Silício

10 Alabama II (Sleep of indolence)


Mercúrio

— Olá! Vejo que já está bem melhor do que a última vez que a vi! — Eu dirijo a palavra para a paciente sentada no sofá surrupiado do asilo.

— Oi Mercúrio. Vejo também que está mais radiante, está apaixonada? — A senhora me responde levantado a cabeça de uma forma ágil, assim como sua resposta.

Eu solto uma risada e me sento na ponta do sofá. Todos no asilo estão presentes na sala de entretenimento. Alguns se movimentando de um lado para o outro. Outros, se distrai com os jogos de mesa que são proporcionado pelo hospital. Dois familiares da senhora estavam presentes sentados em duas poltrona de frente para nós. Ambos faziam o que era para fazer, se entretendo.

— Ando tendo alguns sonhos reveladores Doutora. Mais do que o normal, não veio mais me visitar, e por isso estou assim. — Ela me olha com olhar satisfatório, de alguém que sente falta dos meus tratamentos.

— Calma, estou aqui agora e vamos resolver isso, ok? Não quer ir há um lugar mais reservado? — Lhe pergunto, enquanto suas duas filhas param seus olhos sufocantes em mim.

— Mas nós viemos acompanhar o processo, ela está pior do que estava e...

— Vamos Doutora. — A paciente me responde, escorando suas mãos em meus ombros para se levantar.

— Por favor compreendam, eu converso com vocês depois.

Elas se acalmam, pairando seus olhos no tapete bege, sujo e espalhado pelos nossos pés.

A enfermeira nos guia até seu quarto, que tem paredes escuras, de madeira e sujos. Nunca imaginei que quartos de asilo fossem obscuros dessa forma, mas os quartos são ajeitados de acordo com os desejos dos moradores do lugar. O asilo Homerrom, não é tão indiferente a outros por aí. Tem uma certa classe pelos tons cleans e móveis meio envelhecidos.

A senhora já cansada se deita na sua cama, que fica do lado oposto da outra cama, que é a da sua parceira. Eu arrasto uma cadeira e ponho a minha bolsa no chão, enquanto pego meu tablet para começar as anotações.

— Posso fechar as cortinas? Ou prefere elas abertas?

— Faça o que for melhor Doutora. — A sra. Black insiste em me chamar de Doutora, mesmo me conhecendo há tanto tempo.

Eu as deixo aberta. Apesar do inverno predominar na paisagem mórbida que era esse lugar, estava quente o lugar, e a natureza parecia abrir-se igual uma flor se abre quando desabrocha. Do caminho pra cá, o matagal do Alabama parecia sorrir, e o sol ficou intenso e quente.

— Muito bem, estava com saudades das suas histórias. E sua recuperação, pelo que me disse, não está tão bem assim...

— Também estava, você está diferente. Desde a nossa última consulta, está sorrindo tanto, feito uma hiena, só que um sorriso puro. Está amando?

Eu a olho abrindo um sorriso ainda mais inocente que o normal, me sentia Chesire de tão sorridente que estava naquele momento.

— Estou sim Sra. Black, me conhece mais do que conheço teus sonhos. Pretendo me casar com ela.

— Espero ainda estar viva para conhecê-la. — Ela retruca passando a mão esquerda para trás e repousando a cabeleira grisalha por cima.

— Vai estar. Vamos começar? Me explique melhor esses devaneios "repentinos"...

— Eu sei que não era para essas coisas estarem acontecendo de novo mas, os devaneios são mais constantes e se repetem toda vez. Não tem hora para acontecer, nem lugar, e agora, os tenho de olhos abertos. Acha que estou enlouquecendo?

— Como são esses "sonhos"?

— Assustadores. São tão rápidos como um lampejo de luz. E depois, tudo evapora, tudo some. Não fica sequer nessa cabecinha, um fragmento de lembrança do que vi, e é por isso que preciso de você. Antes que me dê remédios para que isso pare, eu preciso lembrar o que sonhei, o que vi.

— Você está sugerindo hi...

— Hipinose, sim. Isso está me consumindo Mercúrio. Eu olho nos olhos de pessoas desconhecidas e, sinto as mesmas coisas que sinto nos sonhos, por favor.

— Então sobra algo das "premonições"?

— Só o sentimento de que pessoas reais invadiram minha mente, e que fez algo ou vai fazer, muito ruim.

— Certo, se acalme está tensa. — Eu encerro a auto-pressão que a Sra. Black fazia, colocando as minhas mãos quentes por sob a sua, distorcendo seus dedos que estavam amaranhados uns nos outros, e está gelada. Suas mãos estão frias e intensas, como é possível?

— Olha, isso são devaneios Sra. Black, talvez não tenh como recuperar na sua mente porque talvez não exista.

— Tudo isso vem do subconsciente, certo?

— Sim mas...

— Eu preciso lembrar, eu tenho certeza disso.

— Talvez não seja útil no seu caso Sra. Black. Por menos que não pareça, a senhora apresenta sintomas de esquizofrenia e senilidade. A senhora é senil, e esses tais devaneios possa vim ocorrer por conta disso. Tem a máxima certeza de que quer isso?

— Sim. — Ela finaliza, cerrando as sobrancelhas.

— Tudo bem. Agora repouse sua cabeça sobre o travesseiro, e preste atenção em tudo que vou te indicar, ok? Vamos lá.

Ela acena que sim, e então, eu começo a preparar a mente e corpo da Sr. Black.

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Minutos se passaram. A paciente já estava pronta e seu corpo esticado sob a cama. No momento em que toquei sua testa com o dedo indicador, a Sr. Black entrou em um perfeito transe. Olhei para todos os cantos, e então comecei.

— Neste exato momento, você vai se esquecer de que está deitada numa cama, e que estou aqui. Você vai voltar na sua memória, e então, vai se lembrar do último sonho que teve.

E paciente fica intacta, com os olhos fechados e sem nenhum movimento dos músculos.

De início, não acreditei que fosse realmente acontecer, pelo simples fato da sua idade avançada. Mas com o decorrer das minhas palavras, ela estremecia discretamente os músculos, um por um, indagando sinais do processo.

— Muito bem. Agora me diga, o que você vê?

Seus lábios dão leves tremedeiras, e então, palavras começam a surgir como resposta.

— Estão tudo nublado, não consigo enxergar nada. Tudo começa a piorar. O cinza agora é negro e escuro, e minha pupilas se dilatam.

Ao invés de anotações, sua voz era gravada pelo dispositivo do tablet.

— Continue. — Eu acinto para ela.

— Eu estou tão...tão angustiada. Por favor, M, faça isso parar. Por..por favor... — Gemidos saem, invadindo minha mente.

— Se acalme, eu estou aqui. Consegue me ouvir?

— Si...sim.

— Ótimo. Me responda, o que faz você se sentir assim?

— Está difícil de identificar. Mas, mas...

Ela dá um pausa extensa; quando uma lágrima escorre do seu olho.

— Por que faz isso comigo? Por quê?! Não, para, por favor! — Berros desesperadores saem da sua boca.

Eu não me desesperei, eu precisava entender.

— O que está acontecendo, me diga?

— Eu vejo sangue. Um morro inclinado de corpos ensanguentados estão à minha frente. Por um minuto, uma daquelas almas tomaram meu corpo, e caiu sobre mim, uma tristeza que jamais sentira. Uma tristeza tão forte e ardente... Era como se a vontade de arrancar meu próprio coração e comê-lo, fora tão grande que, meu coração parou ali. Não havia mais palpitações. Não havia mais chamas, pensamentos, nem dores. Tudo que havia ali, fora corpos, um amontoado de corpos.

Meus olhos fixaram no seu rosto. Era muita informação. Era terrível.

— Eu vi seus pais, soterrados pelos corpos vazios e banais M.

— Me...meus pais? — Minhas mãos trêmulas agora estão suando.

— Eles estão olhando para mim, porque são os únicos vivos entre eles. Sinto ódio e solidão vindo dos seus olhos. Eles não falam, não se mexem, apenas me olham...

Antes que terminasse, Sr. Black deu um pulo tão impactante, que após o impacto, seu corpo gelou-se.

— Sr. Black?

Um grito alucinante predomina aquele quarto. Eu permaneço sentada e observo aquele horror com calma.

— São...são duas meninas, são gêmeas, e estão vivas!

É tudo que ela acrescenta, antes que eu finalizasse aquela tortura para ela.

Quando a paciente desperta, eu estou com os olhos vermelhos e molhados com lágrimas e prantos. Eu me contive, e não consegui decifrar o que havia ocorrido. Tudo havia sido em vão para ela, pois mesmo, contudo, não se lembrara.