Silent Night

2 Véspera de Natal – parte 1


Leorio acordou todo esparramado na cama. E o pobrezinho do Kurapika ocupava um espaço mínimo, a cabeça suavemente recostada no peito do mais velho. O tempo pareceu parar. Leorio poderia passar o dia inteiro olhando o Kuruta, apreciando o encanto de tê-lo tão perto. Mas o corpo ignorava seus sentimentos. Arrastou-se para fora das cobertas com muito cuidado para não o acordar. Kurapika abriu os olhos, murmurou algo ininteligível e voltou a dormir.

Na cozinha, Kurode pegou a tigela com a boca e abanou a cauda. Leorio serviu sua ração e abriu a geladeira para conferir o que faria para o café da manhã. Seu estômago roncava, mas esperaria o Kuruta levantar antes de começar a comer. Decidiu atraí-lo com o cheiro das omeletes. Kurode logo ergueu o focinho.

— Nananina não. Sua comida está na tigela.

O labrador aproximou-se.

— Tigela, Kurode.

E ergueu os olhinhos.

— Já disse que não.

Leorio teve um sobressalto. Não percebera a aproximação de Kurapika. O Kuruta abraçava-o pela cintura, encostando a testa em seu ombro. Leorio virou o rosto para beijá-lo.

— Bom-dia, Kura.

— Bom-dia. Leo. — Ele sorriu. — Fazendo o quê?

— Omeletes. Gostei do rabo de cavalo.

Kurapika deu de ombros e sentou-se à mesa. Kurode foi até ele e ergueu os olhinhos.

— Bom-dia, Kurode.

— Ah, esse aí não merece a menor confiança. Quer chocolate quente?

— Chocolate quente com omeletes, Leorio?

— É, ué.

O Kuruta meneou a cabeça, rindo.

— Certo. Pode ser.

Leorio sabia como caprichar. Serviu os chocolates com chantilly e marshmallows. A lembrança do White Day foi inevitável.

— Você me entope de doces, sabia? — resmungou Kurapika, segurando a caneca com estampa dos personagens de Hiato x Hiato.

— Vou continuar te amando mesmo que fique gordo — rebateu Leorio, bem-humorado.

— E olhe só isso. — Kurapika moveu a caneca em seus dedos. — Nem parece que é um homem adulto.

— Sou, sim. Olha essa aqui. — Leorio ergueu sua caneca com o símbolo da Medicina.

— Muito adulto.

— Bobo!

Depois do café, assistiram a mais alguns episódios de Hiato x Hiato. Leorio queria porque queria ensinar Kurapika a cantar a abertura.

— Vamos! É legal!

— Não. Definitivamente, não.

— Então, o encerramento.

— Leorio! — O Kuruta revirou os olhos. Na televisão, Kurisu fez a mesma coisa ao ouvir um comentário de Lionel.

Quando Leorio se levantou para esquentar o almoço, Kurapika escapuliu para o quarto e começou a organizar os livros. Distraiu-se com um romance sobre vingança entre clãs. Sorriu ao folhear as páginas. Nunca imaginara que Leorio era tão culto. E não pôde evitar o riso ao encontrar anotações nos cantos sobre as palavras que o Paradinight não conhecia.

— Kurapika! O almoço está pronto — gritou o mais velho da cozinha.

Kurapika fechou o livro e o devolveu à estante. Avaliou seu trabalho. Estava bastante bom, considerando que tivera poucos minutos. Quanto tempo levaria para Leorio notar a diferença?

Os dois almoçaram sentados no sofá. Assistiam a um filme infantil qualquer. Kurode deitou-se perto do Kuruta e ficou encarando sua bandeja. O cheiro do curry parecia delicioso.

— Ei — chamou Leorio. — Meus amigos farão uma festa de amigo oculto esta noite. Quer ir?

— Não seria indelicado? Nós não estamos participando.

— Bom, é. Eles tinham me chamado, mas eu disse que passaria o Natal com você. Então, a Samantha falou que seríamos bem-vindos se quiséssemos ir.

Kurapika largou a colher. Um movimento perigoso que fez Kurode erguer o focinho.

— Leorio, me desculpe!

— Hã? Por quê?

O Kuruta prensou os lábios.

— Você não aceitou por minha causa, não é? Deixou de ver seus amigos por causa de mim.

— Mas você também é meu amigo, Kurapika! Você já era meu amigo antes de eu conhecê-los. E agora você é meu namorado.

Kurapika não contestou.

— É claro que quero passar o Natal com você. Meus amigos entendem totalmente. E também gostariam muito da sua presença.

Leorio fitou-o, esperando uma resposta. Kurapika moveu-se diversas vezes, quase derrubando a bandeja.

— Eu... me sinto desconfortável. Não sou íntimo deles. Mas não quero estragar sua noite — concluiu, encarando-o.

— Não diga bobagens! Como poderia estragar minha noite ficando comigo? É o melhor presente que poderia me dar. Além disso... — Leorio abriu um sorriso luminoso. — Temos nosso próprio amigo oculto para fazer.

— Amigo oculto de duas pessoas, Leorio? — Kurapika riu.

— Três — rebateu o outro, solene. — Eu, você e o Kurode.

— Quem está dizendo besteiras agora?

— Ora, vamos! Você gostou da piada. Tudo bem. Ficaremos só nós dois hoje. Mas, se quiser, podemos encontrar meus amigos na festa de Ano Novo.

O Kuruta refletiu por um minuto.

— Concordo. Se for em uma festa sem troca de presentes, não me sentirei tão desconfortável.

— Você vai gostar deles. Juro que são muito legais. Kurode! — exclamou ao perceber que o cachorro tentava lamber o canto do prato de Kurapika. — Levado! Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Quer sair hoje?

— Para onde?

— Ah, por aí. Brincar na neve. Ver os enfeites de Natal. Essas coisas.

Kurapika remexeu-se de novo.

— Tudo bem. Pode ser.

— Ótimo! — Leorio sorriu.

— Ótimo.

O Kuruta voltou a atenção para seu prato e estranhou ao perceber que a porção de curry diminuíra. Kurode lambia o focinho, eliminando as evidências.

— Aquecido? — perguntou Leorio, fitando o namorado.

Kurapika estava coberto da cabeça aos pés. Gorro, cachecol, abafadores de ouvido, luvas e botas, além do sobretudo marrom. Leorio, por sua vez, vestia um casaco vermelho fofo e um gorro cor de rosa.

— Presente da Aya — explicou, ajeitando a peça de roupa. — A cor favorita dela é rosa.

— Ah... A cor favorita dela.

— Achei que seria indelicado recusar. Bem... — Leorio virou-se para o labrador. — Comporte-se, está bem, Kurode? Voltamos antes da meia-noite. Deixei ração na sua tigela.

O cachorro virou-se e sumiu no quarto.

— Ah, você supera — resmungou Leorio, caçando as chaves para abrir a porta.

— Sabe que ele não entende o que você diz, não é?

— Acho que entende um pouco, sim. Tenho certeza de que entende a palavra "tigela". — Suspirou. — Espero que não passe mal por causa do curry.

— Desculpe. Eu fui desatento.

— Tudo bem. Ele já comeu tanta coisa bizarra, que um tantinho de curry não vai fazer mal.

— Como o seu trabalho da faculdade?

— Por favor, não me lembre disso. — Abriu a porta. — Vamos?

Desceram juntos para a tarde gelada. Não estava nevando, mas um manto reluzente cobria a paisagem. Caminharam até o parque, onde as crianças brincavam de construir bonecos e anjos de neve. Kurapika observou-as com um sorriso. O vilarejo Kuruta costumava ficar em uma floresta tropical. Ele nunca apreciara aquelas brincadeiras.

— Uma vez, quando eu era criança, viajei com minha mãe e minha irmã para uma pequena vila nas montanhas — disse Leorio. — Era época de nevasca. Eu fiquei louco quando vi a neve pela primeira vez. Uns garotos mais velhos me ensinaram a fazer um boneco. Eu peguei a echarpe da minha mãe para enfeitá-lo. Ela ficou furiosa e me deu a maior bronca. Tenho o galo até hoje.

Kurapika empertigou-se.

— É a primeira vez que te ouço falar da sua mãe.

— É? — Leorio esfregou a nuca. — Bom, não há muito o que dizer. Ela foi uma boa mãe.

— Foi? — murmurou Kurapika, fitando-o.

— Ainda é. Eu só... perdi um pouco o contato quando fugi de casa...

O Kuruta prensou os lábios. Desviou o olhar em direção às crianças que rolavam pela neve.

— Você nunca falou sobre sua família.

— Você também não.

— É doloroso para mim! — exclamou Kurapika, voltando-se para Leorio.

— Para mim, também é. De outra forma, mas é. Minha mãe sempre me achou um inútil. Eu só queria provar a ela que não...

Kurapika abaixou o rosto. Não gostava de quando Leorio falava daquele jeito.

— Para mim, você nunca foi um inútil.

Sentiu o afago por cima do gorro. Quando ergueu os olhos, percebeu que Leorio sorria.

— Vindo de você, significa muito. Obrigado.

— Não... não há de quê.

— Venha, não quero falar de coisas tristes agora. — O Paradinight puxou o namorado pela mão.

— Espere. Eu... eu quero ouvir mais!

Leorio parou.

— Quando for o momento. Talvez até possa conhecê-la.

Kurapika assentiu.

— Eu gostaria bastante.

— É... Mas deixe isso para o futuro. Por agora... — Leorio agachou-se e pegou uma porção de neve. Manuseou-a até formar uma pequena bola. — Nós vamos brincar.

— Brincar? De quê?

O mais velho afastou-se vários passos e lançou a bola com força em Kurapika.

— De guerra de bola de neve!

— Leorio! Que infantil. — Kurapika franziu o cenho e foi atingido por outra bola. — Leorio...

— Já são dois pontos para mim! Opa! — Ele se agachou bem a tempo. O Kuruta era rápido. — Ahá! Já aprendeu, né? Tente me acertar agora.

— Não. Essa é uma brincadeira estúpida. — Kurapika desviou de uma bola. — Vamos agir como adultos, por fa...

— Três pontos! — gritou Leorio, erguendo os punhos.

— Já chega! — O Kuruta limpou a neve do rosto. — Se não vai parar por bem... — Agachou-se. — Que seja por mal.

Leorio estava saltitando como um bobão e foi atingido em cheio nas costas. Virou-se para o namorado, arregalando os olhos de surpresa. Kurapika sorria, já preparando a segunda bola.

— Muito bem, então. É guerra.

— É guerra.

As mães não entenderam como aqueles dois marmanjos conseguiam gritar mais do que as crianças.

Kurapika ainda estava limpando a neve do sobretudo quando entraram na cafeteria. Ganhara por quinze pontos, mas tivera uma pequena ajudinha dos olhos escarlates. Leorio soube, mesmo com o Kuruta usando as lentes, que fora trapaceado.

— Da próxima vez, quero te ver jogando limpo, hein?

— Ora, mas não é você que pertence à categoria da emissão?

— Vou "emitir" aura é na sua cara. Isso, sim!

O outro riu.

— Admita, Leorio. Eu sou um especialista em lançar bolas de neve.

— Põe especialista nisso!

Sentaram-se ao balcão e fitaram os doces e salgados expostos na vitrine. Uma moça que esbanjava simpatia veio atendê-los.

— Boa-tarde! O que desejam?

— Eu quero um capuchino, por favor — disse Leorio.

— E o senhor? — Ela sorriu para Kurapika.

— Nada, obrigado.

O Paradinight cutucou-o com o ombro.

— Vamos. Está frio. Beba alguma coisa quente.

— Não gosto de café.

Leorio inclinou o corpo para trás como se tivesse levado um tapa.

— Como assim não gosta de café? Quem no mundo não gosta de café?

— Eu não gosto, está bem? Não faça escândalo.

— De jeito nenhum! Vai tomar um café agora! Moça, traz um para ele também, por favor.

— Leorio! As pessoas estão olhando...

— Deixe elas olharem!

— Nós também temos chocolate quente e outras bebidas descafeinadas — sugeriu a atendente.

— Perfeito. Um chocolate, então.

— Não! — Leorio segurou seu braço. — Toma café comigo.

— Pare com isso... É constrangedor!

— Você é um péssimo namorado!

— Gostariam de algum acompanhamento? Nossa torta especial de Natal está uma delícia!

— Por favor! Só faça esse idiota calar a boca!

A moça não conseguiu evitar o riso. Leorio entregou-lhe o cartão e trocou algumas amenidades enquanto ela digitava o valor do pedido na máquina.

— As bebidas ficarão prontas em um minuto, senhores!

O mais velho sorriu e deu um beijo da bochecha de seu namorado. Kurapika fez uma careta. Não apreciava aquelas demonstrações públicas de afeto. Quando os copos e a fatia de torta foram entregues, mergulhou no mais profundo silêncio. O chocolate estava gostoso e o aquecia por dentro. Leorio acompanhou sua quietude. Ambos sentados lado a lado, sem trocar palavras, dividindo a mesma fatia entre longos goles e pequenos sorrisos.

— Não acredito — disse uma voz familiar.

Leorio olhou por cima dos ombros.

— Charlie!

Um garoto de cabelos e olhos castanhos ergueu o queixo, cumprimentando. Atrás dele, Benjamin apertava a echarpe verde.

— Ku-kurapika, é você?

O Kuruta sorriu.

— Olá, Benjamin. Charlie.

— Olá! — disse Charlie, acenando brevemente,

— O-oi!

— E aí, Benja? — chamou Leorio. — Não tinha companhia melhor para o Natal?

— Ah, eu, eu não...

— Muito engraçado, Leorio. Para seu governo, o Benja é meu crush, está bem? — Charlie segurou sua mão, e o pobre do garoto ficou quase tão vermelho quanto os gorros de Papai Noel dos atendentes. — Nós estamos aproveitando um tempinho a sós antes de irmos para o amigo oculto. Vocês também vão?

— Hoje, não, Charlie. Ficaremos em casa mesmo. Mas no Ano Novo encontramos vocês.

— Entendi. Melhor. Se só visse meu namorado algumas vezes por ano, também ia gostar de ficar a sós com ele.

Kurapika sentiu o rosto enrubescer ao ouvir aquelas palavras. O "algumas vezes por ano" fez com que se sentisse culpado, mas era sobretudo o que Charlie não dizia explicitamente que o perturbava.

— Mas, ei, já que estamos todos aqui, por que vocês não vêm com a gente assistir a uma apresentação musical?

— Uma apresentação? — Leorio pareceu interessado.

— Sim, é em um bar de vinhos aqui perto. Foi o Benja que me apresentou. Hoje vai ter uma apresentação especial de uma banda cover que ele gosta. Não vão cantar músicas de Natal, não. Então, está safo!

— Está o quê? — Kurapika franziu o cenho.

— Parece bom para mim. O que acha, Kura?

Todos os olhares recaíram sobre o Kuruta. Ele apertou o copo de chocolate quente até quase estourar a tampa.

— Tudo bem. Vamos.