Signatum II - A Gladius de Fogo Renasce
5 Capítulo 4 - Um Novo Mundo
Notas iniciais
Sons abafados a minha volta me fizeram despertar. Meu corpo ainda doído tentava me manter vivo... eu só não compreendia o porquê.
– Vamos, bela adormecida, hora de comer.
A voz era conhecida, eu pensei no meio da nuvem de dor e esgotamento e me fez sentir uma queimação de raiva por dentro. Tentei mexer os braços, só para sentir o solavanco das pesadas correntes atadas em meus pulsos e o mesmo peso estava atado em cada um dos meus tornozelos. A risada do outro diante de minha tentativa foi grave e fez o pequeno e imundo cubículo tremer.
– Você ainda tenta, morimbundo? Ainda não desistiu disso? – ele gozou.
Então passos apressados chegaram perto de mim e meu cabelo foi puxado para trás com violência, fazendo com que eu levantasse a cabeça. Com extremo esforço. Obriguei minha pálpebra inchada a abrir e a claridade que me atingiu fez minhas pupilas contraírem tão rápido que chegou a doer. Então o soldado cuspiu na minha cara antes de gritar:
– Seu verme! Eu não sei por que sou obrigado a fazer isso todos os dias. – sua voz era de pura revolta – Onde já se viu, um soldado de elite como eu tendo que alimentar um escravo na boca?!
Então vi de relance quando ele jogou a bandeja em minha direção e toda a comida se espalhou pelo chão, misturando com a água e a sujeira do chão. A essa altura, nem senti se queimou ou não minha pele, pois já não estava tendo nenhum tipo de sensibilidade.
– Se quiser comer, vai ter que lamber o chão, seu verme imundo. – ele disse antes de gargalhar e sair da cela, batendo a pesada porta de metal com um estrondo.
Respirei fundo, tentando não ceder ao instinto do corpo em desmaiar. Eu precisava daquele alimento para me manter vivo e, por mais que eu detestasse admitir, não queria morrer assim, trancado nessa cela como um animal. Rastejando e sentindo que meus músculos iriam se romper diante de tamanho esforço, alcancei os pequenos pedaços de carne no chão e um punhado e arroz. Com dedos trêmulos conduzi o precário e insosso alimento até a boca e comi o máximo que consegui. Quando estava no final ouvi o estrondo da porta de minha prisão ao abrir e vi o soldado caminhar em minha direção mais uma vez.
– Isso é por me fazer de babá, seu verme.
Dizendo isso ele me deu um soco direto no rosto que me fez ver estrelas e tudo o que eu desejei antes de desmaiar e voltar para meu mundo acima das nuvens foi que o pouco de alimento que ingeri permanecesse em meu corpo, só para variar.
...
Senti o gosto do pão velho em minha boca. A massa já começava a ficar bolorenta e eu precisava arrancar os pedaços esverdeados com cuidado antes de comer. Há muito meu corpo havia aprendido a digerir este tipo de alimento, mas isso não significava dizer que o gosto era agradável.
Sentando no chão, ao lado do corpo franzino de Elliot, eu bebi apenas dois goles da água barrenta antes de voltar a mergulhar no mar de livros antigos espalhados pelo chão. Não me importava de gastar duas das cinco horas de sono que tinha para mergulhar nesse mar de letras e frases. Era como se fossem escritos por um outro povo, de um outro planeta. Apenas as fotos impressas das pessoas nas páginas indicavam que as histórias contidas nos objetos eram de fato relatos humanos.
Elliot também gostava de ouvi-las, embora não fosse capaz de lê-las por si mesmo ainda. Ele praticava o hábito da leitura apenas em raras ocasiões. Ele nunca gostou se dedicar aos estudos e preferia passar seu tempo junto aos mais velhos, segundo ele, “aperfeiçoando suas técnicas de batalha”. Mas eu já o tinha visto diversas vezes praticando com os outros e, sinceramente, Elliot era muito ruim na luta corporal. Mas eu sabia que ele tinha um grande talento e que dia ele iria descobrir por ele mesmo.
O vento sacudiu as folhas dos exemplares abertos e me trouxe de volta à realidade. E a triste realidade era que o mundo em que eu vivia não era como o mundo descrito naqueles livros esquecidos pelo tempo. Um tempo que não voltaria mais. Onde havia risadas, família, alegria, esperança. No meu mundo atual nada disso existia mais. Só havia guerra, escravidão, sofrimento e lágrimas. Lágrimas daqueles que eram escravizados pelos seus senhores e seu exército cruel de homens e máquinas. Ninguém sabe como aconteceu, mas em determinado ponto da história humana, o caos imperou.
Muitos disseram que Deus fechou seus olhos para nós, que se cansou de brincar com sua criatura e partiu. E com sua partida só o que restou fomos nós: os homens. E a natureza humana era cruel. Os poderosos guerrearam entre si e, ao longo das décadas, nações inteiras foram caindo. Os países, deixando de existir e uma nova ordem mundial foi instaurada, imposta por aqueles que detinham as maiores riquezas e os meios para dominar a tudo e a todos. Porque quando o homem percebe que ele sozinho pode ser rei, porque ele pensaria em dividir seu reino com outras pessoas?
Foi assim que o conceito de Nação se perdeu e se iniciou a Era dos Impérios. E conforme eu lia a história antiga e ouvia as lendas que alguns ainda insistiam em contar, eu percebia que tudo o que a humanidade fez, foi caminhar para trás. Era como se tivéssemos voltado há centenas de anos atrás, quando o mundo era dominado por Impérios gigantes que guerreavam entre si por terras e poder. O Império Romano, o Persa, o Grego... todos nascidos e enterrados há tanto tempo que suas histórias apenas perduram através de lendas e dos poucos registros que ainda existiam. Mas eu sinto como se esses impérios estivessem mais vivos do que nunca.
Os imperadores, ou reis, comandam exércitos super treinados, detêm altíssima tecnologia e utilizam este arsenal para atacar outros reis, em busca de poder e terras a mais para governar. E o resto de nós? Bom, quem não é do exército ou da cúpula da realeza simplesmente é escravo. Nós somos forçados pelos imperadores a trabalhar em suas fábricas de armas, a plantar sua comida, a limpar as suas bundas ou fazer qualquer coisa que seja determinada pelo imperador ou rei, caso contrário... bom, ninguém que se recusou a trabalhar jamais voltou para contar o que acontece.
– Amara, você continua enfiada nesses livros? Vem dormir. Temos que levantar em poucas horas.
Encarei meu querido irmão Elliot e suspirei. Ele estava certo e, por mais que eu odiasse admitir, estava cansada demais essa noite. O racionamento de comida e água estava sendo muito extenso dessa vez e meu corpo já estava começando a sentir os efeitos da precária alimentação.
Deitei no chão coberto com nada mais do que um lençol surrado e fino, e virei para ficar de frente para Elliot, que já voltava a pegar no sono. Com um esticar de braço alcancei a simples luminária para desliga-la e mergulhei o pequeno cômodo na escuridão. Minha mente, entretanto, se recusava a desligar como meu corpo necessitava. Havíamos passados por racionamentos severos antes, mas este estava sendo o pior e mais rigoroso de todos e não me refiro à falta de alimento. O imperador Victorius, de alguma maneira, havia descoberto nossos planos para uma fuga em massa de seu território e as consequências tinham sido devastadoras. Não tão devastador quanto saber que alguém de seu próprio grupo havia sido um filho da puta traidor, mas ainda assim sua vingança foi brutal. Como não havia como exterminar a tantos de nós de uma vez, pelo simples fato de que o imperador não queria suas fábricas com uma baixa tão grande de escravos, ele decidiu racionar o alimento, a água, a exposição à luz solar e dobrou a jornada de trabalho de todos os seus comandados trabalhadores, a quem ele chamava de servos. Com isso, muitos de nós estavam nas piores condições possíveis, muitos adoeceram e morreram. Os novos e os velhos eram os piores e isso sem contar as sessões de tortura coletiva, onde passávamos horas amarrados pelos punhos sustentando o peso do corpo ou as infinitas outras formas que Victorius e seu exército tinham de nos torturar.
Já haviam tido fugas antes. Havia, inclusive, lendas de que servos de Victorius estavam vivendo seguros em um refúgio escondido na mata. Pessoalmente eu achava tudo isso uma grande bobagem. Eram apenas histórias disseminadas entre os servos na tentativa de mantar uma chama de esperança viva em nossos corações. Eu já acreditava nisso antes mesmo de Victorius ascender.
Há cerca de cinco anos atrás o exército de Victorius havia encontrado algo de suas incursões pelas terras médias, terras que oficialmente não havia soberanos. Terras cercadas por lendas e mistérios, utilizadas como rota para impérios vizinhos e repletas de saqueadores sem lei. Segundo os servos internos do palácio do imperador, o que foi encontrado lá foi decisivo para Victorius ascendesse e conseguisse finalmente derrotar seu maior inimigo há quase um ano atrás, o Rei Leônidas, das terras do sul.
A história contada pelos soldados de Victorius é que o próprio imperador lutou na batalha que o fez sair vitoriosos. Conta-se que o imperador possui força e poder inigualáveis e que arrancou a cabeça do rei Leônidas com as próprias mãos, depois de ter sido alvejado por armas do inimigo e, mesmo assim, continuado de pé. Eu divido da veracidade destes fatos. Em minha opinião, essas histórias nada mais são do que invenções do império para que Victorius seja visto como um Deus entre os mortais. Verdade ou não, depois dessa conquista, Victorius se destacou entre os reis e há rumores de que os demais imperadores estão, pela primeira vez em séculos, temendo perder seus territórios para esta nova ameaça. O que restou para nós, seus servos, foi um temor ainda maior e a certeza de que a liberdade estava ainda mais distante.
Ninguém sabe o que os soldados de Victorius encontraram e nem em que essa arma consiste, mas eu sei que daria de tudo para destruir essa máquina maldita. A maioria acredita que seja um novo elemento químico, algo do qual ele extrai energia. Já outros acham que ele aumenta seu poder através de magia. Seja o que for, sem essa arma Victorius estaria vulnerável e susceptível. Foi isso que impulsionou a organização. Forças rebeldes dentro dos grupos dos servos tentaram organizar uma fuga em massa. A idéia era que, na confusão, os soldados de Victorius estariam tão ocupados que deixariam a arma exposta e um grupo infiltrado no castelo pudesse finalmente descobrir o que o faz tão poderoso. Mas tudo foi por água abaixo quando um delator fez o imperador parar nossos planos antes mesmo de começar.
A vida nos impérios antigos não era lá grande coisa, mas a vida que nós levamos hoje é um verdadeiro inferno. Sempre que eu mergulho na história e volto aos tempos antigos eu vejo que, na verdade, eu sinto inveja das pessoas que viveram naquelas épocas. Pessoas livres, vidas livres. Tudo o que eu sempre sonhei foi poder, por um único dia, dizer que ninguém além de mim mesma é dono das minhas escolhas, mas isso é só um sonho bobo.
Você deve se questionar: “Mas os escravos são maioria, porque não se rebelam contra o sistema?”. Então eu te pergunto: E você? Você luta contra o seu opressor?
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