Signal Fire

30 Metamorfoses Reversas


Notas iniciais
Boa tarde, como vocês estão? Peço desculpas pela demora na atualização. Prometo que, a partir de agora, teremos uma dinâmica diferente já que entramos, oficialmente, na fase final da história. Provavelmente, teremos 3 últimos e derradeiros capítulos antes do epílogo. Pois bem, sobre esse capítulo... Eu não tenho uma opinião formada a respeito dele, até porque, eu mesma estou confusa em relação a ele. Por isso, proponho uma reflexão a vocês, já pensaram o peso que o passado tem em Signal Fire? Se não haviam pensado nisso e julgavam o presente injustificável por parte de uma das duas... Bem, espero que esse capítulo ajude a esclarecer o quão profunda e intensa é a relação de Rachel e Quinn. Dando esse recado, me despeço! Nos vemos lá embaixo, boa leitura!

Abril de 2013 — Lima, Ohio.

Quinn já tentara se distrair, mas a ansiedade tornava a falar mais alto do que todas as suas tentativas de não pensar sobre a dúvida em seu futuro. A sua convivência com Rachel Berry estava transformando-a em uma dramática, entretanto, a loira não conseguia mais imaginar um futuro que não envolvesse Yale e o teatro. Na realidade, era muito mais do que isso, era a necessidade de sair de Lima para se encontrar e consequentemente, de desaparecer nos campus da universidade que escolhera.

Não somente desaparecer de sua família, como também, se libertar... Ainda estaria próxima a New York City e, consequentemente, de Rachel Berry. Talvez, antecipara-se em dar o passe de metrô para Rachel... Porém, ela estava irracional demais quando o comprou, assim como estava insegura sobre o que o futuro reservava para as duas. A primeira fase para o processo de aceitação em Yale fora transposta com sucesso e Quinn achava que a segunda e última fase seria o menor de seus problemas. O mais importante era mente Rachel por perto.

Ela achava tudo isso importante até sua carta de aceitação não chegar.

Quinn sabia que o prazo de entrega das cartas já passara e era justamente essa certeza que a fazia trancar-se em seu quarto durante todo o tempo que estava em casa. Ela não conseguia olhar na cara de seus pais, não sem sentir o chão desaparecer-se de seu pé e a sensação de inutilidade apossar-se de seu corpo.

O celular na cama, ao lado da sua perna, tocara mais de três vezes naquele dia, várias mensagens recebidas também piscavam na tela. A maioria delas pertencia a Santana e a Rachel. Lembrar da morena de sorriso contagiante também fez Quinn recordar-se, de novo, que aquela noite seria a despedida dela. Rachel partiria na manhã seguinte em direção aos seus sonhos e, mesmo sendo um domingo sem cartas, Quinn esperava ter ao menos uma boa notícia para que Rachel pudesse levar consigo.

Pelo menos, a esperança de que o que tinham construído seria mantido, mesmo com a distância entre New York e New Haven... Entretanto, Quinn não tinha nem a crença, ela se esgotara conforme via Rachel ir para cada vez mais longe de si e sentia seus pés cada vez mais fincados em Lima.

O arrependimento a preenchia naquele momento, ela deveria ter tentado algumas faculdades em New York e, até mesmo, em outros lugares. Seu orgulho falara mais alto quando ela pensou que era o que Yale precisava e, naquele momento, a verdade era outra. Quinn, aparentemente, não era o material que nenhuma universidade precisava.

Batidas na porta, seguidas da tentativa de girar a maçaneta trancada, tiraram Quinn de seus devaneios. A loira olhou desconfiada para a porta e ignorou, até que novas batidas e a voz de sua mãe lhe surpreenderam:

— Querida, eu e seu pai precisamos falar contigo... Você pode descer?

Quinn revirou os olhos para a o tom carinhoso e excessivamente educado usado pela sua mãe, aquele tom não a tranquilizara e sim, amedrontava. Era o mesmo tom de voz de suas piores lembranças, como o dia em que foi expulsa e as diversas discussões que faziam parte da sua rotina desde que Russel voltara para casa. A garota suspirou e fingiu não escutar, voltou a olhar para sua janela, enxergando a rua suburbana deserta naquela tarde de domingo. Através da madeira da porta, Judy suspirou profundamente e Quinn, irritada pela insistência dela e pela a ausência de resposta de Yale, resmungou:

— Tem algo a ver com a universidade?

— Sim, a sua carta chegou. — Judy respondeu rapidamente e, logo em seguida, Quinn escutou os saltos de sua mãe estalarem no azulejo do chão e, depois, descerem as escadas. A loira demorou um pouco para processar as palavras da mãe, mas quando as fez, seu corpo se moveu impulsivamente e ela desceu as escadas, correndo.

Aos pés da mesma, quase esbarrou em uma figura corpulenta. Russel Fabray a olhava de forma autoritária e de braços cruzados, desaprovando seu comportamento ansioso. Quinn ofegou e puxou ar, tentando acalmar as batidas aceleradas de seu coração e o tremor de seu corpo. Judy estava parada ao lado do marido, impassível.

Não precisava ser muito inteligente para decifrar as expressões dos Fabrays.

Quinn pensou no pior. Era isso, falhara e jamais veria a neve cair em New Haven. Jamais visitaria Rachel em New York. As duas não usariam o passe e, provavelmente, jamais voltariam a se ver.

A loira sufocou as lágrimas provocadas por uma saudade que começava a castigá-la, o branco de seus olhos avermelhou-se e os mesmos arderam. Ela engoliu em seco e fechou as mãos em punhos ao lado de seu corpo — canalizando toda a raiva para esses pontos, não permitindo que os pais vislumbrassem sua fragilidade — e abaixou a cabeça, esperou pelo pior enquanto se perguntava o que a vida queria lhe mostrar quando colocava tantas provações a sua frente.

— Primeiro; você sabe muito bem que não deve correr dentro de casa. Você já tem 18 anos, Lucy! — Russel bronqueou de forma entediada, apontando o dedo para a filha que permanecia de cabeça baixa, concentrando-se em, mais uma vez, não chorar, nem gritar. Quinn concentrava-se em entregar aos pais o que eles lhe deram desde sempre: a ignorância. — Segundo; sua carta chegou e precisamos conversar sobre o conteúdo dela.

— Hoje é domingo, não temos correio. Essa carta, provavelmente, chegou antes e vocês dois a esconderam de mim. — Quinn murmurou rouca, sua garganta esforçava-se para articular as palavras que ela sabia que doeriam quando ditas ou escutadas. A loira podia sentir seu interior se contraindo e reduzindo-se à pequenez de seu fracasso. Como tudo na vida de Quinn Fabray, aquela era somente mais uma derrota para o hall de rasteiras que levava da vida. Não importava quanto e nem como ela se esforçasse, sempre seria vencida e lembrada pelos erros de seu passado.

As aulas que perdera quando estava grávida talvez tenham determinado aquela recusa de Yale.

Pensar no passado a fazia questionar o seu presente e se realmente merecia o que tinha em mãos. A vida podia não estar lhe ensinando nada e sim, dando-lhe justamente o que merecia.

E Quinn podia não merecer nem Yale e, muito menos, Rachel Berry em sua vida. Ela sequer conseguia acreditar que a morena estava em sua vida e que permanecera nela por todo aquele ano.

Mais uma vez, o seu passado vinha à tona e amargava o seu presente, seus erros sempre estariam impressos nas pessoas que magoara, nas falhas de seu caráter e nas suas inúteis tentativas de superação. Talvez, o perdão não fosse tão divino e a misericórdia não fosse tão abrangente.

Portanto, Quinn, para sempre, seria uma garota de Lima e veria, de longe, a única estrela que conhecia brilhar e explodir New York em uma supernova.

Possivelmente, aquele destino já estava selado e Quinn estava, apenas, lutando contra o inevitável. Afinal, antes de a amizade ser cultivada, ela dissera a Rachel que seu futuro estava condenado àquela cidade esquecida e fracassada... Naquela época, suas certezas eram tão intensas como suas crenças naquele momento e Quinn se sentia segura porque caminhava em território conhecido, não era capaz de sonhar e acreditar.

O que acontecera para suas certezas serem enfraquecidas e para que a sua esperança fosse fortalecida por sonhos de um futuro melhor?

Rachel Berry acontecera. Não como uma estrela que brilhou em seu céu de nuvens e temporal, mas como um cometa. A morena rasgou e acendeu o céu escuro de Quinn Fabray, desceu queimando sua atmosfera de valores fúteis e frágeis até chocar-se ao seu solo fixo, seguro e instransponível. E esse choque estremeceu todos os alicerces que a loira acharem serem certos e imutáveis... Rachel lhe entregou a esperança e, a única coisa que pediu em troca, foi a sua amizade.

E, nesse momento, Quinn não podia mais ter a certeza de que lhe entregaria isso. Demorara tempo demais para perceber que Rachel merecia mais e, se tivesse descoberto antes, teria sido capaz de dar tudo de si para morena. Se tivesse dado tudo de si, talvez, deixá-la ir embora não doeria tanto. Quinnn sentia-se injusta, mais uma vez.

Agora, a morena estava indo embora e, possivelmente, para sempre. Não havia tempo, a areia se esgotara na ampulheta e Quinn fracassara. E esse fracasso seria o que cortaria mais fundo e o que doeria por mais tempo... Porque, afinal, ele era Rachel. E tudo nela era intenso, forte e inexplicável, não seria justo que uma dor vinda dela fosse esquecível.

— Eu e seu pai preferimos acreditar que essa sua falta de educação seja apenas conseqüência da sua ansiedade. — Judy bronqueou de forma fria e distante, característica de seu papel de mãe ausente e despreocupada. Quinn finalmente ergueu os olhos para as palavras de Judy e, agora, os olhos verdes refletiam uma fúria silenciosa e irracional.

Os três últimos anos de sua vida passaram diante de seus olhos e os apertos em seus punhos tornavam-se mais intensos à medida que era, novamente, nocauteada pelo abandono, a solidão e a negação de seus pais. O tempo funcionava de forma esquisita para sua mágoa e não importava o quanto ele passava, aquelas cicatrizes sempre arderiam e a fariam atacar como um animal cego pela dor. Seus pais a talharam e, ela mesma permitiu-se ser moldada por sua crueldade, Quinn não negava a culpa que tinha em todos os seus erros, mas a raiz de todos eles estava nas mãos manchadas de Russel e Judy Fabray.

Eles a moldaram, ela aceitou e eles a abandonaram quando ela mais precisou.

— Na verdade, depois de tudo que você nos fez e ainda nos faz passar... Você deveria nos agradecer por ainda querermos conversar com você sobre o seu futuro. Qualquer outra família do nosso círculo social teria feito diferente. — Russel resmungou colérico, a veia em sua testa pulsava e o seu rosto estava vermelho. O homem tinha o tom de quem tinha razão e, se fosse qualquer outra época, sua filha teria acatado tudo o que ele dizia. Mas, Quinn controlou-se para não desencadear, de uma vez, a fúria de seu pai com um comentário que ele consideraria ingrato, sua língua saboreava as palavras que ela não tinha coragem de dizer. Sua fala calada era feita de desprezo e raiva, ela não precisava dos dois, nunca precisou. A garota abaixou a cabeça e obedientemente fria, esperou que seus pais continuassem. Judy pigarreou e disse:

— Você estava certa, sua carta chegou no começo dessa semana. O conteúdo dela surpreendeu a mim e a seu pai e nós precisamos pensar sobre o que íamos fazer em relação a isso.

Quinn arregalou os olhos de forma discreta, ela não esperava que a conversa tomasse aquele rumo. Seu coração se acelerou com a simples ideia da possibilidade de ainda poder ir para Yale. O seu interior voltou a se expandir e a se encher de calor, ela agarrou-se à esperança, à Rachel e acreditou. Seus olhos brilhavam e, dessa vez, não eram lágrimas de fúria ou de tristeza que lutavam contra a sua contenção.

Judy e Russel caminharam para a luxuosa sala de estar e Quinn os seguiu. Os pais se sentaram no elegante sofá e a loira, ansiosa demais, ficou em pé. O homem suspirou pesado e ligeiramente incomodado, disse:

— Eu e sua mãe nunca concordamos com a ideia de você cursar Artes Cênicas, porém, nunca lhe dissemos por que acreditávamos que você mudaria de ideia e de que não passaria numa faculdade como Yale... Ainda mais, com o seu histórico escolar.

Quinn imaginara receber a notícia de aprovação em Yale de muitas formas, a maioria delas incluía Rachel ao seu lado e as duas lendo a carta, juntas... Contudo, até mesmo isso, seus pais tiraram dela. Em troca, eles lhe entregavam a notícia entremeada a comentários depreciativos e pessimistas, eles davam a ela as críticas as quais ela estava acostumada.

Porém, Rachel lhe dera a esperança e, também, a força. Quinn focou-se na boa notícia e seus lábios se abriram num sorriso que ela não conseguiu conter, um sorriso que provocou asco em seus pais e que a deixou ainda mais eufórica por ser capaz de ainda desprezá-los daquela forma. Ela só queria sair dali e ir correndo contar para Rachel.

O que elas tinham não ia acabar, não era para acabar, não em Lima.

O que elas tinham construído ia perdurar, através de toda a distância comprimida entre New Haven e New York e muito além daquele ano que deixaram as diferenças de lado e se acertaram.

Naquele momento, Quinn pode sentir que o que tinham seria, de certa forma, infinito.

— Nós cansamos de lhe avisar e, até mesmo, de lhe ameaçar... Porém, diante desse acontecimento, nós devemos tomar uma atitude mais drástica, Lucy. — Judy estava séria e extremamente pálida, a postura da mulher mais se assemelhava a uma ameaçadora do que a uma mãe. Quinn não desviou os olhos dos dois. O frio fez morada em seu interior e, ela antecipou que algo lhe tiraria das nuvens e, novamente, a jogaria com força no chão, espatifando o que ainda restava inteiro nela. — Sabemos que você foi influenciada na escolha de seu futuro, assim como sabemos que as más influências continuarão na sua vida se pagarmos o que a sua bolsa em Yale não pode cobrir... Por isso, se não podemos vencer a sua teimosia ao fazê-la mudar de ideia, podemos assegurar que você tenha um futuro grandioso no que escolheu. Então...

— Se quer ir para Yale, é melhor que se esqueça da existência de Rachel Berry. — Russel interrompeu a mulher de forma impaciente. Quinn voltou o seu olhar abruptamente para o pai, completamente estupefata com a proposta que recebera. Seu rosto contorceu-se em uma expressão enojada para, depois, dar lugar à dor. A jovem crispou os lábios e sussurrou ferida:

— Vocês não podem fazer isso.

— Somos seus pais e bancaremos seus gastos até você se formar... E se você não é capaz de escolher algo digno, terá que abrir mão de outro mal pelo que deseja tão irracionalmente. A vida é feita de escolhas e de perdas, Lucy... Agradeça por estarmos lhe dando a oportunidade de aprender com isso tão cedo! — Judy vociferou, elevando o tom de voz, julgando o comportamento da filha como fraco. Quinn caminhou decidida até a mãe, totalmente transtornada e dando-se conta de que bateria nela senão parasse. Parou no exato momento em que seus pais levantaram-se. Russel segurou-a fortemente pelo pulso e ela se desvencilhou, respondendo:

— Gratidão é algo que eu nunca sentirei em relação a vocês! Vocês me abandonaram na hora em que eu mais precisei e só me aceitaram de volta pelas aparências, minha vida tem sido um inferno nessa casa e eu não vou deixar vocês cortarem as minhas asas quando eu posso voar para longe!

— Se quer voar, também vai ter que abandonar o peso morto de suas costas! E Rachel Berry é exatamente isso na sua vida! O que a filha de um casal homossexual pode lhe oferecer? — Russel gritou furioso, voltando a segurá-la e a empurrando bruscamente. Quinn caiu no chão e as lágrimas também caíram de seus olhos, ela levantou-se ágil e olhou para os pais, tão machucada que era impressionante o fato de ela ainda ser capaz de defender-se:

— Ela não é isso, ela é justamente o que me fez querer voar para longe de vocês! Eu não vou abandoná-la, não me façam escolher entre vocês e ela porque sempre será ela... Quantas vezes forem necessárias, quantas situações forem impostas e quanto tempo for requirido!

O tapa veio sem que Quinn percebesse e doeu mais do que qualquer outra coisa que ela tivesse sentido, jamais saberia de quem foi a mão que bateu em seu rosto e espatifou o que ainda restava de amor pelos seus pais em seu peito. Mal se recuperara dele e já fora arrastada para seu quarto, o celular tirado de suas mãos e a porta trancada. Através da madeira fria, a voz abafada e estridente de sua mãe se fez ouvir no silêncio gutural do quarto:

— Você vai ficar trancada até colocar a cabeça no lugar e pensar no que você está fazendo com a sua vida. É hora de ser adulta, é hora de perder.

Quinn sentou-se em sua cama e trouxe os joelhos para junto de seu corpo, em seguida, chorou pela dor, pela possibilidade de perder Rachel e Yale naquela mesma noite... As lágrimas secaram enquando a ferida aumentava exponencialmente.

Quando a noite caiu, Quinn lembrou-se de Rachel e de todas as promessas que fizera. Ela quebraria cada uma delas e, principalmente, ela saberia que destruiria algo ainda mais precioso... Quinn sabia que acabara de destruir tudo o que havia construído com Rachel e tudo no que a morena acreditava.

***

Rachel sempre imaginara o dia em que deixaria Lima. Em algumas situações, ela era a mesma garota do começo de ensino médio, sem amigos e que se encontrava sozinha na plataforma de trem até seus pais virem despedir-se dela. Em outras, ela não era a mesma garota que sofria bullying e sim, algo semelhante ao que era naquele momento — com amigos, ex namorados, colegas e até admiradores — acompanhando-a até a plataforma e despedindo-se dela, com os olhos cheios de lágrimas, desejando-lhe boa sorte naquele futuro amedrontador e desconhecido.

Mas, nos últimos meses, tudo o que imaginara para a sua despedida tinha Quinn Fabray em papel de destaque. Porém, diferentemente de sua imaginação que incluía o sorriso de Quinn e aquele olhar esverdeado tão intenso que lhe dizia tanto sem palavras, a loira não estava na plataforma. Tampouco, estivera em sua vida naquelas últimas horas.

Quinn não aparecera em sua despedida, não atendera suas ligações e nem respondera suas mensagens... Rachel tentara ligar para a Mansão Fabray e sempre obteve a mesma resposta, de que Quinn não podia e nem queria falar com ela.

Nas primeiras vezes, ela chacoalhou a cabeça e disse a si mesma que acontecera alguma coisa e que Quinn estava em apuros... Porém, lá pela terceira ou quarta ligação, sua fé finalmente abalou e ela aceitou as verdades contidas naquele silêncio de Quinn. Ela não viria, ela não se importava. A insegurança finalmente falou mais alto que a esperança.

Rachel não queria pensar aquilo de Quinn, só que algo dentro dela sempre foi frágil quando envolvia a presença da ex cheerio em sua vida. O presente das duas era fantástico e poderoso, a prova viva da existência de redenção e perdão... O passado? Doloroso demais. E o futuro? Um mistério.

A morena sempre temera que tudo que possuíssem acabasse com o fim do ensino médio. A relação das duas era tão frágil quanto o seu antigo romance com Finn. A distância também se interporia entre elas e, mais do que isso, sempre existiria o passado, independente do quanto elas caminhassem juntas em direção ao futuro. A mágoa entre elas ainda estava em processo de neutralização, mas ainda era dolorida o bastante para incomodá-las.

Rachel não tinha vergonha de admitir porque também sabia o quanto o passado assombrava Quinn.

Da parte de Rachel, cada ausência de respostas poderia significar um fim. Assim como cada segredo revelado poderia significar uma nova brincadeira cruel. E cada desaparecimento de Quinn poderia significar que ela, finalmente, cansara de ser boazinha... Era errado desconfiar, contudo, Rachel sabia quanto era pago por confiar cegamente. Por isso, se entregara de corpo e alma e com os olhos abertos para aquela amizade.

Seus olhos estavam bem despertos e, talvez, fosse por todo esse tom analítico empregado àquela relação que ela sentia-se ainda pior. Alguma coisa passara por sua observação, algum detalhe deixara de ser estudado e dissecado... Algo deixou de ser percebido.

Rachel não viu o fim chegar ou, talvez, ela não o quisesse ver.

A morena apoiou-se à pilastra da plataforma e apertou o cartão de metrô em suas mãos... A pele tornou-se pálida pela força exercida e seus dedos adormeceram dolorosamente ao tocaram as extremidades plásticas daquele objeto. A dor física distraía seu coração da dor ainda mais intensa que vinha de dentro.

Em tão pouco tempo, Quinn Fabray se tornara algo inexplicável em sua vida. A conexão entre elas começara há vários anos, mas foi somente naquele último e derradeiro ano que ela finalmente revelara a sua natureza, além de admiração e inspiração, aproximando-se da amizade e de algo que Rachel ainda não descobrira... Como tudo relacionado a Quinn, Rachel tinha medo do que a descoberta fosse significar. Entre elas, o medo era uma válvula que alimentava seus esforços para fazer dar certo enquanto a incerteza, essa sim, mostrava quão frágil eram os alicerces de sua relação.

Rachel não podia negar o que Quinn significava para ela.

Quinn fora a sua inspiração por muito tempo, entretanto, naquele momento, ela era muito mais. Mesmo sendo tão observadora e mantendo-se tão preservada perto dela, Rachel podia enxergar o quanto Quinn torcia por ela. A loira era a sua força e sua ignição para começar a fluir para longe de Lima, Quinn nunca duvidara de seu talento e aquilo estava impresso em seus olhos verdes, sinceros e resolutos.

Por vezes, Quinn parecia mais crente da realização de seus sonhos do que dos próprios. A coragem com a qual a loira permitia-se acreditar inflamara Rachel, a morena passou a esforçar-se ainda mais, simplesmente, porque não parecia certo magoar Quinn com mais um fracasso.

Quando uma pessoa acredita tão cegamente na outra, não há dor maior do que decepcioná-la.

E Rachel não queria que Quinn, cuja vida fora tão cheia de decepções nos últimos anos, voltasse a sentir aquele gosto amargo que, infelizmente, tornara-se familiar a vida da loira. Quinn merecia mais e Rachel sentia que devia isso a ela, não por toda a mágoa que transbordava o passado das duas, e sim, por todo o futuro otimista e brilhante que se abria diante delas. Rachel queria ser a primeira a, lentamente, remover todas as defesas que circundavam o coração quebrado e remendado de Quinn.

A morena sabia que a falta de informações em relação a Yale estava enlouquecendo Quinn, todavia, preferia acreditar que esse não fosse o motivo para a ausência dela naqueles seus dois últimos dias em Lima. Na verdade, Rachel sabia que Quinn não era tão egoísta a ponto de deixá-la quando ela mais precisava...

Por isso, Rachel estava parada na plataforma esperando o último chamado do trem, solitária. Seus pais e seus amigos a colocaram no trem, mas ela desceu e teimou em esperar do lado de fora. Seus olhos castanhos percorriam a estação de um lado para a outra e, a cada vez que visualizavam os ponteiros do relógio se aproximando do horário de embarque, eram tomados por lágrimas que não queria derramar.

O último apito do trem sobressaltou Rachel, ela olhou uma última vez para o passe de metrô antes de abandoná-lo na plataforma, aos seus pés. Uma ou duas lágrimas caíram no exato momento em que o cartão atingiu o chão. Ela não olhou para trás quando entrou novamente no trem e fechou as cortinas da sua janela na cabine.

Talvez, se ela tivesse mantido-as abertas, tinha visto a figura que entrara correndo na plataforma e que tentara acompanhar o trem.

Talvez, com as cortinas abertas, Rachel tivesse visto Quinn desistir de acompanhá-la. Provavelmente, a morena teria visto Quinn olhar para o chão e apanhar o passe de metrô antes de voltar a chorar e jogá-lo no lixo.

Se Rachel tivesse, simplesmente, acredito fiel e intensamente no que Quinn tentara lhe provar durante todo aquele ano, ela veria que a loira se importava.

Aquela foi a primeira partida de Rachel sem despedidas e também, o marco de algo que seria tomado como verdade em sua vida: seus sonhos eram seu porto seguro e seus sentimentos, infelizmente, eram as águas violentas que quase viravam o seu barco.

Naquele dia, na ausência de Quinn, Rachel decidiu que jamais voltaria a se afogar em suas próprias lágrimas.

***

Quinn terminou de arrumar a sua mochila, ao lado dela, uma carta de Yale que, educadamente, desejava o seu sucesso na outra instituição que ela escolhera. O verdadeiro significado daquela carta remetia aos novos níveis, de crueldade e de vingança, adotados pelos seus pais.

Eles lhe tiraram Rachel e Yale, tudo de uma vez e ainda justificaram-se dizendo que ela pedira por aquilo. Não existiu misericórdia quando a punição lhe foi aplicada. E não existiria perdão da parte de Quinn. Ela decidira, depois de derramar muitas lágrimas e passar por dias de torpor imóvel, que poderia tentar de novo. Por isso, ela abandonou os pais e escolheu.

Como gritara, esbravejara e até mesmo se ferira por sua escolha... Ela escolheu Rachel, ou melhor, ela escolheu um futuro em que Rachel pudesse, talvez, perdoá-la.

Quinn saiu de casa e não olhou para trás.

***

Fevereiro de 2014 — Lima, Ohio.

Quinn levou um ano para entender que Yale não reconsiderava negações. Nem mesmo o melhor de seus ensaios redigidos pode remediar o que seus pais tinham feito. Yale não a aceitaria de volta, não importasse quão boa ou interessada pela vaga ela pudesse ser.

Por isso, ela não se surpreendeu com a carta que chegara à livraria, muito menos, com o conteúdo dentro dela.

A loira empilhou alguns novos livros adquiridos no balcão e deu uma olhada na carta antes de rasgá-la e jogá-la no cesto de lixo. Depois, abriu um sorriso triste e melancólico diante do que sentia. Mesmo com toda aquela negação e com toda a situação desfavorável em que se encontrara, ela ainda tinha esperança.

Fazia um ano que Rachel saíra de sua vida, mas ainda existia uma herança dela enraizada em suas estruturas. Quinn ainda esperava por um futuro melhor, ela ainda tinha esperanças de que, um dia, as duas voltariam a se falar e toda a mágoa seria diluída em bons momentos. Assim como tinha esperanças de ser bem sucedida no que a vida escolhera por ela (afinal, ser professora não podia ser algo tão ruim), ela ainda esperava pelo dia em que poderia olhar nos olhos de Rachel e pedir desculpas.

Não somente por não se despedir, mas sim, por tudo que fizera.

Depois que abandonara a Mansão Fabray, finalmente, fizera as pazes com seus demônios. Sua vida podia estar vazia de suas melhores companhias, mas ainda tinha pelo que viver e pelo que se esforçar. E uma das suas principais metas era ter o perdão de Rachel Berry. Quinn não queria ser a responsável por tirar a esperança e a doçura da vida daquela morena sonhadora.

Lembrar-se dela dava saudade, assim como fazia Quinn sorrir para as pequenas lembranças que ainda guardava no fundo de seu peito. Uma amizade daquela intensidade não podia se acabar no primeiro erro, Quinn sabia que elas ainda tinham um longo caminho pela frente.

Por isso, Quinn foi até o telefone da livraria e discou o número de Rachel, decorado e inesquecível em sua mente. Como sempre, o telefone chamou várias vezes até cair na secretária eletrônica:

Olá, meu nome é Rachel Berry. Provavelmente, eu estou ocupada e não posso lhe atender... Ou, talvez, eu esteja lhe ignorando. Mas, deixe uma mensagem! Talvez, eu retorne.

Quinn riu, era uma mensagem diferente e que, provavelmente, fora gravada especialmente para ela. Porém, a loira não ia desanimar diante de mais uma ligação não atendida e de uma indireta via gravação. Quinn pigarreou e sussurrou:

— Eu sei que você está me ignorando, Rach... Eu só quero saber como está e, bem... Pela milésima vez, me desculpe.

A sineta da livraria tocou e Quinn bateu o telefone no gancho, virando-se assustada para quem entrara. O senhor, dono do local, sorriu para seu sobressalto. Charlie piscou os olhos azuis para ela e comentou divertido:

— Gostaria de saber quem é esse indivíduo que lhe tira dos eixos, menina Fabray.

— Um dia, eu serei capaz de lhe contar, Sr. Thomas... — Quinn respondeu risonha, com o coração batendo acelerado enquanto o velho senhor fazia uma careta para a sua resposta. — Desculpe, eu quis dizer “Charlie”.

— Melhor assim, pequena... E seja lá quem for essa pessoa, espero que ela lhe dê a mesma atenção, um dia. — Charlie respondeu com um tom carinhoso, afagando os cabelos loiros da jovem antes de apanhar a pilha de livros em cima do balcão e rumar para os fundos da livraria.

Quinn, então, olhou para a vitrine da livraria... Seus olhos reconheceram a palavra “Dreams” do letreiro e ela suspirou sonhadora.

Seus sonhos haviam se perdido no passado e, ainda assim, ela vivia deles... Mas, de sonhos diferentes. Sonhos de um futuro melhor, sonhos de ter Rachel Berry de volta a sua vida, sonhos de ser totalmente perdoada.

Quinn sorriu novamente, seu coração estava apertado dentro de seu peito e, mais uma vez, ela lembrou-se de Rachel. Sonhar era inerente a personalidade de Rachel Berry, assim como as suas metáforas em forma de estrelas... E Quinn torcia para que, quando fosse a hora, outro aspecto ainda permencesse na personalidade de Rachel.

Quinn realmente torcia para que ainda ela fosse bondosa o bastante e pudesse perdoar.

***

Maio de 2014 — New York City, New York.

Rachel não conseguia acreditar no que acabara de fazer e nem nas conseqüências de sua atitude. Passara a noite fora de casa, com uma mulher e não era isso que a incomodava, seria muito irônico que ela se importasse com esse aspecto de sua sexualidade diante dos pais que tivera.

O que a assustava era o que essa nova descoberta trouxe consigo.

Desde quando estava apaixonada e não percebera?

Fazia quanto tempo desde que se perdera completamente por olhos verdes, cabelos loiros e voz anasalada? Tudo nela era inesquecível, não importava quanto tempo passasse e, agora, Rachel entendia.

Ela, Rachel Berry, desde sempre, fora perdidamente apaixonada por sua melhor amiga e maior mágoa.

Se antes, Quinn Fabray estava presente mais do que ela gostaria em sua vida, agora... Era completamente impossível que ela fosse deixada de lado. Quinn deixara de tomar um pedacinho quebrado de seu coração e apossara-se de todos os pedaços ao quebrá-lo. Quinn deixara de ser mágoa e passara a ser sua maior dúvida.

O que teria acontecido se elas tivessem retomado o contato? Será que sua vida em New York estaria melhor?

Rachel não sabia e nem tinha ideia do que poderia ter acontecido a partir de uma reaproximação. A única coisa que ela sabia é que, se antes doía pensar em Quinn, agora, queimava. Ardia em brasa saber que a pessoa que ela mais amara e pela qual ela ainda era perdidamente apaixonada a magoada da forma como acontecera.

Uma despedida sem adeus, um futuro sem segunda chance. As mágoas de um passado que as assombrava e pairava como sombra na fina linha que ainda as conectava. Rachel não conseguia enxergar futuro algum, por mais que seu coração teimoso quisesse saber se ainda havia uma chance.

Rachel preferia empurrar Quinn para debaixo de todas as suas frustrações e decepções em New York, deixaria que a loira se contaminasse por toda a feiúra e escuridão que encontrara na cidade dos seus sonhos e, quem sabe, um dia, pudesse odiá-la o tanto que odiava quem era agora.

Porém, no meio de toda aquela fúria e desespero, Rachel ainda procurava Quinn em outras pessoas e era isso que justificava a presença daquela morena ao seu lado enquanto caminhavam de volta para seu apartamento. Ela tinha exatamente os mesmos filmes preferidos de Quinn. Rachel se apaixonara pelo gosto cinematográfico daquela desconhecida porque ela era um pedaço de Quinn, da sua esperança, naquela cidade.

Chegaram ao apartamento e Rachel parou em frente à portaria, indecisa entre chamá-la ou não para entrar. A morena, da qual ela sequer se lembrava o nome, tomou a decisão por ela e a beijou.

Rachel, então, jogou tudo para o alto. Esqueceu-se das ligações, dos emails, das cartas e de tudo relacionado a Quinn. Entregou-se aos braços desconhecidos esperando encontrar um pouco de familiaridade...

Porém, se Rachel tivesse procurado um pouco mais... Ela tinha encontrado os olhos verdes dos quais sentia falta observando-a do outro lado da rua, assim como ela se lembraria de tudo que se esforçava para esquecer.

Talvez, se Rachel tivesse nutrido esperanças e ainda soubesse perdoar, ela tinha visto que Quinn, finalmente, viera atrás dela.

Talvez, se o destino ainda fosse justo com as duas, elas ainda teriam mais uma chance.

De esperanças quebradas e lágrimas, Quinn se nutriu e voltou a Lima.

De decepções e sonhos destruídos, Rachel permaneceu em New York.

Naquele dia, Quinn desistiu e Rachel se metamorfoseou. Quinn tomou o fardo de fracasso e Rachel deixou-se preencher de pessimismo As duas tinham tudo que podiam carregar, mas o essencial e o que as trouxera até ali, se fora.

Naquele dia, elas mudaram, para sempre.

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Notas finais
E aí? O que acharam? Sei que foi uma quebra no ritmo da fanfic... Mas, eu senti que realmente precisava de um capítulo como esse para estabelecer e responder certos questionamentos de vocês. Antes de nos despedirmos, tenho uma one Faberry nova, chamada "Think Of You", leiam! O Projeto 25 está a pleno vapor, aguardem novas ones e para aqueles que leem meus outros projetos de outros shippers, talvez eu demore mais um pouco para terminar SF, mas, logo eu posto! No mais, sigam-me no Twitter: @RedfieldFer Até mais, beijos! FerRedfield.