Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce

15 Capítulo 14 - O segredo do imperador


Notas iniciais
Boa leitura meu povo! Agradeço demais pelos que me dão forças com seus reviews! Obrigada!!!

Eu apenas vi a explosão antes mesmo dela acontecer. O corpo de Amara foi lançado para trás com a onda de energia que vinha da van a nossa frente e que se transformava em uma vermelha e amarela. Não pensei, apenas agi. Apertei firme minha mão em seu braço fino que me sustentava para não deixa-la ser jogada pra longe. Envolvi-a num abraço apertado, enterrando sua cabeça em meu peito. Pouco antes de atingirmos o chão, girei nossos corpos para que o meu amortecesse a queda, pois eu sabia que meu corpo se recuperaria em breve.

Mas havia o fogo.

A labareda veio quente como um sopro infernal e iria nos atingir em cheio. Eu temi. Meu medo me consumiu por uma fração e segundo. Mas não era o medo da morte, essa sim seria bem vinda pra mim. Eu temi pela vida que eu apertava em meus braços. Amara sacrificou sua vida para me tirar daquela cela, arriscou tudo apenas para ter a chance de extrair de mim alguma coisa, uma mínima informação que fosse que pudesse ajudar aquele povo e eu enxergava isso agora claramente. Ainda assim, eu não podia compreender o porquê. O que motivava essa mulher a arriscar tanto por uma causa perdida? Mas o fato era que ela o tinha feito e, com isso, tinha salvado minha vida inútil. E por isso eu sabia que não podia permitir que morresse.

Foi com uma força que veio de um lugar desconhecido da minha alma que eu ordenei ao fogo para que se afastasse. Sim, eu comandei ao fogo para que saísse do caminho e, por mais insano e absurdo que isso possa parecer, eu sabia que poderia fazê-lo. Era certo que estava debilitado, que Quirino e Torres haviam esgotado minhas forças depois de me espancarem mais uma vez naquela cela, mas por ela, eu teria que fazer um último esforço, para que pudesse pelo menos tentar retribuir a coragem que teve ao me salvar.

Tudo era tão rápido e, ao mesmo tempo, tão inimaginavelmente lento, que eu pude ver e orquestrar cada movimento que o fogo fazia. O que minha mente ordenava, ele correspondia. O poder que senti foi incrível e surreal. Era bom.

Mas então tudo acabou e a realidade voltou a mover-se rápida como uma rajada de vento. Os tiros eram incessantes e nos rodeavam por todos os lados. As pessoas do pequeno grupo de rebeldes que saíram conosco haviam sido dispersadas pelos tiros e pela explosão. A dor em meu corpo voltou como um baque e eu sentia a perna quebrada queimar como uma filha da puta. A agonia era imensa e eu certamente não aguentaria muito mais tempo consciente. Com dificuldade, gemi o nome da garota em meus braços, que jazia mole como uma boneca.

— Amara...

Eu sabia que a tinha protegido contra o fogo, mas o impacto da energia em seu corpo havia sido forte. Provavelmente ela estava desacordada e isso era uma merda. Seríamos mais dois corpos desfalecidos no meio dessa guerra.

— Amara... – tentei novamente, com o que restava de minha força.

Ela pereceu ouvir. Senti seu corpo mover-se sobre o meu enquanto eu afrouxava meu aperto. Bastou olhar para baixo para poder ver seu rosto atordoado de perto e os olhos castanhos assustados ao reconhecer onde estava.

— Gabriel... – ela parecia não conseguir falar. Nessa hora eu soube que ela tinha visto o que eu fiz e que meu segredo não estava mais guardado apenas com Victorius. Agora Amara sabia o que eu podia fazer e eu estava totalmente em suas mãos.

...

— Gabriel... – eu disse enquanto olhava para cima e via a cor mais intensa e indescritível que os olhos de alguém poderiam ter.

Era um azul tão brilhante e belo que me paralisou. Eu podia jurar que havia rajadas de um dourado líquido em sua íris, mas infelizmente não pude admirar por mais tempo. O corpo exausto de Gabriel o levou para a inconsciência, deixando-me sozinha no meio daquela guerra. Saí de cima dele, mantendo-me abaixada para evitar os tiros, e o desespero começou a bater. Eu precisava tirá-lo dali, mas seria impossível sozinha. Foi então que ouvi o som de um carro em alta velocidade se aproximar.

Um furgão preto veio com tudo em nossa direção e, no último instante, fez uma curva acentuada, fazendo cantar os pneus e levantar uma nuvem de poeira ao meu redor. Vi a porta de correr se abrir e dois homens enormes pularam de lá de dentro.

— VAMOS! ENTRE! ENTRE! – um deles me ordenou.

Não tive tempo para pensar. Vi apenas que os homens pegaram o corpo de Gabriel e colocaram no carro enquanto eu seguia para dentro do veículo, que já estava em movimento antes mesmo de a porta ser fechada.

Havia muita gente ali, soldados armados até os dentes e pessoas que, como eu, não conseguiam processar os fatos direito. Minha atenção voltou-se instantaneamente para Gabriel, que estava deitado espremido no canto. Com dificuldade e tentando me segurar das manobras loucas do furgão como podia, eu alcancei seu corpo e me agachei ao seu lado, tentando protege-lo do sacolejar do carro em movimento.

Tiros atingiam a lataria como chuva, mas o furgão blindado atravessou o mar de balas de metal com velocidade. Durante o trajeto minha mente viveu e reviveu cada segundo com Gabriel, desde meu encontro as pressas com ele em sua cela até minutos atrás, quando ele me salvou da explosão da van. Afinal, havia sido ele quem tinha jogado o corpo de Quirino para longe, com uma rajada de vento aparentemente vinda de lugar nenhum e também tinha sido ele que, de alguma forma além de minha compreensão, manteve o fogo longe de mim.

Os minutos se passaram e logo viraram horas. O som dos tiros havia diminuído gradativamente, conforme nosso veículo se afastava do palácio e do centro da batalha e, depois de um tempo, cessaram completamente. As pessoas a minha volta, eu percebi, estavam sentadas em grupos no veículo que carregava mais gente que o habitual e os soldados haviam retirado suas máscaras de combate, embora permanecessem em alerta total e com as armas em punho.

Ninguém falou nada durante as mais de duas horas que permanecemos em movimento. Foi com lentidão que um sussurro tímido começou entre os confinados e agora sim começavam a tentar interagir uns com os outros. Alguns me perguntaram sobre Gabriel, que permanecia desacordado, mas eu lhes disse que ele ficaria bem. Ninguém ali sabia que ele era ou o que era capaz de fazer.

Eu já começava a sentir o corpo dormente pela posição incômoda e tratei de me distrair tentando reacomodar o corpo ferido de Gabriel. Sua perna quebrada eu tinha encaixado delicadamente debaixo da única fileira de bancos que existia e isso evitava que algo acontecesse a ela. Ele vestia uma calça simples azul e uma blusa que fora branca, mas que estava manchada de sangue e suor por toda a parte. Ali, sentada a seu lado, eu pude finalmente reparar em sua fisionomia.

Ele estava debilitado. Aqueles malditos soldados haviam espancado seu corpo de forma que eu via hematomas até mesmo sob o tecido branco e vermelho. Levei a mão até o peito que subia e descia com regularidade. Era duro, firme, e eu já tinha conhecido sua dureza quando ele me imprensou contra si. Os braços estendidos ao lado do corpo pareciam magros, como seu corpo todo parecia. Claramente sua constituição física natural não era essa. Victorius mantinha esse homem no limite, privava-o de alimento e qualquer chance de uma saúde ao menos regular e eu sinceramente não sabia como Gabriel não havia perdido a sanidade depois de tanto tempo vivendo nessa situação... anos talvez.

Com dedos delicados eu tracei o contorno de seus ombros e finalmente me detive no rosto. Mesmo desacordado e ferido, Gabriel tinha belos traços. A barba estava começando a crescer em seu rosto e contornava a boca fina e longa. Os pelos também adornavam a mandíbula quadrada, mas com ângulos suaves. O nariz era pra ser reto, mas estava um pouco torto, possivelmente quebrado, devido ao espancamento. Abaixo de um dos olhos havia um região arroxeada e eu via o corte no supercilio que era recente. Uma fina linha vermelha indicava que a cicatrização se iniciara. O cabelo era bem escuro e liso e estava totalmente bagunçado por tudo o que aconteceu, possivelmente atingia-lhe o início dos ombros largos. Sem duvidas Gabriel era um belo, muito belo homem e eu me atreveria a dizer que, se estivesse em plenas condições de saúde, seria um daqueles caras irresistíveis, de uma beleza inumana.

Mas sua beleza estava manchada de sangue e sofrimento e eu estava começando a desconfiar o motivo disso, de sua vida trancafiada e imposta ao limite da sanidade e da saúde física. Eu vi o que Gabriel era capaz de fazer. Ele, e somete ele, estava na cela com Quirino e ele tinha sido o responsável pelo corpo enorme do homem ser jogado pelos ares antes de me atingir. E havia sido Gabriel o responsável por aquele campo de força invisível que nos salvou a vida. Eu sabia, no fundo eu sabia que era ele. Eu sentia sua força interior, mesmo agora com seu corpo adormecido. Senti quando o vi pela primeira vez, debilitado e quase morto sendo carregado por aquela escada, e senti também quando me abraçou e protegeu contra o fogo da explosão.

Eu sabia disso tudo, só... só não conseguia compreender como aquilo era possível.

— Eu posso me acostumar com isso.

A voz baixa de Gabriel me despertou do transe em que me encontrava e só então percebi que meus dedos acariciavam seu rosto.

— Como se sente? – perguntei baixando a mão.

— Espancado e queimado. – ele respondeu ainda sem abrir os olhos. Vi a sombra de um sorriso se formar em seus lábios.

— Bom, espancado sim, queimado... nem tanto. Você fez um bom trabalho com aquelas chamas. – falei sem deixar de encarar o homem a minha frente.

Ele finalmente abriu os olhos e o olho machucado ficou semicerrado. Gabriel me encarou e eu sabia que ele tinha o poder de confirmar toda aquela história... ou de me chamar de maluca e dizer que eu tinha problemas mentais. Mas ele se limitou a sorrir. Foi um sorriso de lado, sem humor.

— Você gostou? – ele questionou e sua voz parecia um tanto presunçosa.

Era isso. Eu não estava louca.

— Me salvou a vida, então sim eu gostei. – respondi finalmente sentindo o peso de minha afirmação.

Houve um silêncio curto e pesado entre nós.

— Você é a arma dele, não é? – perguntei já sabendo a resposta.

Gabriel limitou-se a sorrir de banda, mais uma vez, e por algum motivo aquilo me irritou.

— Digamos que ele descobriu uma boa maneira de me usar. – ele falou voltando a me encarar.

Fiquei em silêncio. Minha mente juntava as peças do quebra-cabeça e eu percebi finalmente a magnitude do ato que realizei: tirar Gabriel das mãos de Victorius era acabar de vez com sua misteriosa e sobrenatural vantagem que o fazia ser visto quase que como um Deus. Gabriel pareceu perceber a mudança em meu olhar. Ele sabia que eu havia juntado as peças.

— Agora é você quem tem a arma, Amara. Como vai me usar?

Encarei Gabriel com severidade. Seu tom foi sarcástico, mas eu não diria que o que ele disse teve um sentido conotativo. Não, ele parecia certo de que eu o usaria como Victorius costumava fazer. Aquilo sim foi baque em meu peito. Senti repulsa por suas palavras apenas por ele sugerir que eu pudesse ter alguma coisa em comum com aquele demônio maldito.

— Eu não vou usar você, Gabriel. Nunca, jamais ouse pensar que eu agiria dessa forma. – meu tom foi grave e demonstrou toda minha raiva.

As pessoas ao redor me encararam tamanha veemência. Eles não estavam prestando atenção em nossa conversa até aquele momento, já que sussurrávamos sob o barulho do furgão em movimento e a conversa baixa que pairava no ar, mas eles perceberam que eu estava irritada.

— Tudo bem, Amara, você pode me usar como quiser. – ele disse, ainda com aquele tom de voz superficial e impessoal. Agora sim ele havia falado em duplo sentido.

Antes que eu pudesse responder o furgão parou abruptamente. Senti o coração palpitar. Os soldados estavam em alerta, mas não pareciam surpresos. Gabriel sustentou o corpo em um dos cotovelos e ficou em alerta. Quando as portas laterais foram abertas novamente havia um grupo grande de pessoas lá fora. Ainda estava escuro, mas luzes vindas de faróis de muitos furgões e carros iluminavam a pequena multidão. As pessoas foram saindo do carro e eu ajudei os soldados a retirarem Gabriel com cautela. O ex-prisioneiro ainda precisava se apoiar em alguém para poder caminhar.

Assim que pisei em terra firme ouvi uma voz familiar chamar meu nome. Virei o corpo, já sentindo lágrimas quentes rolarem por meu rosto, e os braços familiares de Elliot me apertaram com força num abraço que eu queria que durasse pra sempre. Finalmente, eu estava em casa.

Notas finais
Reviews???
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.