Silent Hill: The Artifact
21 A Casa Mal Assombrada Parte 2
Notas iniciais

A sala é apenas mais um cenário de brinquedo. Há um corredor delimitado pela parede e grades, envolvendo uma espécie de escritório com o que parece ser um corpo balançando em uma cadeira atrás da escrivaninha. Essa coisa me dá arrepios porque parece muito de verdade. Chang prossegue com cuidado, dando um passo de cada vez enquanto eu apenas o sigo mais lento ainda, tentando vencer o cansaço das pernas e o cheiro completamente podre de tudo, que vem de qualquer lugar. O mais estranho é que esse lugar não parecer ter sido afetado pela mudança da cidade. Ainda bem, porque esse lugar já é assustador por si só. O silêncio predomina até o momento em que Chang dá o passo seguinte em direção à porta. De repente, um corpo amarrado por correntes cai diante dele fazendo com que o rapaz pule dando um grito, o que me assusta. Imediatamente, a voz familiar do brinquedo começa a falar.
–Bem, esse é o Danny!
Olho para o corpo balançando diante de mim e que a um segundo atrás estava parado. A cabeça dele começa a se mexer freneticamente e sinto um arrepio subir pela espinha. Mas o que diabos seria aquilo e porque Chang não esboça nenhuma reação? De repente, o corpo cai diante de Chang abrindo um enorme buraco no chão e começo a ver as coisas se alterarem à minha volta. Tento recuar, mas não vejo porta alguma. O chão começa a cair, deixando apenas as conhecidas grades sujas de sangue. Vejo as paredes se descascarem, revelando gigantescos blocos de vidro ao meu redor e me fechando em uma sala enorme de quatro paredes repletas de espelhos que partem do chão até o teto, um teto infinito ou invisível. Percebo minha visão ficar um pouco turva e não demoro pra me dar conta de que tudo ao meu redor está encobrido por uma névoa, a conhecida névoa de Silent Hill. Mas onde eu estou agora? Em que parte desse maldito lugar? Meu coração está mais acelerado do que nunca esteve em minha vida. Chang não está aqui e não sei para onde ir... Todo o lugar envolto por névoa, nenhuma porta, nenhuma janela... Espelhos gigantescos me prendendo e nada mais além do que isso. Não sei o que fazer.
–Chaaang!! – Grito desesperadamente.
Não há mais nada além dos meus reflexos sendo mostrados pra mim. Mas por quê? Como vim parar aqui?
–Chaaaang!! Não, não pode ser... Drogaaa!!! Socorrooooo!! Socorrooo!!
Sei que é em vão, ninguém vai me ouvir e começo a me desesperar... Tenho que correr, que sair daqui. Mas pra onde? Meus olhos começam a formar lágrimas. Corro por todo o lugar, mas acabo tendo a mesma certeza de antes: estou preso. Sinto medo e sento no chão colocando as mãos nos ouvidos. Eu não quero ouvir esse silêncio, esse silêncio horrível que só pode ser produzido pela morte. Eu começo a gritar com as mãos nos ouvidos, gritar como se nunca houvesse feito. Esse lugar só pode estar brincando comigo!
–Chaaanngggg!!!
Minha voz está embargada e não consigo parar de deixar as lágrimas rolarem por meu rosto abaixo. Estou sozinho, estou perdido. Não sei o que fazer, não sei para onde ir... A última vez que senti tais coisas foi quando mamãe morreu. Mamãe... Por culpa do papai, que até na sua morte não nos deixou em paz. Eu o odeio, odeio! Se não fosse ele, hoje eu não teria vindo pra essa droga de cidade! Teria ido parar em outra faculdade, feito outro curso talvez... Teria um futuro diferente, um que eu pudesse pagar! Tiro as mãos dos ouvidos e olho os gigantescos espelhos. Talvez se eu conseguisse quebrá-los... Mas e se houver uma sólida parede por trás deles? O que eu faço? Talvez seja melhor tentar, melhor tentar do que nada. Sinto o peso da mochila às minhas costas e a puxo, vasculhando cada milímetro quadrado dela, encontrando a chave inglesa, a chave que me ajudou a matar os manequins. Se conseguir quebrar essas coisas, talvez ache uma saída daqui. Mas uma coisa ainda me intriga... Como eu vim parar nesse lugar?
Enxugo as lágrimas e me levanto, segurando a chave com as duas mãos. Corro até o primeiro espelho que consigo enxergar e desfiro um golpe com a chave com o máximo de força que consigo reunir. A chave se choca contra o espelho e com uma força contrária é jogada para trás junto com meu braço que dói intensamente. Recupero-me rapidamente do susto e vejo que não houve um dano sequer no espelho.
–Mas que droga!
Dou alguns passos para trás e pego a chave novamente. Respiro fundo e bato novamente no espelho, dessa vez com um pouco mais de cuidado. Sinto a mesma coisa: uma espécie de recuo da chave ao se chocar com o espelho.
–AAAHHH
Vou para o próximo e tento: nada. Tento quebrar praticamente todos os espelhos e a situação se repete em todos. Faltam uns três espelhos pra quebrar e eu estou completamente desesperado sem saber o que fazer. Aproximo-me dele. O espelho começa a distorcer a imagem ao meu redor e parece mais uma televisão “fora do ar”. Recuo alguns passos, mas o espelho continua do mesmo jeito como se estivesse sintonizando algum canal. Mas o que é isso?
A imagem dele começa a ficar nítida e de repente vejo a mesma coisa, o reflexo de onde estou, da névoa... A exceção de mim. Já não sou mais eu que estou aparecendo, mas outra pessoa. Não é mais minha projeção, meu reflexo... É alguém que eu queria rever a algum tempo. Eu pensei que ele estava morto e ao vê-lo esboço um sorriso, sendo imitado imediatamente por ele... Mateus.
–Mateus!
–Matthew! –Ele fala na mesma hora que eu.
–Não acredito que estou te vendo novamente!
–Não acredito que estou te vendo novamente!
–Porque você está...
–Porque você está...
Não compreendo. Mateus está realmente ali ou era um reflexo meu? Ele está imitando todos os meus movimentos e estranhamente repetindo minhas palavras ao mesmo tempo, como se adivinhasse o que eu iria falar ou fazer! E o pior de tudo era que ele falava e sua voz era nítida e reconhecível! Mas como? Se for um reflexo, como eu posso ouvir a sua voz? E se for um fantasma, porque repete tudo o que eu faço? Está lendo minha mente?
–Mateus!
–Matthew!
–Para com isso!
–Para com isso!
–Mateus, você realmente está morto?
–Matthew, você realmente está morto?
Se ele está me imitando, então porque não imita também o seu nome?
–Mateus!
–Matthew!
Isso está ficando cada vez mais estranho. Eu me lembro muito bem de estar em uma sala daquele “brinquedo” com Chang faz pouco tempo. Mas como estou aqui agora? Diante de um espelho que nem reflete a minha imagem? Embora Mateus seja bem parecido comigo quando criança, não sou eu. Porque estou discutindo com ele então? Na verdade, nem estou discutindo. Ele está repetindo as minhas palavras. Embora eu realmente quisesse que fosse ele me esperando do outro lado de um vidro, eu sabia que não era. Mas só há um jeito de descobrir.
–Mateus, se eu quebrar o espelho vou machucar você?
–Matthew, se eu quebrar o espelho vou machucar você?
–Okay, então eu vou quebrar agora!
–Okay, então eu vou quebrar agora!
–Lá vai!
–Lá vai!
Dou alguns passos para trás sendo imitado pelo garotinho com uma chave inglesa diante de mim. Respiro fundo e então ergo a chave com as duas mãos observando o garoto fazer a mesma coisa ao mesmo tempo. Então, como se fosse em uma batalha, corremos em direção um ao outro e acerto o espelho em cheio ao mesmo tempo que Mateus. Estranhamente, sinto como se tivesse desferido o golpe na minha própria chave, o que faz meu braço doer, mas pelo menos vejo o espelho se rachar de baixo a cima, explodindo logo em seguida em milhões de cacos de vidro. Eu procuro por Mateus, mesmo sabendo que é inútil, pois ele está morto. Os cacos continuam a cair sobre mim e não vejo mais nada além da névoa e os cacos, que agora começam a fazer pequenos estragos em meu corpo, cortando meus braços e pernas. Eu não sinto a dor, apenas tenho a vontade de encontra-lo... Mateus. Vejo meu corpo banhado em sangue, os cacos continuam caindo em mim e começo a me sentir tonto. Talvez agora seja o momento, o momento final. Perdi tanto sangue que as coisas estão turvas, não consigo respirar direito. Sinto que vou morrer, caindo na minha própria poça de sangue.
–Mat... Mateus!
A névoa começa a se dissipar enquanto eu caio no chão. As grades do chão se tornam agora chão de verdade, as paredes de espelho se reconstituem nas paredes do brinquedo que eu estava com Chang e o vejo caído no chão com o nariz sangrando olhando pra mim com cara feia. De repente, me vejo dentro da sala que estava, com o corpo pendurado diante de Chang, o escritório delimitado por grades e uma porta cinza à direita. Chang parece irritado e a chave inglesa está na minha mão. Meu corpo não está cortado, pelo menos não pelos cacos de espelho e eu me sinto bem. Levanto-me ainda “desnorteado” e tento ficar de pé me segurando nas grades. Ele ainda olha pra mim com cara feia, tentando se manter longe. Eu não sei o que aconteceu aqui, mas consigo imaginar pela chave na minha mão. Provavelmente eu o acertei.
–Ei... Tá tudo bem aí? – Pergunto.
–Não! Não me toque! Você é louco!
–De... desculpa Chang... Eu não sei como fiz isso, eu... Eu não queria acertar você! Eu queria quebrar um espelho...
–ESPELHO? COMO ASSIM UM ESPELHO??!! Você ESTÁ vendo algum ESPELHO aqui? Você... Você está enlouquecendo!
–Não! Eu não estou enlouquecendo!! Eu estava em um lugar no meio do nada, tinha névoa e espelhos!! Eu tive que quebrar pra sair!
–Não! Você esteve aqui comigo o tempo todo! Você ficou correndo com essa droga de chave gritando e batendo em tudo quanto é canto e depois ficou aí no chão sentado! Você bateu em mim!!
Fico em silêncio, porque talvez ele tenha razão. Que outra explicação eu poderia dar pra tudo isso aqui? Eu estava há poucos minutos com ele, eu voltei pra cá... Mas tudo aquilo pareceu tão real! Como posso negar o que aconteceu? E Mateus? Ainda vive?
–Chang, desculpa. Eu não estava bem...
–E ainda não está! – Disse prendendo mais uma vez o nariz com a mão direita.
Respiro fundo. O que posso fazer? Talvez ainda tenha alguns materiais que peguei na dispensa antes de entrarmos aqui, aquela com o monstro de aparelho. Se eu conseguir cuidar um pouco do estrago que fiz, talvez consiga me redimir.
–Okay Chang... Deixe-me ajuda-lo!
Tiro um pouco de gaze e algodão e faço pressão no nariz dele para tentar estancar o sangue. Então percebo o estrago que fiz, pois o nariz de Chang está um pouco mais torto que o normal. Precisamos de um médico o mais rápido possível. Ele geme um pouco enquanto tento limpar o nariz, que agora está roxo e inchado. Termino de limpar e o sangue estanca. Ele vai em direção à porta, ainda olhando estranho pra mim desconfiando de algo.
–Er... Antes de prosseguirmos, preciso saber de algumas coisas.
–O quê? – Pergunto já imaginando se ele iria perguntar pelo que eu vi.
–Matthew Liward... Tem alguma coisa que faça você se arrepender?
–Ein?
Não entendo porque ele precisa saber disso para prosseguirmos, inclusive o porque agora.
–Quero saber se você já fez alguma coisa digna de arrependimento.
–Ah... Er...
Porque isso agora? O que isso pode mudar o rumo da cidade? Provavelmente ele deve querer retomar aquelas conversas da religião dele.
–Matt, se você não falar, não vamos prosseguir. Você anda bem perturbado ultimamente, então preciso que me conte algumas coisas... Apenas me responda! Você fez alguma coisa que o leva a se arrepender ou sentir remorso?
Nada me vem à memória, não sei o que dizer.
–Er... Acho que não... Peraí, teve aquela vez que não peguei o número de uma garota que estava dando em cima de mim e...
–PELO AMOR DE DEUS, MATTHEW! Estou falando de coisas ruins, estuprar, matar, sequestrar, roubar, estrangular... Estou falando DESSAS coisas!
–Aahh... Então não. – Respondo friamente.
–Certeza?
–Sim.
–Então podemos prosseguir agora.
–Okay, mas... Porque essas perguntas?
–Lembre-se da nossa conversa antes de entrarmos aqui. Agora precisamos ir e encontrar Anette.
Eu assinto com a cabeça e Chang gira a maçaneta. Vejo várias grades como se fosse uma prisão e a familiar voz começa a falar, mas parece danificada por alguma coisa. Tem coisas como camas e cadeiras dentro das grades... Sinto como se me sentisse preso à minha própria casa. Continuamos andando até que vejo um teto cheio de espinhos. Ele começa a cair como se fosse nos acertar e me deparo comigo mesmo descendo escada abaixo. Começo a querer sair, começo a querer me soltar desse looping infinito... Tudo parece girar e as dores, elas começam a surgir a cada segundo que o meu corpo cai... Ele rola pela escada, uma escada que não acaba nunca. Tudo continua girando, eu ouço os gritos de minha mãe, eu ouço as risadas do meu pai. As dores invadem meu corpo e sinto que vou morrer. Mateus está me esperando no chão, mas que chão? Sinto minha boca se abrir enquanto continuo não a cair, mas correr por uma escada que apenas desce sem fim algum...
–NÃÃÃÃÃOOO!!!
–Matt, é apenas um brinquedo... Não vai nos matar...
–SOCORROOO!
Saio correndo em direção à porta que se abre automaticamente quando chego. Eu vejo a placa de saída, mas ignoro entrando porta adentro. Vejo um enorme corredor e um barulho de um zunido entra nos meus tímpanos em uma frequência que irrita meu ser... Eu preciso sair daqui, preciso sair desse lugar ou vou enlouquecer.
–AAAAAHHHH!!
Saio correndo e ao olhar para trás vejo uma espécie de lazer atrás de mim. O zunido continua e eu continuo correndo. Bato na parede, entro por outro corredor.
–Não queremos que você vá, queremos que fique para sempre! – Ouço a familiar voz masculina falar.
–NÃO!! EU VOU SAIR DAQUI! EU PRECISO SAIR DAQUI! SOCORROOOO!
Continuo correndo e bato de cara com uma porta. O lazer vermelho continua atrás de mim, então abro a porta novamente e a fecho. Estou em outro corredor, parecido com o anterior. O zunido volta e começo a correr novamente quando vejo a luz lazer se formar atrás de mim. Bato na parede e novo, entro em um corredor sem saída... Volto e entro em outro corredor antes do lazer chegar. Continuo correndo e vejo alguns degraus à frente revelando uma porta marrom. Corro até ela, o lazer está bem atrás de mim e sinto o forte calor vindo dele. Eu tenho que correr. Chego até a porta e me jogo contra ela com toda a minha força que quebro a fechadura arrombando a porta. Caio em cima de grades sujas de sangue, névoa e escuridão. Chang ficou com a lanterna, então não vejo muita coisa. O frio toma conta do meu corpo e sinto arrepios. Só então me dou conta de que deixei Chang para trás e não posso prosseguir sem ele. Decido esperar. Se eu consegui sair, ele também consegue.
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