meus nobres guerreiros. — Athena os saudou. — Estive à espera de ambos por muito tempo.
Em resposta, Virgem abaixou a cabeça de modo respeitoso.
Áries por sua vez, prostrou-se tocando o solo com um dos joelhos escondendo o rosto, envergonhado por sua desonra. Permaneceu assim, em silêncio.
A jovem deusa, então desceu de seu trono e caminhou a passos lentos, parado diante do lemuriano ajoelhado.
— Por favor meu cavaleiro, levante-se e olhe para mim. — a deusa pediu gentil.
— Não posso. Falhei em minha missão e fugi das minhas responsabilidades, colocando problemas pessoais acima do meu dever como cavaleiro. — Áries respondeu ainda com o rosto abaixado.
— Sim, é verdade. Mas assim como o filho pródigo retornou a casa de seu pai, você retornou para meu santuário. — a voz da jovem soou estranhamente próxima demais para Mu, que olhou para frente curioso e percebeu horrorizado que a jovem deusa havia se abaixado e agora o fitava na mesma altura. Com um sorriso terno, Athena tocou no rosto assustado do santo de Áries — E eu e você sabemos que nunca foi um filho rebelde. Ao contrário, desde o princípio sempre foi o meu guerreiro mais fiel e leal, Áries.
— Não sou mais digno de ser chamado assim, minha deusa. — o ariano disse fechando os olhos, deixando que uma lágrima teimosa escorresse e molhasse a mão da jovem a sua frente. O cosmo divino de Athena o abraçava e acolhia de maneira tão terna, que era impossível para o tibetano de joelhos se manter indiferente.
— Não diga isso. Você se apresenta a mim ciente de seus atos e disposto a pagar por eles sem questionar, além disso jamais vi tamanha humildade como a que habita seu coração. O erro que cometeu não o faz um cavaleiro menos honrado Mu. Eu estou imensamente aliviada e feliz por recebe-lo de volta. — a jovem disse limpando a lágrima — Agora levante-se.
Atendendo a ordem, Mu ergueu-se diante da deusa.
Athena por sua vez, voltara ao seu lugar, sentando-se em seu trono.
Agora de cabeça erguida, os dois cavaleiros dourados aguardavam lado a lado, em silêncio, o que a deusa tinha a dizer.
— Por mais feliz que eu esteja, está ciente da situação delicada que sua atitude nos colocou, não é, cavaleiro de Áries? — a deusa prosseguiu com firmeza.
— Sim. — o tibetano respondeu de pronto.
— Se Virgem não o houvesse encontrado e relatado a mim seu paradeiro, teria sido declarado desertor.
Mu mirou o amigo ao seu lado por um instante, agradecido, e novamente dirigiu os olhos para a jovem deusa a sua frente.
— Eu sei.
— Todo o santuário soube do ocorrido. Além de abandonar a missão, ficou fora por quase três meses, cavaleiro! Deixou sua casa zodiacal, completamente desprotegida. — conforme a deusa falava, se tornava cada vez mais difícil para o lemuriano sustentar o olhar da jovem, tamanho era o constrangimento que o tomava. Shaka ao seu lado mal podia respirar, temeroso que o amado pudesse sofrer uma punição demasiada severa — Tamanha insubordinação é passível de punições severas, sendo as mais graves a expulsão do exército de Athena, rebaixamento de patente, ou confinamento no Cabo Súnion.
A deusa se calou, e o ariano mal respirava preparando seu espirito para sua devida punição. Sabia de cor todo o protocolo militar do santuário, havia sido ensinado pessoalmente pelo antigo grande mestre, Shion.
— Porém, temos atenuantes importantes no seu caso, cavaleiro de Áries, que não posso ignorar. — Athena prosseguiu surpreendendo a Mu, mas não a Shaka, pois esse tinha esperança na sabedoria da deusa — As circunstâncias pessoais que acarretaram sua “fuga” foram levadas em consideração. Além disso, quando Virgem me contatou de Jamiel, ele me avisou que você precisaria de algum tempo longe, mas que não era seu intento desertar, também me pediu permissão para ficar ao seu lado e ajuda-lo com os conflitos que habitavam seu coração, e eu permiti. — a jovem acenou para Virgem que meneou a cabeça — E por último, mas não menos importante, fui eu que lhe mandei em missão até o cavaleiro de Touro. Poderia ter enviado qualquer outro, mas tomei minha decisão com base na vida pessoal dos dois e no relacionamento que possuíam, e foi justamente esse relacionamento e minha decisão parcial, que desencadearam os fatos que o trouxeram até esse julgamento hoje. Desse modo seria extremamente injusto o julgar com toda a força e imparcialidade das leis que regem o santuário.
Mais uma pausa foi feita quando a deusa se levantou novamente. A essa altura o coração de Áries e Virgem batiam acelerados em expectativa.
— Portanto, como deusa da justiça e da sabedoria, eu sentencio o cavaleiro de Áries a 2 semanas de prisão disciplinar militar, que deverão ser cumpridas na prisão comum, assim como a três meses de prestação de serviços comunitários a serem realizados tanto no Santuário como na vila de Rodório.
Imediatamente Shaka deixou escapar um pequeno sorriso. Enquanto Mu ainda estava sem reação. O lemuriano esperava uma pena muito maior do que havia recebido, se quer ficaria preso no Cabo Súnion, sendo mandado para as celas comuns onde os aprendizes ficavam detidos quando aprontavam alguma bobagem juvenil.
Divertida com expressão no rosto do ariano, a deusa deixou as formalidades de lado e novamente se aproximou do cavaleiro.
— Pelos deuses Mu, não faça essa cara. — a jovem disse sem rodeios — Sabe muito bem que essa punição é apenas para não gerar nenhum precedente e servir de exemplo para os servos e aprendizes. Por causa de toda a repercussão e tempo que se ausentou, fiquei de mão atadas. Não posso simplesmente manda-lo de volta para o templo de Áries e deixa-lo sair impune, ou sairão falando que a patente de ouro tem privilégios.
— Mas minha deusa a prisão comum não é nem capaz de impedir o meu teleporte. — o ariano disse ainda sem acreditar.
— Mas você não irá se teleportar, irá? — Shaka o indagou confiante.
— Mas é claro que não Shaka! Se a minha deusa me sentenciou a ficar lá, será lá que eu ficarei. — Mu respondeu de pronto.
— Exato, Mu de Áries. Você nunca me deu motivos para duvidar de sua honra. Tenho total confiança de que cumprirá sua sentença de modo exemplar. — a jovem disse e então elevou a mão para tocar mais uma vez o rosto do ariano, capturando sua atenção — Além do mais, creio que aconteceu com seu casamento, seja pior do que qualquer punição que eu lhe dê. Não me alegro com o sofrimento dos meus cavaleiros, Mu.
Finalmente o ariano deu-se conta do quão benevolente Athena estava sendo consigo.
— Minha deusa, não encontro palavras para retribuir a bondade e confiança que deposita em mim. — Mu retirou a mão da deusa de seu rosto, a segurou entre os dedos e inclinou-se devoto, depositando um beijo na palma suave da jovem, em forma de respeito e agradecimento.
A deusa sorriu para o cavaleiro assim que a mão foi solta. Então se voltou para o cavaleiro de Virgem, ao lado do ariano.
— Não pense que me esqueci de você, Virgem. Mais uma vez cumpriu com sua palavra e realizou exemplarmente sua missão.
— Estou sempre as ordens minha deusa. — Shaka inclinou-se mais uma vez.
Apesar do semblante sério, a deusa podia sentir no cosmo do loiro, toda a gratidão e alívio pela sentença branda dada ao lemuriano.
Não tendo mais porque manter os cavaleiros em sua presença, a deusa se apressou em dispensá-los.
— Estão liberados para retornarem a seus respectivos templos. Áries, avisarei aos guardas que sua sentença se inicia ao anoitecer, esteja em sua cela no começo da noite. Até lá, está livre para desfazer suas malas e pegar alguns itens que deseja levar com você. No mais, estão dispensados.
— Minha deusa. — os dois homens disseram, em uníssono ao se curvarem mais uma vez antes de recolocarem os elmos e se retirarem.
♈ *** ♍
A descida pelas casas zodiacais foi feita em silêncio. Mu e Shaka caminharam lado a lado, mas agora não havia mais desconforto ou agitação, e sim alívio e gratidão.
A cada degrau que descia, o lemuriano só pensava no quão agradecido estava com a deusa e também com o amigo virginiano, pois ficara claro que o amigo havia intercedido diante de Athena, quando a contatou após encontra-lo em Jamiel.
Assim que ambos adentraram o pátio do sexto templo, o virginiano foi até onde havia deixado sua mala, a pegando e se dirigindo até a entrada de seus aposentos residenciais, onde parou, tentando conter a sensação horrível de despedida que sentia.
Mu o seguiu parando na frente do loiro, sendo tomado pelo mesmo sentimento.
Era estranho para ambos.
Por quase três meses, haviam morado juntos em Jamiel, partilhando da intimidade e do convívio a dois. A rotina cumplice parecia ter se tornado parte de ambos.
Agora se olhavam, parados um em frente ao outro, demasiadamente próximos, sem saber como proceder naquela despedida.
— Eu vou sentir falta dos seus chás pela manhã. — Mu disse a primeira coisa que lhe veio à mente, apenas para quebrar o silêncio constrangedor.
— Pode vir toma-los sempre que desejar. — Shaka respondeu, ficando mudo novamente.
O loiro se sentia angustiado. Não queria entrar, pois sentia como se perdesse o tibetano novamente. Não queria que Mu partisse de sua vida.
— Ei, isso não é uma despedida, Shaka. — o lemuriano disse um tanto sem jeito devida a intensidade do olhar que o indiano lhe lançava, mesmo com as pálpebras cerradas.
Shaka queria abraçar Mu, mas seria impossível graças aos enormes e pesados chifres da armadura de Áries. Eles se chorariam diretamente com as ombreiras triangulares da armadura de Virgem, por isso surpreendendo o ariano, o loiro puxou-lhe cabeça com a mão livre até que o metal de seus elmos se chocassem, unindo suas testas.
— Nunca mais me dê um susto desses! Ouse ir embora novamente sem me avisar, e eu vou até o inferno lhe buscar pelos cabelos, Mu de Áries! Uma vez já foi o bastante. — Shaka ameaçou com voz baixa.
Mu fechou os olhos ao sentir o coração acelerar feito fanfarra, a respiração se tornando difícil.
Sabia que Shaka lhe tinha como melhor amigo, e que ele se referia ao episódio de seu exílio após a morte de Shion. Mas para seu coração recentemente apaixonado, aquelas palavras foram como atiçar fogo em mato seco, tornando difícil para o lemuriano controlar todas aquelas emoções conflitantes que o arrebatavam.
Aquela proximidade com o loiro, a voz baixa e as palavras ditas, alimentaram de maneira cruel e pecaminosa, a paixão avassaladora em seu peito, sendo necessário todo seu autocontrole, e maturidade para separar seus sentimentos e organizar em sua mente uma resposta coerente.
— Me perdoe. Não duvido que iria ao inferno. É sua especialidade, mas não precisa, não irei a lugar algum... pelo menos não pelas próximas duas semanas. — Mu riu tentando fazer graça, sem muito sucesso diante da seriedade do loiro, que continuava segurando sua cabeça de encontro a dele.
— Eu o visitarei.
— Tenho certeza que sim.
Shaka finalmente soltou a cabeça do ariano, que se afastou imediatamente, começando a caminhar em direção a saída. Seu coração batia tão rápido e tão forte, que temia que o loiro percebesse algo, pois o intenso fluxo sanguíneo com certeza já devia ter lhe corado a face.
— Não se esqueça de me levar Chai. — disse Mu já distante, com um aceno.
Shaka não respondeu. Ao invés disso ficou apenas observando o lemuriano se virar e sair de seu templo.
Quando Mu sumiu, escadas abaixo, o indiano soltou um longo suspiro e abriu os olhos, ainda voltado para a saída.
O ariano mal havia partido e Virgem já sentia uma saudade violenta da presença dele. Finalmente o pequeno conto de fadas particular que vivera ao lado de Mu havia terminado.
Voltando seus olhos para o interior de seus aposentos particulares, o sagrado templo de Virgem nunca lhe pareceu tão vazio e frio. Melancólico, o indiano se desfez de sua armadura dourada, e adentrou sua casa, nenhum pouco saudoso do lar.
Sim, seus momentos em Jamiel com o homem que amava agora eram apenas lembranças. Estava de volta a realidade difícil de cavaleiro e candidato a iluminação.
Mas enquanto desfazia sua mala, o indiano sentia arder em seu peito, algo além da saudade e da melancolia: Esperança. Uma pequena fagulha de expectativa e inquietação que se acendera, no exato momento em que, momentos antes, notara a face ruborizada de Mu tão próxima a sua.
Não era homem de criar ilusões, muito menos de se levar por falsas esperanças. Sabia bem que o lemuriano ainda estava completamente enrolado com o termino de seu antigo relacionamento, e que ter alguém dando em cima dele, era a última coisa que Mu queria na atual circunstância.
Mas se percebesse, por mais improvável que pudesse parecer, que Áries lhe desejava de alguma forma, ou quem sabe, correspondesse aio seu amor, mandaria todo o esforço usado para reprimir seus instintos e sentimentos, às favas. Sem pensar duas vezes, junto mandaria também os anos de reclusão, celibato e meditação. Ao quinto dos infernos com sua iluminação, ou com o que os outros falariam. Usaria todo o amor pelo lemuriano, que cultivava a anos em seu coração, para conquista-lo e faze-lo seu. Não perderia Mu uma segunda vez.
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