Silente Devoção

10 O sagrado e o profano.


Notas iniciais
Oiiiiiiiiiiiiiiii. Não morri! Gente, foi um corre, uma doidura até arrancar um dente eu tive que arrancar. NÃO CONSEGUI escrever antes, simplesmente não deu. Eu queria um cap legal porque agora as coisas começam a andar e mudar (hmmmmm) e não era só sentar e escrever qualquer porcaria né. Ó, devem ter muitos erros, eu não consegui revisar como gostaria e quem tiver dicas pra me dar, sabe que é sempre bem vindo. (tentei aplicar as regras de crase mas foi um desastre, fiquei nervosa e mandei pra bosta kkkkkkkkkkk). No mais é isso, eu estou bem satisfeita com o cap *-* e espero que vcs gostem tanto dele como eu. A capa do cap é de uma das minhas artistas favoritas, Boxigarden, eu AMO ela, e essa imagem traduz muito dos conflitos da fic.

Já era alta madrugada quando uma figura sorrateira se materializou dentro da cela. O ambiente escuro foi imediatamente iluminado pela parca luz da lamparina a óleo que trazia em uma das mãos.

No leito próximo a parede o Cavaleiro de Áries dormia um sono agitado, se revirando sobre o colchão duro e imediatamente abriu os olhos assim que sentiu a presença do invasor, se sentando um tanto surpreendido com a visão do homem a sua frente.

Coçou os olhos ainda um pouco assustado e incrédulo, talvez ainda estivesse sonhando, ou quem sabe seus sonhos é que se materializaram, pois Shaka de Virgem estava exatamente a sua frente, dentro de sua cela, segurando uma lamparina e uma pequena pilha de livros.

— Shaka? O que... o que você está fazendo aqui? É madrugada!— Mu sussurrou atordoado, com o coração aos pulos olhando ao redor, preocupado que algum guarda notasse o visitante inesperado dentro de sua cela.

— Você me disse a algumas horas atrás, quando te visitei, que estava entediado. — Virgem lhe respondeu com naturalidade — Pois então eu separei alguns livros e vim te trazer algo realmente bom para ler! Toma! Você vai gostar desses. — o loiro estendeu a pilha de livros ao ariano que ainda o encarava de olhos arregalados e sem reação — Não me olhe desse jeito, vá pegue de uma vez antes que eu seja notado.

Agora era Shaka que olhava ao redor preocupado temendo que seu pequeno delito fosse descoberto.

Sem esperar mais, o lemuriano saiu de seu pequeno estado de choque e se levantou, recolhendo os livros apressado do braço estendido do amigo.

— Você não deveria ter feito isso, não deveria estar aqui. — o ariano repreendeu o colega, mas não conseguiu esconder o sorriso de satisfação com a visita inesperada — Obrigado!

— Não precisa me agradecer Mu. — o indiano então se aproximou e com a mão livre deu um meio abraço, agora sem grades de ferro a separa-los — Você também não deveria estar aqui, mas está. — cochichou com um pequeno sorriso nos lábios.

Antes que Áries respondesse ouviram passos no corredor.

Mais do que depressa, Virgem soltou o abraço e desapareceu como mágica, como se nunca estivesse estado ali, sendo os livros nas mãos de Mu a única prova de que não fora um sonho.

Quando o guarda que fazia a ronda alcançou a cela do Cavaleiro de Áries, o encontrou sentado na cama, com uma pequena vela acesa flutuando ao seu lado enquanto foleava um livro antigo, de modo despreocupado.

— Está tudo bem senhor? — perguntou o carcereiro — Achei ter escutado vozes e normalmente a essa hora já está dormindo.

— Oh, sim! Não se preocupe, estava apenas praguejando baixo esta maldita insônia que me acometeu. — mesmo não sendo bom com mentiras, o sorriso amável do ariano logo convenceu o guarda de que falava a verdade — Por isso resolvi ler um pouco para o sono chegar.

— Entendo. Se precisar de mais algumas velas não hesite em me chamar, estarei na sala no fim do corredor.

Mu acenou positivamente com a cabeça e assim que o viu ir embora, soltou um suspiro aliviado. Fora por pouco!

Agora tendo certeza de que estava sozinho, levantou seu travesseiro e com um sentimento de urgência apanhou os livros contrabandeados por Shaka, sentindo-se tolo, pois estava sendo corroído pela curiosidade de ver quais eram. Culpava seu coração apaixonado por tamanho afobamento, pois tinha certeza que se Virgem tivesse lhe levado um manual de instruções de máquina de lavar roupas, ainda assim leria todas as linhas emocionado.

Realmente a paixão transformava homens em crianças bobas.

Ao colocar todos em seu colo, analisou a pilha com cuidado. Eram quatro no total. Correu os dedos pela textura do papel e ficou nítido o desgaste do tempo, mas também que eram muito bem cuidados. Provavelmente heranças da bem preservada biblioteca de Virgem.

Apesar da luz fraca que vinha da chama flutuante ao seu lado, conseguiu ver o brilho dourado que nomeava os volumes. Os três primeiros tinham o mesmo padrão de fonte e capa, notando logo se tratar dos três volumes que compunham a Oresteia, a trilogia de Orestes, peças teatrais de autoria do dramaturgo grego Ésquilo.

A obra era composta pelas tragédias Agamemnon, Coéforas e Euménides e continha em suas paginas a história da maldição da tragédia sobre a família de Atreu após o retorno da guerra de Troia.

Não foi surpresa o bom gosto literário de Shaka, arrancando um riso baixo de Mu “quase” decepcionado por não ser um manual de instruções qualquer. Já conhecia a história, pois lera os livros em sua juventude, mas ficou extremamente feliz em poder reler a única trilogia que sobreviveu até os dias atuais.

Com imenso carinho colocou os livros ao seu lado na cama para identificar o último. A capa estava um pouco desgastada e foi difícil ler o nome, precisando aproximar tanto a chama como o exemplar em suas mãos bem próximo a seu rosto.

Assim que identificou o título o assombro tomou conta da face do lemuriano, que de olhos arregalados e bochechas quentes, relia o nome da obra varias vezes sem acreditar que Shaka, o Santo de Virgem, monge, casto e a um passo da elevação espiritual, havia lhe entregue um exemplar da famosa e controversa obra: O Decamerão.

Aquele livro em suas mãos era nada mais, nada menos, que um marco histórico da narrativa erótica. A coleção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353, clássico da literatura italiana, contrariando a receita que usava temas religiosos e figuras divinas da época, era extremamente mundano e retratava aventuras humanas e casos do cotidiano. Uma espécie de literatura pornográfica daquele tempo, um tanto mais suave que outras obras famosas como as de Marquês de Sade, mas ainda assim extremamente eróticas para um monge budista lhe recomendar.

Aquela constatação deu um verdadeiro nó na mente de Mu.

O que significava aquilo?

Que virgem era um homem culto, de vasto conhecimento literário era sabido por todos, mas que ele lia e ainda por cima gostava desse tipo de literatura, sim gostava, pois se lembrava exatamente das palavras ditas ao lhe entregar os volumes: “vim te trazer algo realmente bom para ler!”, era um completo choque para o lemuriano, que via o amigo loiro como um homem santo, sagrado, imaculado e intocável.

Mal sabia Áries que horas antes na biblioteca de Virgem, Shaka havia travado uma verdadeira batalha consigo mesmo.

Em anos de amizade profunda, sexo era o único assunto velado entre os dois, podiam passar horas debatendo os mais diversos temas, menos esse. O indiano notava que por respeito a sua castidade o amigo tibetano nunca tocava em assuntos de teor erótico consigo, nem mesmo em brincadeiras ou piadas, ao contrário, se Mu estivesse rindo de alguma piada suja contada por alguém e Shaka se aproximasse, imediatamente o lemuriano parava de rir e mudava o rumo da conversa exigindo que os amigos respeitassem a presença do monge.

Justamente por isso que o loiro não entregara aquela obra por acaso. Foram horas angustiantes tentando tomar coragem de entregar o livro a Mu. O escolhera a dedo por apreciar a obra, mas também porque em seu intimo estava decidido a lutar pelo amor do lemuriano, sendo o primeiro passo mostrar a ele que não era tão “santo” como acreditava. Precisava que o tibetano o visse mais como homem e menos como uma figura pura e inalcançável.

Ainda assim Shaka temeu ser uma atitude muito ousada, pois sabia que sendo Áries um homem extremamente culto, ele identificaria a obra, assim como seu significado histórico. Por isso entregara junto os exemplares da trilogia de Orestes, diminuindo o impacto da obra de Giovanni Boccaccio e minimizando as chances de ofende-lo.

De fato o ariano se chocara como havia previsto, porém o gesto do indiano também confundira ainda mais o coração apaixonado de Mu

Suando frio enquanto segurava o livro nas mãos trêmulas, o lemuriano pensava em mil e um motivos para que Shaka de Virgem lhe recomendasse tal leitura. Era uma batalha de razão contra emoção.

Sua mente lhe dizia que não tinha nada de demais, uma leitura clássica, um tanto sensual demais, mas perfeitamente normal para um homem adulto e tão culto como o virginiano com tão vasto conhecimento literário.

Já seu coração que batia acelerado no peito como uma fanfarra, se sentia mais uma vez nutrido por esperanças vãs, pois no fundo de sua alma mesmo que não quisesse, achasse errado e que negasse isso a si mesmo, Mu cultivava dia após dia, a fantasia tola de ser um dia correspondido e junto de Shaka viver uma grande história de amor.

— Por que faz isso comigo, Shaka? — a voz baixa e questionadora indagou ao Decamerão, como se o livro pudesse lhe responder — Não vê que eu não sou digno de sua nobreza e bondade?

Mu sofria. A culpa sendo seu grande carrasco.

Sentiu os olhos marejarem, precisou respirar bem fundo e fecha-los para impedir que chorasse enquanto apertava com força o volume contra o peito.

“Quando foi que me tornei tão baixo? Shaka, como posso transformar seus gestos de amizade genuína em esperanças e anseios tão pecaminosos?” — se recriminava em pensamento — “Deuses... sinto tanta vergonha desse sentimento errado que cultivo, se quer consigo controlar meus pensamentos e desejos”.

Quando abriu os olhos novamente afastou o volume de seu corpo e o olhou mais uma vez. Angustiado, sentiu um calorão lhe subir pelas pernas, barriga e que agora estava lhe consumindo todo o corpo, o deixando ofegante e suado.

Excitação, libido e luxuria!

A obra de Giovanni Boccaccio atingira um patamar erótico para si que pornografia alguma no mundo seria capaz, tudo por conta de saber que o livro era de Shaka e que ele o havia tocado e lido. Com espanto, notou que desejava ler suas páginas assim como desejava tocar com luxuria e devassidão o corpo do Santo de Virgem.

Mas se o indiano era um alvo distante e impossível, a obra por sua vez estava bem ali em suas mãos. Com uma ânsia desmedida, abriu a capa e começou a leitura imediatamente.

Naquela madrugada Mu não dormiu.

Passou a noite devorando conto após conto, como se cada palavra lida fosse um beijo, um abraço, um toque, fazendo amor com Shaka a cada verso desvendado.

♈ *** ♍

Os dias passaram lentos para os moradores do Santuário.

Virgem continuava a visitar Áries em todos os dias em que era possível, mas sem mais surpresas noturnas. Em compensação além do chai, passara a levar alguns quitutes, transformando as visitas em verdadeiros “chás da tarde” noturnos, ou melhor, em encontros disfarçados.

Touro também insistia em ser recebido pelo lemuriano sempre fazendo requisições que nunca eram aceitas, causando desconforto e certo constrangimento na hora dos visitantes entrarem, principalmente quando Shaka era aceito e ele não.

A situação chamava muito a atenção das pessoas do santuário. Tanto aprendizes, como servos, cavaleiros e até os guardas ficavam curiosos para saber o desenrolar daquele “escândalo conjugal”. Não era surpresa que agora os três eram o alvo de grandes fofocas e burburinhos.

Diziam de tudo, uma fofoca mais cabeluda e fantasiosa que a outra.

Corriam os boatos até de que tudo se tratava de um plano de vingança de Áries, que usava o amigo monge para causar ciúmes no ex-marido. Outros já negavam a versão e afirmavam que a verdade era que o pobre lemuriano estava tão deprimido e humilhado, que Virgem precisava ir alimenta-lo na cela para não sucumbir a desnutrição, por isso sempre lhe levava comida.

Entre tantos boatos correndo os corredores do santuário, um cavaleiro não aguentou mais esperar a saída de Mu para saber a verdade e decidiu ver com os próprios olhos o que estava acontecendo, por isso solicitou autorização para uma visita.

Era quarta feira a noite, e apressado o Cavaleiro de Peixes chegava ofegante ao complexo penitenciário. Havia se distraído no banho e por isso se atrasado, quase perdendo o horário da visita.

— Por Athena, me diga que ainda dá tempo. — Afrodite perguntou ao guarda sentado atrás da mesa na recepção.

— Olha já começou a alguns minutos, mas seu pedido foi aceito, Cavaleiro de Peixes, se não estiver com nenhum pertence só preciso fazer uma revista rápida e já estará liberado para entrar. — o guarda lhe respondeu.

— Ótimo, então vamos logo com isso. — disse o pisciano já erguendo os braços para ser revistado.

Poucos instantes após a revista era conduzido a ala separada onde Áries estava. Assim que adentrou o corredor indicado pelo carcereiro, pode ver ao longe a figura de Shaka sentado sobre as próprias pernas, segurando um copo com ambas as mãos e rindo.

Ver Shaka de Virgem, o cavaleiro cuja a seriedade e mal humor só perdiam para Camus de Aquário, rindo de maneira tão descontraída era tão estranho que atiçou ainda mais a curiosidade do pisciano. Por isso desacelerou os passos propositalmente para não ser notado e continuou a se aproximar.

Logo pode avistar também Mu e imediatamente algumas das fofocas foram desmentidas, pois o lemuriano não aparentava estar doente e deprimido, ao contrário, se mostrava risonho e muito alegre.

Mas o que realmente mais saltava aos olhos era o clima extremamente íntimo e descontraído entre os dois.

Mu estava sentado de costas para o corredor e de lado em relação as grades, onde apoiava um dos ombros. Como tinha uma das pernas dobradas, apoiava o braço que segurava seu copo no joelho, dando um ar de desleixo, enquanto passava o outro braço pelas barras de metal frio e afanava pedaços de bolo que estavam em um pratinho no colo de Shaka. Virgem, que se encontrava tão próximo das grades que seus joelhos encostavam no metal, cochichava algo e ria bebericando o líquido fumegante em seu copo.

Tão distraídos, só perceberam a presença do pisciano quando este já estava praticamente ao lado dos dois. Foi visível o desconforto de ambos ao serem flagrados daquela forma, pois pararam de rir imediatamente e enquanto Shaka engolia o chai sem graça, Mu recolhia a mão deixando o pedaço de bolo no pratinho e se desencostava da grade para se sentar de maneira mais formal.

— Ei não se incomodem comigo, podem continuar, só cheguei meio atrasado. — disse Afrodite achando graça do modo como os dois estavam sem jeito e atrapalhados, até parecia que os tinha flagrado aos beijos e não apenas tomando um chá com bolo.

— Afrodite! Quando deu a hora das visitas e não apareceu achei que não viria mais. — Mu disse ao se endireitar, tentando justificar sua surpresa.

— E eu iria pedir uma visita e não vir? Não me subestime. — o sueco sorriu — Só me perdi um pouco com as horas.

— Bom, já que chegou e eu já fiz outras visitas antes, se me derem licença eu vou me retirar e deixa-los à vontade. — Shaka disse de modo cortês ao recolher os copos, a garrafa térmica e o prato de bolo os guardando na bolsa ao seu lado.

— Não precisa ir embora Virgem, só vim ver como ele está e conversar um pouco. — o sueco respondeu — Não estou te expulsando.

— Eu sei que não, mas já que essa é sua primeira visita creio que tenha mais a conversar com Mu do que eu, que o tenho visitado a mais tempo. — Virgem falava enquanto fechava a bolsa térmica e se levantava. A verdade é que a presença de Peixes ali o incomodava, pois não poderia mais conversar com Mu como gostaria, além disso, estava um tanto sem graça por ter sido pego em um momento de proximidade com o lemuriano — Bom, como disse vou deixa-los a sós.

O indiano então se voltou para Mu, que já estava de pé e lhe estendeu a mão, lhe oferecendo uma despedida um tanto mais fria do que os abraços que sempre davam, por conta da presença de Afrodite.

— Boa noite, Mu! Fique bem, na sexta-feira já poderemos tomar chai sem grades. — o indiano disse gentil apertando a mão do amigo.

— Não vejo a hora. — Mu retribuía o aperto de mão um tanto decepcionado por ele ir tão cedo — Muito obrigado por todas as visitas, pelo chai e pelo bolo, estava uma delícia.

Ambos sorriram discretamente e como aquela despedida já estava demorando mais do que deveria, Shaka se afastou, acenou com a cabeça para Peixes, deu as costas e se retirou.

Tudo foi minimamente analisado e observado pelos olhos afiados de Afrodite que, de braços cruzados, não deixava passar nada, como por exemplo, o tom brando e doce da voz do indiano ao falar com Mu, ou o triste suspiro contido que o lemuriano deixara escapar ao ver Shaka ir embora.

Se alguns boatos se dissolveram, outros ganhavam força, mas uma coisa era certa: Ali tinha!

Após acompanhar Shaka com os olhos e vê-lo virar ao fundo do corredor e ir embora, o sueco se voltou para o lemuriano o percebendo meio cabisbaixo.

— Desculpa Mu! Não queria acabar com o encontro de vocês! — Afrodite disse com certa ironia e diversão — Achei que seria uma excelente vela. — riu

— Deixa de ser besta e maldar as coisas! — o ariano não conseguiu conter-se e também riu, mesmo que de modo ainda um tanto envergonhado — Eu e ele somos amigos desde a infância, só isso.

— Eu sei bobinho, só estou brincando contigo. E vem logo aqui e me dá um abraço, faz mais de dois meses que você deu um perdido em todo mundo e eu já não estava mais me aguentando para saber como você está. — enquanto falava se aproximou das grades com os braços abertos.

— Para saber como eu estou e também de todos os detalhes da fofoca do ano, não é? — Mu respondeu ao abraçar o amigo pelas grades e se afastar logo depois — Que bom que veio.

— Mas é logico, se tivesse que esperar mais dois dias até você sair eu ia ter um treco! — não fazia questão nenhuma de esconder suas intenções — Faz ideia de como está todo mundo preocupado contigo e louco com o Touro? Aí quando você volta, vai direto pra prisão sem falar com ninguém, tudo bem que é sua privacidade, mas nós nos preocupamos! Fala a verdade, você está bem?

A preocupação sincera era visível nos olhos de Peixes, que apertou o ombro do amigo, o que fazia o ariano se sentir grato.

— Estou sim, quer dizer, na medida do possível para quem pegou o marido em flagrante. A vontade de quebrar todos os dentes da boca dele já passou... Eu acho! — Mu riu de leve.

— Espera! — Afrodite arregalou e ergueu a mão em sinal de espanto — Foi flagrante... fla-gran-te? Ele falou que você viu ele com outra pessoa mas... — se aproximou da grade e cochichou como quem conta um segredo — Você pegou ele com a boca na botija mesmo? Tipo...

Mu de um suspiro, cruzou os braços e revirou os olhos.

— Então ele contou que eu o vi, mas não o que eu vi não é? — outro resmungo e uma fungada de irritação — Pois foi isso mesmo que você está pensando. Eu peguei o Aldebaran no ato, com as calças arriadas transando em cima de uma cômoda com uma desconhecida! — nesse momento por mais contido que fosse era possível notar a revolta e a mágoa na voz do ariano. Ainda era difícil relembrar as cenas que presenciara — Estava tão empolgado que ele só me notou quando eu deixei cair a garrafa de vinho que carregava, foi tão absurdo que por um segundo pensei estar delirando.

— Puta que me pariu! Mas agora tá explicado seu sumiço! Que canalha! — Afrodite estava perplexo — Mas olha, isso só mostra o quanto você é um homem bom e que não merece aquele pulha, foi embora sem se rebaixar. Eu já não tenho essa bondade toda, se eu pego o meu homem no flagra, transando com outra pessoa, eu mato aquele ruivo com requintes de crueldade empalado em uma roseira.

O sueco estava tão revoltado que se balançava todo e acabara falando demais, fato esse que não passou despercebido pelo lemuriano, sendo a vez dele de ficar curioso.

— Ruivo? — Mu indagou com uma das pintinhas da testa erguidas ao cruzar os braços aguardando a resposta.

Afrodite na mesma hora mudou de expressão e fechou a boca, encarou o lemuriano e fez uma careta engraçada enquanto coçava a sobrancelha.

— Que droga, Mu! — riu sem graça por ter falado demais — Olha ainda não é assim oficial e não tem ninguém sabendo, mas... Eu e o Camus estamos saindo a algum tempo, nos conhecendo melhor, se é que me entende, mas não somos namorados... Ainda!

O sueco deu uma piscadinha com um dos olhos para o amigo acompanhado de um sorriso travesso, pois apesar de serem apenas amantes, sentia que seu relacionamento com Aquário não tardaria a se tornar algo mais sério que apenas um caso.

Mu, por sua vez havia até descruzado dos braços; estava perplexo e de queixo caído. Camus e Afrodite, juntos? Aqueles dois com toda a certeza não eram um casal em potencial em sua mente.

O aquariano era sempre tão fechado, recluso e sério que parecia difícil ser dado a romances, ainda mais com alguém como Afrodite, que possuía uma personalidade tão forte e festiva.

— O que foi Mu? Fecha a boca se não entra mosquito. — ralhou o pisciano ao notar que o lemuriano ainda estava meio em choque — Sim, eu e o Camus, aquele rabugento, estamos de caso, se é isso que sua mente ainda está processando. E para seu governo estamos muito bem, obrigado!

— Pela deusa, me desculpa Afrodite, é que, minha nossa... O Camus? Eu nunca imaginei que um homem tão fechado como ele, se quer tivesse relacionamentos, muito menos com você que é sempre tão alegre. Me perdoe, mas foi realmente um choque.

— Tudo bem querido, não precisa se explicar, eu sei o casal “exótico” que eu e ele formamos. Parecia surreal até pra mim no começo, precisava ver minha cara de espanto na primeira vez que ele me chamou para tomarmos um vinho na casa dele. — o sueco confessou e achou que era o momento perfeito para plantar uma pequena semente no coração do lemuriano. Não havia ido naquela visita apenas para se por a par das fofocas. Afrodite era um homem muito observador e talvez fosse por conta da deusa a quem fora dedicado e nomeado ao nascer, mas se havia outro talento que possuía além de lutar e cultivar rosas, este era o de decifrar os enigmas do amor. Havia muito tempo que desconfiava do estranho triângulo amoroso entre Touro, Áries e Virgem. Podia não saber os detalhes, mas sabia que rolava algo ali que estava nitidamente oculto até para os próprios envolvidos, mas não para si, que acompanhava tudo de camarote. Por isso honrando seu nome e a deusa do amor, mas principalmente depois da cena que havia presenciado momentos antes, decidira usar aquela pequena brecha e dar um empurrãozinho no destino — Sabe Mu, as vezes as pessoas são muito mais do que aparentam. — disse com voz suave, capturando a atenção do lemuriano no mesmo instante — Os tempos mudaram Mu, e nós também.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que os não somos mais os homens que éramos antes. — o sueco dizia as palavras de modo cuidadoso para que despertasse os questionamentos certos no ariano sem, no entanto, constrange-lo — A guerra santa e nossa ressureição, nos mudou não apenas como guerreiros mas como homens. As verdades de antes não são mais tão absolutas, Mu. Veja Camus, por exemplo, um guerreiro frio, calculista e impessoal que mostrou a mim uma faceta jamais esperada dele. As regras de antes já não valem mais, querido!

A confusão na mente de do tibetano fora percebida através dos pontinhos que quase se uniam em sua testa franzida. Afrodite temeu ter dito demais, porém sabia ser necessário.

Quando Mu já abria a boca para lhe questionar o motivo de tais palavras e o sueco também se preparava para lhe dar uma desculpa e sair pela tangente, foram interrompidos pelo carcereiro que acabava de chegar.

— Sinto muito os interromper, mas o horário de visitas já acabou e preciso que o Cavaleiro de Peixes me acompanhe até a saída.

— Já? — o lemuriano perguntou pois nem percebera o tempo correr.

— Tudo bem! — Afrodite sorriu gentil para o guarda e para o amigo, se apressando em se despedir dele com um aperto de mão rápido — Bom eu vou indo, temos muito tempo para fofocar quando sair daqui Mu. Estou feliz que esteja bem. — o sueco se afastou, sem dar brecha para o lemuriano falar mais nada e se dirigiu até o homem que o aguardava, mas antes de ir embora, virou a cabeça para traz olhando uma última vez para o lemuriano — Mu, o impossível às vezes não é tão impossível assim, só temos que estender o braço e alcançar!

Com uma ultima piscadinha travessa e um sorriso no rosto, Afrodite de Peixes se despediu do amigo e se retirou, sabendo que havia deixado para traz um lemuriano ainda mais confuso e cheio de questionamentos, mas seu intento estava cumprido. Como bom jardineiro que era, havia plantado uma semente preciosa na mente e no coração de Mu, se bem regada e cultivada, ela germinaria e daria os mais belos frutos gerados pelo coração dos homens.

***

Grupo das minhas fics com as meninas — Fics trio ternura

Grupo do Mushakismo, espaço reservado apenas para Mu x Shaka.

Notas finais
ÉANNNNN como eu adorei escrever o Afrodite *-*. A cena do livro foi inspirada numa conversa com a Rosenrot no nosso chat e eu não consegui deixa-la de fora da fic. Muito obrigada a ela e também a Ivi, as duas me ajudaram com detalhes técnicos valiosos XD Então me perdoem a demora, e espero ainda ter uma alma que acompanhe a fic hahahahh se Sim, me deixa um oi, diz o que achou que eu prometo que o prox cap tem muitas emoções *-*