Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
9 Capítulo 8 - Um plano se inicia
Notas iniciais
Eu já estava há dois dias em jejum e sem ter contato com nenhuma das outras mulheres. Esse era o castigo que Beth havia me dado por eu ter saído dos limites do harém. Bom, pra uma serva que viveu racionando comida e água desde criança, dois dias eram moleza. Esse tempo acabou por ser bom para que eu refletisse sobre os rumos que eu deveria tomar nessa nova vida. Aquele homem ferido e sua cela não me saíram da cabeça em nenhum minuto dessas quarenta e oito horas e a única certeza que eu tinha era que precisava saber mais sobre ele. Bom, isso se o cara tivesse sobrevivido, é claro. Dado seu estado de saúde e a quantidade de sangue que havia deixado pelo chão eu imagino que apenas um milagre poderia tê-lo salvado.
Independente do meu cárcere e da forte vigilância no palácio, eu precisava arranjar um jeito de falar com ele. Para que esse homem fosse carregado por dois comandantes de mais alta patente pelas escadas ele com certeza não era qualquer um. E por que motivo o corredor onde ficava sua cela não era vigiado por câmeras de segurança? Victorius não deveria querer que ninguém ficasse de olho nesse cara além de seus homens de maior confiança. Certamente ele era um inimigo capturado pelo imperador e que devia ter informações que Victorius estava querendo muito. E se Victorius queria muito alguma coisa, os rebeldes precisavam ter essa informação. Poderia ser algo importante para nós.
Foi apenas no terceiro dia que eu fui autorizada a comer e pude, finalmente, interagir com as outras intocadas, conforme éramos chamadas.
Cada uma de nós tinha seu próprio quarto no terceiro andar, que era pequeno, porém extremamente confortável. As refeições eram servidas sempre nos horários certos no grande salão de refeições, eram fartas e estrategicamente balanceadas. Nós éramos obrigadas a fazer uma séria determinada de exercícios pela manhã na academia particular e tudo isso para que ficássemos sempre em forma e saudáveis para o rei. As intocadas, realmente viviam no maior dos luxos e tinham tudo o que precisavam. Havia, inclusive, salas que funcionavam como oficinas de arte, para passar o tempo, uma enorme piscina interna com temperatura controlada e um jardim maravilhoso no centro do andar, que era artificialmente iluminado e que se tornava um grande passatempo para as mulheres encarceradas aqui. Mas, para mim, o melhor lugar de todos era a biblioteca a que tínhamos acesso. Eu praticamente chorei ao ver a quantidade de livros que eu poderia ler e do fácil acesso que eu teria ao mundo antigo que eu tanto invejava.
Ao todo, éramos vinte e cinco intocadas, incluindo Beth, e eu acabei por reconhecer algumas poucas que, antes de virem para cá, chegaram a trabalhar nas fábricas junto comigo. Eu acabei me tornando a grande novidade delas e, apesar de tudo o que elas tinham ali, eu via a tristeza e o medo estampado em seus rostos. Nenhuma delas falava abertamente o que havia se passado na cama do imperador e elas fugiam do assunto como assombração fugia da luz. Isso me deixava nervosa. Definitivamente não era um bom sinal.
Os rumores eram que o imperador havia saído em uma pequena viajem e que retornaria em breve. E era esse “breve” indeterminado que me deixava angustiada, pois eu sabia que seria convocada pelo bastardo assim que ele chegasse sei lá de onde. E sabendo que eu podia ser maluca e imprevisível, eu não estava certa de que ele me deixaria viva no dia seguinte. Portanto, eu precisava correr para conseguir informação suficiente sobre o homem misterioso antes de estar com o rei e torcer para que sua viajem fosse mais longa que o previsto. Eu precisava ajudar aos rebeldes, precisava conseguir que Elliot tivesse uma vida diferente.
Depois de minha pequena aventura ao quarto andar eu estava receosa de que os guardas fossem estar mais atentos e que minha ida lá sem um plano efetivo acabasse por ser um fiasco. Foi no almoço do quarto dia que eu tive, finalmente, uma boa notícia. Boa não, incrível! Vi que uma das mulheres da cozinha que serviam às intocadas era uma das rebeldes infiltradas no palácio. Eu cheguei a conhecê-la meses atrás quando ela e seu marido conseguiram participar de uma das reuniões que visavam a rebelião falha que tivemos semanas antes. Era certo que ainda não havíamos descoberto quem era o traidor, mas eu precisava tentar. Se ela e seu marido traíram a causa e ainda não foram descobertos, eles iriam querer ajudar para encobrir qualquer dúvida. E era minha chance. Se não foram eles os traidores, então eu estaria bem.
– Fernanda? – perguntei baixinho perto da mulher que recolhia os pratos. Eu fingia ainda estar terminando a sobremesa e usava de minhas habilidades de falar muito discretamente – Eu sou Amara, uma das rebeldes.
– Eu sei quem você é. E vim aqui pra trazer uma mensagem de seu irmão. – ela disse também muito discretamente e, ao redor, ninguém reparou que conversávamos, pois a maioria das intocadas já havia se retirados e as demais servas estavam ocupadas retirando as coisas e limpando o lugar.
Fernanda, então, me passou um pequeno pedaço de papel e foi tão ágil que eu quase o deixei cair no chão. Estava emocionada com o que ela disse. Eu não esperava por essa.
– Eu retorno na hora do jantar e você pode me passar sua resposta. – ela disse pouco antes de se retirar apressada.
Como se fosse uma barra do mais precioso ouro do mundo, eu fechei a mão, amassando o papel que recebi, e saí da sala de refeições apressada. Mal entrei em meu quarto e já corri para a suíte. Como não havia trancas nas portas, eu precisava pelo menos me certificar que ouviria alguém entrando no quarto e que daria tempo para me livrar do pequeno e precioso papel caso acontecesse alguma coisa.
Tremendo, abri o pedacinho que reconheci imediatamente como sendo de um dos meus livros antigos. Era a parte de baixo de uma página amarelada pelo tempo e que ainda se mantinha viva graças a uma solução especial que passávamos no papel pra conservá-lo. Nele, havia o número da página e o final de uma frase impressa. Do outro lado, o garrancho de Elliot em linhas pretas que dizia:
“Aguente firme.
Vamos ter você de volta.
Te amo.
E.”
Senti uma lágrima morna escorrer pela bochecha. Meu querido Elliot, meu pequeno irmão. Eu o amava tanto que chegava a doer o peito. Ver seu esforço, sua força de vontade, me fez sentir um orgulho tão grande dele que eu queria explodir. Depois da morte de nossa mãe ficamos apenas nós dois e eu sabia que a minha captura havia sido um baque pra ele. Eu esperava que nossos amigos o ajudassem a passar por isso e estava feliz ao perceber que eles iriam lutar por mim.
Relendo o máximo de vezes que pude e gravando o formato de cada letra em meu cérebro, eu joguei o pequeno pedaço na privada e o mandei embora. Não poderia guarda-lo, por mais que eu desejasse, pois ninguém podia ver aquele papel. Seria a morte certa de Elliot. Depois disso fui até a sala de arte, onde o cheiro de tinta e cola era um pouco forte, mas onde eu sabia que estaria vazio após o almoço. Ali peguei um bloco de papel e um lápis colorido. Escrevi num dos lados:
“Estou bem. Possível informação em breve. Mantenha contato. Cuidado. Te amo.”
Fiz a menor letra que consegui e o pedaço de papel não era maior que um dedo mindinho. Eu o coloquei no sutiã a espera da oportunidade de passa-lo para Fernanda.
...
A parte boa era que eu estava vivo. A parte ruim era... eu estava vivo. Mesmo depois de tudo o que Victorius levou de mim naquele dia, eu sobrevivi. Graças ao meu processo de regeneração e a agilidade dos comandantes de me levarem para Frank, um dos únicos da equipe médica que tinha permissão para me tratar.
Passei três dias inteiros desacordado, com meu corpo necessitando de repouso e alimento, que era injetado através das veias. Por várias vezes, eu entrava e saía de um estado de semiconsciência, mas nunca acordava completamente, embora fosse capaz de ouvir e sentir as pessoas ao meu redor quando isso acontecia. Quando eu estava semiacordado, forçava meu cérebro a se agarrar àquele cheiro maravilhoso que senti quando fui transportado para a ala médica. Ele me relaxava, me fazia esquecer um pouco a dor.
Quando meu corpo se entregava à exaustão eu voltava a voar. Mas os sonhos eram difusos, pouco nítidos e muito, muito silenciosos. Em algum momento, eu vi uma figura aterradora, com asas negras e de onde saia um odor pútrido e nojento. Era enorme e tinha uma aura de maldade pura que emanava de seu corpo forte e musculoso. Ele trazia uma espada na mão. Uma espada de chama negra. Quando a vi, senti que, em minha própria mão esquerda segurava um cabo e algo levemente pesado, mas eu não enxergava o que era. De fato, não via meu próprio corpo e só sabia que estava voando com minhas asas porque aquilo já estava familiar pra mim. Então eu senti minha mão esquentar, juntamente com o objeto que eu carregava e um clarão começou a aumentar a meu lado. Era quente e poderoso e eu sabia que aquela energia toda vinha de minha própria alma. Mas então eu acordei enquanto estava sendo transportado para algum lugar e voltei a cair na inconsciência pouco depois. Dessa vez, não sonhei com nada mais.
...
Depois do jantar eu esperei as meninas se retirarem e fiquei mais tempo sobre a mesa. Logo depois a equipe de limpeza entrou e eu vi Fernanda entre elas. Ela veio retirando a louça e, aos poucos, se aproximando de mim. Fingi derrubar uma pequena taça de vinho sobre a mesa e comecei a limpar o lugar, desculpando-me. Quando outra moça veio para ajuda-la, eu implorei para que me deixasse ajudar, já que tinha feito a bagunça.
Limpando a sujeira de vinho, eu rapidamente entreguei o papel minúsculo para a mulher que permanecia perto de mim.
– Eu preciso de ajuda. – sussurrei pra ela enquanto levantava as taças para ela limpar – Preciso que você descubra sobre um prisioneiro no quarto andar que Victorius mantém escondido das câmeras.
– Como? – ela perguntou, terminado de recolher tudo e voltando sua atenção para a mancha de vinho na toalha branca.
– É um homem que Quirino e outro cara estavam carregando para o andar de baixo. Ele estava muito machucado, quase morto, e eu percebi que é importante pro imperador porque ele é mantido em cativeiro. Eu encontrei sua cela, está no quarto andar, num corredor sem câmeras de vigilância. Preciso entrar em contato com esse cara, pode ter informações importantes pra nós.
Eu falava tudo muito rápido e em tom extremamente baixo enquanto fazia o que tinha que fazer. Mas o trabalho foi rápido e logo Fernanda não teria mais razão para estar ali e nem eu.
– Eu vou ver o que descubro. – foi a única coisa que ela disse antes de sair.
– Obrigada. – falei para o vento, pois ela já tinha se retirado como uma flecha.
Na manhã seguinte eu estava visivelmente nervosa, pois já estávamos no quinto dia desde quando Victorius deixou o palácio e eu não sabia quanto tempo mais ele poderia ficar fora. Meu tempo estava se esgotando e eu precisava contar com a eficiência de Fernanda. As coisas pioraram muito quando, logo após o café, Beth veio falar com todas na sala de refeições.
– Eu quero informar que recebi notícias da guarda. Eles dizem que o imperador retorna amanhã e noite e ele irá querer uma de vocês a sua disposição quando retornar da viajem.
Senti a comida querer voltar. A minha volta, vi a inquietação das meninas e só serviu para piorar tudo, pois elas me olhavam nada discretamente.
– Amara, como foi a última ordem do rei, você será a que passará a noite de amanhã com ele. Após o almoço você será preparada, então espero que tire o dia de hoje para descansar. Todas sabemos o quanto uma noite com o imperador pode ser... cansativa.
As palavras de Beth não foram amigáveis e eu vi no fundo dos olhos da cadela que ela queria que eu sofresse com o rei. Depois do que eu fiz para ser escolhida e a desafiei saindo das dependências do terceiro andar, ela sempre me tratava com frieza e indiferença. Eu sabia que ela queria que eu me ferrassse para que ela pudesse esfregar na minha cara aquele “Eu te avisei”.
Da hora do café até a hora do almoço, as horas se arrastaram. Eu precisava saber se Fernanda havia conseguido alguma informação. Meu tempo estava se esgotando e eu teria que tentar agir mesmo sem ela. Foi após um insosso salmão grelhado ao molho de alcaparras que eu finalmente me animei ao ver Fernanda entrar na sala. Ela me olhou e fez um sutil gesto com a cabeça, direcionando-me para a enorme janela que dava uma bela visão do jardim interno pela parede de vidro. Ela não estava catando a louça dessa vez. Com um esfregão ela começou a limpar o enorme vidro de onde eu fingia observar o jardim.
– Fernanda, você conseguiu alguma coisa sobre o prisioneiro? Victorius retorna amanhã à noite, meu tempo aqui é curto. – sussurrei para a mulher rapidamente.
– Os soldados infiltrados não sabem de nenhum prisioneiro que fica no quarto andar. Um deles trabalha no setor de filmagem e ele confirmou que existem partes do palácio em que não há vigilância. Parece que um dos corredores do quarto andar é um desses locais.
Fernanda falava rapidamente e em tom super baixo enquanto molhava um pano limpo com um produto de cheiro forte. Quando ela começou a esfregar o vidro voltou a falar.
– Pelo o que foi apurado pelos nossos soldados, existem algumas coisas que apenas os três comandantes são autorizados a fazer. Ao que parece, eles possuem uma escala interna e ninguém nunca soube qual a tarefa que eles realizam. Soares é um dos soldados de elite e passa diversas informações para os rebeldes. Ele disse que a cada dois dias um dos comandantes está fora de serviço e pode ser que Victorius os tenha incumbido desse prisioneiro, já que realmente parece ser importante.
– Quem são os comandantes, além de Quirino? – perguntei intrigada – A porta da cela possui uma esfera de reconhecimento biométrico total da mão. Acho que só eles e o próprio imperador devem ter acesso ao homem. Tenho certeza que podemos conseguir algo de útil contra Victorius se eu conseguir falar com ele.
– Por que você? – Fernanda perguntou e parecia genuinamente preocupada – Acredito que os soldados devam fazer esse serviço. É mais fácil para eles tentar entrar.
– Não. Eu tenho a vantagem de sair daqui sem ter que justificar nada, só preciso me esconder de Beth, os soldados não. Se eu for pega novamente por aí, posso ainda contar com a sorte de ser uma intocada e sobreviver. Não podemos nos dar ao luxo de perder um soldado infiltrado, eles valem demais. – falei para a mulher enquanto fingia mudar de posição para admirar melhor o jardim.
– Simão e Torres. — Ela disse finalmente – Eles são os outros dois comandantes.
– Nós temos que arranjar um jeito de um deles permitir minha entrada naquela cela. – falei.
– Como? Isso é impossível! – ela disse incrédula.
– Não, nada é impossível. – respondi com convicção – Você precisa dizer aos soldados para tentarem achar uma brecha. Um desses dois homens deve ser persuadido. Todos os homens têm um preço, nós devemos descobrir qual deles pede mais barato.
Fernanda pareceu pensar profundamente enquanto voltava com o esfregão para a vidraça que estava tão transparente que eu mesma já não tinha certeza se havia um vidro ali.
– Soares uma vez comentou sobre o comandante Torres. Ele é um homem estranho, mais velho que os outros dois e está com Victorius desde sua ascensão. Embora ele se esforce, acho que dos três é quem tem menos responsabilidades, é o menos temido entre os soldados. Acredito que seja ele o elo mais fraco dessa corrente.
– Fernanda, fale com Soares. Ele precisa convencer Torres a me deixar entrar. Se esse cara é comandante, mas não impõe tanto respeito como os outros dois, temos que jogar com isso. Ele deve querer poder provar seu valor para o imperador. Diz pro Soares jogar com isso. Ver se existe a possibilidade desse comandante ser corrompido de algum jeito... nem que eu seja oferecida a ele como prêmio.
– O quê?! – ela perguntou incrédula e sua voz se sobressaiu.
As arrumadeiras olharam para nós e, eu disfarcei pedindo desculpas, dizendo que não me intrometeria novamente em seu serviço.
– Eu estou disposta a qualquer coisa para conseguir essa informação. – continuei ferozmente – Isso é mais importante que meu orgulho besta. Fala pro Soares ser cuidadoso, sondar o comandante e, se preciso, eu estou disposta a ser seu prêmio.
Saí de perto dela rapidamente. Não podia me dar ao luxo de sermos pegas tagarelando. Fernanda era meu contato com o mundo externo e eu precisava mantê-la perto de mim. Fui em direção ao meu quarto onde, inquietamente, caminhava de um lado para outro. Minha cabeça fervilhava com idéias, mas todas elas estavam travadas naquela maldita porta da cela, através da qual eu não podia passar. Eu estava decidida a seguir com isso e faria qualquer coisa para que Elliot, Ayana e os outros tivessem uma chance de escapar das mãos de Victorius. Eu passaria por cima do meu orgulho, se fosse preciso.
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