Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
11 Capítulo 10 - Fisgado
Notas iniciais
Como tudo no império, a festa terminou com o comando do rei. Em seguida ele me guiou para trás do jardim, para a outra metade da cobertura de seu palácio que, descobri, era onde ficavam seus aposentos.
Victorius caminhava calado a minha frente e eu o seguia a passos rápidos para conseguir acompanha-lo. O enorme quarto era como uma caixa de vidro, com as paredes translúcidas e espessas que davam visão para um jardim de verde mais escuro e sem flores. Havia uma enorme piscina em mármore negro do lado de fora e dentro o mais luxuoso quarto que alguém poderia sonhar em ter.
Mas eu não estava prestando atenção na decoração. Meus olhos acompanhavam de perto cada movimento de Victorius. Eu estava tensa, não sabia o que esperar daquele homem sem coração e que tinha a vida de tantos a seus pés. Foi diante de sua enorme cama que ele parou e se virou para mim.
– Você não para de me surpreender, doce Amara. – ele disse, olhando-me como se fosse pela primeira vez.
– Eu disse ao imperador que sabia cantar. – respondi.
Ele acenou.
– Sim e eu me recordo que disse a você que gostaria de descobrir outros talentos seus.
Sua frase pairou no ar enquanto ele caminhou em minha direção. Com a mão grande e pesada, deixou-se acariciar e sentir a textura de meus cabelos. Depois, seus dedos ásperos passearam pelo meu rosto e fizeram o contorno de minha boca.
– Lábios grossos e muito, muito macios. – ele aprovou.
Sua exploração continuou e senti seu corpo se aproximar do meu. Era como se ele me estudasse. Suas mãos desceram pelos meus braços e as senti quentes sobre o corpo. Sem se deter um segundo, ele deixou-as caminhar sobre meus seios, medindo-os sobre o vestido. Minha respiração acelerou e eu sabia que meu corpo pertencia aquele homem. Eu sabia que não tinha mais vontade própria e que era ele quem mandava em mim. Senti repulsa e uma vontade enorme de gritar, mas não deixei transparecer.
Suas mãos continuaram a exploração desmedida e chegaram ao abdômen. Ouvia seus grunhidos de aprovação e, a cada um deles, mais minha raiva aumentava. Ele caminhou a minha volta e parou nas minhas costas. As ágeis mãos deslizaram por meus ombros e fizeram cair as alças do vestido, que caiu com um leve ruído aos meus pés. Minha respiração acelerou mais. Eu sentia repulsa a cada toque, o ar que entrava em meus pulmões parecia ácido.
– Formosa, Amara, muito formosa. – ele dizia enquanto contemplava minhas costas nuas e minha bunda, que foi alvo de suas mãos em um instante.
Ele colou seu corpo duro ao meu e suas mãos investiram pesadas em meus seios nus. Ali eu não aguentei mais e fiz força para frente ao mesmo tempo em que sacudi com força os cotovelos para atingi-lo. Eu não suportaria mais um toque asqueroso desse homem em mim.
Acho que pela surpresa Victorius soltou-me e fui a passos largos para longe dele, protegendo meus seios com as mãos. Se houve surpresa sobre minha reação, sua face já não a demonstrava. O bastardo sorria.
– Eu estava achando fácil demais, Amara. – ele disse enquanto retirava a parte de cima de sua farda – Eu sempre soube que seria divertido com você.
– Não se aproxima de mim, seu porco imundo! – falei, perdendo a cabeça.
Com agilidade, eu corri pra longe dele e averiguei o ambiente. Precisava de algo que pudesse me defender. Victorius, no entanto, estava completamente relaxado e já havia retirado boa parte de sua farda, estando de calças brancas e com uma blusa, já parcialmente aberta. A parte exposta de seu peito mostrava uma musculatura invejável e aquilo serviu para me desesperar ainda mais. Como foi que eu consegui ficar tão calma até aquele momento, sabendo exatamente o que aquele homem queria de mim?
Mas foi até eu sentir os toques de Victorius que eu me tornei completamente consciente de tudo. E a realidade era monstruosa.
Corri para longe dele e percebi que seus aposentos eram repletos de cômodos além daquele enorme quarto. Pelo corredor eu vi algumas portas e havia uma delas aberta. Entrei no aposento escuro e bati a porta, ofegante. Ouvi os passos pesados de Victorius atrás da porta.
– Querida, eu não sabia que você estava tão ansiosa assim. Eu gostaria de ter te carregado para aí eu mesmo.
Então as luzes se acenderam e eu gritei. Tive um pequeno infarto ao perceber onde eu tinha me metido. Atrás de mim havia uma espécie de maca, feita de madeira brilhosa. Atada à maca,, havia correntes. O quarto não possuía nada mais além disso e eu senti o chão debaixo dos pés sumir.
Ele entrou com violência no quarto, aproveitando que eu perdi as forças momentaneamente. Senti meu corpo sendo empurrado para trás e bati com força na maca e uma das correntes cor de bronze caiu em minha direção. Victorius, sorrindo, veio pra cima de mim e senti sua boca na minha um segundo depois. Seu enorme corpo colado ao meu estava tão pronto para me possuir quanto era possível. Com raiva, eu mordi seu lábio inferior com força e senti o gosto do sangue do rei em meus próprios lábios. Victorius gritou e logo depois, eu senti a dor do golpe que me desferiu no rosto. Foi um tapa com a força de um soco. Meus olhos enxergaram pontos pretos e eu girei o corpo. Ele me agarrou os cabelos e me forçou para baixo, para o chão, onde eu sabia que ele me queria.
Não me dei por vencida. Consegui dar-lhe uma cabeçada bem de encontro ao seu nariz e foi forte. Não o suficiente para quebrar, mas o suficiente para que ele me soltasse. Aproveitei o momento para trocar de lugar com ele e tentei o mesmo golpe que dei no soldado que tentou ferir Ayana. Passei um dos braços por trás de seu pescoço e estava quase encaixando o mata-leão quando, com um giro espetacular, o bastardo se livrou de meu aperto.
O sangue em seus lábios fluía com avidez e eu ainda senti seu gosto em minha boca. Com uma forca descomunal, ele me virou de costas pro chão e sentou-se em minha barriga. Ficou difícil de respirar e eu vi seus olhos alucinados me encarando. Sua face vermelha e os cabelos agora desalinhados estavam exalando ódio em minha direção. As mãos grandes do infeliz vieram ao meu pescoço e apertaram fortemente. O escasso ar foi-se de vez e eu sabia que ele me mataria ali e agora.
– Sua vadia! – ele gritou em minha direção e mais sangue de seus lábios pingou em meu rosto.
Eu ainda tentei lutar. Consegui arranhá-lo no braço e afundei mais minhas unhas em seus pulsos enquanto ele me enforcava. Fiz ele sangrar ali também. Depois, contra tudo o que eu imaginei ele se abaixou e me beijou os lábios com força. Ele fez uns movimentos de vai vem com o quadril e soltou um urro alto e forte. Eu já via tudo escuro, estava sendo sufocada e não riria durar muito mais tempo. Sentia até meu aperto em seus pulsos afrouxar.
– Viu, Amara, o quanto você me fez gozar? – ele perguntou afrouxando completamente seu aperto sobre mim.
Eu engolia o ar a grandes goladas. Meu cérebro não havia conseguido processar tudo. O filho da puta tinha feito o quê?
Não consegui pensar em nada mais, Victorius me desferiu um tapa no rosto mais forte que o anterior que me tirou o pouco de ar que estava entrando. Instintivamente, eu o esbofeteei, com as unhas projetadas para frente. Senti minhas pequenas garras arranhando seu rosto e depois disso Victorius saiu de cima de mim e me puxou com ele. Num golpe rápido, ele arrancou a minha calcinha e me jogou sobre a tábua de madeira. Eu estava atordoada, ainda sem ar e com dores em todo corpo, principalmente no rosto, onde ele me atingira.
Vi quando ele se despiu e direcionou as mãos para as correntes grossas em meus pés. Victorius chegou a prender um de meus tornozelos naquela coisa, mas enquanto se dirigia ao outro eu me pus sentada de uma vez e, com toda força que tinha, agarrei seus cabelos e fiz força para baixo. Bati com a cabeça do filho da puta na bancada de madeira onde estava presa e ele gritou. Eu sabia que não daria tempo de correr, então peguei a outra corrente, a que ele queria prender minha outra perna, e enrolei-a em seu pescoço enquanto estava zonzo. No último instante, Victorius conseguiu colocar uma das mãos no pescoço e impedir que eu o prendesse completamente. Eu apertei a corrente com tudo o que tinha, mas ele era muito mais forte que eu.
Com um puxão, o infeliz conseguiu fazer com que eu soltasse minha arma de bronze e, nessa hora, eu lhe dei um soco no rosto. Ele pareceu nem sentir, caiu por cima de mim como um touro, prendendo minhas mãos na mesa de madeira com sua mão esquerda enquanto a direita me apertava o seio. Eu gritei e Victorius gritou junto. Tudo era tão rápido e intenso, que não dava tempo pra pensar. Eu só o queria longe de mim.
O imperador jogou todo seu peso sobre mim enquanto eu me debatia e não o deixava atingir uma posição propícia para que me invadisse como queria, embora o bastardo tentasse. Então, vendo que não conseguiria tão fácil, ele enrolou minhas pernas com as suas e sua mão livre voltou para meu pescoço. Ele voltou a me enforcar e, pelo brilhos alucinado em seus olhos, eu sabia que dessa vez me mataria.
Continuei a me debater enquanto lutava por ar. Quando estava perdendo as forças senti sua mão se deslocar de meu pescoço para meu seio e ele o apertou com tanta força que eu chorei enquanto gritava de dor. Era o que ele queria ouvir. Senti seus músculos se tencionarem ao máximo acima de mim e ele gozou mais uma vez, dessa vez sobre meu ventre. Foi tão intenso que ele fechou os olhos e afundou o rosto em meu pescoço enquanto afrouxava o perto em meu seio dolorido.
Ofegante, eu estava entregue a exaustão, mas era como se Victorius também estivesse sem forças. Ele levantou o rosto para mim e eu vi um sorriso satisfeito em seus lábios antes que ele os deslizasse por minha pele. Ele acariciou meu pescoço com a boca, beijando muito suavemente todo o caminho. Eu já não tinha como revidar, não tinha mais forças para lutar com ele. Então Victorius voltou-se para meu rosto e lambeu muito calmamente a lágrima de dor que eu havia soltado no momento de desespero. Olhando fundo em meus olhos ele disse:
– Eu quero muito mais de você, Amara.
...
Acordei sentindo o calor do enorme corpo de Victorius ao meu lado. Ele tinha metade de seu corpo jogado sobre o meu, envolvendo-me num meio abraço pesado. Olhando-o assim, era como se fosse um homem normal, tranquilo até, e muito atraente. Senti um frio na espinha com tal pensamento e as lembranças da noite anterior me invadiram a mente. Depois que brigamos até quase a exaustão, Victorius simplesmente manteve meu tornozelo trancado à corrente e dedicou-se a beijar meu corpo inteiramente. Era como se estivesse me saboreando de um jeito animalesco e doentio.
Não consegui manter muito mais a consciência e imaginei que acordaria no céu, junto de minha amada mãe, mas não foi assim. Parece que eu, mais uma vez, consegui manter-me viva diante do imperador.
Foi uma batida suave na porta que despertou o rei. Ele se pôs de pé com um movimento único e parecia que havia saído de uma verdadeira batalha. Seu lábio inchado onde eu o havia mordido, marcas de unhas pelo rosto, braços e costas e o pescoço trazia marcas da corrente com a qual eu quase o estrangulei. Com o corpo nu diante da luz artificial eu vi o quão perfeito era o desgraçado e aquela visão me remoeu as entranhas.
Ele me encarou, como que me avaliando, e parece que gostou do que viu. Eu estava nua, presa àquela maca de madeira pelo tornozelo e com certeza trazia em meu corpo as marcas de sua fúria e desejo. Sentia o rosto doer e sabia que estava inchado de tanto tapas que recebi. Havia hematomas em meus braços e pernas e o pescoço ainda estava sensível de forma que eu podia apostar que estava avermelhado.
– Quem é? – ele perguntou com a voz grave e autoritária, sem deixar de me encarar.
– Senhor, desculpe interrompê-lo, mas precisamos de sua presença com urgência na sala de reuniões. É sobre o rei Cristopher, do norte. Ele deseja uma audiência.
Os olhos azuis de Victorius pareceram transbordar uma fúria sombria por um instante antes de responder à voz que, reconheci, era de Quirino.
– Dê-me cinco minutos. – ele disse.
Depois disso ele se retirou e foi até uma porta que eu nem tinha reparado que tinha no canto do aposento quase vazio. Dois minutos depois ele retornou com os cabelos mais alinhados e vestindo um robe negro de cetim. Ele se aproximou da maca e soltou meu tornozelo preso antes de me passar um robe branco e impecável. Rapidamente eu me vesti, ficando de pé e deixando a maldita cama de madeira entre nós. Ele sorriu com minha atitude.
– Minha doce Amara, é uma pena que tenha que deixa-la tão cedo. Não vejo a hora de poder sentir sua vitalidade mais uma vez. – ele falou enquanto se diria a porta principal.
Ele abriu e saiu e eu o segui, certificando-me de apertar bem ao robe e ajeitar minimamente os cabelos desgrenhados pela noite anterior. Ao chegarmos a uma linda sala de estar que eu não havia encontrado antes, eu encarei os três comandantes a minha frente: Quirino, Torres e o grandalhão mal encarado Simão. Eu parei de andar logo na entrada do cômodo enorme.
– Então, senhores, o que ocorre? – o rei perguntou caminhando para uma mesa enorme de café da manhã que estava encostada na parede transparente. Ao fundo, o lindo nascer do sol pintava o céu de vermelho e azul claro.
Os três homens nada disseram, apenas continuaram a me encarar fixamente. Claramente não queria discorrer sobre o assunto na minha presença. Dando-se conta do ocorrido, Victorius tratou de ordenar:
– Torres, leve Amara de volta ao Harém. Simão, Quirino, digam-me o que aconteceu.
Eu vi o ódio fervilhar atrás dos olhos de Torres que não gostou nem um pouco de ser deixado de lado numa conversa tão importante. Era exatamente como Fernanda e Simão haviam dito: Torres não era nada além de um soldado entre os comandantes.
Ele não questionou as ordens do rei, que ainda me olhou com um sorriso no rosto enquanto me via seguir seu oficial de volta para meu cárcere de mármore. Caminhei atrás do corpulento Torres a uma distancia segura. Nós alcançamos o jardim externo e íamos em direção às escadas. Foi num lugar mais deserto do trajeto que o homem parou bruscamente.
Ele se virou e me fitou os olhos, parecia que sua decisão estava tomada.
– Você é a mulher que conhece o prisioneiro do imperador? – ele foi direto em sua pergunta.
Eu me fiz de desentendida. Precisava saber onde estava pisando.
– O que? Prisioneiro? – perguntei.
Ele parecia sem paciência.
– Não me faça joguinhos, eu sei que você viu um homem sendo transportado à ala hospitalar outro dia e que o reconheceu. Quem ele é?
Ele havia mordido a isca.
– Eu não tenho certeza. – respondi – Acredito que o conheça.
– Como assim, acredita? É seu conhecido ou não? – o homem avançou e senti hostilidade em sua voz.
– Eu não vi seu rosto! – falei com convicção – Ele estava muito ferido e o rosto voltado para baixo... mas eu acho que seja o mesmo homem.
– Mesmo homem o que? De onde acha que o conhece? – ele exigiu.
– Eu o conheci uma vez em meu dia de folga há muito tempo. – menti – Ele surgiu no alojamento e ninguém sabia quem era. Achávamos que era mais um remanejado. Ele e eu nos conhecemos e depois eu descobri que ele não era daqui.
– De onde é então? – Torres falava perto o suficiente para que sua saliva respingasse em mim. Ele estava alterado, sedento por informações que o pudessem fazer se destacar acima dos demais comandantes.
– Eu não posso te confirmar nada disso se não o vir. – eu disse com firmeza, ignorando as dores e o medo que sentia – Preciso vê-lo, falar com ele.
– Isso é impossível. – ele respondeu.
– Mentira! – retruquei – Sei que tem acesso a ele.
Torres me olhou com aspereza e pressionou meu corpo já dolorido contra a parede.
– Mulher tola! Acha que pode me chantagear? Eu mato você antes que possa implorar por sua vida miserável! – ele explodiu. Eu sabia que estava tenso.
– Se você me tocar jamais vai ter a informação que necessita. Eu posso ajudar você, mas pra isso você precisa me deixar vê-lo! Eu e ele tivemos um relacionamento, ele esteve envolvido comigo emocionalmente. Sei que posso tirar as informações que você precisa.
– E a troco de que faria isso? – ele questionou. Estava muito desconfiado.
– A troco de quê? – perguntei fingindo estar surpresa – Olha pra mim! Olha o que estou sendo obrigada a suportar! Eu imagino que se puder dar ao imperador a informação que deseja, ele possa me libertar desse martírio. Faria qualquer coisa pra sair daqui!
Minhas palavras saíram com fervor e eu esperava que o tivesse convencido. No fundo de seus olhos castanhos eu via o que ele provavelmente estava pensando: “Mulher tola! Acha mesmo que o imperador irá libera-la de seu compromisso com vida?”. Bom, era isso o que eu esperava que ele estivesse pensando porque assim teria uma chance dele jogar o meu jogo.
Torres me avaliou por alguns instantes.
– À meia noite esteja na escada estreita da ala sul do harém. Vou levar você até o prisioneiro e te deixar falar com ele. Tudo o que descobrir deve ser passado única e exclusivamente a mim, você compreendeu? – eu sacudi a cabeça – Se eu descobrir que você comentou sobre isso com alguém, com qualquer pessoa, você e a maldita não estarão vivas no dia seguinte. Compreendido?
– Sim. – respondi com firmeza olhando fundo em seus olhos.
Ele então voltou a seguir o caminho que fazíamos e em poucos minutos eu estava no terceiro andar, de volta para o harém das intocadas, que me aguardavam com ansiedade.
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