Silent Hill: Sombras do Passado
4 Um passo em Falso
Notas iniciais

Emma não acreditava no que tinha ouvido, não sabia se estava com mais raiva do que poderia encontrar ali ou de Sebastian, por tê-la levado até lá enquanto ela dormia.
– O que estamos fazendo aqui, Sebastian? – perguntou Emma tentando manter o controle. Ele permanecia calado, olhando para baixo e com medo de encará-la.
– Responda! – ela gritou, sendo respondida com silêncio – Eu te disse que você não tinha nada a ver com isso, não disse? Responda!
– Eu achei que...
– Achou o quê? – Emma gritou – Que poderia simplesmente aparecer do nada e resolver meus problemas, foi isso? Achou que poderia me trazer aqui contra minha vontade enquanto eu dormia?! Eu mandei você me levar pra casa, não mandei?
Emma se jogou de costa no banco e parou para respirar, fechou os olhos e pôs as mãos na cabeça, estava lutando consigo mesma para se manter no controle.
– Emma, eu só achei que talvez você devesse ver seu pai... achei que eu pudesse te ajudar com isso...
– Você não pode, eu já disse! — recuperando a calma.
– Olha, já pude perceber que você tem um problema sério com ele, e se esse problema é capaz de deixar você naquele estado no qual te encontrei ontem à noite, você... deveria resolver...
– Algumas coisas não podem ser resolvidas, OK? – Emma olhava fixamente pra baixo.
– Emma... não quer nem tentar?... É seu pai! Faz 4 anos...
– Por mim fariam 40! – Emma gritou.
– Emma, olha pra mim. – Sebastian havia segurado Emma pelos ombros, sacudindo-a levemente — Você mesmo disse ontem que as coisas velhas ficavam para trás e que era preciso seguir em frente, não disse? Tudo bem, eu não sei o que houve e nem preciso saber, mas tenta esquecer... sei lá!
– Eu não posso esquecer... – Emma havia começado a chorar – Não posso esquecer... eu não consigo!
– Ei... calma aí... não precisa chorar... Emma... – ela enxugou as lágrimas e olhou pra ele – ainda que não esteja disposta a esquecer... só... entre lá. Seu pai está lá dentro, te esperando... vocês precisam conversar... – o rosto de Sebastian ficou triste de repente.
Emma pensou por alguns instantes, olhou vagamente para a rua, mais precisamente para o imóvel 544, parecia estar querendo ceder ao convite de Sebastian, o qual havia percebido e estava esperançoso de que ela aceitasse, mas seu rosto mudou repentinamente, a típica face de raiva que Emma fazia voltara e estava acompanhada com uma determinação indescritível, ela encostou-se ao banco, cruzou os braços e disse:
– Vamos embora. – ela estava séria.
– Como? – disse Sebastian, após ter suas expectativas derrubadas de uma vez.
– Ligue o carro, vamos embora. – ela repetiu.
– Emma...
– Vamos embora! – ela gritou chamando a atenção de algumas pessoas que passavam na rua.
Sebastian a olhou fixamente por alguns instantes.
– Não. – ele disse.
– Como? – disse Emma, no mesmo tom de Sebastian, tornando o momento um pouco engraçado.
– Emma, se não você não vai até seu pai, ele virá até você! Eu vou entrar lá e chamá-lo aqui, mas definitivamente vocês tem que conversar!
– Você não faria iss... – o rosto de Emma mudou de sério para engenhoso – Tem razão, Sebastian – disse Emma simulando uma voz chorosa — já alimentei isso por muito tempo, mas... eu... não tenho coragem, faça por mim... por favor!
Sebastian achou estranha a mudança repentina de opinião de Emma, mas ele estava feliz demais por saber que ela finalmente estaria resolvendo seus problemas com o seu pai para comentar. Saiu do carro quase saltitando de contente e foi em direção ao imóvel de número 544 com um sorriso amigável no rosto. Era um sobrado de madeira velho, decadente, talvez o mais mal cuidado da rua, sendo uma vergonha para o estilo antigo e colonial da mesma, além do mais, precisava definitivamente de uma reforma, tinha janelas vazadas, as paredes exalavam um odor de podre e a tinta descascava, mas e daí? Ali residia uma solução! Mas antes que ele conseguisse chegar a porta, ouviu um som de carro ligando repentinamente. Olhou rapidamente para trás e viu: Emma havia sentado no banco do motorista e havia ligado o carro, enquanto olhava para ele da janela e dava um tchauzinho sarcástico com as pontas dos dedos.
– O que estava fazendo? – riu amedrontado Sebastian.
– Indo embora e aconselho você a entrar no carro também se não quiser ficar aqui em Brahms.
– Emma, não. – Sebastian falou firmemente.
– Não? – Emma olhou para ele levantando uma das sobrancelhas e pisando leve e repetidamente no acelerador, como se estivesse o desafiando para um “racha”.
Sebastian parou, olhou para ela um pouco e fez que sim com a cabeça...
– Tudo bem, você venceu! — levantou os braços como se tivesse sido rendido.
Ora, o que ele poderia fazer? Não adiantaria entrar ali e deixar Emma ir embora no carro, seria como nadar o oceano e morrer na praia, fora não queria nem um pouco ficar sozinho e despreparado numa cidade desconhecida. Sebastian começou a ir em direção ao carro quando olhou e reparou que o vidro do motorista estava aberto, ele havia tido uma ideia, se aproximou torcendo que a mesma desse certo e debruçou-se sobre a janela da porta do carro.
– E se eu decidir ficar aqui em Brahms? – perguntou.
– Fica por sua conta e risco. — Emma não queria brincadeiras.
– Então eu acho que... vou ficar...
– Sério?
– Sim, só pegue minha mala aí no banco de trás, por favor. – disse ele, apontando.
– Mala?
Emma não tinha visto Sebastian com nenhuma mala desde que o vira pela primeira vez na noite anterior, mas duvidou de si mesma, afinal, tinha bebido muito para notar um detalhe como uma mala, e pro seu azar, cometeu o erro de conferir. No momento em que ela se virou para olhar para o banco de trás, Sebastian rapidamente puxou a chave da ignição.
– Não! – Emma gritou, tentando impedi-lo, sem resultados.
Emma saiu do carro para tentar agarrar Sebastian, que havia recuado, e corrido em direção ao sobrado 544, Emma mais do que depressa correu atrás dele e pulou em suas costas, enquanto lutava para arrancar as chaves das suas mãos e tentava impedir que ele chegasse ao sobrado. Por causa do impacto em suas costas, Sebastian se desequilibrou, e saiu cambaleando pela rua. Chegando perto do sobrado, ele tropeçou no pequeno batente da calçada e num passo em falso, escorregou, sendo arremessado junto com Emma contra a porta do prédio 544, que pela aparente falta de manutenção se abriu sem maiores problemas.
Emma e Sebastian caíram com tudo dentro da casa, que para a surpresa de ambos estava toda escura, e era impossível ver muita coisa além do que o facho de luz que a porta deixara entrar iluminava. Sem pensar duas vezes os dois se levantaram, Emma estava suja do pó que revestia o piso da casa, ainda estava furiosa, foi jogada ali contra sua vontade e agora... não sabia o iria acontecer... quando encontrasse seu pai. Porém toda sua raiva foi obstruída pelo seu espanto e pela sua surpresa, não era assim que imaginava a casa do seu pai, não era daquele jeito que imaginava a casa de ninguém! O lugar era pequeno, e onde havia espaço, havia sujeira, infiltrações enfeitavam quase todas as paredes, o ar era pesado e fedorento, provocando em Emma uma rápida ânsia de vômito, a mobília parecia que não era limpa a séculos, e as cartas e jornais, por sua vez, estavam todos jogados em frente a porta como se estivessem sendo acumulados ali, além do som nítido que era possível ouvir dos ratos andando por entre as paredes. Os dois passaram alguns segundos olhando aquela paisagem um tanto incômoda até Sebastian quebrar o silêncio:
– Olá. – ele falou.
Não houve resposta.
– Oláa! – falou de novo num tom mais alto.
–Nada.
Já estava se preparando pra falar de novo, quando Emma deu um soco no seu braço.
– Chega! Acho que esse lugar em si já é prova suficiente de que não tem ninguém...
Emma foi entrando cuidadosamente no lugar enquanto Sebastian ficava para trás, ele olhou em volta, estava curioso, tentando descobrir que tipo de pessoa moraria ali, tudo bem, sua casa não era lá isso tudo, mas aquilo!? Era desumano. Ele olhou para o chão e apanhou uma das cartas aleatórias daquele bolo de papel velho e amarelado, abriu e a examinou. Era uma conta de água, e até teria continuado sendo só uma simples conta de água se ele não tivesse notado algo interessante, ela havia sido endereçada a Douglas há 2 anos. “O que uma carta de 2 anos atrás está fazendo aqui? E ainda dentro do envelope?” ele pensou espantado.
– É... de fato não tem ninguém aqui... há muito tempo. – disse.
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