Sigilo
33 Capítulo 32 - Levy
Notas iniciais

Sigilo
Capítulo 32
Levy
— Wendy, pare – segurei seu pulso, detendo sua Magia.
Wendy abriu a boca para protestar, mas diante meu olhar acabou concordando. Ela limitou-se a me ajudar a vestir a roupa que Laxus e Mirajane tinham comprado para todos nós no vilarejo que estamos instalados no momento.
Já fazia dois dias que saímos de Crocus a todo vapor. Paramos ocasionalmente para comer o que Mirajane havia roubado das cozinhas e para dormir, porém um descanso mesmo só estamos fazendo agora. Era aliviador tomar um banho descente e tirar aqueles trapos que Erza nos obrigou a vestir enquanto prisoneiros.
De todos da nossa pequena comitiva, Wendy e eu éramos as em pior situação física. Entretanto, a pequena se recuperava num ritmo absurdo devido a natureza de sua Magia, já no primeiro dia de viagem seus ferimentos estavam sarados e sua Magia vinha retornando aos poucos. Por isso ela teimara em me curar hoje ao pararmos nesta hospedaria. Porém eu sabia que ela estava se cansando muito rápido, pois parte da sua cura ia para ela própria, reparando os estragos internos que os guardas de Erza fizeram-lhe.
Olhei para o pequeno espelho pendurado na porta que dava para o banheiro do quarto que estávamos, enxergando minha aparência. Ainda haviam pontos roxos e amarelados espalhados por meu rosto, mas já conseguia me mexer sem causar muita dor. Wendy havia sido específica em curar os machucados nos braços e pernas para que não me incomodassem na viagem que ainda teríamos que fazer.
— Aqui, coma – a curandeira passou-me um prato com o que deveria ser uma sopa.
— Nunca achei que diria isso, mas prefiro as da Poluchka – resmunguei, sem coragem de comer.
Wendy deu um sorriso triste a menção da velha mulher.
— O que houve, Wendy? — pedi, puxando-a gentilmente para sentar-se ao meu lado na cama, colocando o prato na mesinha ao lado.
A pequena Maga deixou-se ser conduzida e continuou segurando minha mão depois de sentada.
— Erza mantém Poluchka presa em seu laboratório, obrigando ela a achar a cura – sua mão apertou um pouco a minha – fui enviada para ajudá-la umas duas vezes, mas como não sei de muita coisa sobre a cura e não pude ajudá-la muito, fui castigada. Assim como Poluchka-sama.
Soltei sua mão e a abracei pelos ombros, dando-lhe um pouco de conforto. Wendy havia se apegado a velha, considerando-a como uma avó. Poluchka podia não falar, mas sabíamos que gostava da pequena em igual tamanho.
— Ela vai ficar bem, Wendy. Vamos fazer de tudo para ajudar a todos que ficaram no Castelo – sussurrei-lhe, então beijei seus cabelos.
Permanecemos quietas por um bom tempo, esperando os demais chegarem. Gray, Juvia e Laxus foram procurar por boatos na vila, em caso de alguma notícia do que ocorria em Crocus tivesse chegado até onde estávamos. Gajeel e Mirajane foram buscar comida para os próximos dias e mais cavalos. Gajeel não podia sair muito a vista, pois seu rosto era conhecido e rumores poderiam chegar até Erza, facilitando sua busca.
— Levy?
Wendy chamou-me, interrompendo meus pensamentos.
— Sim? — respondi, soltando-a para vê-la melhor.
— Pelo pouco que ouvi de Erza enquanto ajudava Poluchka, percebi que ela parecia levemente obcecada com a cura, e seu nome foi mencionado algumas vezes. Tem ideia do porquê?
Ela olhava para mim, curiosa. Devia procurar a ligação entre mim e o assunto.
— Na verdade, tenho – respondi, sincera.
Já pretendia contar a Wendy sobre a cura a algum tempo, apenas não tive oportunidade com o casamento acontecendo e depois com o ataque de Erza. Precisava da ajuda de Wendy sobre minha particularidade, por isso tinha pedido a Gajeel que levássemos a pequena junto enquanto fugíamos.
Respirei fundo e olhei para a Maga com calma, e então contei tudo. Sobre o livro que tinha achado na biblioteca deles, sobre o destravamento de minha Magia, sobre as visões que tinha, sobre como descobri ser a cura através da conversa com o pedaço da alma de meu pai e sobre a conversa que tive com Erza. A única coisa que deixei de fora foi a cura em Lucy, pois esse segredo não era meu para que lhe falasse, sendo assim apenas comentei que havia curado uma pessoa.
Wendy ouviu tudo sem comentar nada, prestou atenção aos mínimos detalhes e jamais esboçou nenhuma reação negativa diante minhas palavras. Somente quando terminei é que reagiu.
— Isso foi… uau.
Ergui uma sobrancelha diante sua fala.
— Devo levar isso como algo bom ou ruim?
Wendy sorriu.
— Bom. Maravilhosamente bom, Levy. Finalmente descobrimos sobre a doença e o modo de curá-la!
Ela estava renovada, animada.
— Mas, temos que ir com calma. Pois, fiquei praticamente sem forçar só de curar uma pessoa. E é por isso que lhe contei sobre a cura, imagino que com duas cabeças pensando sobre o assunto podemos chegar em alguma solução para esse impasse. Quero ajudar a todos que posso alcançar, mas não quero morrer no processo.
— Claro, desculpe-me. Acabei de empolgando – Wendy ruborizou-se – além do mais temos que ter cuidado ao falar sobre o assunto para que não chegue aos ouvidos de Erza, afinal ela só tem uma suspeita que você saiba sobre a cura e não que você seja ela.
Depois de me forçar comer aquela sopa de aparência suspeita, Wendy começou a me pedir várias coisas. Detalhes que poderia ter deixado de notar, algo que pudesse nos dar uma dica de como replicar essa cura. Ocupamos o restante do tempo em espera especulando sobre a cura, Wendy repassando tudo que havia aprendido enquanto curandeira, procurando um modo eficaz.
Senti uma esperança brotando em meu peito. Poderíamos ver uma luz nessa escuridão que era a doença.
(…)
Os cinco que estavam fora chegaram praticamente ao mesmo tempo, cada qual com suas novidades. Decidimos nos reunir no quarto que eu e Wendy estávamos, pois dos dois pegos na hospedaria – um para os rapazes e outro para as meninas – este era o maior.
— E então? Acharam alguma novidade? — Gajeel perguntou, sentando-se ao meu lado.
Percebia que ele estava aflito para ter notícias do irmão.
— Não encontramos nenhum boato sobre Erza no controle. Pelo que notamos, Erza preferiu ser discreta sobre a tomada do Castelo – Gray comentou, sentando-se na cadeira perto da janela. Juvia escorou-se na parede próxima a ele.
— Erza me parece alguém que gosta de mostrar o poder que tem – Wendy falou, franzindo o cenho.
Olhei para meu irmão, pedindo mudamente se havia encontrado algo. Laxus deu de ombros, mostrando que fora aquilo que encontraram. Respirei fundo e comecei a encaixar as peças que tínhamos. Erza tomou o controle do Castelo. Mantinha Rogue sob custódia. Procurava exaustivamente por uma cura. Não anunciou seu controle para a população. Tentei encaixar também o que tinha visto nas visões.
— Podemos deduzir que Erza quer que a população ache que Rogue ainda está no comando – comecei, devagar – e ninguém suspeita que uma guerra pode acontecer.
Devagar comecei a entender parte do que a Maga estava planejando. Deuses, essa mulher era esperta e perigosa. Pior do que ser boa em lutas, é ser boa em estratégias.
— Eu conheço essa cara. Você suspeita de algo, Levy – Laxus anunciou, olhando-me sério.
Todos me olhavam concentrados agora. Precisava alerta-lhes sobre o que tinha notado.
— Fiore está num momento delicado agora, pois houve várias baixas da população por ataques misteriosos e então descobriu-se sobre um grupo rebelde de Magos que vinha ganhando força as escondidas. Rogue anunciou que seu irmão é Mago e que estão revendo sobre a Lei de proibição. – iniciei calmamente, notando que todos estavam acompanhando minha fala. Respirei fundo e continuei – Agora, imaginem que “Rogue” desista da ideia de reescrever a lei, pois seu irmão, o Príncipe, tentou um ataque a ele para tomar a coroa junto da Rainha, a antiga Princesa de Ghaléia. Outra traição ao Rei. Então o Rei fica enfurecido e ordena um ataque a todos os Magos, furioso pela traição que sofrera. No meio de toda essa guerra surge Erza com seu exército de Magos, que até então não tinham feito nada contra a população, e detém Rei, o Príncipe e a Rainha. Ela garantiria a coroa com o apoio do povo.
Um silêncio pesado surgiu após minha fala. Todos tinham um semblante de choque, surpreendidos com a relação dos fatos.
— Se ela se revelasse agora não teria apoio do povo, pois eles a veriam como uma usurpadora – Gray estimulou, seguindo a mesma linha de raciocínio.
— Por que eu atacaria Rogue? — Gajeel pediu, ofendido – e por que Lucy se aliaria a mim?
— Somente você causaria um impacto profundo com traição. O povo lhe adora. Se você traísse Rogue, somado com uma traição de Lucy as chances de eles lhe apoiarem ou apoiarem Lucy para a coroa caem, deixando apenas Erza como opção. E com essa mentira toda, caso Lucy solicite ajuda aos Lordes de Fiore contra Erza, eles vão lhe negar homens por conta da traição dizendo que é um plano para tomar a coroa novamente – expliquei.
Ele apertou os punhos. Coloquei minha mão sobre seus punhos, dando-lhe meu apoio.
— E com isso ela pode procurar pela cura tranquilamente – Wendy falou, com a mão em seu queixo.
— Era o que ela dizia que faria, pelo menos – Mirajane se pronunciou pela primeira vez.
— Como assim? — Gray pediu.
— Erza usava a doença em seu discurso para convencer as pessoas a seguirem ela e Jellal. E continuou usando após a morte dele. Ela sabia como seduzir Magos para a causa. Com doença assombrando a todos, a promessa da cura através dela era uma ótima isca – ela deu um suspiro indignado antes de voltar a falar – E quem garante que ela seguirá com as palavras assim que tiver a coroa na cabeça? Afinal, Jellal já morreu.
Mirajane tinha um semblante triste ao falar da doença, havia sofrimento em seus olhos. Podia-se perceber que perdera alguém importante durante o tempo que permaneceu junto de Erza.
— Juvia acreditou na promessa dela sobre a cura. Por isso Juvia entrou para o grupo – a azulada complementou o que a albina dizia.
Eu mesma tinha visto como Erza sabia usar as palavras quando contara-me sobre seu passado e de Lucy. Provavelmente usou esse dom natural para fisgar rebeldes. Conseguia ver agora, por conta de Juvia e Mirajane, que as pessoas que esses Rebeldes Vermelhos eram apenas Magos desesperados pela cura da doença, seja para seus familiares ou a si próprio.
Juvia e Mirajane pareciam crentes de que aquilo era puramente desculpa da ruiva, que era apenas uma isca para seguidores. Porém eu vira o desejo de saber sobre a cura enquanto ela me batia. Erza desejava sim saber sobre isso. Entretanto, manteria essa informação comigo, não daria margens para que Juvia e Mirajane voltassem a acreditar na ruiva.
— O que precisamos fazer agora é encontrar Lucy e esperamos que tenha ao seu lado os homens que receberia de Ghaléia. Assim, podemos enfrentar aquela mulher antes que esse plano seja posto em prática – Gajeel anunciou, energia preenchendo cada poro seu.
Se já não está em prática. Pensei, silenciosamente, lembrando das recusas que Lucy sofrera de três Lordes anteriormente.
Apenas ele e eu sabíamos que Lucy possuía um exército. Bem, agora Wendy também. Afinal, minhas visões não eram de conhecimento geral, e não poderíamos explicar a todos como sabíamos do exército sem falar sobre meu dom extra.
Com o objetivo fixado e com os planos de Erza praticamente deduzidos, concordamos que o melhor a se fazer no momento era descansar para iniciar a viagem até Lucy.
— Nos vemos amanhã – Gajeel se despediu, beijando-me de leve antes de sair.
(…)
Wendy e Juvia foram tomar banho, deixando-me a sós com Mirajane. Era estranho estar perto dela, pois mal a conhecia e havia a questão de meu irmão entre nós. No fim, decidi saber mais sobre ela, pois não gostaria que Laxus se apaixonasse por ela e depois seu coração viesse a ser quebrado.
— Então… como foi que Laxus e você se conheceram? — pedi, quebrando o silêncio.
Mirajane que estava deitada na cama perto da janela, virou-se para mim surpresa.
— Nos conhecemos logo que ele entrou para o grupo de Erza. Ele havia sido designado para treinar comigo. Acabamos ficando amigos, pois eramos um dos poucos normais ali no meio dos rebeldes. Quase todos são Magos, foi aliviador poder conversar com outra pessoa como eu.
Agora foi minha vez de ficar surpresa.
— Achei que fosse Maga também – comentei.
— Muitos pensam que eu sou a Maga e Lissana era normal.
Não sabia quem era Lissana, mas havia um modo especial como falara do nome dela.
— Então nenhuma de vocês eram Magas? — pedi.
— Minha irmã era – Mirajane assumiu um ar mais triste – e foi por causa dela que entrei para os rebeldes. Lissana era especial, meiga, doce, e infelizmente sofria com a doença. – sua voz ficou leve, como se estivesse revivendo memórias – Foi então que Erza apareceu em nosso vilarejo e fiquei encantada com suas promessas, imaginando que Lis poderia ser livre daquele carma. Corri para Lis e Elfman, meu outro irmão, e lhes contei sobre Erza. Elfman não quis vir junto, pois tinha de cuidar da nossa propriedade, então eu e minha irmã entramos para os rebeldes.
Percebi o quanto ela queria conversar com alguém sobre sua vida. Havia um pouco de solidão nela, como se não tivesse amigos além de Laxus. E pelo modo como falava da irmã, já imaginava o que tinha ocorrido.
— Nisso você e Laxus são parecidos, então – falei, indicando o fato de que sua irmã era Maga assim como eu, e ela e meu irmão não são.
— Um pouco eu diria – ela concordou, sorrindo.
— E o que aconteceu com vocês? — perguntei, mesmo sentindo que estava invadindo um pouco.
Mirajane ergueu a vista para o teto, contendo as lágrimas. Meu coração quase parou ao ver aquilo.
— Lis morreu algum tempo depois. Quando seu irmão entrou para os rebeldes eu estava pronta para abandonar Erza e voltar para Elfman. Foi Laxus quem me ajudou a superar a dor da perda. Ele aparecer em minha vida foi algo tão maravilhoso, que resolvi continuar ao lado dele nos rebeldes, desta vez ajudando-o a encontrar a irmã dele – ela completou, olhando-me com emoção – e vê-lo feliz por ter finalmente de encontrado me deixa feliz. Prometi a mim mesma que farei de tudo para que Laxus não venha a sofrer o que sofri.
Não aguentando mais, levantei de minha cama e a abracei. Mirajane retribuiu o abraço com força, ávida por aquela demonstração de carinho. Estava feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por meu irmão ter encontrado uma boa pessoa para estar ao seu lado, e triste pela perda que Mirajane sofreu. Como irmã também, eu sentia sua dor.
— Desculpe-me por isso – ela falou depois de um tempo, sentando-se e limpando as lágrimas.
— Tudo bem, Mirajane – respondi, dando batidinhas em sua perna.
A albina sorriu para mim e estendeu a mão.
— Pode me chamar de Mira.
Apertei sua mão, sentindo que havia ganhado uma nova amiga.
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