Signals
1 Confissão pela metade
Notas iniciais
Sentindo seu corpo quente e formigante e uma estranha sensação de dor no pé a garota começa a recobrar os sentidos lentamente, e enquanto tenta se levantar para ir atrás de seu amigo que saíra correndo há pouco, ela pensa na estranheza de suas ações há poucos minutos.
─ Queria falar com você. Senta aí ─ disse ele do chão, pondo sua mão sobre os olhos para bloquear o sol.
─ Fale. Me chamar aqui pode ser perigoso, suas fãs podem voltar a me considerar uma ameaça, então não demore ─ Anjolie replicou sorrindo para Caio, que a olhou com raiva (muito mal fingida, se alguém a perguntasse sobre o assunto). Nas janelas atrás deles era possível ouvir os suspiros.
─ Eu... e-...
─ Eu-e-oque?
─ Acho... que gosto de uma garota.
─ Hmmmmmmmm...
─ Não é você.
─ Eu já imaginava que não fosse, você estaria vermelho se fosse eu.
─ Ai meu Deus, o que eu faço?
─ Só respondo depois de saber quem é.
Agora o rubor chegava à face dele.
─ Não mesmo.
─ Ei, ei. Eu não trabalho com informação incompleta, mocinho.
─ Nem sei porque disse isso pra você.
─ Melhores amigos e coisa e tal.
─ Não, acho que eu só precisava dizer isso a alguém que não ia rir de mim. Ou que pode me perseguir afim de saber o resto ─ disse ele se levantando com uma velocidade impressionante e saindo correndo em direção ao portão da escola.
Como a vida podia ser injusta, pensava ela agora, olhando para o pé dolorido, que ela quase torcera na tentativa de perseguir Caio. Atrás dela a multidão agora havia se dispersado, sem sequer uma alma viva ou morta pensando em ajudar a garota que praticamente desmaiara ao lado da escola. Bom, nada fora do comum.
Pegando sua mochila do chão ela sai, sentindo a dor de cabeça repentina que acompanhava às vezes a queda da pressão.
Passando pelo portão ela vê dois garotos desconhecidos com o uniforme de sua escola caminhando do outro lado da rua; que, apesar das risadas audíveis, se comunicavam com a linguagem de sinais. Aquilo era fora do comum, porém não do seu interesse.
Olhando novamente, vê o mais alto gesticulando “aquela professora de matemática deve ser louca”. O outro concorda, gesticulando algo como “ei, temos uma observadora”, apontando para ela. Antes que deixasse eles descobrirem que entendia os gestos, ela olha para frente e caminha mais rápido, ouvindo risadinhas vindas do outro lado.
Ela chega em casa dez minutos depois com mais calor do que estava antes e muita vontade de tomar banho, mas fora verificar se seu irmão já chegara antes de fazê-lo. Pegando o laser preso à porta ela o aponta cuidadosamente pela fresta da porta e fica fazendo uma linha na parede, até que ouve uma batida que indicava “pode entrar”. O laser na porta fora a melhor ideia que já tivera. Como seu irmão não podia escutar, nunca conseguiria ouvir as batidas na porta, então ela tivera a ideia de prender um laser de brinquedo na porta e avisar que alguém queria entrar no quarto fazendo gestos na parede.
Os dois já haviam criado uma comunicação própria através do laser, sendo um feixe contínuo para cima e para baixo “posso entrar?”, a luz fixa em um único ponto “o jantar está pronto” e a luz pelo buraco da fechadura um “preciso de ajuda”. Todos os três gestos ganhavam uma batida na parede como resposta, para comunicar “já entendi” ou “pode entrar”.
Sorrindo um pouco ela abre a porta, e Alex tira os olhos do livro para encará-la; vendo seu sorriso ele ainda pergunta “feliz por?”.
─ Nada. Apenas lembrando do laser ─ ela diz lentamente, para que ele leia seus lábios.
Pela velocidade com que ele movimentava os braços era possível imaginar ele exaltado “SIM, VOCÊ É UM GÊNIO, PARABÉNS.”.
─ Eu sei, eu sei. Autógrafos sábado na Bookmaniacs, sem pressa, tem pra todo mundo ─ ela responde rindo da irritação que ele demonstra.
“Se não tem nada para falar comigo ou fazer aqui já pode sair.”.
“Qual o motivo da irritação?” pergunta ela agora com gestos.
Ele hesita por um segundo antes de gesticular “Quase cometi o erro de dizer que não é do seu interesse, mas sei que você somente discutiria mais com isso.”. Ela concorda com a cabeça e ele continua depois de suspirar “Tem uma menina nova na minha turma.”.
“Só isso?”.
“Não terminei, obrigado. E ficaram fazendo piadas sobre mim para ela durante a aula inteira.”.
“Pensei que eles não te incomodassem mais.”.
“Eles não incomodavam, até aparecer uma garota bonita na história.”.
“Então ela é bonita, é?” ela “fala”, com expressão de malícia. Seu irmão cora e ela sorri por mais tempo com isso. “E como você sabia que era de você que estavam falando?”.
“Eu sou surdo, não cego; eu vi eles apontando para mim e rindo.”.
“Bom, sinto muito pelo seu mundo cercado de idiotas. Vai ver ela percebe o quão babaca eles são antes de ter problemas.".
“Espero que sim. Agora, porque você veio aqui?”.
“Por que eu quis.”.
“Sim, isso também, mas o outro motivo foi?”.
“Caio disse que está apaixonado, mas não quer me dizer por quem.”.
“Por você?” ele perguntou franzindo a sobrancelha e rindo da expressão que ela fez.
“Não. Outra pessoa. Mas ele não diz quem. Que tipo de melhor amigo guarda segredo de outro, eu pergunto.”.
“O tipo que quer privacidade.” ele responde já se encolhendo da mão que vem imediatamente de encontro à seu braço. “Que? É verdade.”.
“Se você esconder coisas de mim também tem muito mais de onde veio esse.”.
Ele fez uma expressão de “wooooow, ela é assustadoooora” e começou a rir da cara de irritada que Anjolie fez.
─ Bom ver você sorrindo, agora tchau.
Ele acenou para ela e voltou à posição anterior com o livro aberto na mão. Saindo do quarto ela segue pelo curto corredor até o banheiro, onde toma o banho pelo qual ela tanto esperara. Quem será que eram aqueles garotos que estavam se comunicando daquela forma...?
Praticamente ninguém sabia linguagem de sinais, a menos que tenha alguém próximo que tivesse problemas de audição, e não era uma coisa comum então... bom, coincidências acontecem. O mundo era grande, mas não era infinito, afinal de contas.
Agora, Caio que a aguardasse! Não só contara metade da informação para ela como também saiu correndo sabendo que não poderia ser seguido. A vingança ia ser maravilhosamente doce e bem arquitetada; mas por agora talvez ela devesse se preocupar em pôr suas roupas.
*¬* *¬* *¬* *¬*
Enquanto isso, do outro lado da rua, enquanto olhava pela janela de sua nova casa, Miguel vê uma garota entrar no quarto que ficava em frente ao seu, somente com uma toalha ao redor do corpo; e ele, com um pouco de vergonha, desvia o olhar. Sem conseguir resistir mais de dois minutos, ele olha novamente, somente para ver uma cortina azul na janela aberta. Uma pena a garota ser tão esperta...
─ Parece que descobriu a vizinha bonita ─ Albert comentou encostado na porta.
─ Bonita? Eu nem vi o rosto dela!
─ Mas é. Ah, é mesmo! Você já viu que ela é bonita, é a garota loira do outro lado da rua.
─ Do outro... o quê? ─ por um momento pensou que se referia à ela morar na casa em frente a deles, mas então se lembrou de que, na saída da escola, uma menina ficara observando enquanto conversavam. Provavelmente não entendera o que diziam, mas... ─ Ela entendeu o que estávamos falando?
─ Claro.
─ E VOCÊ FALANDO SOB-
─ Ei, ela recém tinha chegado ali, não viu aquilo; ela chegou mais ou menos na parte da professora.
─ COMO VOCÊ TÁ TRANQUILO COM ISSO? ERA PRA SER UMA LINGUAGEM POUCO UTILIZADA.
─ Pode até ser, mas, ainda assim, SE VOCÊ CONTINUAR GRITANDO EU VOU CHAMAR ELA AQUI, ela tem um irmão surdo, então aprendeu pra poder falar com ele.
─ Isso soaria até triste se eu não soubesse como é..
─ Já volto ─ Albert exclamou correndo porta a fora. Pelo barulho de porta abrindo que soou próximo, ele correra para o banheiro.
Apoiando-se na janela Miguel olhou para o céu, onde viu uma nuvem que o lembrava vagamente de um cachorro de um filme que vira, e acaba tomando um susto quando Albert entra no quarto rindo como se não houvesse amanhã.
Ele olha rapidamente para o meio-irmão que logo aponta para a janela, e ele vira a tempo de ver a cortina do outro lado ser aberta com violência surpreendente por uma garota loira usando uma regata vermelha. De longe suas bochechas pareciam coradas e ela estava visivelmente puta.
─ SEU TARADO IMBECIL ─ gritou, fechando logo em seguida a janela e provavelmente a cortina também.
Quando Miguel olhou sem entender para seu irmão que ria histericamente, viu seu celular na mão dele, e tudo que pôde fazer por alguns segundos foi ficar incrivelmente pálido antes de sair correndo atrás do irmão que se trancou no banheiro novamente.
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