Silent Hill: The Artifact
17 Sr. Orosco
Notas iniciais

–Matt... Não podemos continuar sem que eu te diga isto.
Olho pra Chang. Meus olhos continuam cheios de lágrimas que não consigo conter. Faz apenas alguns minutos que vi o garoto a quem tinha prometido encontrar o pai morrer diante dos meus olhos mordido pela droga de um lobo que o imbecil aqui não conseguiu conter do lado de fora. Mais uma vez, eu havia sido o culpado de tudo.
–Eu... Eu não quero saber agora, Chang! Aquele garoto, eu... Eu havia prometido encontrar o pai dele ou então arrancar ele dessa droga de cidade e agora ele está morto! Eu o deixei morrer.
–Você não está compreendendo nada mesmo, não é Matthew? Não sabe no que nos envolvemos vindo pra cá. No que se envolveu...
–NÃO ME IMPORTO! Eu queria salvá-lo, tirá-lo daqui... Eu causei a morte dele.
Ele revira os olhos.
–Okay. Vamos atrás de Anette então. Encontremo-la e saiamos daqui logo, assim salvaremos mais gente. Não temos muito tempo.
–Como assim não temos muito tempo?
Eu o puxo pelo braço, impedindo-o de abrir um portão verde de madeira que provavelmente nos levaria a outro compartimento do parque. Não sei como Chang conhece esse lugar, mas pelo visto ele está tão informado quanto eu.
–Ah, Matthew... Você não quer saber, lembra? E pensando melhor, é bom que não saiba mesmo. Está cheio de emoções... Se souber vai estragar tudo, faça apenas o que eu lhe disser e tudo ficará bem.
Emoções? Como assim emoções? De fato, a cidade está me mudando. Está me deixando emocional de novo... Eu chorei a morte de Mateus, eu me desesperei e agora estou gritando com Chang. De fato, essas emoções podem atrapalhar, mas não consigo contê-las. Foi muito doloroso quando tive que contê-las uma vez, por causa do meu pai... Mas... Porque ele quer assumir o controle? Estou aqui a mais tempo, estou com o Selo de Metatron! Eu deveria ter o controle da situação, mas sou o mais descontrolado por aqui. Talvez Chang deva ser melhor com isso... Ele se solta e tenta forçar o portão, mas nada consegue.
–Er... Chang?
–Sim?
Reviro na mochila e retiro o Selo de Metatron, entregando a ele.
–Tome isto. Ele controla as duas realidades de Silent Hill... Eu estou “emocional” de mais para usá-lo, então você pode alternar as realidades com ele. Talvez na outra, essa porta esteja aberta.
–O QUÊ?! Então todas as vezes que a cidade muda é você com essa... “Coisa”?
–Provavelmente.
Ele respira fundo como se soubesse que a culpa de tudo fosse minha e pega o objeto com a mão.
–Como funciona?
–Bem... Você imagina essa cidade diferente, simples...
–Simples... Legal. – Ele tranca a cara.
Ele fecha os olhos com o Selo e tenta abrir a porta. Nada acontece. Percebo um esforço da parte dele em imaginar tudo, mas absolutamente nada acontece mais uma vez.
–Essa droga não funciona, toma!
–Vou tentar...
Seguro o objeto em minha mão direita e toco a maçaneta com a outra mão. Fecho os olhos e imagino a cidade no lado escuro, aquele lugar se deteriorando. Sinto a familiar sensação e abro os olhos, conseguindo ver tudo ficando escuro mais uma vez, o chão caindo deixando apenas grades enferrujadas. Os muros do lugar começam a aparentar um estado horrível, como se estivessem sido banhados por sangue fresco. O cheiro de enxofre e carne podre invade meu nariz e sinto náuseas. Meus sentidos se confundem e tenho a impressão de que meus pés estão enraizados no chão. Chang me olha como se eu tivesse descoberto a maior invenção do mundo.
–Pronto...
–Tente não usar isto pra trazer monstros.
–Acho que isso não depende muito de mim, Chang.
Ele gira a maçaneta e abre o portão. A princípio, penso estar em um lugar completamente diferente. Mas então percebo que de alguma forma aquilo também faz parte do parque. Estamos como estivéssemos subido para um lugar bem alto, em uma espécie de passarela. À esquerda há um enorme abismo escuro e mais a frente consigo enxergar alguns vultos de construções. Pego a lanterna dentro da mochila e tento iluminar alguma coisa. Começamos a caminhar em frente, olhando para o muro as construções que parecem ser lojas. A maioria das portas está fechada, não nos deixando entrar em lugar algum. Continuamos caminhando com cautela, tentando encontrar alguma coisa que nos leve até Anette até que Chang vê uma porta marrom no meio de um muro. Não sei por que, mas de alguma forma ele sabe para onde está indo.
–Aqui.
Ele empurra a porta e está aberta. Entramos e imediatamente vejo uma mulher sentada em um dos bancos. É Angela. Tem uma pequena caixinha de música ao pé dela tocando uma daquelas musiquinhas de criança. Angela segura uma faca suja de sangue seco e parece sorrir pro nada.
–Angela?
–Eu costumava brincar nesse parque com a minha mãe... – ela continua com um olhar fixo no nada – ela me trazia aqui uma tarde por semana. Uma pena que ela tenha morrido.
–Morrido?
Faço um sinal pra Chang e ele fica parado perto da porta enquanto me aproximo dela. O lugar não é muito grande, é um quadrado envolto por grades e o muro pelo qual entramos. Mais à frente há um pequeno portão que deve dar acesso a outro lado do parque. A mulher não dá nenhuma demonstração de que percebeu minha presença. Seu olhar continua fixo no nada.
–Ah, mamãe... Era tudo tão divertido...
–Angela?
Chang se aproxima de mim. Começo a perceber o que Silent Hill é capaz de fazer com as pessoas... Como o professor havia dito as pessoas não voltam ou enlouquecem. Talvez esse fosse o segundo caso.
–Ah, mamãe... Era tão legal brincar com você!
Ela segura a faca perto do pescoço se levantando e girando no meio do lugar. Meus olhos não conseguem acreditar no que veem.
–Mamãe? Eu... Eu posso ouvi-la! Eu sei, eu não posso matar o papai. Mas ele tem que morrer, ele me causou muita dor.
–Papai?
Começo a pensar se todos os que veem a Silent Hill tem problemas com o pai. Eu, Anette, Mateus... E agora Angela. De repente começa a chover. Olho pro céu e não vejo uma nuvem sequer. Como isso pode ser possível?
–Matt, vamos embora. – Chang me lembra.
–Não... Eu tenho que ajuda-la.
–PAAI!! EU VOU MATAR VOCÊ! – Ela grita.
–Angela...
Sou interrompido. Vejo alguma coisa cair do céu junto com as gotas fortes de água. Era uma espécie de mesa a princípio, mas logo a coisa vai ficando mais nítida. Era um tipo de cama com os braços e pernas de uma pessoa formando os pés do “móvel”. Estava viva e em cima tinha um aspecto marrom de duas pessoas tendo uma relação sexual embaixo de um lençol. A coisa espalhava sangue por todo o lugar. Ela cai em cima de Angela que grita.
–Angela!!
Ela consegue sair debaixo da coisa. Não sei se a criatura percebe a minha presença junto com a de Chang. A coisa começa a perseguir a mulher que tenta atacar com a faca a coisa na tentativa de mata-la.
–Mas... Que diabos?
–Chang... É alguma coisa da mente dela.
–Como pode saber?
–Isso acontece comigo a cada instante.
Angela tenta investir contra a coisa que é mais forte que ela. A criatura derruba Angela algumas vezes e eu saco minha arma, mas de algum modo não consigo atirar porque sinto que essa luta não é minha.
–Mamãe... Mamãe... O papai está me abusando de novo! Socorro!
Agora tudo faz sentido. A criatura é uma lembrança dela, a pior lembrança que uma pessoa pode ter... Decido ajuda-la.
–Angela, pegue!
Jogo a arma para a mulher que ainda corre da criatura como se fosse morrer a qualquer instante. A criatura parece gemer e gritar de dor, evocando a Angela acontecimentos passados. O aspecto volumoso do que aparenta serem as duas pessoas envoltas com o lençol continua se movendo, como se elas estivesse tendo relações.
–Não... Pare, pare...
A mulher começa a gritar como se estivesse revivendo tudo mais uma vez. Chang tenta me afastar de perto, mas eu não consigo. Eu preciso ajuda-la. Então eu corro até a criatura e dou um chute.
–Angela, pegue a droga dessa arma!
Tento atrapalhar a coisa enquanto Angela corre. Chang tenta me puxar de volta, mas não consegue. Olho para trás e vejo a mulher com uma arma na mão, a que eu havia jogado para ela. Saio de perto da coisa e espero pelo primeiro tiro que vem logo em seguida fazendo com que a criatura perca sangue e se movimente mais lentamente. Os tiros que se seguiram foram o suficiente para derrubar a coisa no chão e descarregar a arma. A coisa ainda se move, ainda mostrando as mesmas coisas e emitindo os mesmos sons. Ela joga a arma de volta pra mim com um olhar de agradecimento e vai até a coisa, fincando a faca a qual levava no centro da criatura matando-a de uma vez.
Angela olha fixamente para a coisa como se estivesse satisfeita pelo que fez.
–Mamãe... Sei que você não se orgulharia disso... Mas eu tive que fazer... Eu o odeio com todas as minhas forças.
Tento me aproximar da mulher, mas ela aponta a faca para mim me ameaçando.
–Não se meta!
Ela cai de joelhos diante da coisa e começa a chorar.
–Papai... Papai... PAPAAAAII!!!
Angela segura à faca firmemente em meio às lágrimas e desfere um golpe contra o seu próprio pescoço fazendo jorrar sangue por todo lado. Eu tento correr até ela, mas Chang me segura e me impede de sair do lugar. Meus olhos derramam lágrimas e sinto todo o meu corpo cair em pedaços. Ela se matou. Vejo o seu corpo cair em cima da criatura ainda jorrando sangue na mesma proporção que os meus olhos derramam lágrimas. Não consigo me conter mais uma vez e sou arrastado por Chang em direção ao pequeno portão, indo para mais dentro do parque. Eu estou com medo, não sei mais o que pode acontecer. Tenho a impressão de que à medida que adentro dentro desse lugar coisas piores acontecem. Deixo-me ser arrastado mais uma vez por Chang, não tenho mais porque lamentar todas essas mortes... Não tenho mais motivo, pois eles estão mortos.
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