Silent Hill: The Artifact
39 Cinzas, parte II
Notas iniciais

[Vejo a cena mais inesperada de todas ao abrir a porta: meu pai está sentado na escada chorando enquanto olha uma foto. Não consigo ver o que, pois assim que percebe minha presença, ele coloca a foto no bolso da calça e se levanta, enxugando o rosto. Eu não consigo sentir absolutamente nada com aquela cena.
–Matt... Está de volta!
–Estou, papai.
Vou até a cozinha e coloco os remédios que comprei dentro do armário, na parte reservada para ele e pego também um pequeno pote com os remédios que Tyler usa para hipertensão e o coloco no bolso sem que ele veja. Vou em direção às escadas, mas sou impedido por meu pai, que voltou a sentar nelas.
–Matt... Me desculpe. Eu quis te salvar, mas falhei.
–Me salvar? De quem? Do senhor?
–Não, Matt... Eu te tirei de um lugar, mas terei que o levar de volta.
–Si... Silent Hill?
Ele assente com a cabeça e então sinto novamente a raiva subir à minha cabeça. Eu pensei que tudo poderia ter mudado, mas pelo visto estava completamente errado. Tyler era um idiota e agora meu ódio por ele aumentou. Porque não poderia me deixar aqui e viver? Porque bebia e me espancava daquele modo? Agora estou mais certo de que o que estou fazendo vai ser o melhor pra todos. Minha mãe não precisa conviver com isso, e na verdade ela nem tolera. Eu também não. Estou salvando a vida de todos com isso.
Passo por ele sem dizer palavra alguma e subo até meu quarto. Fico novamente olhando pela janela, observando o dia cinza que me foi presenteado. Um dia cinza para um dia de cinzas, onde tudo está sendo queimado. Entretanto, não consigo mais chorar, e se chorar, é capaz de voltar atrás no que estou fazendo. Respiro fundo e vou até o banheiro, ainda meio sujo de sangue na moldura oval que antes era um espelho. Ligo a torneira e tiro um dos frascos que estou no bolso, o remédio do meu pai, derramando tudo pelo ralo da pia. Em seguida, coloco apenas dois comprimidos de uma pequena cartela, comprada na farmácia, que tirei do bolso. Era isso. Não havia espelho para que eu me olhasse, mas sabia com toda a certeza que já não era o mesmo Matt de antes. Era outra pessoa, ou até mesmo outra coisa. Mas não havia mais nada que pudesse ser feito... Minha paz e a de todo mundo dependia exclusivamente daquilo, não importava quais os meios usados para isso. Jogo a cartela no vaso sanitário e dou descarga três vezes, até fazê-la descer. Não poderia deixar pistas... não as mais gritantes.
Coloco o frasco com apenas dois comprimidos no bolso (de um remédio que eu não sabia qual, mas que era contraindicado para quem sofria de hipertensão) e saio do banheiro, descendo as escadas e indo em direção à cozinha. Sinto um cheiro agradável, de alguma comida recém-colocada no fogo. Era Tyler, estava cozinhando. Vou em direção ao armário e coloco o frasco sem que ele veja. Um cheiro bom chega ao meu nariz, parece algum molho de espaguete. Meu pai vira para mim e sorri. Não retribuo.
–Matt... Estou fazendo uma macarronada para o almoço! Recebi uma ligação do hospital e parece que sua mãe chega à noite. Pensei que ela só chegaria amanhã!
–Pai... O que aconteceu? Porque ela está doente?
Me sento à mesa e meu pai senta à minha frente segurando uma colher de pau suja de molho. Sua expressão está triste, mas não consigo sentir arrependimento, na verdade, não consigo sentir mais nada.
–Fui eu. Eu bebi muito ontem, filho. Foi como naquele dia que... eu... eu agredi você. Eu fiquei fora de mim, eu sei... me desculpe. Eu acabei fazendo um pouco pior com a sua mamãe, e ela teve que ir parar no hospital! Mas ela não disse que fui eu, não... ela foi muito legal com seu pai aqui!
Minha cabeça começa a doer. Não consigo acreditar no modo como está falando, e nem em seus pedidos de perdão. Ele pode estar dizendo isso agora, mas logo fará tudo de novo. Seria idiotice.
–Eu... eu não queria fazer aquilo. Eu... eu estava fora de mim...
–Tudo bem pai, já entendi.
Volto para o meu quarto. A janela me mostra a chuva cada vez mais forte, mas sem trovões ou relâmpagos. Minha raiva e indignação apenas aumentam a cada segundo que se passa. Mas ao mesmo tempo, o nervosismo mexia com minha cabeça. Nunca havia matado ninguém e nem pensado em tal... Mas situações de desespero pedem medidas desesperadas, e é isso que estou fazendo. É para salvar a todos nós!
Minha mente agora se voltara para os dois comprimidos repousantes no frasco. Tyler precisa tomar apenas um, que fará efeito. Segundo o farmacêutico, aquele remédio poderia levar à morte qualquer pessoa que tivesse hipertensão muito forte, como meu pai. Ele não quis me vender, então tive que roubar um enquanto ele não estava olhando, e agora ele estava lá, no frasco de remédios que Tyler usa. A chuva se derrama cada vez mais forte pela cidade, tornando a paisagem lá fora cada vez mais cinzenta. Relâmpagos e trovões se tornam mais frequentes e de repente tudo é invadido pelo cheiro do molho de Tyler. Espero que tenha colocado bastante sal. Desço devagar as escadas que me levam até a cozinha e vejo Tyler com os dois comprimidos na mão. Era o horário de tomar, sempre antes do almoço. Me aproximo por trás devagar, sem deixar que ele perceba minha presença. Ele olha estranho, como se não estivesse reconhecendo os comprimidos, mas então dá de ombros e os joga na boca, engolindo vários goles de água em seguida. Está feito! Ele então se vira e faz menção de gritar, mas então percebe que estou ali e apenas indica a cadeira e um prato ao lado de talheres na mesa. Vou até ela e puxo a cadeira, sentando-me em seguida.
–Vai provar do meu molho hoje, Matt?
–Sim, papai.
O almoço não durou muito tempo. Comemos silenciosamente, enquanto eu pensava no tempo que duraria para os efeitos disso acontecerem. Estou um pouco trêmulo e com um pouco de receio do que irá acontecer. Tyler enfim se levanta.
–Vou tirar aquela velha soneca da tarde. Matt, você pode fazer o que quiser depois.
Ele se dirige às escadas e sobe. Eu pego toda a louça e levo para a pia. Depois de lavar cada objeto, dou uma olhada pela janela e vejo que a chuva continua forte. Então, de súbito, ainda sentindo alguns sentimentos de infância, uso as últimas palavras e corro para fora sem guarda-chuva. Sinto as gotas pesadas e frias inundarem minhas roupas enquanto corro pelas ruas vazias de pessoas. Sinto-me livre enquanto recebo aquele presente do céu cinzento acima. Perco então a conta do tempo, e quando a chuva começa a amenizar, decido voltar pra casa. Faço o caminho de volta, completamente molhado e gelado. Dou mais alguns passos e é então que vejo uma ambulância parada em frente à minha casa. Só então me lembro do acontecido. Vejo então alguns paramédicos saírem com uma maca e um corpo coberto. Corro em direção à eles.
–Ei!!! O que houve aqui?
Um deles olha pra mim demonstrando pena. Ele tenta sorrir, mas não consegue, apenas passando a mão na minha cabeça.
–Quem estava em casa?
–Meu... pai..
Ele pisca vagarosamente, assentindo com a cabeça.
–Filho... Seu pai... Ele...
–Morreu? – pergunto trêmulo.
–Sim.
É então que a realidade finalmente me encontra. Eu o matei, e era verdade. Tyler está morto, e tudo é culpa minha. Meu pai... Como pude ser capaz de tal coisa? Mas... Ele merecia. Ele merecia por todas as coisas que fez comigo, com minha mãe... Podemos finalmente ter paz agora. Sinto lágrimas escorrerem pelo meu rosto, mas não eram lágrimas de tristeza... Eram lágrimas pela situação em si, por ser um assassino, por matar meu pai e por... estar livre!
–Eu sei que deve ser um choque pra você, mas preciso lhe fazer algumas perguntas... Seu pai sofria de alguma doença?
–Sim... – falo entre lágrimas – Ele sofria de hipertensão.
–Bem, então acho que isso bate com o que achamos que seja. Seu pai ligou com esses sintomas, não entendemos porque ele falou que havia tomado os remédios, mas achamos que não fez efeito, ou ele tomou muito tarde. Fizemos o máximo que pudemos, mas ele não resistiu. Sentimos muito, de verdade!
–Tudo... bem...
–Você mora com mais alguém?
–Sim... com minha mãe... mas ela está no hospital agora.
–Meu Deus!! Eu sinto muito garoto!! Se eu puder fazer alguma coisa por você...
–Sim... Você pode avisar para as outras pessoas da família, por favor? Eu tenho uma agenda com todos os contatos... – falo limpando o rosto das lágrimas.
–Sim. Eu aviso.
–Venha co... migo. Eu vou lhe dar.]
...
É tudo muito rápido. Alguma coisa voa na cabeça de Chang que cai desmaiado no chão e Carl corre até ele. Tudo vai ficando mais claro enquanto Don tenta me desamarrar.
–Chang, Chang... Acorde! Você precisa ver, deus está nascendo!
–Vai logo Don, desamarra isso!
–Eeikee sharaban... Eeikee sharaban...
Sinto novamente a sensação de torpor me envolver e a vontade de obedecer a Carl. Don não pode me desamarrar, eu tenho que deixar deus nascer. Não posso lutar contra, é como as coisas tem que ser. Don me solta, mas não ouso levantar da cadeira. Chang ainda está desacordado e Don tenta me puxar dali.
–Não Don... Tenho que proteger Anette até deus nascer.
–O quê?!
–É... Nada pode impedir ele de nascer, Don.
De repente, vejo ele correndo até Carl e batendo nele com toda a força que resta.
–Seu velho idiota, não vou deixar você enfeitiçar meus amigos!
Escuto Carl gritar e sinto que é o momento de me mover e segurar Don. Carl é o sacerdote e deus não pode nascer sem ele... O que seria do mundo? Preciso salvá-lo.
–Don, solta ele!
Corro até Don e tento puxar ele.
–Matt, para com isso! Se liga cara!
–Não... Você que precisa entender! O mundo precisa de deus, precisamos sermos limpos do nosso pecado! Você precisa, Don! Ou acha que impedir que deus nasça vai limpá-lo da consciência de ter matado o próprio pai e ter acabado com a própria família? Don, você é podre e precisa mais de deus do que qualquer um de nós.
Don solta Carl e fica no chão chorando e olhando para mim com ódio.
–Matt... Era um segredo nosso. Ele não sabia... E você tá usando isso para me convencer? No final das contas, você também está com eles e jogou comigo esse tempo inteiro?
–Não é questão de jogar, Don... Apenas temos que fazer o que é preciso. Ele precisa nascer, o mundo precisa disso, você precisa disso!!
–Ótimo, ótimo! Todos vamos contemplar o nascimento de deus agora! Anette está pronta, e deus está quase. Matthew, acorde Chang.
Vou até ele e balanço até que ele acorde. Ele abre os olhos lentamente, sem acreditar em quem está o acordando.
–Desculpe amigo... Agora levante e vamos contemplar juntos o nascimento de deus e a vinda de sua irmã – estendo a minha mão.
Ele segura e eu o puxo e juntos olhamos para a maca. Não demora muito e um forte brilho branco inunda a sala. Anette se levanta, vestida de branco, brilhando com a intensidade do sol. Ela estava linda. Do seu corpo, emanam raios azulados vibrantes para todo lado, queimando tudo que toca. Seu rosto parece sereno e tranquilo, mas de alguma forma... Eu sinto o sofrimento vindo dela. Ela sofre, ela não quer aquilo... E ela vai morrer para gerar deus. É então que todo o encanto se desfaz e eu vejo, em cima de uma das bancadas daquela sala de hospital ele: O Selo de Metatron. Eu preciso pegar, eu preciso salvá-la. Agora eu tenho plena certeza de que apenas aquele objeto pode reverter. Eu a sinto pedir por isso, eu a sinto pedir para reversão do seu sofrimento... O selo pode impedir o nascimento de deus, e assim como Alessa tentou fazer, eu preciso terminar.
O ser brilhante ainda parado vislumbra todos. Chang olha admirado para ela, Don está sentado ainda engolindo as lágrimas que o fiz derramar e Carl olha fascinado por sua beleza.
–Vejam: A Mãe de deus!
É o momento. Corro até a bancada repentinamente e pego o Selo. Chang tenta me impedir, mas sou mais rápido. Carl puxa o meu braço, mas dou uma volta e consigo me soltar. Eu tenho que sair daqui e chegar no parque. É a única esperança. Abro a porta correndo, com todos atrás de mim. Subo as escadas o mais rápido que posso, passo pelo alçapão e me jogo no elevador. Aperto o botão de subir freneticamente, até que vejo primeiro Don, seguido por Chang e Carl desesperados. E, finalmente atrás deles, vejo o ser vestido de branco em toda sua fúria queimando tudo em volta com seus raios. Don se joga dentro do elevador também, que por sorte ainda não subiu. Pressiono o botão de fechar as portas e Don o de subir, cada um mais rápido que o outro e é então que as portas se fecham e com um solavanco, o elevador sobe.
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